Sangue Divino
6 Cap.6 - Meu tio de um olho
Notas iniciais
A escolha não foi minha, mas tenho que reconhecer que foi uma escolha bem legal. O cheio de mar abafava o de morango. Era um chalé bem bonito, meio organizado e já havia alguém dormindo na parte de cima de um beliche, que era a única pessoa a vista, muito diferente do chalé de Hermes que tinha uma criança por metro quadrado quase.
–Poseidon só tem dois filhos? -Sussurro.
–Atualmente, de meio-sangues, só. -Ele responde baixinho.
–Hum...o.k. Alias bela fonte. -Comento prosseguindo no tom baixo.
–Meu pai montou para mim, com ela é fácil mandar mensagens de Íris, e o barulho e esse cheiro me acalmam.
–Legal.
Me deitei na cama mais próxima, sem nem pensar em trocar de roupa, o único lodo ruim daqui era que a umidade aumentava o frio. Talvez eu estivesse com fome, não havia jantado, mas o cansaço foi tanto que dormi antes de concluir o pensamento.
Acordei olhando para um chifre enorme que parecia ter sido arrancado de um animal gigante e estava pendurado na parede, sei lá como. Constatei que, agora sim, estava morrendo de fome. Levantei, pisquei os olhos para clarear a visão e enxerguei Percy estava sentado na cama a minha frente, já me encarando.
–Bom dia, pequena. -Ele diz sorrindo, provavelmente não se sentia muito confortável em se aproximar mais porque isso poderia me incomodar.
–Bom... dia? -Respondo depois de piscar os olhos mais algumas vezes.
–Sim, ainda é dia, é até cedo para uma menininha que dormiu tão tarde, são nove horas, vamos se arrume para irmos tomar café.
–O.k. A quanto tempo você está acordado?
–Faz umas duas horas.
–E você ficou me observando esse tempo todo?
–Acho que em metade dele, não me incomodo, é como ver a Annabeth dormindo, tão bonitinho que poderia olhar por horas.
–Isso é no mínimo estranho!
Meu pai apenas ri enquanto se levanta e dá as mãos para me ajudar a levantar. Vou até o banheiro, escovo os dentes, penteio o cabelo, troco de roupa e me ajeito, o que deve ter levado uma meia hora já que minha cara e meu cabelo estavam um horror. Quando volto ao chalé Percy estava no mesmo lugar.
–Você não devia ser hiperativo? -Questiono.
–Nem sempre, mas me manter quieto exige controle e concentração, porém quando se está calmo e cansado não é tão difícil. -Ele responde. -Aliás, uma pena que você não pode conhecer o Mark, ele gosta de treinar cedo, mas provavelmente encontramos ele por ai.
–Quem?
–Meio meio-irmão.
–Ah! O outro filho de Poseidon...
–Isso.
–Ele tem a mesma idade que você?
–Não, ele tem aproximadamente a sua idade.
–Legal, e estranho já que é o meu tio.
Sorrimos um para o outro descontraidamente. Alguns minutos depois estávamos no refeitório, mal coloquei os pés lá e comecei a sentir o cheiro característico minha mãe já veio correndo, me abraçou, me deu um beijo na testa e falou tão rápido que mal pude processar as palavras:
–Como passou a noite? Dormiu bem? Sonhou com algo estranho? Seu pai cuidou bem de você?
–Hã?! -Depois fui pronunciando lentamente enquanto lembrava os questionamentos, ainda um pouco confusa e com olhos atentos de Annabeth a cada palavra minha. -Dormi bem, não sonhei com nada de importante e acho que sim.
–Que bom, querida! -Ela diz num tom entre o carinhoso e o empolgado.
Ela está tão radiante que eu tenho dó dela por não poder retribuir, não estou nem um pouco animada essa manhã. Percy me leva para a mesa do chalé de Poseidon, que está bem... vazia, mas surpreendentemente haviam duas pessoas sentadas lá, antes de nós. Quando meu pai percebeu, ele pareceu tão surpreso quanto eu, porém com certeza feliz também.
–Irmão! -Ouço uma voz grossa que veio do canto da mesa gritar.
Era um grandalhão que haviam gritado e... ele tinha um grande e único olho bem no meio da testa! Meus. Deuses. Aquilo é um ciclope?! Um ciclope que chamou meu pai de irmão? O Percy caminha até ele, e ele caminha até o Percy e eles se encontram depois de não muito tempo, o meu pai mal tinha começado a caminhar e o estranho já estava abraçando ele, tão forte que até eu sufoquei aqui.
–Saudade de você! -O... (eu não sei ainda como definir então continua) estranho diz ao Percy.
–Eu também irmão. -Ele responde tentando se livrar do abraço. E diz ainda um pouco sufocado. -Hum, eu... tenho que te apresentar uma pessoa. Courtney vem aqui, por favor, querida.
Ando assustada até os dois, então meu pai fala:
–Tayson essa é a minha filha. Court, esse é o Tayson, meu meio-irmão.
–Ele é um...? -Digo quase gaguejando.
–Ciclope? Sim. Todos os ciclopes são filhos de...
