Sangue Rebelde
1 Rebeldia Incontrolável
Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura :)
A floresta estava extremamente calma e ao mesmo tempo sinistra naquele dia. O sol estava em seu ponto mais alto, indicando que era meio dia, mas as nuvens o tapavam e só alguns raios conseguiam atravessar para a Terra. O vento soprava levemente e as árvores balançavam, deixando que suas folhas amareladas caíssem. O lago que ficava próximo a floresta estava belo como sempre. A água límpida refletia a luz brilhante do sol que vinha por algumas brechas nas nuvens, algumas flores que ficavam a borda do rio pareciam ainda mais coloridas, mesmo que fosse de cor escura. A floresta estava incrivelmente pacata.
De uma parte mais sinistra da floresta, a parte morta da floresta, um vulto negro se movimentava com destreza pelas árvores. Passava sem dificuldade entre os galhos e não deixava rastros de sua presença por ali. O vulto chegou ao lago e a luz intensa do sol da tarde pode revelar a identidade da sombra. Era Donna, a garota problema dos Van Gould. Ela tinha cabelos negros ondulados, olhos vermelhos e intensos, e usava uma exuberante capa preta que tinha um brilho incrivelmente intenso.
Donna tirou afastou a capa, deixando o simples vestido azul e vermelho, e ficou admirando o lago. Seus pais sempre a obrigavam a estudar e aprender etiqueta, porque ela estava destinada a governar toda Wonder Hill no futuro, por mais que ela não quisesse. Donna fazia tudo o que seus pais e o resto da família detestavam. Saía escondida, provocava os lobisomens e invadia o território dos mesmos, e já tinha praticamente quebrado todas as regras.
Exceto uma.
Vampiros nunca se envolvem com humanos.
Mas isso não era problema para ela, já que ela morava na parte norte de Wonder Hill e os humanos ficavam na parte central. Ela nunca se envolvia com humanos.
- Donna! – Uma voz a chamou e Donna se virou no mesmo instante para ver quem era. Era Emma, sua irmã, que estava se aproximando de Donna e parecia irritada. – Mas o que é que está fazendo aqui?
- Dando uma fugida. – Respondeu, cruzando os braços. — Não estou a fim de ficar aprendendo tolices.
- Donna! – Emma sacudiu a irmã pelos ombros. — Você tem que parar de ser rebelde assim!
- Eu só quero ser livre para fazer o que eu quero! Será que é demais pedir isso? Eu não quero governar Wonder Hill e nem me casar com um homem rico qualquer. Não quero ficar aprendendo tolices que sei que nunca irei precisar. Eu só quero me divertir e ser livre!
- Donna – Emma disse quando ficou mais calma. – Você não pode ser assim para sempre. Um dia você irá governar Wonder Hill! – Se alterou novamente, fazendo gestos com as mãos e trincando os dentes. – Você é a mais velha! Este é o seu destino!
- Octavio é o mais velho, ele irá governar e ponto. E nossos patriarcas são vampiros. Eles vivem para sempre, então não me preocupo com governar Wonder Hill. Sei que nunca irá acontecer. – Donna fez uma pausa. Estava calma, como nas outras milhões de vezes em que ela e Emma discutiram. – Eu traço meu destino. E no meu destino não está incluído agir como uma tonta com uma coroa na cabeça e uma roupa fofa.
- E esse dia irá chegar. Então pare de quebrar regras, pare de fugir, pare de provocar os lobisomens, pare de ser... Você!
Donna emburrou e foi andando em direção Emma, até ficar a um braço de distancia da irmã.
- Nunca.
Então se cobriu novamente com a capa e saiu dali. Porque Emma sempre tinha que lhe perturbar? Ela só queria ser livre para fazer o que quisesse e ponto. Sem discussões. Mas sua família não entendia o que ela queria. Achavam que só por ela ser uma Van Gould tinha que se comportar como uma princesa. Ela não era uma princesa. Isso era para Emma, não para ela.
Revoltada, começou a correr pela floresta. Ela sempre fazia isso quando estava com raiva. Ia para o território dos lobisomens. Era perigoso, isso é verdade, mas ela tinha vários amigos lobisomens que a acobertavam quando ela ia para lá. Donna corria pela floresta como uma sombra. Era rápida e passava entre os galhos com destreza. Ela corria tanto que quase podia voar.
