Sangue Puro
1 Capítulo 1 - Segredos e Decisões
Notas iniciais
Por favor dêem uma hipótese à história, já devem ter percebido até aqui que estou a escrever em Português de Portugal e talvez isso seja um bocado chato, mas eu acho que a história vale a pena. Escrevi tudo com muito carinho e entusiasmo e espero que gostem!
Leiam as Notas finais porque são importantes, explicam algumas coisas sobre o capítulo para ser mais fácil de entender.
Boa leitura!
- Cherise! – Uma voz de veludo ouviu-se na porta do quarto.
Não seria difícil para Cherise perceber a quem pertencia, a irmã mais velha sempre fora cheia de opostos: com uma estrutura delicada mas personalidade forte, a pele clara e macia escondia um interior obscuro e provocador, a voz suave e atraente impregnada muitas vezes de uma maldade própria alfinetava os ouvintes com insultos agressivos ou cobria-se de um tom doce e amável para um número reduzido de pessoas, aliás esse lado apenas Cherise já ouvira e em raras ocasiões. As duas, separadas por seis anos, poderiam ser vistas como a cópia (pobre, mas ainda assim uma cópia) uma da outra, não fosse pela cor dos olhos. Enquanto a mais velha os tinha azul-escuro, a outra tinha os seus da mesma cor que o cabelo preto.
Na história da família Gaunt era comum a existência de rivalidades entre os vários parentes mas como mais nenhuma casa possuía o nome nesta geração, os únicos membros encontravam-se no Nº 3 de Hallow Starning, uma mansão imponente no topo da colina que sombreava a pequena aldeia, e competiam entre si. Não era uma rivalidade aberta, antes pelo contrário, até ao momento os quatro irmãos tinham disfarçado o ódio que sentiam uns pelos outros, mas com a passagem dos anos foram tornando-se mais independentes e impulsivos e ficava mais complicado encobrir esse desagrado.
Chenillus Gaunt foi pai de quatro abençoadas crianças: a mais velha, Arigna Gaunt, era uma menina recatada tal como era suposto da sua família, com a aparência da mãe e o temperamento do pai, seguiu o caminho próprio e após se formar casou com Cormack Savell, membro de uma das mais influentes famílias do mundo bruxo – não tão influente como os Gaunt, mas quase nenhuma família o era -; os gémeos, Merope e Marvolo Gaunt, possuíam o mesmo cabelo castanho-claro do pai, que caía como uma cascata suave pelos seus ombros definidos, iguais até no génio cruel tinham grande talento que teimavam em sujar com demonstrações desnecessárias e apenas se protegiam um ao outro; e finalmente a mais nova, apenas com um ano de diferença dos irmãos, Cherise Gaunt fora a última filha do casal e a causa de morte da esposa de Chenillus, — seria de esperar que o homem sentisse algum tipo de rancor por isso, mas ele nunca tinha amado a mulher, não passara de um casamento de conveniência e assim não sentiu nenhuma pesar com a sua perda -.
Cherise Gaunt era ligeiramente diferente de todos os seus irmãos, talvez não em aparência sendo que aí se parecia muito com Arigna, com a mesma cor de cabelo, preto glacial, a mesma pele fina e clara ou as feições delicadas e altivas, as únicas diferenças estavam na cor dos olhos e nas curvas do corpo. Os olhos de Cherise eram duas pérolas negras, frias, tal como os de Chenillus, e ao contrário da irmã não tinha o corpo embelezado por seios ricos ou ancas largas, não fosse pela cintura fina assemelhava-se a uma tábua de engomar. Mas não era a sua aparência que encantava o pai, era o seu carácter e o seu poder. Cherise era incrivelmente habilidosa, com uma varinha podia fazer coisas que nenhum outro dos seus filhos sonharia sequer em conseguir, desde jovem era educada em casa por vários tutores escolhidos a dedo e o seu intelecto foi se desenvolvendo com rapidez, era uma menina perspicaz e com o tempo o seu desejo de ser melhor apenas se foi aguçando. Rapidamente atingiu níveis acima do esperado pelos professores contratados e cada um deles informava Chenillus que o seu trabalho ali estava terminado. Este desenrolar de tutores foi continuando até ao presente. Cherise com 16 anos aprendia em casa tudo aquilo que não poderia aprender na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts onde os seus irmãos tinham enrolado após quatro anos de aulas privadas, aprendia desde os mais pequenos feitiços até ao trabalho com a magia negra. Ao contrário do que fizera com os restantes filhos, Chenillus mantivera a mais nova em casa durante mais tempo, tanto pelo talento que via nela e desejava aumentar ao máximo, como pela companhia angelical que lhe proporcionava.