–Poseidon! -Completo repentinamente como se tivesse finalmente matado uma charada.
–Isso. Mas nem todos são legais, comunicáveis ou amigos, então, para mim, só levo em conta o Tayson.
Meu meio-tio sorria animado para mim e tudo que consigo dizer, ou melhor, murmurar, é: ''Hum'' tentando parecer animada. Annabeth parece, como na maioria das situações estranhas, sentir meu incômodo e vem ajudar. E tenta me tranquilizar quando diz sorrindo:
–Ei, seu tio é legal, filha. Levei um tempo para me acostumar também, tenho alguns traumas em relação à espécie deles... mas gosto muito do Tayson.
–Annabeth! -Tayson grita correndo para abraçar a minha mãe com mais força ainda do que fez com Percy.
Tudo que fiz foi sorrir para meu tio ciclope, já que tenho medo de abraça-lo, ou de apartar as mãos dele e meus ossinhos quebrem...
–Já que estamos nas apresentações, que tal a minha vez? -Diz uma moça de trás da Annie e coloca a mão em seu ombro. A mulher era grandalhona, evidentemente forte, e tinha uma cara meio raivosa, mesmo sorrindo, como se procurasse luta, mas ela parecia legal e até que bonita, devia ter a mesma idade da Annabeth.
–Ah, claro! -Fala minha mãe. -Court essa é a Clarisse, uma amiga.
Eu sorrio timidamente sem me aproximar, porque sinceramente, eu também fiquei com medo dela.
–Calma pequena, eu não mordo. -Diz Clarisse sarcastimente como se conseguisse ler meus pensamentos.
–Eu discordo, — opõe-se Percy olhando para mim contendo o riso com uma cara séria- e levando em conta meu primeiro dia aqui...
Ela olha para o meu pai se fosse fuzila-lo, e ele levanta os braços num irônico e rápido sinal de rendição. Clarisse esbanjava raiva, parecia buscar luta...
–Você deve ser filha de Ares! -Afirmo em voz alta olhando para a moça.
–E você, -Clarisse diz se virando para mim e tocando rápido e delicadamente a ponta do meu nariz- só podia ser filha da Annabeth, sangue de Atena sem dúvida e... parece uma miniatura dela! -Ela conclui, apontando sorrindo para Annie.
Não percebi o quanto realmente parecia com ela, nossos cabelos, levemente cacheados e cor de areia, estavam presos de maneira simples e num ponto não muito alto, meu tom de pele era apenas um pouco mais bronzeado que o dela, e ambos os nossos olhos são claros e acinzentados, a única diferença é que os olhos dela são definitivamente puxados ao azul e os meus ao verde, fora isso era evidente que eu parecia uma miniatura dela.
–Acho que faltou uma pessoa. -Percy diz mudando de assunto. -Mark!
O menino se levanta da mesa com a cabeça baixa, parecia bem tímido, mas também valente, era alto para alguém de uns onze anos e... sarado! Tinha olhos cor de gelo que pareciam ter o movimento das ondas e era ruivo. Meu tio é lindo!
–Oi. -Ele diz timidamente levantando os olhos para nos encarar.
–Oi, Mark. -Respondo sorrindo.
–Hum... eu... vou treinar... -Ele fala já desviando o olhar e saindo apressado. Menino estranho.
–Esse ai tem problema, querida. -Clarisse diz para mim. -Só treina! Nada de socialização... nunca.
Minha mente se deslocou do lugar e foi para longe, no lugar onde eu reflito. Imaginei-me aqui sem a Annabeth e o Percy, acho que eu seria bem como o Mark se meus pais não fossem as duas pessoas mais populares e, pelo visto, respeitadas do acampamento, é como se todos sobressem quem eu sou. Isso só me deixa mais curiosa sobre meus pais. Eles devem ser muito bons, eu quero ver isso, eu não consigo vê-los como... lutadores, eles me olham com tanto carinho e zelo, são fofinhos. Saio dos meus pensamentos e digo:
–Ei! Porque não vamos todos treinar? Eu preciso começar, não é? -E falo abaixando a cabeça: -E... quero ver vocês lutando.
–Claro, filha. -Responde Annabeth sorrindo e segurando um dos meus ombros.
Todos concordam e Clarisse diz:
–Eu já estava indo mesmo, então, vamos todos?
–Ahãm. -Percy murmura amigavelmente.
–Chris! -Chama a moça e um homem magro e feições finas, cabelos escuros e olhos castanhos travessos vem até nós. -Você vem treinar, querido?
–Vou. -Ele responde e a beija em seguida. Clarisse se afasta dos braços dele um pouco e diz apontando para mim:
–Essa é a filha do Percy e... -Ela fez um cara de tédio e um gesto que indicava um ''você sabe'', e Chris assente com a cabeça.
–Prazer em conhecê-la, garotinha. -O homem diz para mim sorrindo e estendendo a mão.
Aperto a mão dele e sorrio em resposta, ele me parece simpático, esse provavelmente não morde...
–Richard não vem? -Chris pergunta.
