Sangue, Lágrimas... Asas Negras...
1 Morre a criança...
Ciel foi conduzido para a sala do ritual. Seu coração batia acelerado... o que iriam fazer com ele desta vez? Sempre que era levado por seus algozes até esta sala Ciel sabia que sofreria... era surrado e sangrado, seu sangue coletado e oferecido em rituais bizarros por seus captores... Amarrado, torturado e humilhado... com o riso odioso deles ecoando em seus ouvidos.
Mas algo estava diferente hoje..., ele sentia. Quando vieram buscá-lo desta vez ele foi conduzido a uma pequena sala e banhado por mulheres mascaradas. Elas sorriam e o olhavam de modo estranho e sussurravam algo sobre inocência e como seria interessante.
– Um corpo suave e ainda puro. O nosso Deus apreciará o presente... As marcas do outro dia já quase desapareceram. – sussurrava uma delas acariciando a by Browse to Save\">pele clara e macia de Ciel...os hematomas da última sessão já pouco visíveis.
– As lágrimas terão um sabor by Browse to Save\">doce para o nosso Deus ... – ria outra, segurando seu rosto entre os dedos e rindo quando ele se afastou bruscamente.
–O que farão hoje? – Ciel murmurava assustado. Sabia que não responderiam. Suas respostas eram pequenos risos e olhadelas uma para as outras. – Por que fazem isso comigo? Nunca lhes fiz mal. Por favor, me ajudem. Por favor... – sentia-se fraco e vulnerável, incapaz de se proteger do que estava por vir, isso era a pior coisa... A sensação de impotência, de se ver á mercê de outros.
Elas o vestiram apenas com uma túnica impecavelmente branca. Seus pulsos presos a frente do corpo por algemas pesadas e velhas. E então ele foi levado por homens mascarados por corredores escuros. Os homens o olhavam e tocavam seus cabelos e suas costas. Ele se encolhia e se afastava a cada toque e isso os fazia sorrir e insistir em molestá-lo.
–Tem um lindo rosto... parece uma boneca de porcelana, Phantonhive... O que seu pai diria se soubesse o que vai acontecer hoje? – isso provocou a risada deles e um uma sensação angustiante em Ciel. Poderia ser pior? O que viria seria pior do que ele já havia sofrido? O medo gelava seu peito, a respiração acelerava. Seja o que for eles o sabiam e isso os agradava imensamente.
A sala de rituais era semelhante a uma arena circular. Desenhos estranhos no chão e nas paredes. Ciel notou que todos os lugares estavam ocupados, haveria uma grande platéia para a sua provação. Todos o olhavam e cochichavam uns para os outros. No centro da sala uma mesa longa, coberta com um tecido alvo e limpo.
Foi empurrado até ficar de pé ao lado da mesa. Seu corpo tremia... O coração acelerado. O sacerdote principal, um homem mascarado e inteiramente vestido de negro exceto por um colar ornamentado com pedras vermelhas pediu silêncio.
– Irmãos e irmãs! Hoje mais uma vez renderemos homenagens ao nosso deus. Ele garantirá nossos sonhos! Mas é necessário agradá-lo. Falta muito pouco para que possamos finalmente invocá-lo para este nosso mundo deplorável. – ele gesticulava para a platéia que ouvia com atenção. – A dor e o sangue já lhe foram oferecidos... hoje, a inocência! — Neste momento os mascarados irromperam em brados. – e em breve a vida... e então ele estará entre nós. E seremos nós os eleitos para governarmos o mundo junto a ele!
Ciel foi agarrado bruscamente e conduzido até o sacerdote que acariciou seu rosto sorrindo. Por alguma razão aquele gesto lhe traz a pior sensação possível. O olhar do velho estava carregado de sadismo.
– Inocente, teu sangue e tua dor são agradáveis para o nosso deus. Hoje tu o agradarás muito mais pois com dor e sangue oferecerá a tua inocência.... Um punhal brilha por um instante na mão do homem, que o agarra pelo colarinho. Ciel fecha os olhos e ergue os braços diante do rosto para tentar se defender do golpe. Mas a lâmina desce rasgando o tecido delicado de suas vestes ao invés de sua carne.