Em pouco tempo, já estava na fronteira que dividia os territórios. Essa coisa de território foi criada há muito tempo, quando esses povos começaram a guerrear e provocar, insultar e ofender um ao outro. Então o patriarca dos Van Gould, o patriarca dos Wolff e o patriarca dos Harris, a família de humanos mais poderosos na época. Então assim foi feito e ninguém reclama. Mas Donna tinha amigos lobisomens, e uma divisa estúpida não ia a separar deles.
Mas ela tinha medo de ser pega.
Território dos Vampiros ao norte. Humanos no centro, leste e oeste. Lobisomens ao sul. Para chegar aos seus amigos lobisomens, tinha que atravessar uma parte da floresta que cobria o território humano. Essa era a única coisa que Donna temia. Ninguém nunca a viu atravessar o limite, mas para tudo se tem uma primeira vez, e isso a deixava com um pouco de receio, mas mesmo assim ela ia.
Então entrou no território proibido.
Com o receio de ser pega, ou algum humano vê-la, correu bastante para chegar até o território dos lobisomens. Ela se movimentava com destreza por entre os galhos tortos enroscados em flores que nasciam das árvores vivas da floresta. Praticamente não tinha como vê-la, já que a capa a cobria totalmente e, por ser de cor escura, se camuflava na escuridão da floresta. Não demorou muito para que ela avistasse o território dos lobisomens.
Dava para distinguir os territórios com facilidade. O dos vampiros era o mais sombrio de todos, com suas árvores mortas e tortas exalando um cheiro de morte inconfundível. O dos humanos era o mais bonito, com suas árvores de folhas verdes em um tom vivo e suas flores coloridas, que esbanjavam felicidade. O dos lobisomens era quase tão sombrio quanto o dos vampiros, porém havia árvores vivas. Mas o que, além das árvores vivas, distinguia o território dos lobisomens ao dos vampiros eram as pegadas enormes feitas por lobos no território dos mesmos.
Donna parou um pouco para respirar e então avançou no território de seus amigos.
E entrou em território proibido novamente.
Dessa vez ela não correu como fez nos dois outros territórios. Ela apenas andou normalmente a procura de seus três grandes amigos: Kevin, Matthew e Thomas. Os quatro eram praticamente melhores amigos. Donna contava tudo a eles e eles contavam tudo a ela. Ela os conheceu quando se rebelou pela primeira vez, aos onze anos, em uma prova de vestido para o casamento de um amigo de seu pai. Havia ficado indignada por ser obrigada a usar um vestido longo e armado, então fugiu para a floresta. Correu tanto que chegou ao território dos lobisomens e nem se deu conta. Então conheceu Kevin, Matthew e Thomas, que a acolheram e logo se tornaram amigos. E agora, cinco anos depois, eles ainda eram os mesmos. E provavelmente seriam amigos para sempre, literalmente, já que lobisomens eram praticamente imortais, assim como os vampiros.
O dia estava tão nublado que ela nem percebeu que já era tarde e ela precisava voltar para casa. Hoje seus pais iriam organizar um grande banquete e toda a elite da parte vampiresca de Wonder Hill iria comparecer. E ela tinha que comparecer. Do contrário, seus pais a deixariam de castigo por um mês, e isso incluía ficar trancada em seu quarto por trinta dias sem ter contato com sua família e nem com seus amigos. E ela odiava ficar sem ver os amigos. Eles eram as únicas pessoas no mundo que a entendiam e a faziam se sentir a vontade. Bufou e deu meia volta, pisando duro e com raiva transbordando em si.
Com medo de ser vista, correu bastante para chegar a seu território e poder andar em paz. Novamente, ela parecia um vulto trevoso em meio às árvores escuras da floresta. Movimentava-se sem nem fazer barulho, apenas as folhas das árvores se balançavam quando ela passava. Quando se deu conta, já estava seu território, então diminuiu o ritmo, passando a caminhar mais calmamente. A noite já havia caído e as nuvens se dissiparam pelo céu afora, exibindo as lindas e brilhantes estrelas. Donna sorriu fraco ao contemplar tal beleza natural na qual nunca havia reparado.
Em pouco tempo, chegou ao “centro”, e de lá pode ver sua casa. O castelo era enorme e todo de pedra, com várias torres, e ficava na parte mais alta de Wonder Hill, conhecida como Monte da Melancolia. Os outros castelos dos outros dois territórios também ficavam em partes altas, sendo possível serem vistos pela varanda do quarto de Donna, mas nenhum era tão gigantesco e exuberante quanto o dos Van Gould. Outros castelos, dos familiares de Donna, se localizavam na parte nobre da cidade.