–Não, querido. Acho que ele está meio cansado, o deixei dormir mais. -Responde Clarisse.
–Que moleza, ehn! -Annie diz.
–Mães... -Percy diz revirando os olhos e rindo em seguida, fazendo todos rirem também.
Acho que tinha algo nas entrelinhas daquilo, mas não comentei nada como eu costumo fazer. Todos nós nos dirigimos até o arsenal para pegar coisas para lutar, o ar com a fragrância de morango de sempre ainda era gelado, mas cheirava também como liberdade, resisti a vontade de andar um pouco mais e ir até os estábulos. Peguei uma espada e uma adaga, não sei bem porque, mas pareceu conveniente experimentar os dois, a espada era pesada e a adaga exigia precisão, devo saber no que eu sou melhor.
Meu pai não pegou nada, só disse: ''Estou bem com a minha caneta'', fiquei pensando: ''Que diabos meu pai pretende fazer com uma caneta?'', mas como nada é o que parece aqui, não comentei nada. Annabeth pegou duas adagas, que juntou a um punhal já preso em sua cintura. Tudo era de bronze, acho que eu já li sobre isso... algo sobre bronze celestial matar monstros sem machucar humanos.
E então todos fomos a arena, me perguntei se não precisaríamos de escudos, mas Clarisse disse que não era uma aula, era apenas um treino, contra bonecos, era para atacar, não se defender. O que quer dizer que não envolvia meus reflexos, não acho que vou ir muito bem, porém a verdadeira razão de eu estar fazendo isso era porque eu queria ver os outros lutando, menos o Tayson, quer dizer, não que eu não quisesse ver, mas ele não quis lutar.
Achei o local bem legal, circular e muito grande, algumas pessoas estavam atacando bonecos em locais variados e aleatórios. Não conseguia me imaginar como uma semideusa, aqueles semideuses pareciam máquinas de ataque ao estoque dos bonecos de aço que nunca acabava.
Minha mãe me conduziu até um dos bonecos e me mostrou uns golpes bem fantásticos, que pareciam coisa de filme e depois ficou ao meu lado como se fosse um dos bonecos.
–Você. É. Muito. BOA NISSO! -Digo a ela.
–Prática. -Annie responde dando de ombros, porém sorrindo.
Do jeito que eu estava indo eu iria precisar de muita prática mesmo para chegar às habilidades dela, era fantástico olha-la, concentrada, atlética. Annabeth não era a única concentrada, Percy estava bem concentrado em vê-la lutar, estava tão hipnotizado que achei que ele ia babar se ela não tivesse gritado:
–Anda Cabeça de Alga! Não vai atacar?
Ele piscou os olhos como quem sai de um transe, sorriu um pouco envergonhado e puxou a caneta do bolso. Ele vai mesmo lutar com uma caneta? E então, Percy puxou a tampa da caneta e ela se transformou em um grande espada de bronze reluzente que me fez murmurar ''Wow". Quando vi meu pai atacar o boneco fiquei paralisada só pensando como eles eram realmente muito bons, pela primeira vez reconheci dois heróis, e eles eram os meus pais!
Eu continuei não indo muito bem... na verdade eu não era nada boa com a espada e nem um pouco precisa atacando de perto o boneco com as adagas, o boneco era de aço e não sofria nenhum dano, eu não tinha força para empunhar uma adaga e espeta-la em alguém. Tive até a ideia de tentar se eu era boa com um arco e flecha, mirei no peito e acertei na barriga, não era tão ruim mas eu não gostava daquela arma, exigia muito foco no alvo.
–Desisto! -Disse para Annabeth. -Não sou boa em quase nada.
–Você tem uma boa pontaria. -Sugere Percy.
–Não gosto muito de arco e flecha, são muito grandes para mim. -Explico.
–Vai achar algo, pequena. É uma heroína também. -Annie diz com afeto o que me irrita, estava falando isso porque quer me animar, não porque acredita nisso.
–Não, eu não sou! Sou só uma menina de onze anos. Não sei lutar. E eu não sou boa em nada disso! -Digo com os olhos já vesgos, se enchendo de lágrimas, e raiva me doía agora, pego uma adaga com meu sangue fervendo, tudo que eu quero é jogar algo para longe. Miro no olho do boneco que fez eu me decepcionar tanto hoje... estou com medo de machucar alguém mas estava confiante de que nada aconteceria com eles. Atiro a adaga no boneco e me viro no mesmo instante, não quero ver onde acertou.
Todos me olham, estupefatos, provavelmente pelo meu chilique, mas minha mãe olha para mim feliz e fala: ''Veja'', pensei ''Está bem'' já que continuar olhando para aqueles olhos tempestuosos iria me intimidar de qualquer jeito. Quando me viro, vejo o boneco com uma adaga fincada no olho, limpo uma lagrima que escorria pela minha bochecha, meu rosto já está esfriando... espera ai! No olho?! Sim... bem no meio do olho direito. Eu acertei! Meus momentos de fúria me levam a fazer coisas incríveis por impulso pelo visto.
–Arremesso! -Exclama Annie. -Claro!
Eu os encaro, tão surpresa quanto eles.
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