Sangue E Fogo - O Mistério Da Minha Vida
2 Capítulo 2 - O Último Adeus.
Notas iniciais
A música desse capítulo é: Open Your Eyes - Snow Patrol. (http://www.youtube.com/watch?v=fk1Q9y6VVy0)
Capítulo 2
Liza... – Eu ouvi a voz conhecida me chamando e olhei para os lados a procura da dona da voz.
-Júlia! – Eu exclamei me levantando da cama e indo em direção à porta do meu quarto, onde ela estava. Eu até então, tentava sem nenhum sucesso dormir quando ela apareceu no meu quarto. – Oh meu Deus! Eu sabia que você não estava morta! Eu sabia.
-Acalme-se Elizabeth, acalme-se- Ela dizia enquanto eu a abraçava de modo tão desesperado que a fez recuar.
-Eu não entendo... Por que todos acham que você morreu? E onde você estava esses dias todos?- Eu perguntei devidamente confusa.
-Elizabeth... Eu estou morta sim e isso é apenas um sonho.
-Sonho?! Não, eu estou te vendo, você não está morta! – Eu disse irritada. Por que ela estava dizendo aquilo?
-Eu vim por que precisava te entregar uma coisa. – Ela disse enquanto tirava do pescoço um medalhão e estendia a mão indicando para eu o pegar. Assim o fiz. Quando o metal dourado tocou a palma de minha mão, foi como se eu estivesse caindo de uma altura muito alta e de repente acordei assustada e lágrimas caíam dos meus olhos, por constatar que não passara de um sonho.
Haviam se passado duas semanas desde o falecimento de Júlia. E eu, definitivamente, não estava bem. Estava tendo consultas regulares com o psicólogo e agora tomava calmantes todos os dias. Demorei dias para poder aceitar a morte de minha amiga.
Meus pais decidiram que seria melhor que tirasse um tempo longe da cidade, e dos problemas em geral. Então eu iria passar as férias de verão na casa de minha avó na Flórida. Brian, um de meus amigos, se dispôs a ir comigo, e eu, que não estava nem um pouco a fim de ir sozinha, aceitei de prontidão. Não me leve a mal, eu gosto de visitar a minha avó, mas eu precisava de alguém que me entendesse, que sentia pelo menos um quarto da dor que eu sinto. Eu precisava de alguém que estivesse nessa junto comigo, e não por minha causa. Não, eu não deixaria ninguém penetrar neste meu pesadelo, era perigoso demais para eles. Sem contar que seria egoísmo da minha parte envolver mais gente nesta história, não, já tinha muita gente sofrendo.
Eu acabara de acordar, iria hoje para Okeechobee, na Flórida, saíria do interior de minas para ir pra Flórida. Mas antes, iria ao enterro de Júlia, que demorou tanto para acontecer por causa da relutância da sua mãe em deixar o corpo.
Levantei-me e meus olhos não acreditaram no que viam, era o medalhão, o mesmo que Júlia me dera no sonho, e que agora, ele estava no meu criado mudo. Eu, certa de que isso era apenas coisa da minha cabeça, segui sem olhar pra trás até o meu armário, de onde tirei um tubinho preto. Em seguida fui ao banheiro me arrumar.
Tomei uma ducha quente e em seguida vesti o tubinho que havia separado. Até que ouvi batidas na porta.
-Entra
-Bom dia filinha- Sim, era a minha mãe.
-Bom dia mãe. – Eu disse enquanto ela se sentava na minha cama e eu pegava minha escova na penteadeira e tentava pentear os longos – e embaraçados – fios loiros.
-Venha aqui, deixe que eu lhe ajude- Ela disse tirando a escova de minhas mãos e conseguindo em um minuto, o que eu não conseguiria nem com cinco, arrumar e trançar o meu cabelo.
Então ela pesarosa olhou em direção ás minhas malas prontas ao lado da porta.
-O que foi mãe?
-É... É que eu não queria ficar longe de você, não agora que você precisa tanto de mim- Ela disse e então eu a abracei carinhosamente.
-Eu vou ficar bem mãe, eu prometo.
-Ei, que medalhão é esse? – Ela perguntou indo até o meu criado mudo, e para o meu espanto levantou na altura dos olhos o mesmo medalhão do meu sonho.
-F-foi Júlia quem me deu- Eu não menti não é mesmo? Afinal ela não acreditaria se eu dissesse que sonhei com ele e de repente ele apareceu no meu quarto.
