Sangue Judeu
2 Capítulo I - Uma garota abandonada e uma senhora acolhedora
Notas iniciais
Fazia muito frio quando a mãe de Sara, Evelyn, cruzara o caminho entre um bairro e outro para pegar um trem. Nunca saberemos o paradeiro dela. Enquanto isso, Sara dormia, um sono profundo e cheio de sonhos, dava até pena de imaginar alguém acordando-a e dizendo que ela está sozinha no mundo.
Foi Gemma Madsen quem a encontrou primeiro, após ouvir a garota gritando o nome da mãe pela rua. Gemma, a senhora tão generosa que sempre dava doces para as crianças da rua, e estava sempre sorrindo, apesar da dor de ter perdido marido e filho na guerra. Ao ver a garota chorando, sentada na calçada, a senhora sentou com dificuldade ao lado da garota, que a abraçou e lhe contou tudo.
Sobre a descoberta da sua linhagem judia, sobre o desaparecimento da mãe, sobre como sentia a falta do pai, assim como parara de frequentar a escola há cerca de um ano, desde que a guerra havia começado. Nunca soube o motivo de ter tido que abandonar os estudos. O pai lhe dissera que era porque era muito perigoso sair de casa em tempos como esse.
~ Uma verdade bastante óbvia ~
O pai estava mentindo.
Ou melhor, omitindo a “verdadeira verdade”.
A mãe mudara repentinamente depois que o führer assumira o poder da Alemanha. O pai começara a viver em medo constante, até síndrome de pânico teve – não sei exatamente se naquela época já sabiam que essa doença tinha nome, mas isso não vem ao caso -. Sobre mim, há apenas 2 coisas que vocês precisam saber:
1. Não sou escritor;
2. Apenas narro fielmente tudo o que encontrei no diário de minha avó, Sara, e tudo o mais o que eu acho que deveria estar lá, como seus pensamentos mais profundos.
Voltemos à estória;
Quando parou de freqüentar as aulas, Sara era humilhada por seus antigos amigos do colégio. Chamavam-na de vagabunda, mata-aula, sem-futuro, e até de judia
~ Uma segunda observação ~
Eles não sabiam do pai de Sara.
O fato de terem a chamado de judia deve-se ao fato de que “judeu” era considerado um xingamento entre os alemães, pois significava insignificante, lixo.
Quando perguntava aos pais quando iria voltar para a escola, eles não respondiam. E então, algum tempo depois, veio um imprevisto.
Um pobre judeu doente não pôde ir a um médico.
Respirava, tossia, respirava, tossia, e depois, silêncio.
Sara acompanhou toda a sequência de tosses, e logo viu que havia algo errado quando o pai parou de tossir, e a mãe apenas concordou, sem nenhum sentimentalismo.
“Ela nem deve mais amá-lo” presumiu Sara, ao lembrar das constantes brigas entre os dois, e de uma vez em que o pai gritou, embriagado, que iria fugir de casa, e a mãe jogou uma garrafa em sua cabeça.
Claro que Sara ficou abalada, mas era uma garota forte e iria superar isso logo. Mas logo em seguida, veio um choque ainda maior: a sensação de ter sido abandonada.
Uma coisa era a sensação de ver uma pessoa querida morrer, mas saber que se ela pudesse não morreria, não deixaria você.
Outra coisa era estar desamparada, precisando de apoio da pessoa mais importante do mundo, e essa pessoa larga você.
“Será que ela ficou com raiva pela morte dele e por isso fugiu?” – perguntou à Gemma. A senhora apenas negou com a cabeça.
–“Nada justifica o que ela fez, menina.” – respondeu. A menina continuou a contar sua vida até aquele momento em detalhes para a senhora, que ouvia tudo atentamente. Ao terminar, Sara finalmente levantou da calçada e se dirigiu até sua casa.
– Warten – disse a senhora. Espere.
– O que foi, frau Madsen?
– Você acha mesmo que vou deixá-la dormir aí sozinha, schätzchen?
A garota sentiu um pequeno alívio ao saber que não ficaria sozinha.
Por esta noite.
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Passou rapidamente em casa e pegou algumas necessidades básicas para passar a noite na casa da vizinha:
– Um pijama;
– Uma escova de dente;
– Um pente e uma escova de cabelo;
– Seu diário.
Ao deitar na cama de hóspedes que Gemma havia carinhosamente preparado para ela, escovou os cabelos e perguntou baixinho:
– Para onde vão me mandar, quando souberem que não tenho mais responsáveis que cuidam de mim? – perguntou, com uma certa maturidade.
– Não sei, menina...mas vamos pensar nisso depois, você não teve um dia bom, descanse.
– Sim, frau Madsen.
– Pare de me chamar assim, que coisa – resmungou a senhora. Sara se desculpou, mas não conteve uma risadinha.
Ao deitar de bruços, abriu o diário e começou a escrever detalhadamente os últimos dois dias, à partir da morte de seu pai.
Seu futuro era incerto, e ela ainda iria passar por muita coisa.
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