Cherise apenas agia agradável para com o pai porque o amava e desejava agradá-lo, porque de verdade tinha um temperamento tão gelado com o próprio Chenillus. Sabia bem o seu lugar no mundo mágico, acima de todos os outros. Ela tinha poder, era capaz e esperta o que a tornava superior. O seu aspecto severo, selvagem até, apenas evidenciava mais esse fosso entre ela e os restantes. Era melhor, sabia mais e fazia mais, e não temia seguir o caminho necessário para conseguir atingir os seus objectivos. Ela podia tudo!
Enquanto tentava arrumar os caracóis escuros em frente ao luxuoso espelho do toucador dourado esperou que Arigna entrasse no quarto e se aproximasse por trás de si. Viu o reflexo da irmã, vinha com um vestido faustoso creme com padrões prateados que brilhavam à luz, o decote quadrado mostrava a parte superior do seu peito onde um belo colar pousava e os cabelos estavam presos no topo da cabeça, deixando cair algumas mechas que lhe adornavam o rosto. Sorriu-lhe pelo espelho e continuou a passar a escova pelos cabelos revoltos.
- O pai exige a tua presença no seu estúdio. – A mais velha informou e agarrou a escova da mão da irmã, continuando a tarefa que esta não estava a conseguir realizar.
- Não sabia que pretendias vir-nos visitar esta quinta-feira. O teu marido acompanhou-te? – Cherise perguntou agora que já não tinha as mãos ou a mente ocupadas com o trabalho anterior. Não foi bem por curiosidade, foi mais por detestar estar desocupada.
- Cormack foi a Londres tratar de pormenores para a sua viagem à França. – a voz da irmã era resignada, Cherise percebeu. Estranho, nunca tinha colocado a hipótese de ela amar o marido. Pelo menos nunca tinha tido qualquer atitude que desse a entender algum sentimento mais profundo, mas agora parecia sofrer com a sua ausência. – Regressa daqui a duas semanas, no primeiro de Setembro. –
- Vais ficar na mansão então? Suponho que não seja agradável ficar sozinha.
- Vou ficar aqui até que ele volte. Já conversei com o pai. – Cherise gostaria de ter escutado a conversa, Chenillus detestava visitas e desde que tinha casado a presença de Arigna era considerada visita.
- Tenho que informar Soma para que se encarregue de fazer os arranjos necessários. – Ela gostava da irmã, pelo menos suportava-a mais facilmente do que às outras pessoas e por vezes deseja a sua companhia ou as suas palavras que, embora insípidas, melhoravam o seu humor. – Quando chega a tua bagagem?
- Penso que dentro de poucas horas, mandei uma coruja entregar a mensagem há alguns minutos. – Disse e terminou de escovar os cabelos escuros da mais nova, passando as mãos por eles e observando no espelho o resultado – Cherise, vais partir muitos corações… — brincou com admiração.