-Hum, vou deixar você acabar de se arrumar. – Ela disse já saindo do quarto, mas não sem antes me dar um beijo na testa, assim como ela fazia quando eu tinha seis anos e não conseguia dormir.
Assim que a porta se fechou, eu me sentei novamente na cama e fiquei olhando para o medalhão. Peguei-o e senti um leve formigamento na palma de minha mão. Ele era feito de ouro e na parte de cima havia um desenho de um castelo. Passei levemente o dedo sobre o fecho do medalhão onde ele se dividia revelando seu conteúdo, mas antes que eu pudesse abri-lo minha irmã abriu a porta do meu quarto e eu me levantei rapidamente deixando o medalhão ir de encontro ao chão.
-Bom Dia- Ela disse se sentando na minha cama onde eu tornei a me assentar.
-Bom Dia Lílian.
-Ei, eu só passei para te dar um abraço e desejar boa viajem, sentirei saudades de você aqui. – Ela disse passando uma das mãos por sobre o meu ombro em um meio abraço.
-Eu também sentirei a sua falta, muito.
-Você sabe como eu gostaria de ir com você, mas... – Ela começou a dizer, mas eu a interrompi. Durante essas duas semanas nós nem ao menos havíamos conversado direito, ela ainda tinha medo de que eu começasse a me descontrolar a qualquer momento.
-Ei Lílian, eu vou ficar bem. Eu já estou me sentindo bem melhor. – Eu menti, não teria como eu ficar bem, minha melhor amiga estava morta. E concluindo os meus pensamentos nada animadores eu puxei minha irmã para um forte abraço. Sentiria muito sua falta.
-Eu espero que sim. – E então ela se virou e saiu do meu quarto.
Levantei-me e terminei de fechar minhas malas. Vinte minutos mais tarde eu já estava me despedindo de minha mãe e minha irmã. Já meu pai, iria me levar ao velório e me buscaria para que fossemos a Belo Horizonte, cidade a umas três horas de Ponte Nova, onde eu morava. Em Belo Horizonte eu pegaria o avião para a Flórida, eu e Brian.
-Ei meu bebê, se cuide. – Disse minha mãe chorando.
-Ei dona Diana, agora é minha vez. – Disse minha irmã me tirando dos braços da minha mãe e me “enforcando” com seu abraço. – Não se esquece da família quando estiver na Flórida.
-Eu amo vocês- Eu disse e minha mãe começou a chorar mais e mais enquanto a minha irmã sorria e dizia “Eu também”.
-Eu te amo demais minha filinha.
-Ei, vamos logo minha filha- Chamou meu pai. E assim eu dei o último abraço nas duas e entrei no carro do meu pai.
-Ei minha filha, tenha força neste velório. Aposto que a Júlia não gostaria de te ver sofrendo.
-Eu vou tentar pai... Vou tentar. – Eu disse e desviei meu olhar para fora do carro. Fiquei observando as pessoas e vendo como elas achavam que era feliz, na verdade, elas não eram, apenas se iludiam com a mentira.
-Sabe pai, eu estou sentindo raiva da felicidade alheia, eu não consigo ver tantos sorrisos quando algo tão ruim aconteceu com a minha amiga. Eu me irrito com a felicidade deles. – Eu disse por fim. Meu pai apenas suspirou a passou a mão de leve sob meu cabelo.
E quando o carro parou em frente à capela, um frio me invadiu. Não era um frio físico, e sim psicológico, era um frio no coração. Antes que eu pudesse descer do carro, meu pai se virou para mim e disse: _ Toda essa tristeza, um dia vai diminuir, eu não vou mentir dizendo que vai passar, pois não vai, mas eu te garanto que haverá um dia, felicidade suficiente para amenizar essa dor. Eu te amo minha filha.
-Eu também te amo pai, obrigada- Eu disse o abraçando e em seguida desci do carro.
-Eu vou esperar o Brian trazer as malas dele para o carro- Gritou o meu pai enquanto fazia exatamente o que havia dito.
-Liza! – Maria Clara exclamou vindo ao meu encontro se jogando em cima de mim em uma forma de um abraço desesperador.
-Oi Clara- Eu disse cabisbaixa quando percebi as lágrimas no seu rosto e me lembrei do motivo pelo qual estávamos ali.
-Ei Liza, ei Clara – Ouvi a voz conhecida de Brian vinda de trás de mim e me virei caindo nos seus braços em um abraço melancólico.
-Acho melhor nós entrarmos. – Eu disse enquanto entrava na capela, seguida por Brian e Clara.