Espantado ele vê o homem reduzir a túnica branca em pedaços que caem aos seus pés. Em poucos momentos o pequeno se encontra totalmente nu diante dos olhares da bizarra assembleia. Estupefação. Choque. Seu rosto subitamente esquenta e ele tenta cobrir sua nudez com as pequenas mãos. O homem o segura pelos cabelos e o puxa para a frente fazendo com que erguesse o rosto e se expusesse para a multidão.
–O Inocente!! – ele ria enquanto todos ovacionavam – Uma criança imaculada!! Ó, nosso deus, te oferecemos o sangue, a dor, o corpo!! Te oferecemos o prazer e o pecado!! Somos teus dedicados servos!!!
Pequenas lágrimas turvavam a visão de Ciel enquanto seu rosto ardia de vergonha... Humilhado, exibido daquela forma aos olhares de dezenas de rostos mascarados.
“ Pai... mãe... Deus... me ajudem!” Ele suplicava mentalmente por alguém que viesse para salvá-lo de tudo aquilo. Ele ainda tinha esperanças de ser resgatado e levado de volta para casa, para sua tia Ann, tia Francis e Elizabeth.
O sacerdote faz um gesto na direção de três figuras vestidas de negro e estas se aproximam. O coração do menino dispara e o corpo se encolhe... seria surrado nu para o deleite perverso de todos?
Os vultos escuros se põem diante dele e retiram os mantos. Os belos olhos azuis do pequeno se arregalam de espanto, pois os homens conservam apenas as negras máscaras... estão tão nus quanto ele próprio. O que significava tudo aquilo? Por que se postavam diante dele dessa forma vergonhosa e inapropriada? Ciel tem seus pensamentos interrompidos por um doloroso puxão em seus cabelos. O sacerdote aproxima a boca de seu ouvido...
– Adoraria ser eu mesmo a fazê-lo... estou realmente aborrecido por ter de te ceder a outros... mas, talvez eu ainda possa ter este prazer... – com um risinho ele o solta e o empurra para os três homens. Ciel viu-se rodeado por eles e quando um deles o alcançou, fechou os olhos com força, aguardando os golpes violentos.
Mas estes não vieram... no entanto, algo mais perturbador ocorreu! As mãos começaram a acariciá-lo e Ciel notou que toda a assembleia se havia silenciado. O primeiro homem o tocou de forma estranha... Não era uma carícia como as de seus pais, suave e amorosa. Era furiosa, bruta. Os dedos dele lhe marcavam a pele clara e macia, provocando uma grande sensação de desagrado. Ao sentir as mãos descendo para sua intimidade o menino se afasta bruscamente e repele as mãos com um sonoro tapa.
– Afaste-se!! – Ciel bradou. As correntes em seus pulsos tilintando. O olhar temeroso se convertera em um olhar de fúria. Mas ele era pequeno e delicado e sua fúria não era suficiente para manter seus algozes afastados.
Sentiu-se agarrado pela cintura e puxado para os braços de um deles que passou a língua em seu pescoço, rindo. Enojado colocou ambas as mãos contra o odioso rosto e o empurrou com todas as forças, afastando aquele toque repulsivo. O homem não o largou mas sim o apertou mais em seus braços. Seu pés perderam o contato com o chão e ele gritou de medo e indignação ao sentir que outro deles colava o corpo ao seu, apertando com força as nádegas pequenas.
– Lute, Phantonhive...– Ele ouviu de um deles – torne tudo ainda melhor...
Foi levado até a mesa e forçado a deitar-se, suas correntes foram puxadas e presas em algo, forçando-o a ficar com ambas as mãos presas acima da cabeça. Desesperado, tentou novamente lutar ferindo os pulsos na tentativa de se libertar. Um de seus torturadores principiou a morder-lhe o pescoço e o peito, marcando-o ainda mais, outro tentou beijá-lo mas Ciel cuspiu em seu rosto. Suas pernas foram seguras e separadas...
...
Violação...
...