À outra escapou-lhe uma gargalhada e olhou-lhe céptica. Sabia que não era um ícone de beleza, não tinha o corpo atraente da irmã nem os seus olhos sedutores, mas também sabia que não era feia. Era agradável à vista e com feições cativantes, talvez com a idade as curvas por que tanto ansiava surgissem. Ah! Quem tentava enganar… Em dezasseis anos não tinha visto qualquer indício de que um dia ia ter a figura de Arigna, mais valia conformar-se.
- Talvez deva fazer uma colecção… — Nunca admitiria para ninguém que não se acreditava capaz de cativar qualquer homem, invés disso apelava à sua perspicácia superior para esconder esse receio. A irmã fez uma careta.
- Sabes tanto e ao mesmo tempo tão pouco… — sorriu com pesar e abanou a cabeça. Isto Cherise nunca aceitaria! Nem de Arigna! Ser alvo de pena? De críticas? Como se alguma vez alguém fosse capaz o suficiente para ganhar o direito de a reprovar!
- Sei mais do que tu, suponho. Já que Savell não quer a tua companhia durante as suas viagens, só posso acreditar que andas a fazer alguma coisa mal. – A sua voz agora embebida de crueldade chegou aos ouvidos da irmã que deixou imediatamente de sorrir. Tinha-a magoado, ela sabia. Melhor assim. Aprenderia a não menosprezar as suas capacidades.
Levantou-se e passou por a outra sem lhe dirigir o olhar. Dirigiu-se até ao fundo do corredor onde uma grande escadaria de mármore coberta por uma fina carpete dava para o andar inferior. O primeiro lance de escadas terminava numa plataforma central e na enorme parede estava um quadro soberbo onde uma tapeçaria verde-escuro mostrava a árvore da família Gaunt, os últimos eram ela e os seus irmãos e quanto mais para cima olhasse, mas complexos e interligados se encontravam os ramos. Ia até ao ano 385 a.C., o resto da história tinha sido perdida com o tempo, mas se continuasse algures no meio dos ramos estaria o nome de Salazar Slytherin, um dos fundadores de Hogwarts. Poucas famílias podiam afirmar estar ligadas a esse nome.
Desceu o próximo lance de escadas e chegou a um largo corredor adjacente ao salão principal da mansão. As paredes, cobertas por várias pinturas em movimento que representavam os muitos antepassados da família, eram de um tom creme e velho, não que a casa estivesse a cair aos bocados, o seu pai tinha mandado restaurá-la há alguns anos, mas manteve as mesmas cores e a mesma decoração um bocado ultrapassada. O chão estava coberto por alcatifas macias. As armaduras de metal que guardavam a entrada principal da mansão estavam dispostas lado a lado e seguravam duas espadas em cruz, numa atitude defensiva.
Cherise seguiu por uma porta de madeira no lado direito, passou por mais um corredor com várias portas e aproximou-se da última à esquerda. Quando ia bater sentiu um movimento atrás de si e viu Soma, a governanta da mansão Starning, um elfo doméstico jovial cuja adoração pelos Gaunt da casa era incrível. Cherise não suportava criaturas como os elfos, ou Goblins. Aliás, para ela, apenas os feiticeiros de sangue puro eram superiores e mereciam ser tratados com respeito, tudo o resto era escória que existia apenas para servir os primeiros, sendo os piores os muggles que sem um pingo de magia no corpo eram um desperdício de espaço e de ar… e ela não escondia a sua opinião. Mas como Soma se mostrava tão submissa e útil suportava a sua presença sem grandes demonstrações de desagrado.
- Soma! – Chamou ríspida
- Sim menina Cherise… Ao seu serviço menina. O que Soma pode fazer pela senhora da casa? – O elfo respondeu prontamente e fez repetidas vénias à feiticeira.
- Arigna vai passar uns dias em Starning. Prepara o seu quarto e avisa na cozinha que a partir de hoje devem colocar quatro lugares na mesa para as refeições. – ordenou.
- Com certeza menina. Soma vai tratar disso com o maior cuidado. Soma vive para servir os nobre Gaunt. Mais alguma coisa senhora?
