Sangue Etereo - O Homem do Braço de Ferro [Parada]
2 Capitulo 2
Notas iniciais
“Onde fica o Templo do Sol?” Eu falei em sua mesa, aparentemente nenhum dos policiais se deu o trabalho de olhar minha cela.
–Na minha cozinha! – Ela me falou com sarcasmo na voz – Claro que em San Auren, onde mais seria?
Eu ri baixo, não entendia a nomeação do lugar com o nome do santo dourado para um local onde neva o ano inteiro, mas Verta não entendia a graça e continuava a falar.
“Em que parte?” Eu fiz os sinais impaciente escondendo minha alegria.
–Perto das ruinas de Ahtre, escondido entra as neves...
Ela tagarelava falando sobre como os templos são grandes mas bem guardados, eu sabia onde ficava os templos escondidos, claro, passei a maior parte de minha vida vivendo neles.
–O Templo e protegido dia e noites por Sentinelas e Guardiões, peça a sua deusa que o proteja se lhe capturarem.
“Não sirvo a nenhuma deusa”
–Porque um Servo de dieu não serve a nenhum deus? Se é um sacerdote você deve servir algum deus – Ela disse dando ênfase no “deve”.
“Eu não sirvo a nenhum deus, eu sirvo apenas a morte”.
–Macabro, bien... – ela falava enquanto pegava um mapa. – Nesta região que esta o templo, é impossível vê-lo por causa das nevascas, então tome cuidado para não aparecer bem na cara de um sentinela.
“Porque você faz isso?”
–O que?
“Falar em francês, depois voltar ao inglês, mesmo que fosse francesa você não faria isso, é no mínimo, irritante”.
–Você tem certeza, não sou francesa... – Ela falava com um tom triste que logo sumiu – Mas sou canadense, francês é minha segunda língua mon cherie e se quiser posso falar o quanto quiser.
“Fique a vontade, e faça o que quiser, mas me diga como a sentinela que eu devo sequestrar se parece?”
A palavra soava errado em minha mente, não gostava da ideia de sequestrar ou roubar, a única ideia que não me parecia estranha é matar, mesmo que fosse um tabu alguém considerado santo ferir ou matar, a ideia não me parecia nada esquisita, me trazia até mesmo alegria.
–Cabelo loiro, preso em uma trança, saberá quem é ela ao ver a lança vermelho sangue apelidada de Cain, também ela usa o cabelo escondendo o olho esquerdo.
“Devo trazê-la a força?” Fiz os sinais esperando ela entender o sarcasmo.
–Ela sabe que estará indo, e Leyfhain...
Eu olhei para ela com uma cara de entediado, basicamente falar com alguém que não entende direito os sinais era uma dificuldade, mesmo sendo uma língua criada por comuns, os sinais eram fáceis de entender, basicamente todos que viviam ou faziam parte de uma ordem entendiam os sinais.
–Ela é uma Filha da Luz, mas principalmente, ela é a chave, a traga viva, mesmo que custe sua vida.
“Valeu pela sinceridade que me toca a alma” eu fiz os sinais com uma cara de sarcasmo “Algo mais que eu deveria saber antes de trazer a santa que não é santa?”.
–Sim, avec une croix vaine...
Eu parti em meio as sombras, se ela falou algo depois disso, eu não consegui ouvir.
As palavras ressoavam em minha cabeça nas sombras, a viagem durou apenas alguns segundos e eu senti o vento frio em minha face, viajei mais dois quilômetros antes de me deparar com o templo, não parecia tão guardado, mas as sombras mostravam a realidade.
Eu sentia pelo menos cem pessoas naquele local, eu tentei sentir uma pessoa em especial, a única que ressoava maligna.
“Achamos” Lilith ressoou em minha cabeça.
Sentir pessoas era fácil, não era necessário um dom extra, apenas contar quantas sombras humanas haviam no local, Radamis me ajudou a entender isso, nunca vou entender como um Filho do Vento sabia tanto sobre meus dons.
“Avec une croix vaine” me ressoou na cabeça, a frase em francês de “Como uma cruz em vão” me provocou um arrepio na espinha, cruzes significavam morte para outros, para mim apenas um pedaço de madeira em uma forma estranha, mas como eu sabia o significado para eles, eu entendi o que Vertas me disse.
Há uma morte a espera.
E ela não estava programada.
Uma lufada de ar quente subiu em minha garganta no momento em que apareci no templo, diferentemente do ambiente lá fora, o interior do templo era quente, quase como se as paredes irradiassem fogo.
