Sangue Maldito
43 Outra Maldição
Notas iniciais

Resolvi que ficaria mais algum tempo naquele salão a fim de observar um pouco mais aquelas noivas, havia muitas delas ali e cada uma tinha algo de especial e de diferente das outras. Muito bonitas realmente!
Enquanto passava pelos vários corredores que havia ali, acabei notando uma porta bem escondida, se não olhasse direito era capaz de nem perceber e eu só percebi porque vi um vulto com o canto do olho. Fui até a porta e a empurrei, por algum milagre desconhecido ela estava aberta, entrei só que estava tão escuro que não consegui ver nada. Procurei um interruptor, mas não havia nenhum então voltei ao salão das noivas e peguei um dos castiçais acesos voltando para a sala secreta.
Quando iluminei o local tive que tapar minha boca para não gritar, o que eu vi não me assustou só me deixou completamente chocada, nem mesmo se eu já tivesse vivido mil anos eu imaginaria isso.
Duas das três mulheres mais lindas que eu já havia visto estavam ali como bonecas de cera. Christa e Beatrix continuavam tão bonitas como quando estavam vivas, as duas em seus pedestais e usando os mesmos vestidos que usavam em vida. Beatrix estava com as duas mãos entrelaçadas na cintura e carregava uma expressão suave com um leve sorriso, o Kanato conseguiu pegar muito bem a essência dela, pois eu aposto que a Beatrix era assim antes de conhecer o Karl Heinz e competir com Cordelia. Já Christa estava exatamente como era em vida, suas mãos pousadas sobre o coração e sua expressão triste com o olhar baixo.
Aproximei-me das magníficas estátuas, as noivas lá atrás eram muito bonitas, contudo não chagavam nem aos pés dessas duas. Perguntei-me o porquê de Cordelia não estar ali, no entanto foi um questionamento passageiro já que era muito reconfortante saber que não precisava olhar para cara dela.
– Vocês estão ainda mais bonitas assim. – falei com fascínio. Sentei-me no chão, colocando o castiçal ao meu lado. – Eu acho que preciso visitar vocês novamente, não é? Duas mulheres tão gentis não merecem ficar sozinhas por tanto tempo. E também vou lembrar-me de perguntar se vocês sabem que estão conservadas aqui e se alguns dos seus filhos vêm visitar vocês. – falei meio que sussurrando.
– O que você está fazendo aqui? – Subaru perguntou atrás de mim, tomei um susto enorme e me levantei rapidamente. – SAIA! ESSE LUGAR NÃO É PARA VOCÊ! – gritou enfurecido.
– Gomenasai, gomenasai! – desculpei-me desesperadamente fazendo uma reverência para enfatizar meu arrependimento. Eu deveria saber que aquele era um lugar proibido para outras pessoas além dos filhos. – Eu juro que foi sem querer, mas elas são tão bonitas que eu queria olhar só um pouco mais. – expliquei-me ainda fazendo a reverência. Fiquei esperando o Subaru ter um ataque ou qualquer outra reação, mas ele só ficou calado.
Endireitei-me e o olhei, ele nem sequer estava prestando atenção em mim, encarava Christa com uma expressão melancólica. Olhei dele para a estátua e vi que eles eram muito mais parecidos do que somente a aparência.
– Ela é sua mãe? – perguntei, eu já sabia a resposta, entretanto eu queria ver se ele me diria alguma coisa.
– Não é da sua conta. – respondeu irritado. Putz, esse aí é pior que dinamite!
– Está bem, mas não precisa ser tão rude! – retruquei fazendo cara feia. Agora que o Subaru estava ali eu finalmente tinha a oportunidade de roubar a chave do pescoço dele, todavia eu precisava seguir certo plano.
– Cale-se, idiota! Não me provoque! – disse com raiva, já com os punhos cerrados.
– Eu não estou te provocando, você é que deveria aprender a se controlar! – urrei fingindo raiva. Eu não queria ficar brigando com o Subaru, mas era um mal necessário se eu quisesse a chave.
– O QUÊ?! – bradou furioso e veio até mim. Comecei a rezar para ele não fazer nada comigo, então ele me jogou no chão e mordeu meu pescoço como se quisesse arrancá-lo fora, não consegui segurar o grito.