- Nada. Podes ir. – E observou o elfo desaparecer num estalido, invejava imensamente que pudessem aparatar com toda aquela facilidade! Ela também era capaz de o fazer, já treinara várias vezes e apanhou-lhe o jeito depois de algumas tentativas falhadas, mas não lhe era permitido deslocar-se dessa forma até completar 17 anos, e ainda faltava algum tempo para isso. Por consequência detestava que o fizessem à sua frente, mais tarde iria repreender Soma por desobedecer a uma ordem dada há já algum tempo.
Voltou a concentrar-se na porta e anunciou a sua presença com uma batida suave.
- Entre – Uma voz grossa suou lá dentro e Cherise empurrou a madeira para entrar.
Sempre gostava de estar no estúdio de Chenillus, era requintado e cheio de artefactos magníficos. Os imensos livros com capas de cores variadas sobressaíam sobre a madeira pálida das estantes onde estavam arrumados, contra as paredes. No canto da sala uma mesa de carvalho escuro, rectangular, pousava sobre a tapeçaria de padrões pretos que cobria o chão. No topo da escrivaninha vários objectos pareciam brilhar com a luz das velas no candelabro pendurado no tecto, uma vez que as janelas se encontravam cobertas por um pano de fumo preto estático. Chenillus gostava mais do ambiente escuro.
- Solicitou a minha presença pai? – Cherise perguntou enquanto se dirigia até à cadeira de couro verde em frente à mesa atrás de qual o homem estava sentado.
- Sim. Quero que vejas esta carta e me dês a tua opinião – disse e passou-lhe um pergaminho enrolado cujo selo se encontrava já quebrado. Ela pegou-o e abriu, para poder ler o seu conteúdo.
Sentada no cadeirão confortável recostou-se e prestou atenção às palavras escritas numa letra pomposa, logo pouco confiante.
“ A forma que usou para se apoderar do artefacto que ainda agora não lhe pertence só pode ser considerada desumana mesmo para um Gaunt. Não pretendo deixar as coisas assim Chenillus! Vai arrepender-se, nem que tenha que recorrer a trilhos mais baixos! Isso pertence-me e quero o de volta! Tem uma semana.
Irliann Prince”
Cherise achou toda a emissiva ridícula e sentiu-se ultrajada. Como alguém se atrevia a ameaçar um Gaunt! Ainda por cima um Prince… Não passavam de uma família de terceira categoria, repleta de traidores de sangue e estorvos.
- Não me parece preocupante. Um Prince nunca poderia fazer nada contra nós, mas o pai já sabe isso. – Falou depois de pensar um pouco.
- Sim, sei. A opinião que quero é sobre o objecto que Irliann menciona nessa patética desculpa de ameaça. – Continuou e procurou algo numa das gavetas da mesa, quando pareceu ter encontrado levantou-se e foi até à terceira estante da sala, pegou a varinha e com um ligeiro abanar viu como as prateleiras cobertas de livros desapareciam no ar e davam lugar a uma passagem estreita. Depois virou-se para a porta de entrada e trancou-a com um feitiço silencioso.
Cherise foi até lá e seguiu o pai quando este entrou. Há medida que iam percorrendo o corredor escuro várias tochas presas na parede de pedra iam ganhando vida e iluminando o caminho. Foram dar a uma sala ampla com o chão alcatifado numa cor verde. Não foram as cores escolhidas para decorar aquela divisão que surpreenderam Cherise, nem sequer as paredes quase desprovidas de quadros e sem janelas. Não, o que a surpreendeu foi a quantidade de objectos de grande poder dentro daquela sala, ela tinha a certeza que alguns emanavam uma forte magia negra, podia senti-lo na pele arrepiada. Sorriu.
- Está a mostrar-me o seu esconderijo, pai? – Brincou e seguiu o homem até ao centro da sala onde um expositor de madeira, coberto de cristal inquebrável, guardava três artefactos que Cherise tentou reconhecer.