-Oh meu Deus!- Eu exclamei quando vi de longe, minha amiga deitada sobre o caixão branco. Por um momento eu pensei que iria desmaiar ali mesmo, mas não sei de onde, eu reuni forças o suficiente para caminhar até o corpo de minha amiga. Sem que eu percebesse, lágrimas sorrateiras já escapavam de meus olhos, desmanchando-se no véu branco que cobria o caixão.
-Acalme-se, vai ficar tudo bem. — Disse Brian passando as mãos pelos meus ombros enquanto tentava esconder as lágrimas que caiam de seus olhos.
-Ela era como uma irmã pra mim, ela não podia me deixar, não podia. – Eu disse enquanto caia nos seus braços me rendendo a toda aquela dor.
-Ela não te deixou, não deixou ninguém. Ela vai estar pra sempre em nossa memória e coração.
-Ei, vamos dar uma força aos pais dela- Clara disse aparecendo ao meu lado.
-É Clara está certa, vamos lá. – Brian disse pegando minha mão e indo em direção aos pais e irmãos de Júlia.
A dona Clarisse estava sentada com o rosto inchado e um olhar vago enquanto seus dois filhos mais velhos tentava consolá-la, já o marido segurava sua mão enquanto lhe afagava o cabelo.
-Com licença- Disse Brian – Nós só queríamos dizer que sentimos muito pelo que aconteceu. Júlia fará muita falta, não só para os senhores como para nós também. – Como ele conseguia manter a calma e falar tão bem em um momento como esse? Se fosse eu já estaria chorando novamente.
-Obrigada, Júlia realmente gostava muito de vocês.
-Nós também gostávamos muito dela, ainda gostamos. Ela era e será sempre como uma irmã pra agente... – Foi à vez de Clara de falar, o que levava a minha vez. Respirei fundo e soltei as palavras entaladas na minha garganta.
-Confesso que não queria vir aqui, eu queria me lembrar de Júlia alegre e feliz como ela sempre estava, e não assim, morta. Mas eu percebi que não importa como ela esteja isso não vai mudar o fato de que ela é e sempre será uma das pessoas mais especiais que eu já conheci. Eu precisava vir para vê-la, mesmo morta, ela continuará viva em nossos corações. – Eu disse, e pela primeira vez desde que chegara aqui, eu não estava chorando.
A mãe dela de repente me encarou emocionada enquanto murmurava baixo o bastante para que apenas eu, Clara e Brian ouvíssemos “Obrigada, tenho certeza que onde quer que Júlia esteja ela está muito feliz com vocês”.
-Com todos nós dona Clarisse, com todos nós. Mas ela não quer nos ver sofrendo, ela quer nos ver sorrindo, quer nos ver tocando a vida pra frente – Brian disse apertando forte a minha mão.
Logo depois do velório, meu pai levou a mim e ao Brian até o aeroporto em Belo Horizonte, não muito longe de onde eu morava.
A viajem foi até bem silenciosa, tendo às vezes este silêncio quebrado pelo meu pai tentando – em vão — amenizar o clima mórbido. Uma viajem a Flórida, algo que Júlia iria simplesmente adorar... Se ela estivesse viva. Tentei afastar esse tipo de pensamento da minha mente e passei a me concentrar na paisagem ao meu redor enquanto fechava os olhos sob o calor do sol contra minha pele. Logo tudo aquilo seria bruscamente trocado pelo gélido clima da Flórida, e eu realmente não sabia o que sentir em relação a isso. Por um lado eu receava em ir, em sair do conforto do meu quarto para enfrentar qualquer coisa que fosse, mas pelo outro, meus pais estavam certos, eu tinha que tocar a minha vida pra frente, mesmo sem vontade alguma de fazer isso.
- Chegamos querida. – Disse meu pai parando em frente ao aeroporto com um olhar de suplica, como se quisesse me pedir para ficar, mas ao mesmo tempo não pudesse.
Eu enxuguei uma última lágrima e acompanhada de Brian e meu pai, sai do carro e peguei as minhas malas. Por último, parei ao lado do meu pai e o abracei.
- Eu te amo muito querida. – Ele disse se afastando para enxugar as lágrimas que caiam de meus olhos.
- Eu também te amo pai.
- Hm, obrigada por nos trazer até aqui senhor Lee.
- Cuide da minha menina Brian. – Meu pai disse abraçando-o.
- Deixa comigo.
- Acho melhor vocês irem agora se não quiserem perder o voo. – Meu pai disse e em seguida me deu um último abraço antes que eu e Brian entrássemos no aeroporto.
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