Sangue Rebelde
16 Fugindo
Notas iniciais
Os cílios de Donna bateram um contra os outros quando ela despertou. Sua visão estava turva. Apoiou-se no cotovelo, e só então sentiu a pedra embaixo de si. Esfregou os olhos, e as lembranças foram aparecendo em sua mente.
Eles haviam sido pegos.
Observou o local onde estava. Uma cela escura, de pedra, sem iluminação. A única abertura para lá fora estava tapada com tábuas, impedindo que a luz do sol penetrasse. Apalpou o cinto, mas não estava mais lá. Deitou novamente na pedra fria, sentindo falta do aperto de Evan em volta de si. Tocou os lábios. A lembrança do beijo veio à mente. Desejou que ele estivesse bem e a salvo. Levantou-se, procurando qualquer coisa que a ajudasse a sair daí. Havia uma cama de madeira no canto, acabada, e uma cadeira de ferro. Foi até a cadeira para tentar arrancar seu pé e sair dali, mas sua pele queimou ao toque. Deu um gritinho. Era banhado em verbena.
Ouviu um ruído vindo da cela em frente. Seu nome.
– Evan? – Ela grudou-se as pequenas barras de ferro da porta. – Você está bem?
Ele também estava junto à porta.
– Eu vou melhorar – disse ele, fraco. – Fui esfaqueado, mas estou melhor agora.
Ela ficou histérica. Evan fez um sinal para que falasse baixo.
– Escute, vai ficar tudo bem. – disse. – Você está bem, e isso é o que importa.
– Evan, o que vão fazer comigo? – Estava mais sozinha do que nunca.
Ele suspirou. Procurou palavras para dizer.
– Ouvi um guarda dizer que vão te colocar no sol. – Ela pôs as mãos na boca.
– Não! Você não pode deixar que isso aconteça! – Suas juntas estavam brancas pelo aperto nas barras. – Você precisa me ajudar.
– E eu ajudei! Confie em mim, Donna, vai ficar tudo bem. Nada vai acontecer a você, tudo bem?
– Eu vou morrer!
– Não, não vai. Eu me certifiquei disso.
Alguns passos foram ouvidos vindos do corredor.
– Evan...
– Vai ficar tudo bem. – Ele sorriu para ela. O guarda estava chegando mais perto. Completou a última parte com um sussurro. – Enquanto estiver usando isso – Apontou com a cabeça para o colar. – você vai estar protegida, e eu vou estar sempre com você.
O homem abriu a cela de Donna e a puxou pelo braço. Um chicote estava na outra mão. Ela olhou para trás uma última vez, e ele já não estava mais ali. Imaginou que ele cairia fora e não fizesse nada. O que ela não sabia era que ele estava sentado, as costas contra a porta, pensando somente nela. Em cada traço do seu rosto, e cada pequeno detalhe que o fazia ter sentimentos fortes por ela. Mais fortes do que gostava de admitir. Toda vez que a via, era como se um jorro de adrenalina se descarregasse em cima de si. Ela não sabia disso; que ele pensava nela o tempo todo.
Quando teve certeza de que ninguém estava perto, disse palavras que só ele mesmo ouviu.
– Eu acho... que estou apaixonado por você.
–♥-
Donna fora amarrada em uma cadeira de madeira e estava lutando bravamente para se soltar. Estava em uma sala de pedra escura, com apenas uma vela de iluminação. A janela estava coberta com uma cortina apenas. Tentou se soltar mais uma vez, mas parou ao ver que o colar estava quase saindo. Temia que o tirassem de si. Temia que pegassem a pequena parte de Evan que estava nela.
A porta se abriu e Brianna entrou. Sorriu de modo sádico.
– Olá, irmã — disse. Andou até a cadeira e segurou o queixo dela com força. – Se divertiu com Evan?
Soltou-a, se afastando.
