Sangue Maldito
1 Mudanças
Notas iniciais


DEZESSEIS ANOS ATRÁS
Takayama Nana estava andando calmamente de volta à sua "casa", já era noite e as ruas estavam desertas. Ela pensava em como havia cometido um grave erro ao acreditar que o homem que a engravidara a amava, agora não tinha família, pois eles a expulsaram de casa e ela passou a morar de favor em uma pensão que era uma espelunca sendo obrigada a pagar sua estadia ali com trabalhos domésticos.
Assim, Nana voltava para onde moraria por tempo indeterminado enquanto pensava como foi tola por dar tudo para um homem que a tinha abandonado. Já na metade do caminho, a moça deparou-se com um estranho que aparecera subitamente, ele era sombrio e parecia assustador, isso a fez se encolher de medo.
— Com licença. – sussurrou Nana apreensiva tentando desviar do homem.
— Não tão rápido, querida! Há algo que quero tratar contigo. – interceptou ele, impedindo-a de ir embora.
— Eu não te conheço. Como o senhor teria algo a tratar comigo? – retrucou nervosamente, ela tentava inutilmente esconder o medo que gelava seus ossos. Havia algo nele que não parecia certo, não parecia humano.
— Meu nome é Karl Heinz e há algo em você que me interessa, por isso te levarei comigo. – informou sem rodeios com um leve sorriso cruel.
— Eu não vou a lugar nenhum com você.
— Então serei obrigado a te levar à força! – constatou casualmente, porém demonstrando sua impaciência ao agarrá-la pelo braço e arrastá-la para a escuridão. Nana gritou, mas não havia ninguém por perto para ouvi-la, ela não queria ir com aquele homem, mas não era como se tivesse alguma escolha.
— Por favor, não! – implorou chorosa, mas o homem não lhe dava ouvidos. – Eu estou grávida! – gritou desesperada numa última tentativa de fazê-lo parar. No mesmo instante Karl Heinz estacou e seu sorriso tornou-se ainda mais sinistro antes dele se voltar para a mulher.
— Que notícia maravilhosa! – deleitou-se, apesar do brilho em seus olhos demonstrarem um sentimento maligno. – Façamos um acordo então! – propôs.
— Q-que tipo de acordo? – perguntou assustada. O sorriso do homem aumentou e ele a largou, deixando-a caída em meio a terra.
— Você pode ter o seu bebê e cuidar dele até os dezesseis anos, até lá eu te ajudarei com as despesas do seu filho, mas um dia depois do aniversário da criança eu irei buscá-la e a levarei comigo. – respondeu calmamente.
— Eu nunca te deixarei levar meu filho. – retrucou determinada, cruzando os braços sobre seu próprio ventre. Karl Heinz aproximou-se de Nana ameaçadoramente e apertou seu rosto.
— Ou aceita isso ou levarei a criança logo que ela nascer.
— V-você não o faria. – gaguejou espantada.
— Quer apostar? – desafiou, ele não parecia estar brincando e a mulher percebeu que não tinha escolha. Aquele homem era poderoso demais, não havia escapatória.
— Tudo bem, eu aceito. – murmurou com a voz embargada.
Karl Heinz deu um sorriso satisfeito por ter conseguido o que queri e desapareceu. Nana nunca chorou tanto em sua vida.
AGORA
Tora
"Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary and thyme
Remember me to one who lives there
He once was the true love of mine
Tell him to make me a cambric shirt
Parsley, sage, rosemary and thyme
Without no seams nor needle work
Then he'll be a true love of mine"
Eu estava cantando calmamente no meio do jardim, não me lembrava muito bem quando minha mãe me ensinara aquela canção, mas eu nunca a esqueci.
Hoje era o meu aniversário de dezesseis anos e minha mãe disse que faria uma surpresa para mim, por isso eu a estava esperando enquanto fazia uma coroa de flores para dar a ela quando chegasse.
Voltei a cantar e logo ela chegou em casa.
— Mamãe! – exclamei alegre e corri para abraçá-la.
— Tora, minha tigresa! – ela retribuiu o abraço e depois me levou para dentro para me mostrar a surpresa.
Ao chegar à cozinha ela me deu uma pequena caixinha de presente, eu perguntei se poderia abrir, mas ela disse que era para eu esperar até que nós cantássemos os parabéns e comêssemos o bolo.
Bem, foi isso que nós fizemos, no entanto depois de comer o bolo eu comecei a me sentir tonta, um sono terrível me abateu.
— Desculpe-me, minha pequena tigresa. – adormeci após ouvir minha mãe desculpando-se suavemente.
Nana
Eu não queria ter que fazer isso com minha pobre filha, mas eu não deixaria que ele a pegasse sem ao menos dar a ela algo com que se proteger. Foi por isso que eu me preparei durante todos esses anos, foi por isso que eu descobri o que ele era, foi por isso que eu virei alquimista... Para que ele não pudesse usufruir do poderoso sangue de minha filha.
Eu peguei Tora em meu colo e a levei até meu quarto, depois de deitá-la peguei o frasco com a poção que demorei tantos anos para aperfeiçoar. Ela não era somente uma poção alquímica qualquer, era uma poção sem qualquer antídoto e a única pessoa que poderia desfazer a maldição contida nesse pequeno frasco era a pessoa que a carregaria consigo, minha preciosa tigresa.