“Templo do Sol.” Soava em minha mente.
“Leyfhain, você além de inútil é burro.” Eu xinguei a mim mesmo em minha mente.
Meu corpo ainda envolto em sombras era difícil de ver, mas uma figura olhava em minha direção, seus cabelos loiros me diziam problema, mas algo emanava dela.
“Corra!” Falou Lilith em minha mente.
Mas, minhas pernas não mexiam, era como se eu não pudesse mexer meu corpo, Lilith pressentia o perigo e se soltou de meu braço, mas a figura não se mexia, não se preparava para soar o sino e nem se preparava para atacar.
“Ela esta com tanto medo quanto eu.” Pensei.
Eu fitei os olhos, azuis como todos os filhos da luz, mas algo estranho se mostrava em seu olho esquerdo, mesmo que escondido pelas mechas, ainda era possível ver algo...
Seu olho esquerdo era apenas um vermelho incandescente.
–Não saia dai – Ela disse baixo. – Qualquer movimento e eles iram ver você.
Eu obedeci enquanto ela levava à mão a lança, seus olhos percorriam o corredor em que ela estava, seus olhos começaram a percorrer tudo.
“Sentinelas.” Eu pensei. “Havia me esquecido que eles enxergam além de objetos”
–Limpo – Ela sussurrou – Pode sair.
Eu sai das sombras esperando uma reação de medo ou de fascínio, mas ela apenas me olhava com duvida.
–Vertas me disse que um sacerdote me esperava, não um punk com um braço de ferro... – Ela falou – Talvez ela tenha errado e pedido a qualquer ninjazinho para me tirar daqui.
Eu nunca senti como Lilith era leve até o momento em que eu quase quis corta-la ao meio, a alma de Lilith desejava a mesma coisa, mas eu me segurei, e fiz os símbolos com a cara mais maligna que pude fazer.
“O que lhe aflige filha da luz?”
–O que lhe aflige filho das sombras?
“Vai ficar admirando a vista ou vai me seguir?” Fiz os sinais impaciente
–Estranho um sacerdote se vestir assim... – Ela falou em um tom mais alto e reduziu de volta a voz. – Mas vamos, não quero correr o perigo de ser chamada de herege.
“Podemos mata-la? Vai ser rápido como piscar.” Por um momento, eu concordei com Lilith.
Quis aparecer e derruba-la em um vulcão, ou aparecer nas profundezas do oceano e larga-la, minha raiva explodia rapidamente, mas eu pensava em um modo de escapar daqueles fanáticos, e este era o único jeito, ajudando uma sentinela mimada.
“Podia ter arranjado uma presa mais calma” Lilith sussurrou “Talvez até mesmo um espirito zangado, conseguiria pensar melhor do que ter uma sentinela mimada do meu lado”.
Falar com Lilith era estranho, não sabia se outros filhos do éter podiam conversar com suas armas, se não podiam, eu invejava eles, quando Lilith falava, o tempo praticamente parava, apenas eu conseguia entender, se alguém ou algo tentasse ler minha mente, apenas ouviria um som, como uma lamina cortando o vento.
Radamis me disse que isso foi um modo de apenas o filho do éter e seu Nether falarem, os deuses temiam que outros filhos tomassem as armas de outros de modo em que somente um filho do éter é capaz de manipular apenas um Nether.
Eu sentia saudade dele, saudade do velho rabugento que reclamava de como eu era um adolescente rebelde, reclamava sobre como eu era indisciplinado, reclamava de como eu explodia em raiva, saudade de como ele se importava comigo.
Meu braço foi uma forma de Radamis me ajudar a manipular Lilith, uma forma de eu conseguir lutar com ela sem arrancar meu braço fora, já que isso era a única maneira de alguém me derrotar em um combate de vida ou morte.
Saímos no meio de alguma cidade na Rússia, em um beco que eu esperava não ter ninguém, a Sentinela cambaleou assim que saiu das sombras e vomitou, minhas pernas ficaram bambas e eu cai de joelho, me recompondo no mesmo instante.
–Podia ir mais devagar? Eu quase vomitei minhas entranhas fora! – Ela berrava furiosa – Se não tivesse me...
Eu simplesmente comecei a andar, não havia tempo para respostas, não tinha forças para levar duas pessoas a uma distancia tão grande, e faltava meio continente para chegarmos ao templo de Vahvi.
–Não me deixe falando sozinha! – Ela ainda berrava. – Você não sabe o que eu sou capaz!