Decidi que era hora de agir e enquanto o Subaru estava concentrado em me fazer sentir dor, o que estava conseguindo, eu movi minhas mãos até o colar dele da forma mais furtiva que consegui, alcancei o fecho e o abri, logo peguei o colar e o enfiei dentro da manga da blusa.
Ele terminou de beber meu sangue, porém ao invés de tirar as presas de uma vez afundou ainda mais os dentes no meu pescoço e eu gritei bem alto, aquilo ia passar um tempão doendo. É lógico que eu não iria culpa-lo já que fui eu que provoquei com certeza eu mereci isso.
– Nunca mais me provoque, sua inútil. Agora saia daqui! – Subaru mandou ameaçadoramente. Levantei-me e saí rapidamente, como a noiva obediente que sou, e logo corri para a torre, era hora de abrir aquela cela.
Chegando a frente da torre pensei que precisaria escalar as paredes novamente para ir até lá em cima, no entanto resolvi usar a chave para tentar destrancar a porta de madeira e por sorte ela também abria aquela porta. Entrei fechando a porta atrás de mim para não desconfiarem que eu estivesse lá e subi as escadas o mais rápido que consegui.
Estava quase morrendo quando cheguei lá em cima e precisei parar e apoiar as mãos nos joelhos para recuperar o ar. Acendi somente um dos castiçais e o peguei para iluminar a parte da cela, fiquei bem próxima das grades e chamei pela Christa.
– Christa-onee-san, você está aqui? – chamei iluminando a cela, resolvi usar onee-san como forma de tratamento por ela ser tão gentil e pelo modo como ela agia era como se fosse uma irmã mais velha.
– Onee-san? – perguntou aparecendo com um leve sorriso no rosto. Eu sorri de volta e coloquei o castiçal no chão.
– É, você parece uma irmã mais velha! – respondi alegremente.
– Não acho que eu pareça com uma irmã mais velha, afinal eu era a caçula da família. – disse se aproximando de mim.
– Para mim você parece uma irmã mais velha, então eu posso te chamar de onee-san? – perguntei suavemente. Desde que conheci Christa gostei dela logo de primeira, mesmo me mostrando seu passado como uma pessoa instável, ela ainda foi a melhor mãe e tenho certeza que ela amava Subaru incondicionalmente, ainda ama.
– Eu nunca pensei que alguém me chamaria de onee-san algum dia, mas eu gostei muito. – respondeu me mandando um enorme sorriso.
– Ei, Christa-onee-san, eu tenho algo para te perguntar, mas antes eu vou abrir essa grade. – falei calmamente e ergui a chave mostrando para ela.
– Como você conseguiu isso, Tora-chan? – perguntou espantada, ela deveria conhecer muito bem o filho dela para saber que ele não me daria essa chave de mão beijada.
– Eu roubei do Subaru, não foi uma tarefa fácil. – respondi me inclinando para encaixar a chave na fechadura, isso fez meu cabelo pender para um lado deixando a mostra o ferimento ainda dolorido.
– Oh, não! Foi o Subaru que fez isso no seu pescoço? – questionou com o olhar cheio de tristeza. Consegui abrir a grade e empurrei a porta entrando em seguida, a luz bruxuleante das velas iluminava parcialmente a cela.
– Não se preocupe, onee-san, o Subaru é muito gentil fui eu que o provoquei para que ele ficasse irritado e me mordesse. Eu precisava pegar a chave de alguma forma! – falei com um sorriso gentil e tranquilizador ao mesmo tempo.
– Você não deveria ter feito isso somente para abrir essa cela. – disse franzindo as sobrancelhas.
– É claro que eu precisava, você não merece ficar aqui trancada. E agora com a porta aberta você pode sair, não é? – falei como se fosse a coisa mais óbvia da Terra.
– Bem, eu posso sair e ir aonde eu quiser dentro do terreno da mansão, no entanto não é essa a libertação que eu quero. – retrucou tristemente. Quer dizer que ela queria se libertar daquela casa, queria se libertar de ser um fantasma.
– E você não pode? – perguntei confusa. Para mim ela e as outras só continuavam ali por vontade própria, contudo parece que me enganei, elas estavam presas ali.
