Abri meus olhos e uma palavra surgiu na minha mente. Sangue. Nunca some de minha mente, parece que toda vez que olho algum ser vivo.

Minha mãe aparece na porta e coloca a cabeça para ver se eu já acordei. Ela apenas me olha e ascena com a cabeça.

Ela faz isso desde que me lembro, parece que ela sempre quer se certificar de algo. Sei que ela e meu pai nunca se casaram, mas parece que viveram juntos por um bom tempo.

Eleanor já me contou a história de como eles se encontraram muitas vezes, mas acredito que ela esconde algo.

Levantei da cama e segui para me vestir, uma calça marrom simples acompanhada de uma camisa com capuz azuis. Botas de couro gastas estavam próxima a cama. Após colocar as roupas olhei para meu pequeno quarto.

Ele tem uma janela, que fica em cima da cama, um guarda-roupa na parede próxima a cama. Uma penteadera antiga fica de frente para o guarda-roupa. A porta estava de frente para a cama. Fui até o espelho para dar uma olhada em meu rosto.

Olhos vermelhos com pupilas verticais, escamas vermelhas que subiam do meu tronco até minhas bochechas. Cabelos negros escondiam pequenos chifres laterais. Minha orelhas eram como as da minha mãe. Humanas. Me levantei e olhei para meu corpo, nada mudou, tinha 1,40m de altura, minha cauda devia ter uns 80 cm de comprimento, creio eu... Após isso fui para a cozinha, minha mãe já devia estar com o café-da-manhã pronto.

Assim que cheguei lá, vi a mesa, torradas, bolo, leite, café, queijo e presunto. A cumprimentei com um beijo e um bom dia. Sentamos na mesa e agradecemos a refeição. Comi com vontade, pois ela tinha uma mão divina nas preparações de comidas.

Após comermos, fomos lavar as louças, sempre a ajudava. Pois quando estava sozinha ela colocava uma expressão triste em seu rosto, como se estivesse em um lamento eterno. Somente uma vez a vi chorar. E acho que sei o motivo desse luto eterno. Ela se culpa pela morte de meu pai, Zenon Sharpscale.

Não temos nenhuma foto dele, mas minha mãe fala que me pareço muito com ele, e sempre que ela me vê, se lembra de como o amava.

Já a perguntei algumas vezes por que eu tinha uma cauda, mas ela disse que era para esperar, pois logo eu saberia.

Lavamos a louça juntos e fomos para os fundos da casa para trabalharmos na fazenda que minha mãe cuidava. Todos os dias regávamos, podávamos, colhíamos as plantas que tínhamos. Algumas vezes eu saia pela floresta para pegar algum animal selvagem para a nossa próxima refeição. Também cuidávamos de algumas vacas, ovelhas e galinhas. Era nesse lugar que passávamos a maior parte de nossos dias.

Algumas vezes ao mês minha mãe saia de casa para ir à cidade, ela nunca demorava muito, mas sempre voltava com coisas que não tínhamos em casa. Nesse meio tempo eu ia pescar, ou caçar, algumas vezes ia para a floresta apenas para subir nas árvores ou ir em alguma cachoeira próxima.

Hoje era um desses dias em que ela ia para cidade, nunca tinha ido a este lugar. E quase a perguntei se queria que eu a acompanhasse, mas algo em seu olhar me deteve.

"Voltarei antes do anoitecer. Amanhã é uma data especial, e tenho que ir comprar algumas coisas." Amanhã era meu aniversário, 13 anos... uma data que para ela parecia ser especial.

"Tudo bem. Não se preocupe, cuidarei de tudo enquanto estiver fora." Sempre dizia isso para ela, mas ela sabia, eu apenas ia fazer alguma coisa fora de casa. Pois esta já estava arrumada, pois sempre cuidávamos de tudo isso todos os dias.

"Certo, se cuide Y'allaer." Ela aproximou e me deu um beijo na bochecha. E era nessas horas que um lindo sorriso aparecia em seu rosto. "Deve ter sido por isso que meu pai se apaixonou por você." Foi o pensamento que cruzou minha cabeça.

Fomos até a porta juntos, e a vi seguir uma pequena trilha até sumir no meio das árvores. Agora era a hora na qual eu podia ir para uma das cachoeiras que tinha descoberto ali perto. Esperei por alguns segundos ali na porta. Fechei a casa e me dirigi para a cachoeira que costumava ir.