O primeiro era um extravagante colar feito de pequenas pérolas pretas e cinzentas, e com algumas missangas brancas, pelo seu aspecto ela podia dizer que era pesado, pesado e perigoso. Aquela peça, um Colar Opal, tinha uma maldição poderosa, concluiu. O segundo era um pequeno livro encarnado que emanava uma sombra escura e vibrava incessantemente, na capa brilhavam algumas letras douradas: Caixa de Pandora. O último objecto era o mais simples de todos e aparentava ser completamente normal embora muito bonito: uma adaga de prata com um punho coberto de safiras e rubis da cor do sangue. Nem parecia muito afiada, mas Cherise sabia que aquela nunca falharia o seu alvo. Já tinha lido algo sobre a Adaga de Ériu, um instrumento mortal que obedecia apenas à vontade do seu senhor.
Chenillus observou enquanto a filha analisava aqueles objectos para com um abanar da varinha e um feitiço não-verbal transfigurar temporariamente o cristal inquebrável que os protegia para uma barreira mole. De seguida pegou a pequena caixa de veludo guardada no bolso do manto escuro que envergava e colocou-a ao lado da adaga, antes de a abrir.
Cherise concentrou-se na grande pérola negra que se encontrava agora dentro do expositor. Tinha um brilho escuro e reflectia um arco-íris cinzento. Era magnífica, pensou e por momentos desejou tocar-lhe, o que, claro, descartou imediatamente. Uma peça assim não podia ser tocada sem consequências horríveis, sendo uma das possíveis a morte. Ela reparara no cuidado que o pai tinha tido para evitar tocar o objecto em si.
- É esplêndido. – Afirmou assoberbada pela beleza da jóia, e depois assumiu uma postura mais recta. – Deve ser poderoso, para um Prince ter a ousadia de o ameaçar…
- Sim. É sem dúvida muito poderoso, talvez até dos objectos mais perigosos que tenho nesta sala... Conheces os efeitos da Maldição Imperius claro. — E quando a viu afirmar com um movimento da cabeça continuou: — Tem um resultado semelhante. Basta um pequeno toque na superfície desta esfera para que uma pessoa perca todo o conhecimento que tem de quem é. Todos os sonhos, desejos e memórias são sugados do seu interior para a pérola. Os princípios, as regras sobre as quais se regiam, tudo desaparece. A pessoa perde-se e é substituída pela vontade daquele que possui o artefacto. É um efeito irreversível. – Dizia com um olhar ganancioso e sonhador. – Apenas tem um problema. – E Cherise esperou que ele o revelasse embora desconfiasse o que seria. – Mas talvez já tenhas percebido. – Chenillus pareceu adivinhar e esperou que a filha dissesse o que pensava.
- Dificilmente uma mudança tão radical no temperamento de uma pessoa passará sem ser notada pelos que lhe são mais próximos. – O pai sorriu satisfeito.
- Sim. Precisamente. – Concordou entusiasticamente. – É uma falha infeliz e não fosse por isso, seria perfeito.
Cherise discordou silenciosamente da opinião do homem. Parecia-lhe atraente a ideia de poder controlar qualquer um. Controlá-los, não apagá-los. Afinal onde estaria a piada se não pudesse ver os seus olhares de submissão e raiva. Além disso até ela não se atrevia a condenar uma alma eternamente.
- Quero mostrar-te o resto das peças da minha colecção. – Chenillus avançou até a uma ponta da sala onde uma estranha estante sem livros, recostada na parede, guardava mais um conjunto de três objectos.
Cherise ofegou ao perceber o que era o primeiro. À sua frente tinha nada mais, nada menos que o colar de Slytherin, um fio dourado com um pendente da mesma cor. A sua superfície parecia macia e imaculada, apenas a forma de um S verde se encontrava cravada no pendente de ouro maciço. O colar de Slytherin… do próprio Salazar Slytherin! Podia sentir o poder que emanava e encheu-se de calor por dentro.