Ele gritou quando a dor o atravessou, os gritos de júbilo da multidão se uniram ao seu. Grossas lágrimas rolaram por seu rosto crispado e desesperado
– Onde estão os orgulhosos Phantonhive? – Ele ouviu de um de seus agressores – Queria que seu pai pudesse ver isto...
– Nada mais resta de sua honra! Mas você é realmente um brinquedo delicioso... huhuhu.... as brincadeiras apenas começaram – a cada movimento o pequeno arfava de dor e terror.
Quanto tempo durou o seu suplício? Ciel não saberia dizer. Seu corpo frágil e delicado utilizado ao bel prazer daquelas criaturas imundas, o sacerdote erguendo vivas, a multidão rindo e se alegrando com o seu sofrimento e as cruéis palavras de escárnio reverberando em seus ouvidos. Em dado momento perdeu a consciência, deslizando com alívio para a escuridão.
...
Despertou algum tempo depois e notou que estava de volta à sua cela, que de tão pequena mais parecia uma gaiola. Seu corpo todo doía e tremia incontrolavelmente... Estaria com febre? Não conseguia se mexer e mergulhou e voltou da escuridão várias vezes, perdendo a noção de quanto tempo estaria ali jogado, como algo sem valor.
Depois de um tempo considerável conseguiu, com muita dor e dificuldade, erguer-se e observou-se a si mesmo...a pele clara coberta de incontáveis marcas vermelhas que principiavam a arroxear... As lembranças do horror dançavam diante de seus olhos e ele soube que nunca mais aquelas cenas o abandonariam. Seus doces olhos se encheram de lágrimas amargas... sentia acima de tudo vergonha...
Lembrou-se de seu pai acariciando seus cabelos e dizendo, orgulhoso, que ele haveria de ser um dia o conde Phantonhive... Que serviria a família real lealmente como o fizeram seus antepassados, belos e terríveis. Sentia de forma irracional, que a humilhação, a vergonha, haviam atingido o nome de sua família por sua culpa. Ele era o último Phantonhive! Ele era a honra de seu nome! Mesmo tão pequeno Ciel tinha consciência do fardo que era ser um nobre das trevas.
Secou as lágrimas nas costas da mão ferida e seu olhar endureceu... “ Eu os farei pagar...” — Fungou e cobriu sua nudez com os trapos velhos que havia na cela – “ Eu os destruirei pela humilhação a que me sujeitaram...”
O pequeno não notara...mas num ponto afastado e escuro da masmorra, a escuridão parecia ter se adensado e um brilho escarlate faiscou em meio as trevas.. Uma sombra, uma presença, um observador. A pesada porta lateral se abriu dando passagem a alguns mascarados e a criança tem seus devaneios interrompidos. Outras crianças, também prisioneiras no calabouço mas separadas de Ciel em outra cela, se encolheram de medo.
– Ora, está desperto? Foi uma noite agradável, não é mesmo? – Ciel tem um choque ao reconhecer a voz... uma que ele nunca se esquecerá, a de um de seus violadores. Ele sorria sob a máscara e o estômago vazio do menino se revirou ante as cenas que voltaram com força a sua mente. O homem se agachou em frente á sua cela e falou com voz zombeteira: – Na verdade... gostaria de outras noites, tão deliciosas quanto foi esta.
Riram-se. O seu riso feria como uma lâmina a alma e o orgulho. Ciel os observava em silêncio sem conseguir conter o tremor que sacudia seu corpo. Seu olhar amedrontado aos poucos se tornando um olhar frio e ameaçador. Aos poucos os homens pararam de rir, incomodados com a intensidade do olhar daquela criança maltratada.
– O que está olhando? – o pequeno não baixa o olhar. Mesmo ferido e aprisionado... apesar de ser ainda um menino, Ciel tinha algo que fazia com que seu captor se sentisse inferiorizado. – um escravo não olha desta forma para o seu dono.
– Dono? Você se engana... — De repente era como se Ciel se transformasse em outra pessoa, não a criança assustada de há pouco. — Eu nunca te pertenci. Nenhum de vocês é meu senhor e seu deus nada é para mim... mas eu me lembrarei de vocês... e um dia vocês chorarão lágrimas ainda mais amargas que as minhas...