Eu olhei para as janelas dos prédios, quem ouvisse pensaria que somos um casal discutindo, outros olhavam esperando um espetáculo acontecer.
–Olhe para mim quando eu...
“Se quiser berrar, então berre com seus subordinados, não sou seu filho nem mesmo um de seus soldados, então se quiser chegar viva ao templo de Vahvi então fique calada e não reclame”.
–Eu reclamo o quanto quiser, sou Kayra Veridinus, descendente direta de...
Eu a interrompi enquanto fazia o sinal de “Fale com a mão” e continuei o trajeto, senti a raiva dela aumentando enquanto ela soltava a lança pronta pra me atacar, mas a minha reação rápida a assustou no momento em que agarrei suas mãos.
“Eu não gosto de você, nem você de mim, se quiser chegar ao templo e cumprir a dita profecia que Verta me disse então cale a merda da sua boca”.
Ela me lançou um olhar assassino e depois fez o mesmo para os espectadores nos prédios, ela me seguiu arrumando a lança de volta a o tamanho pequeno.
–Se tentar qualquer coisa, eu vou...
Continuei a andar, ignorando as ameaças dela, cantava um mantra em minha mente para me acalmar, podia ter passado quase minha vida inteira em um templo, mas mesmo assim eu conseguia me estourar rapidamente.
Radamis dizia que era devido a meus traumas e também a minha personalidade que ele “tentou” doma-la, como ele mesmo dizia, um fracasso.
Ele esperava que Leira fosse mais calma, mesmo não nascendo com runas e nem com poder completo ela podia ser forte.
E justamente por esse motivo que ela morreu primeiro.
“Vamos nos vingar deles, algum dia, se mantenha a salvo, por favor.” Lilith ressoava novamente.
–Aonde nós vamos? – A Sentinela falava em tom choroso. – Estou cansada, com fome, sai antes do desjejum.
Deuses, podia ter pego até alguém da Aliança Douyada e eu com certeza me daria melhor do que com esta Sentinela, o tom de voz e o jeito de que se comportava mostrava que ela não era alguém importante em seu templo, mas como alguém que é apenas uma sentinela era a chave pro Inhkrus?
–Eu era uma Guardiã, fui rebaixada por procurar a verdade, rebaixada a ser apenas uma Sentinela. – Ela falou como se tivesse lido minha mente.
“Então porque uma guardiã tem poderes de uma sentinela?”
–Porque eu sempre tive, fui promovida a Guardiã depois de anos como Sentinela, e voltei a mesma posição depois que eu descobri que era filha de um Oraculo.
“Então você deveria ter sido uma Oraculo?”
–Não nasci com o dom da visão por isso sou apenas uma subordinada delas.
“O segredo era tão grande para ser escondido dessa maneira?”
–Oraculos não devem ter filhos, eles devem permanecer puros a vida inteira, sou considerada uma aberração.
“Então por isso que te amaldiçoaram?”
–Eu fiz isso, quando descobri a verdade desencadeei a ira do fogo, e agora estou assim.
Não entendi a súbita mudança de personalidade, ela olhava pro céu como se falasse com alguem, devíamos chegar a algum esconderijo rápido, estar com uma mulher portanto uma armadura no meio de uma cidade era chamativo.
–Onde nós vamos?
“A um templo da ordem em uma cidade próxima, mas não tenho forças para nos levar até la”
–Então dormiremos na rua?
“Não, eu conheço alguém que pode nos ajudar”
Eu realmente não saberia se ele iria me ajudar, não falo com ele desde que tive aquele encontro com a aliança, para minha sorte havíamos saído na mesma cidade que ele vive, senão estaríamos perdidos.
–E quem é ele? – a Sentinela me olhou, preocupada
“Apenas um amigo, Sentinela”
–Eu tenho um nome você sabe, me chame de Kayra
“Ka-i-ra?” Eu fiz os sinais, brincando com o nome.
–Significa “Aquele que enxerga ao longe”
“É um nome masculino, você sabia?”
Ela apenas emitiu um ruido irritado, sabia que eu estava brincando, mesmo que Kayra realmente fosse um nome masculino.
A cidade parecia calma, considerando que não era uma cidade grande, mas ainda era possível ver vários carros ocupando as pistas, chegamos a um prédio pequeno com alguns símbolos russos em uma placa discreta.
–“Aren Inovsky Dettive Particular?” – ela falou em duvida ao ler a placa traduzida em um inglês horrível.
“Um amigo meu”
–Podemos confiar?