- Como conseguiu isto? É… — mas nem conseguia encontrar as palavras adequadas com toda a emoção.
- Herança de família… É preferível mantê-lo escondido. – disse rispidamente. Não seria a primeira vez que se via forçado a defender este objecto em particular. Muita gente cobiçava os artefactos dos fundadores de Hogwarts.
- Sim, acredito que seja o mais seguro. Mas só de saber que estamos no mesmo recinto… — deixou no ar o fim da frase sonhadora. Era incrível o que o simples colar tinha provocado dentro dela. Mas claro que aquele colar nada tinha de simples. – Posso? – Perguntou enquanto se aproximava da prateleira para pegar o objecto nas mãos. O pai pareceu levar algum tempo a responder mas finalmente fez um gesto afirmativo.
Era como se estivesse prestes a seduzir alguém, curiosamente sentiu necessidade que o próprio colar desse permissão para tocar-lhe. Esticou a mão suavemente na sua direcção sem quebrar o contacto visual com o objecto de Salazar Slytherin. Era como se Este estivesse presente. Quando finalmente o alcançou sentiu o frio do metal contra a sua pele e o poder que lhe entrou nos poros. Sem dúvida alguma qualquer feiticeiro que o usasse poderia fazer coisas grandiosas. Levou até à cara, para poder observá-lo com mais cuidado e concluiu que era tão perfeito como suspeitara. Fora enfeitiçada por ele e quando o pousou novamente no seu lugar fê-lo com saudade e pesar.
- É um objecto magnífico! – A sua voz destinava-se a ninguém em particular mas ouviu o pai concordar consigo prontamente.
- Agora presta atenção a este anel. – Chenillus puxou a sua atenção para outros dos artefactos dispostos sobre a estante, um anel, também dourado com uma pedra estranha, escura.
Cherise não o achou tão atraente mas ainda assim podia perceber que era poderoso, embora não conseguisse perceber o teor desse poder. Assemelhava-se a qualquer outro anel simples, mas não discreto. A pedra que segurava não era nenhuma jóia que ela conhecesse, antes parecia ser mesmo uma pedra de rua.
- O anel dos Paverell – o pai informou e ela sabia que já tinha ouvido aquele nome algures, mas não conseguia lembrar-se onde ou em que circunstâncias. – Não tem grande poder mas é outra herança de família.
Mais uma vez ela discordou silenciosamente do pai. O anel tinha bastante poder, isso era evidente…
- E este aqui o que é? – apontou para uma bola de cristal opaca, o último dos objectos ali expostos.
- A profecia original de Salazar Slytherin, Godric Gryffindor, Roweena RavenClaw e Helga Hufflepuff. – A resposta dita com orgulho espantou-a. Uma profecia que englobava todos os fundadores de Hogwarts... Nunca ouvir falar de algo assim.
- Qual é o conteúdo da profecia?
- Envolve a construção da escola e fala de um desequilíbrio no futuro.
- Desequilíbrio? – Indagou. – Que tipo de desequilíbrio?
- De poder. – E Cherise deixou essa questão por ali.
- Sempre pensei que Hogwarts nascera da vontade dos quatro fundadores. Não sabia que uma profecia estava envolvida.
- Não é do conhecimento geral. – A superioridade visível no seu tom de voz.
- Então e como conseguiu ouvir a profecia? Pensava que apenas as pessoas mencionadas podiam escutar as palavras de uma profecia… — Arrependeu-se assim que as palavras escaparam da sua boca. Por vezes esquecia que o pai detestava ser questionado, especialmente se a pergunta desse a entender que duvidava da sua palavra. – Não que esteja a duvidar de si! – Apressou-se a acrescentar. – Mas gostava de saber como conseguiu ultrapassar esse pequeno problema.