Dei o líquido dourado na boca de Tora. Logo faria o efeito esperado.
Peguei então o frasco a mim destinado, esse, porém, não possuía uma cor tão bela e logo que eu o bebesse jamais acordaria. Eu não queria morrer, mas era necessário para esconder o segredo da anulação da maldição.
Rapidamente eu arrumei algumas coisas em cima da cômoda para que Tora pegasse quando acordasse. Sentei no chão ao lado da única pessoa que eu amei incondicionalmente e bebi o líquido que me levaria desse mundo, logo a sensação de cansaço foi chegando e se instalando no meu corpo, então eu adormeci para nunca mais acordar.
Tora
Meus olhos se abriram lentamente, eu me mexi tentando me espreguiçar, mas acabei tocando em algo gelado que estava do meu lado, levei um susto e pulei da cama. Quando olhei para ver o que era tão gelado, dei de cara com minha mãe sentada no chão com a cabeça apoiada na cama ela parecia estar dormindo, eu cheguei mais perto e percebi que ela estava muito pálida.
— Mamãe, você está bem? – perguntei a sacudindo. Ela continuou do mesmo jeito, nem sequer se mexeu. – Mamãe? – chamei, eu ajoelhei ao lado dela e a puxei para o meu colo, não havia pulsação, ela estava morta. – MAMÃE! – gritei o mais alto que eu consegui, eu sabia que não ia adiantar de nada, mas continuei a sacudindo e gritando.
Eu a abracei e comecei a chorar desesperadamente, parece que minha felicidade estava começando a acabar, sabia que um dia isso aconteceria afinal ninguém é feliz pra sempre. Mas... eu não queria que meu sofrimento começasse com a morte da minha mãe.
Eu não sei quando adormeci, nem quanto tempo passei dormindo, porém acordei com alguém batendo à porta da minha casa. Eu não queria abrir e simplesmente deixei baterem, as batidas cessaram e eu fiquei aliviada, porém um enorme estrondo veio em seguida, passos ecoaram pelo corredor da minha casa e então a porta do quarto da minha mãe se abriu. Eu não podia ver quem era, pois estava de costas.
A pessoa foi andando para perto de mim e tentou me virar, nisso eu me agarrei ainda mais forte ao corpo morto da mamãe.
— Ainda está viva, que bom. – disse uma voz de homem, eu não me virei apenas fiquei parada. – Venha, menina, eu vou te levar para sua nova casa. – ele tentou me puxar.
— NÃO!! – gritei e apertei a mamãe.
— Escuta, garota, se você não quiser morrer assim como a sua mãe é melhor você pegar suas coisas e vir comigo. – o homem falou isso com uma voz tão ameaçadora que eu soube que era verdade.
Levantei-me com o corpo da minha mãe em meus braços e a coloquei na cama, eu não queria deixá-la, mas eu tenho certeza que ela não queria que eu morresse, então eu viveria por ela.
— Ótimo, agora vá arrumar suas coisas e é melhor que seja rápida. – mandou impaciente. Eu nem prestei atenção ao rosto do homem apenas saí do quarto e fui até o meu, resolvi tomar um banho rápido para não ficar com aquela aparência. É claro que ainda havia muitas perguntas a serem respondidas, mas agora nada me interessava, eu apenas queria focar em uma coisa de cada vez.
Coloquei um vestido branco simples e uma sapatilha branca e parei em frente ao espelho. Eu estava um lixo, nem mesmo meus cabelos escarlates ou minha heterocromia verde e azul me livravam da expressão triste e abatida, tentei ensaiar um sorriso, mas a única coisa que eu consegui foi uma lágrima. Nunca fui muito boa em fingir, ou melhor, nunca precisei fazer isso.
Peguei minha mala e a coroa de flores que houvera feito para ela ontem e voltei ao quarto de minha mãe, coloquei a coroa nela e vi duas cartas e o meu presente de aniversário sobre a cômoda. Pensei em ler as cartas e abrir o presente, mas não queria começar a chorar de novo, enfiei tudo na mala e saí da casa em que vivi toda minha vida até agora.
— Entre no carro, por favor. – pediu o homem. Eu entrei e ele bateu a porta trancando-a, pensei que ele fosse entrar também, no entanto ele voltou para minha casa e quando saiu vi as labaredas destruindo a casa que fora meu lar. Eu queria gritar, mas lembrei que uma vez minha mãe me disse que queria ser cremada e não enterrada, por isso deixei que tudo se tornasse cinzas, talvez fosse melhor do que deixar tudo apodrecer e desmoronar.
O homem começou a dirigir e horas e mais horas depois nós paramos em frente a uma mansão enorme e sombria. Desci do carro e fui até a porta da frente, bati e nada aconteceu, eu a empurrei e ela se abriu. Quando entrei um homem com roupa de mordomo apareceu e tomou minha mala.
— Poderia dizer-me onde fica o meu quarto, por favor? – questionei calmamente, pelo menos era essa a impressão que eu tentava passar. De um jeito ou de outro, não era como se eu possuísse alguma escolha de estar ali ou não.
— Meus senhores estão te esperando na sala, por favor, siga esse corredor até a porta e entre. – disse-me e logo se retirou. Eu andei até a porta e bati.
Fale com o autor