Donna caminhou mais um pouco e chegou até o castelo. Ele parecia ainda mais gigantesco de perto. Para entrar no terreno do castelo, era preciso passar por uma enorme muralha de pedra vigiada vinte e quatro horas pelos guardas, uma verdadeira prisão. O problema é que ela havia fugido. Quando sua mãe começou a tagarelar e falar coisas como que ela tinha que aprender coisas para quando fosse se casar, ela levantou a barra do vestido comprido que estava usando, pegou sua capa e saiu por ai.
E agora não seria tão fácil voltar.
Mas então se lembrou de quando ela levou os amigos até o castelo há dois anos. Seus pais e outros familiares estavam em um baile no castelo dos White, a segunda família de vampiros mais poderosa de Wonder Hill, e ela havia fugido da festa e teve a insana idéia de levar seus amigos até sua casa. Eles entraram por uma porta escondida que ficava em uma das torres. Pensando nisso, Donna se virou para correr até a torre, mas foi impedida por uma voz que soou desagradável.
- Donna Van Gould! – Charlotte chamou. Donna suspirou longamente e virou-se lentamente, não ficando surpresa quando viu sua mãe a olhando de cara feia. Imaginou o porquê de sua mãe estar na parte mais lamacenta do castelo. Os fios castanhos se soltavam para fora do coque extremamente arrumado e o vestido estava com a barra levantada, evitando sujar. – Mas onde é que você estava?
Donna mordeu a bochecha e olhou para o chão, tentando pensar em algo convincente. Depois direcionou o olhar para a mulher furiosa a sua frente.
- Eu saí. — Disse Donna cruzando os braços.
- Ah, você saiu? – Disse a mulher sarcasticamente e deu uma risada seca e sem humor. — Com a autorização de quem? Você não pode simplesmente “sair” por ai, se ausentar a tarde toda e dar uma explicação dessas! Vá para o seu quarto, agora! E não saia de lá até que eu mande, está de castigo, garota.
- E o jantar?
- Margareth irá levar seu jantar até seu quarto. Hoje você não irá comparecer a festa.
Relutante, Donna seguiu sua mãe pelo enorme castelo. As paredes com papel de parede marfim pareciam ainda mais escuras naquela noite. O vestíbulo era de mármore dourado, havia magníficos quadros abstratos nas paredes, um sofá com estofamento em cor de sangue e duas escadas cobertas pelo tapete de veludo vermelho. Donna e sua mãe subiram pela escada da direita. A longa e suntuosa capa da garota se arrastava pelos degraus de mármore, se parecendo com um véu de noiva.
O quarto de Donna não ficava no mesmo andar dos quartos dos seus outros familiares – Emma, Octavio, sua tia, Avery, sua prima, Zoe, e seu avô -, e sim na torre mais afastada do resto do castelo, que também era a mais alta de todas e fornecia uma incrível vista de toda Wonder Hill.
Quando chegaram à escadaria que levava ao quarto de Donna, sua mãe se negou a subir as escadas e a filha subiu sozinha até seus aposentos. Charlotte achava aquela parte do castelo repugnante, por ser mais escura e úmida, então nunca ia lá. Donna não ligava para isso, ela só sabia que amava aquela torre e ponto. Depois da casa dos amigos, aquele era o seu lugar preferido.
Quando adentrou o quarto, jogou sua capa no chão e foi para a varanda. Seu quarto era enorme. Havia uma cama de madeira escura totalmente arrumada com colchas de cores escuras em uma parede pintada de vermelho, uma linda penteadeira com diversos itens de beleza e um lindo espelho, um enorme espelho com o suporte em ouro, um lustre exuberante no teto, janelas grandes — porém cobertas pelas cortinas negras – um guarda-roupa grande de madeira escura, no mesmo tom da cama, e uma porta que dava para a varanda.
Empurrou as duas partes da porta e caminhou até o fim da varanda, respirando fundo e deixando o ar frio da noite invadir seus pulmões. Os dedos finos, compridos e gélidos passaram pelo muro de pedra que havia ali, sentindo cada detalhe do castelo. Frio e áspero. Com uma das mãos, soltou o coque malfeito em que se encontravam seus cabelos, deixando que seus cachos negros e longos, que batiam pouco abaixo da cintura, ficassem soltos e balançassem com a brisa refrescante. Fechou os olhos e se permitiu sonhar acordada. Sonhou com um mundo onde ela fosse livre para ser amiga de quem quisesse e fazer o que bem entendesse. Sonhou em se sentir viva ao menos uma vez na vida.
Pena que sonhos eram apenas sonhos.
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