- Ah minha querida, isso foi um mero acaso. – Disse espirituoso. Pelo menos parecia não ter ficado aborrecido pela falta de tacto da filha. – Acontece que o poder do Medalhão de Salazar Slytherin contém uma grande impressão do próprio. Basta-me colocar o colar no pescoço e uma profecia é fácil de iludir.
- Incrível…. Será que eu poderia… experimentar? – Cherise aventurou, embora previsse a resposta.
- Hoje não. Tenho outros assuntos a discutir contigo. – Informou e dirigiu-se para a saída.
Após olhar novamente o medalhão que parecia chamar o seu nome, seguiu-o. Enquanto caminhava até ao corredor reparou em vários outros objectos dos quais apenas identificou uma Mão da Glória, um receptáculo onde ardia um chama suave de Fogo Negro, e uma vasilha que supôs tratar-se de um Pensatório, embora Chenillus possuísse um no seu estúdio. Prestou atenção a um espelho enorme pendurado na parede do lado esquerdo da divisão. Era belamente adornado por uma moldura preta rica e com complexos desenhos. Podia quase perceber alguns símbolos ou talvez letras gravadas num dos lados da moldura e quando olhou para o espelho não viu qualquer coisa reflectida, como seria de esperar. No interior do vidro parecia dançar um líquido espesso e cinzento que a lembrou de sangue de unicórnio, uma ou outra vez podia jurar que tinha visto o contorno de várias figuras, mas quando voltava a olhar tinham desaparecido.
- Um dia explico-te esse espelho. – Ouviu o pai dizer quando percebeu para onde ela olhava com tanto interesse.
Seguiram pelo corredor até ao escritório e assim que entraram o pai voltou a fazer surgir a estante que cobriu a passagem. Destrancou a porta e foi sentar-se no cadeirão por trás da mesa pesada. Cherise imitou-o e também ela descansou o corpo na cadeira macia.
- Espero que me acompanhes à gala de beneficência do ministério no próximo sábado. – Ordenou.
- Porquê? – Cherise que nunca acompanhara o pai a qualquer evento sabia pelas discrições dos seus irmãos que eram extremamente aborrecidas as galas do ministério. Não receava a sua apresentação à sociedade, que pouco ouvir falar da última filha de Chenillus, só não queria atender a uma festa fastidiosa.
- Uma filha não deve questionar os motivos de seus pais – o homem repreendeu numa voz gelada.
- Perdoe-me. — Olhou com desagrado para a filha e depois suavizou a expressão.
– Está na hora de te apresentar às pessoas mais influentes do mundo mágico afinal pretendo que ingresses este ano em Hogwarts e toda a gente deve saber quem és. – Chenillus largou a bomba e viu a as feições de Cherise brilharem de entusiasmo.
Ela riu por dentro. Um riso de triunfo! Finalmente conheceria Hogwarts! Finalmente poderia mostrar a todos aquilo que sabia e sabia muito mais que qualquer um deles, não tinha qualquer dúvida. Finalmente! A vida ia começar.
- Estarei preparada. – Conteve o alvoroço que ia dentro de si e soou controlada como sempre.
- Fala com Arigna, já que está aqui pede que te dê uma ajuda nas preparações para sábado. – O pai disse em tom final. – E pede a Soma que trate de arranjar um vestido apropriado.
Ela percebeu que o pai já não requeria a sua presença e levantou-se para sair.
- Ah e está pronta às sete horas da tarde por favor. Não admito atrasos.
- Com certeza – disse e saiu.
No corredor, após fechar a porta, deu vazão às emoções que sentia numa pequena dança vitoriosa.
- Finalmente!!!! – Gritou alegremente enquanto pulava até à escadaria principal. Sentia-se maravilhosamente e nada, absolutamente nada poderia estragar a sua disposição.
