Sangue
1 Sangue.
Sangue.
Por todos os lados, sangue.
Não importa para onde você olhe, sangue.
Banhando o corredor inteiro, sangue.
Brotando como ervas daninhas, sangue.
Escorrendo pelo seu corpo e sujando-o ainda mais, sangue.
A vida se esvai à medida que o sangue escorre.
Quanto mais o tempo passa, mais a energia vai embora.
A Morte está sentada, esperando.
Esperando a sua vez.
A sua vez de se render.
Render-se ao sangue.
Sangue.
Você mal consegue se mexer. A dor é tamanha que até o pensamento é difícil. Mas a dor não é só física.
A raiva.
A mágoa.
A angústia.
A desesperança.
Tudo isso se transforma em dor.
Uma dor pior que a física.
Porque você sabe a verdade.
Que essa dor não cessará.
Nem quando o sangue estiver completamente fora de você.
Nem quando o coração parar de bater.
Nem quando a Morte o levar.
O pensamento dói, mas as lembranças insistem em voltar.
lembranças.
Lembranças de um homem.
O homem que acabou com a sua vida.
Literalmente.
POW! O som era ensurdecedor.
Gritos. Também eram ensurdecedores.
– SOCORRO!
O berro infantil era de partir o coração, mas não havia tempo para chororô.
Hora de correr.
Pena que já é tarde.
– SOCORRO!
De início, você reconhece a voz que grita. Até que se dá conta de que é a sua voz.
Você está imprensado contra a parede, junto com outros 5 colegas. Abaixado e escondido atrás das carteiras. Fingindo-se de morto até poucos segundos antes.
Agora você não está mais fingindo simplesmente.
Está sangrando.
Muito.
Um tiro no abdome não é pouco, não.
– Cadê os guardas? – Uma garota pergunta, em agonia.
O homem ri.
– Estão mortos, sua putinha! Mortos!
Mais risadas macabras.
O homem deixa a sala.
Levando os sonhos.
As risadas.
A alegria.
A vida.
Não só a sua.
As de outras 4 pessoas também.
Dói se mexer, mas ainda não é muito.
Não a ponto de não conseguir se arrastar até o corredor.
Suficiente, porém, para fazê-lo desabar ao ver a carnificina no lado de fora.
Afinal, não foram só 5 as vítimas daquele homem.
Diante de você, uma cabeça separada do corpo. Não dá para saber se o vermelho nos cabelos é natural ou culpa do sangue derramado sobre as mechas.
Do outro lado do corredor, uma morena, encostada na parede, tem dificuldade para respirar. Seus olhares se encontram.
O desespero nos olhos dela traduz o seu próprio terror.
Ela também está perdida.
Quantos mais perderam seu precioso sangue?
Você não sabe.
E talvez nem venha a saber.
Ao longe, gritos.
Tiros.
Mais gritos.
Mais tiros.
Sons já familiares.
Se estivesse lá, veria o sangue derramando de corpos agonizantes.
Sangue.
Por quê?
Por que aquele homem está fazendo isso?
Cadê a polícia? Os guardas?
– Estão mortos!
Suas forças estão se esvaindo cada vez mais rápido.
Você sente que a hora está chegando.
Pensa mais uma vez se é melhor desistir ou lutar.
Percebe que a luta já está ganha.
Desde que a bala penetrou em seu abdome, a luta está ganha.
E não foi você que venceu.
Foi a Morte.
Ela está só esperando que você desista de uma vez e se entregue a ela.
Mas...
Será que está mesmo na hora?
O tempo passa.
Vagarosamente, mas passa.
Você já se rendeu, as a Morte ainda não veio para buscá-lo.
O sangue continua escorrendo.
Você ainda consegue pensar.
A morena do outro lado silencia.
Morta ou apenas desmaiada?
Difícil saber.
Aos poucos, você começa a sentir um cheiro horrível. Provavelmente é da suposta ruiva à sua frente. Mas você não se importa.
Que diferença faz, se você está co os minutos contados?
Se bem que...
A agonia seria, er, menos pior sem o mau cheiro.
Ao longe, bem fraquinho, você ouve uma sirene.
Polícia ou ambulância? Difícil saber.
Mas que diferença faz para você agora? Nenhuma. Você está tão fraco que parece morto. E, daqui a pouco, é isso mesmo que você estará.
Morto.
O som da sirena fica mais próximo, mas, definitivamente, isso não faz a mínima diferença agora. Pelo menos não para você, que está com os segundos contados.
Sangue.
Você já não consegue vê-lo.
As sombras chegam aos poucos, dominando-o.
A hora chegou.
Entregar-se ou continuar lutando?
Não dá tempo de pensar. Você já pensou demais. A decisão já foi tomada. Não por você, mas foi.
A maioria das pessoas pensa nas pessoas que amam nessa hora. Mas de que adianta? Só vai aumentar seu sofrimento.
Principalmente se considerar sua namorada.
Droga.Ela já deve estar morta na sala ao lado. Pelos tiros e gritos, é pouco provável que alguém ainda esteja vivo..
Merda. Por que você veio á escola hoje? Afinal, você não fez porra nenhuma aqui além de morrer. Porra nenhuma.
Frustante, não?
Morrer é um saco.
Você só espera que o que vem depois não seja uma merda maior ainda.
Sangue...
Notas finais
Deixem reviews dizendo o que aharam!
Bjs, LariMed.
Fale com o autor