– Escute, garota idiota, Evan é meu. Ele me ama. Nunca me esqueceu. Eu o deixei quando entrei para os Noturnos, é verdade, mas agora estou de volta. E ele ainda me ama. – Foi como se estivessem enfiando uma faca no seu coração. – Acha mesmo que ele gosta de você? Você é só uma reserva. – Ela revelou a carta que estava segurando na outra mão. – Vê isso? Evan escreveu para mim, e não faz muito tempo. – Jogou a carta no chão.
Donna desviou o olhar.
– E se estava criando esperanças, elas morreram junto com você.
Ela caminhou até a janela. Donna se preparou para gritar quando Brianna puxou o tecido, e a luz do sol varreu a escuridão do cômodo, e chegou a Donna.
–♥-
Inicialmente, foi estranho. Então Donna começou a se sentir aquecida, assim como quando beijou Evan, e relaxou. Estava ofegante. Parou para pensar, e relaxou os ombros. Tomou conta do que aconteceu.
O sol não a machucara. Era até bom.
Abriu os olhos. Tentou racionar. O colar logo lhe veio à cabeça. Enquanto estiver usando isso você vai estar protegida e eu vou estar sempre com você. Ele a havia protegido, mesmo que indiretamente.
Mirou Brianna. Ela estava com os olhos arregalados, as juntas já brancas graças ao aperto no pano. Donna se livrou das cordas em um segundo, ficando se pé. Brianna se apressou para sair, mas Donna foi rápida e quebrou a cadeira em Brianna, que caiu num canto. A porta ainda estava trancada.
Brianna avançou em Donna e a jogou no chão. Estapeou Donna, e depois segurou seu pescoço com as duas mãos.
– Eu posso quebrar seu pescoço agora mesmo, sabe disso? – rosnou Brianna. Pegou um pé da cadeira que servia como estaca, e posicionou para enfiar direto no coração de Donna...
Evan arrombou a porta, com uma espada reluzente na mão. Donna já estava roxa. Brianna se levantou, mas continuou segurando Donna pelo pescoço, e a estaca na outra mão. Ela sorriu de modo macabro e olhou recheada de veneno para Evan.
– Solte-a – disse Evan pausadamente.
– Ou o que? – respondeu ela. – Vai balançar essa espadinha na minha frente? Saiba que eu ainda posso acabar com ela, não sabe? – Fincou a estaca na perna de Donna, que grunhiu. – Solte a espada e eu lhe entrego-a.
Evan não foi relutante. Deixou a espada no chão pausadamente e chutou-a para longe. Olhou para Donna, um olhar que dizia muito mais do que vou nos tirar dessa. Brianna riu, então libertou Donna, empurrando-a para frente, que rapidamente tirou a estaca da perna, empurrando Brianna. Evan pegou a espada novamente e enfiou na barriga de Brianna. Donna pegou as cordas e a amarrou, ainda com a espada na barriga. Terminou o nó e tirou retirou a espada, enfiando a estaca. Evan já estava na porta. Antes de segui-lo, Donna pegou a carta sorrateiramente e guardou na bota. Saíram, fechando a porta logo depois.
Ele não tardou a abraçá-la. Envolveu-a com seus fortes braços na mesma hora, acariciando seus cabelos.
– Você está bem? – perguntou. Ela apenas assentiu em silêncio.
Segurou seu rosto com as mãos e beijou sua testa, segurando o colar logo depois.
– É encantado – respondeu as perguntas não ditas de Donna. – Te protege do sol. Muitos Noturnos têm colares, pulseiras ou anéis assim. – Ele sorriu.
Donna estava hesitante. Lembrou das coisas que Brianna disse. Afastou-o vagarosamente.
– Algum problema? – perguntou.
– Precisamos conversar – disse ela. – Mas fazemos isso quando sairmos daqui.