Correu escadas acima até ao quarto onde sabia que Arigna estaria e quando entrou viu a irmã sentada no banco decorado a talha dourada e com um assento acolchoado por um tecido cinzento. Sorriu-lhe e puxou-a para um abraço que facilmente se transformou numa dança descoordenada.
- O que se passa contigo Rise? – A mais velha perguntou por entre gargalhadas enquanto tentava acompanhar as suas voltas.
- O dia está maravilhoso! E eu recebi uma notícia fantástica! Fantástica, fantástica! – Cantarolou. Estava a deixar Arigna cada vez mais confusa com a atitude pouco característica.
- Bem… E queres contar-me essa notícia antes que alguma de nós caia literalmente no ridículo? – brincou e deu mais uma volta nos braços da outra. Cherise parou de dançar e olhou séria para a irmã…
- Vou para Hogwarts! – Anunciou dramaticamente. – Ouviste?! H-O-G-W-A-R-T-S! – E riu alegremente.
- Que bom! Já não era sem tempo! – Ela concordou com o comentário da irmã mais velha, excepto na expressão usada, não era simplesmente bom… Era maravilhoso!! – Devias ter ido o ano passado…
- Isso não interessa. Vou este ano. – E olhou enquanto Arigna procurava algo dentro de uma gaveta do enorme armário de portas rústicas. – E o pai pediu que o acompanhasse á gala do ministério.
- Ele quer fazer a tua apresentação oficial antes de Hogwarts… — pensou alto. – Suponho que disse para pedires a minha ajuda?
- Sim disse. – Mas ela não precisava realmente de ajuda…
- Temos que arranjar-te um vestido adequado e tratar das jóias para o acompanhar. Temos que pensar no penteado… As cores mais indicadas… — ia fazendo uma lista imaginária. – Soma! Soma!! – gritou apressada e o elfo doméstico surgiu imediatamente com um estalido.
-Sim senhora! A senhora chamou Soma e Soma veio o mais rápido que conseguiu. A menina precisa dos serviços de Soma. Soma está às suas ordens Senhora Savell e menina Cherise. – Fez tantas vénias que Cherise pensou que fosse curvar-se de vez.
- Cherise precisa de um vestido para Sábado. – Arigna afirmou ríspida e começou a enumerar pormenores que queria presentes e outros estritamente proibidos.
Notas finais
Agora vamos às notas sobre a história:
ÉPOCA - Ano 1874.
MERÓPE GAUNT - Esta personagem NÃO é a mãe de Tom Riddle! Nos livros Rowling nunca mencionou os ascendentes de Marvolo Gaunt então eu criei a minha própria versão de como seria a família nos seus tempos de Hogwarts. Chenillus será o Bisavô de Voldmort e esta Merópe será a Tia-avó, Tia da filha de Marvolo Gaunt.
ENTRADA TARDIA EM HOGWARTS - Na época em que se passa a história eu supus que fosse normal para os feiticeiros puro sangue e de famílias ligadas a arte das trevas manter os filhos em casa para serem educados por tutores particulares e apenas mandados para Hogwarts depois de aprenderem alguns ramos de magia que a escola não ensinava. Nem todas as famílias o faziam, mas os Gaunt não são os únicos a seguir esse costume.
GALAS DE BENIFICIÊNCIA - É obvio que feiticeiros como os Gaunt e outras famílias influentes tinham por obrigação participar nos eventos lançados pelo Ministério da Magia. Normalmente os fundos angariados nestas galas revertiam para o Hospital de Saint Mungos.
ARTEFACTOS - O livro: Caixa de Pandora; A Adaga de Ériu; A Pérola Oblivis (A esfera negra referida na história); O espelho negro; e a Profecia dos quatro fundadores são invenções minhas e qualquer dúvida sobre esses objectos estou disponível para responder.
Por favor deixem Review a comentar o que mais gostaram, se acharam aborrecido o capítulo ser tão grande, alguma ideia que achem interessante acrescentar...
Boas leituras :)
Fale com o autor