Na escuridão, um sorriso...
Por um momento o mascarado arregalou os olhos, mas rapidamente se refez e segurou o pequeno prisioneiro pelos cabelos:
– Nada seria melhor do que torná-lo meu mais uma vez, uma ideia deveras tentadora... – um espasmo de horror e repulsa percorreram o corpo de Ciel, mas sua resposta é firme!
– Não importa o que faça, não sou e nem serei seu. – O pequeno levantou o queixo e o encarou.
Irritado o homem o larga, mas a contrariedade logo deu lugar à crueldade, ele chamou um de seus companheiros e lhe sussurrou algo. A figura mascarada riu e deixou o local apressadamente. Os outros vão até um braseiro que ardia fracamente do outro lado da grande masmorra e avivam o fogo. O primeiro homem retorna e traz consigo um ferro semelhante ao usado para marcar o gado e o coloca sobre as brasas. Em pouco tempo o metal fica incandescente.
– Talvez você tenha razão. Você não me pertence mas sim ao nosso deus. Como prova você deve receber a sua marca. – seu sorriso exprimia um prazer sádico – já era mais que hora, na verdade... Tragam-no!
Ciel tentou lutar, mas a dor e a fraqueza devido a todos os maus tratos cobraram seu preço. Foi agarrado e levado para perto do braseiro. Diversas mãos o imobilizaram de joelhos, os braços firmemente presos, a cabeça forçada para baixo e o torso nu. Mais uma vez o desespero, o medo, a impotência... ouviu o crepitar do fogo e o som do metal sendo puxado para fora dele.
– Realmente é lindo de se ver... seu corpo será ainda mais belo marcado com este divino selo!
O ferro incandescente desceu sobre a frágil criança. Uma explosão de dor. Seu grito horrendo ecoou, fazendo as outras crianças chorarem aterrorizadas. O cheiro de carne queimada e as terríveis risadas são as ultimas coisas que Ciel registrou em sua mente antes de mais uma vez a escuridão o envolver.
...
Ciel despertou sem saber quanto tempo se passou. A dor latejante em suas costas fazia com que lágrimas descessem pela linda face infantil. A imagem de sua mãe, tão cuidadosa com ele quando ele adoecia, lhe veio a mente e seu peito doeu de saudade, ansiando pelo toque amoroso de suas mãos. Os alegres dias ao lado dela e do pai... seu amado cão brincando com ele nos jardins... tudo lhe parecia tão distante e irreal como as lembranças de um sonho. Ele realmente já vivera uma vida assim? Por que sua família lhe foi cruelmente tirada? Por que Deus permitira que todas aquelas coisas acontecessem? – “ Não... não existe isso de Deus...”
Ciel fechou os olhos e mordeu o lábio, cerrou as mãos com tanta força que as articulações dos dedos ficaram brancas. O ódio tomando seu coração.
“ Eles pagarão... eu os verei mortos! Cada um deles!” seus olhos se abrem e neles brilha o seu objetivo: vingança. – “ Eu me reerguerei e os caçarei... por tudo o que eu sofri e por toda esta humilhação... eu vou matá-los...
Um barulho interrompeu seus pensamentos, um som vindo da parte mais escura da masmorra. Parecia o som de asas, mas nada havia lá. No chão, próximo a sua cela, via-se uma única pena, tão negra quanto os abismos da alma.
Notas finais
Falando sério, demorei muito para escrever esta fic. Ciel sempre foi o meu personagem favorito de Kuroshitsuji e sempre me vinha á mente o período em que ele esteve no cárcere.
Quem acompanhou a série ou o mangá sabe que ele era uma criança muito doce e inocente... o que poderia ter acontecido para que sua personalidade mudasse tanto? Esta é a minha visão dos acontecimentos.
Agradeço ás minhas amigas especiais que me apoiaram e incentivaram... sem elas eu não teria posto esta fic no papel... em especial a Chibi Lord, você foi fundamental para esta fic. Obrigada!!!
Por favor, comentem. Ficarei feliz! Beijos.
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