– Não. – respondeu e foi se sentar na em uma cadeira próxima a uma mesinha de madeira toda empoeirada, aproximei-me dela e sentei em cima da mesa mesmo já que havia somente uma cadeira. – A minha alma e as almas de Cordelia e Beatrix estão aprisionadas aqui, eu poderia dizer que é outra das maldições que Karl jogou sobre nós. – explicou. Elas também eram amaldiçoadas? Suspirei tristemente, esse homem não cansava de fazer essas mulheres sofrerem, ele não podia simplesmente dar paz a elas, não é! Depois de todo o sofrimento ele ainda quer vê-las sofrerem mais.
– Como eu faço para quebrar a maldição de vocês? – perguntei de maneira determinada. Eu não vou deixa-las sofrerem nem mais um segundo, se eu tivesse que ir atrás daquele lixo chamado Karl Heinz para obriga-lo a desfazer essa maldição, eu iria e usaria de qualquer artimanha para fazer com que ele as libertasse.
– Primeiro é necessário concertar o que foi abandonado, creio que seja essa parte destruída do jardim. E depois é preciso matar aquele que nos aprisionou ou faze-lo pedir perdão, todavia precisa ser um perdão sincero. – respondeu com a cabeça abaixada.
A primeira parte é muito fácil, tão fácil que quando ela me contou pensei que fosse ser moleza, só que tinha que ter uma segunda parte quase impossível, não é! Como é que eu faria o Heinz pedir perdão? Eu nem cogitava a hipótese de mata-lo, porque minha força nem se comparava com a de um vampiro e ainda mais um vampiro que eu apostava que tinha nascido na mesma época de Jesus Cristo.
Respirei fundo e pulei da mesa com determinação, eu não deixaria algo como isso me parar. Sabia muito bem que ser amaldiçoada era uma droga e faria de tudo para dar um pouco de paz a essas almas tão sofridas.
– Certo! Eu não vou deixar essa história do perdão me abater! Com certeza, vou libertar vocês! – falei empolgada.
– Tora-chan, você não pode fazer isso, fique longe do Karl ele só vai te quebrar. – Christa implorou desesperada, eu a encarei por um momento.
– Não, Christa-onee-san, eu não vou desistir! Mesmo que o Heinz me quebre mil vezes, eu vou me concertar, pois foi isso que eu fiz até agora desde o dia que minha mãe morreu. – falei confiante, meus olhos brilhavam. – Já perdi a conta de quantas vezes me estraçalharam desde que eu cheguei aqui, mas eu nunca desisti e nem pretendo, não até achar minha felicidade!
– Por favor, não se aproxime do Karl. – suplicou com os olhos cheios de lágrimas. Suspirei e fui até ela, a abracei fortemente.
– Onee-san, não chore! Nós duas sabemos que mais cedo ou mais tarde o Karl acabaria se aproximando de mim, a única coisa que eu vou fazer é tornar isso mais fácil para todos. – disse suavemente enquanto acariciava o cabelo dela, Christa se soltou e olhou para mim em dúvida. — Eu vou libertar todas vocês, nem que eu precise mata-lo para isso! – acrescentei com um olhar determinado.
Ela arregalou um pouco os olhos, nós duas sabíamos que aquela era a mais pura verdade, meu olhar não me deixava mentir e do jeito que havia me transformado não me sentiria nem um pouco culpada se o matasse, muito pelo contrário, eu estaria fazendo um favor ao mundo.
– Você realmente o mataria, não é? – perguntou fitando-me com seriedade.
– Sim, Christa-onee-san, eu o mataria. – respondi curta e objetiva.
– Se você está mesmo disposta a fazer isso, Tora-chan, então me prometa algo antes. – pediu com sua voz doce e cheia de dor.
– Claro, onee-san!
– Prometa-me que continuará viva, prometa-me que não vai deixar que te matem. – disse com certa urgência triste. Eu sorri ternamente e peguei as mãos dela apetando com força.
– Eu prometo, onee-san, prometo que não morrerei! E prometo ainda que viverei por vocês assim como vivo pela minha mãe! – prometi. Foi a vez de Christa me abraçar, ela me apertou com força e disse com carinho.
– Obrigada, imoto. – agradeceu. E aquela foi minha vez de chorar, porque mesmo que eu não quisesse lembrei-me da minha mãe e de como aquele pequeno gesto da Christa me desarmou totalmente.
Tudo que eu tinha para chorar eu chorei e quando finalmente as lágrimas cessaram eu estava pronta para encarar tudo e todos, eu tinha sete vidas e minha força era inacabável. O impossível não mais existe para mim!
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