Ele assentiu em silêncio, um pouco surpreso, e logo depois ambos estavam caminhando pelos corredores de pedra do castelo. Não havia muitas portas, e nem muita iluminação. Algumas aberturas deixavam que a luz do sol entrasse, mas outros lugares era preciso candelabros. Os corredores não pareciam terminar, observou Donna. E, quando desembocavam em uma possível saída, esta era guardada por cavalheiros.
Quando alguns cavalheiros começaram a se aproximar, Evan arrombou uma porta e ele e Donna se esconderam naquela sala. Donna se virou para ver o que havia ali. Era uma sala repleta de armas. Ela foi andando, observando. Também havia o que identificou como alguns instrumentos de tortura, os quais ela preferiu não olhar. Concentrou-se nas armas. Passou por um corredor pequeno até uma mesa grande que se estendia na parede. Havia algumas armas ali também, como arcos e bestas. Evan apareceu atrás dela, pegando uma besta e uma espada na parede, armando-se. Donna pegou um arco e uma aljava. As flechas eram banhadas em verbena, ela percebeu quando pôs as mãos. Também colocou uma espada na cintura e duas adagas nas botas.
– Não sabia que usava arco e flecha também. – disse Evan enquanto vestia uma capa marrom por cima do casaco preto de sempre.
– Estou familiarizada com armas desde os treze anos. Consigo usar quase todo o tipo delas.
Evan ajeitou a capa.
– Aqui, com os Noturnos, só precisa ter cuidado para não perceberem quem você é. – finalizou, puxando Donna para fora.
O atual corredor desembocava numa varanda grande que dava vista para a floresta. Havia dois cavalheiros ali. Vampiros, Donna percebeu. Donna atirou na mesma hora em que Evan. Enquanto os vampiros se contorciam pela verbena, Donna chegou à beirada para ver. Cavalheiros e mais cavalheiros guardavam o castelo. Ela olhou para Evan, apoiado na parede.
– Sabe, eu estava pensando – disse ele inesperadamente. – O que você quer conversar que é tão importante?
Donna se assegurou de que os guardas estariam mortos quebrando seus pescoços. Jogou o cabelo para trás antes de se virar para Evan.
– O que há entre você e Brianna?
Ele estacou.
– Eu... – começou. Ele começou a gaguejar. – Bem, é que ela... Conversamos isso depois, tudo bem? Primeiro, vamos sair daqui.
Ele se moveu para dentro dos corredores, mas Donna continuava parada.
– Eu só preciso de poucas palavras – disse. Aumentou o tom de voz. – Só me diga que o que sente por mim é maior do que sentiu por ela. Que ela faz parte do passado. E que o que escreveu naquela carta não tem mais efeito algum.
Evan sentiu seu estômago embrulhar. Tinha as palavras na ponta da língua, mas de alguma forma não conseguia falar. Era o que acontecia quando ficava nervoso, e Donna o deixava incrivelmente nervoso.
Ela não esperou ele se recuperar. Enrijeceu a mandíbula, segurou as lágrimas e passou por ele, adentrando a escuridão daqueles corredores. Ele a chamou, mas ela não se virou. Quando fez a dobra do corredor, entrou em qualquer porta, que por sorte resultava em um quarto, e cobriu o rosto com as mãos. Disse a si mesma para não chorar, ou pensar em Evan. Tirou as mãos molhadas do rosto e pegou a carta para ler. Havia sido escrita há quatro semanas. Nela, Evan dizia que ainda a amava e a queria de volta. Donna não aguentou e jogou a carta longe. E, depois de permanecer um tempo quieta, voltou para fora.
Ela segurava a espada com força enquanto corria. Em um dos corredores, uma das portas estava aberta. Um dos cavalheiros a viu. Era um vampiro, aparentemente mais rápido, ela percebeu. E em poucos segundos, ela estava ajoelhada, com uma lança em sua barriga e a mancha de sangue se alastrando.
E, antes de mergulhar na escuridão, ela ouviu a voz de Evan.
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