“Odeia qualquer coisa relacionada a Aliança tanto quanto eu”
–Porque você odeia a Aliança tanto assim? Que eu saiba, eles não fizeram nada ruim além de serem totalmente fanáticos.
Eu fiquei quieto, não queria relembrar os vários motivos, Fanatismo, Querendo o controle sobre todos os filhos do éter, e destruir todos que eles consideram inimigos, a qual eu já estava na lista.
Dei três batidas na porta, nenhum reação la dentro, continuei a bater na porta, me comportava calmamente até eu perceber que comecei a dar socos na porta.
–Talvez não tenha ning... – As palavras de Kayra foram silenciadas quando ouvíamos vários xingamentos em russo
–Kakogo cherta khochesh' ty? – O homem disse ao abrir a porta
Eu pigarreei enquanto o homem me olhava, os cabelos curtos quase raspados castanho claro, o porte musculoso, algumas tatuagens apareciam em seus ombros escondendo as runas, seus olhos castanhos escuro como a noite olhavam confusos, usava um roupão vermelho desbotado, parecia tão assustado quanto alguém que visse um fantasma.
Nos olhávamos quietos por alguns segundos
–Leyfhain? Privet Ley! – Ele quebrou o breve silencio e sorriu ao se inclinar para me abraçar.
“Já disse que não falo russo direito Aren” Eu disse usando sinais em russos enquanto me afastava dele.
–Você esta na Mãe Russia! Espera que eu fale uma língua yankee?
“Porque nós não falamos russo Viking, bom, ela não fala” Continuei com o russo.
Kayra olhava como se estivéssemos falando besteiras, a única palavra que provavelmente entedia era “Viking”, não a culpava por não entender, mesmo que eu tivesse passado quatro anos na russia, ainda não entendia o russo completamente.
–Porque esta aqui Ley? – Aren disse com o inglês, usando o apelido que Leira havia me dado – Tem alguma missão ou problema por essas regiões?
“Quase, precisamos de algum lugar para ficar”
–Ora, pode ficar o tempo que quiser, por curiosidade, qual a sua missão?
Eu olhei para ele com uma cara de “você sabe que eu não posso contar” na qual ele entendeu ao voltar-se para dentro, disse algumas palavras a qual eu entendi foi “levanta dai” e algo sobre um cachorro.
Aren era um amigo antigo, considerava ele a única pessoa a qual confiava minha própria vida, encontrei com ele em Moscou quando meu braço parou de funcionar corretamente e tive que pedir ajuda, na época que o conheci eu era somente um adolescente e ele, um policial, desde que acabei o salvando quando a Aliança tentou usa-lo como isca para mim ele se sentiu grato, podia ter saído de la sozinho se não tivesse medo.
Medo...
Essa sensação nunca conseguiu me dominar.
Não havia me escondido por medo de minha vida, mas sim por Leira, que era a única pessoa a qual eu me importava muito.
Mas agora ela estava morta.
E eu não sinto mais medo.
–Onde esta Leir... – Aren falava até perceber minha face, diferentemente de sua origem, que eram ferreiros, Aren possuía um dom diferente, ele era forte sim, mas ele entendia as pessoas, mais do que elas mesmas. – Ley eu sinto muito...
“Não se preocupe, eu estarei bem”
–Quer ajuda na vingança?
“Lilith não quer concorrência”
Kayra pigarreou, havia me esquecido que ela estava ali, a Sentinela olhava para Aren como se fosse uma fera selvagem, esperando que ele subitamente atacasse, seus olhos se mostravam em uma mistura de medo e duvida.
–Podemos realmente confiar nele? – Ela sussurrou.
Ignorei Kayra e entrei no pequeno escritório que Aren usava como casa, Kayra balbuciava algo mas eu continuava a ignorar ela, um enorme cachorro malhado estava sentado, amarrado a uma corda, não entendi porque Aren estava com um cão desse tamanho nesse escritório.
–Não confio nele, porque estamos aqui? – Kayra sussurrou
Ignorei ela e subi, fiz os sinais de “Tesoura?” para Aren que apontou para o banheiro e sumiu atrás de um porta, caminhei ignorando qualquer tentativa de Kayra de falar que não confiava em Aren, ele podia aparentar ser um bruto, mas eu confiava mais nele do que qualquer outra pessoa.
Eu me olhei no espelho, entendia o porque duvidarem de eu ser um sacerdote, meu cabelo ja estava chegando a meu ombro, mas eu não podia parecer totalmente um sacerdote, devia fazer algo que eles não estranhariam.
A unica ideia que eu tive, foi de continuar a parecer com um punk.
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