Andei por alguns minutos até começar a ouvir a queda dela, ela não estava a mais do que 30 minutos de caminhada.

Tirei a roupa para que esta não molhasse, subi e a amarei em um galho alto de uma árvore próxima. "Ninguém olha para cima." Esse pensamento sempre estava certo. Já testara várias vezes com minha mãe.

Desci e pulei na água fria da cachoeira, que sensação maravilhosa. Alguns minutos passaram e comecei a nadar por toda lagoa que tinha sido formada, não vi nada de estranho por ali. Continuei até o mais perto que pude da queda d'água e um buraco podia ser visto ali e jurava que ele não estava ali antes. A pedra antes era lisa e sem nenhuma entrada, como ele tinha surgido? Não devia ter mais do que 5m de altura, e outros 5 de largura, a cachoeira tinha 3 vezes esse tamanho.

Sai da água e me dirigi ao buraco do jeito que estava. Passei pela queda d'água e seu enorme barulho e entrei na caverna.

Estava mais frio aqui dentro do que o lado de fora, gostas estavam caindo do teto, estalactites e estalagmites podiam ser vistas no interior, mas a iluminação era pouca e não dava para ver muito, mas minha visão foi se ajustando enquanto eu entrava na caverna. Senti algo entre meus pés, e quando me abaixei para ver o que era, vi uma placa de metal e algumas outras podiam ser vistas mais a frente, tudo estava enferrujado, havia alguns pedaços que estavam negros, havia partes de armaduras, espadas, machados, lanças por todo lugar. Mas o que mais chamou minha atenção após olhar para tudo aquilo, eram os ossos.

Esqueletos estavam sob armaduras, muitos estavam com falta de membros, um braço, uma perna, outros não tinham cabeça. Mas o que mais me surpreendeu, foi o outro esqueleto que estava mais a frente. Era grande, devia ter uns 8 metros de comprimento e a altura deveria ter alcançado os teto da caverna, mas aqui, o teto era bem mais alto, uns 15 metros de altura, talvez, a criatura deveria ter uns 5 ou 6 metros de altura.

Agora apenas seus osso estavam nesse lugar, um túmulo para ele. Só havia uma única palavra para descrever o ser monstruoso em minha frente. "Pai." Foi a palavra que veio a minha mente. Mas não devia ser ele... esse eram os restos de um dragão. Essa era a palavra que eu procurava. "Por que chamei o esqueleto de pai?" Foi a pergunta que me seguiu todo o caminho até a saída da caverna.

Cheguei lá fora e senti meu corpo relaxar, sai de trás da cachoeira, pulei novamente na água e deixei meu pensamentos escorrerem junto com a água que passava pelo meu corpo.

Eu tinha explorado todo o lugar por 1 hora, creio. Portanto era hora de ir pescar ou caçar.

Decidir ir atras da caça. Essa é uma ótima época para pegar coelhos. Sai novamente da água, subi a árvore e coloquei as roupas quando já estava seco. Voltei para a casa e peguei o arco e flecha, e a faca de caça que usava para limpar os animais pegos. Entrei na floresta atras de algum coelho, as carnes deles era macia e muito gostosa, minha mãe adorava, eu não posso falar nada, sempre gostei de carnes.

Não demorou muito para que eu encontrasse dois coelhos. O jantar será muito bem acompanhado com carne fresca de coelho. Atirei uma flecha no pescoço de um deles, e antes que o outro pudesse fugir a segunda flecha já estava a caminho de seu alvo. Demorei um pouco para lançar essa segunda flecha, mas consegui o desejado, a segunda também acertou a garganta.

Voltei a casa, e prontamente os limpeis, aquele sangue que sujou minhas mãos estavam me dando uma enorme vontade de devorar a carne deles do jeito que estava, mas me segurei, a carne cozida é muito melhor, lembrei a mim mesmo, mas... não tive auto controle o suficiente, acabei por beber um pouco do sangue deles. "Minha garganta estava seca." Acho que essa foi a pior desculpa que já dei. Mas me acalmei e voltei a tarefa. Terminei-a rapidamente e entrei na casa com os roedores já limpos e os coloquei no recipiente que minha mãe chamava de gelatório. Apenas um aparato que tínhamos em casa, um cubo de madeira que deixava a carne fria e evitava que ela estragasse.

Fui para dentro de casa para esperá-la, o crepúsculo estava chegando e ela logo voltaria.