Sand in the blood
3 Capítulo 1
A Altima coisa que eu poderia querer naquele dia era ir à escola. Mas qualquer coisa para não ter que aturar meu padrasto o dia inteiro. Ele tem um sério problema com a minha pessoa.
Pois, bem. Assim que saí do banho, vesti-me com a mesma roupa de sempre: minha camiseta preta, a calça jeans preta e minha touca favorita, preta com uma caveira branca estampada. Meu cabelo jogado na cara, não corto por nada nesse mundo!
Caramba! Já haviam dadas seis e meia e minha rota até a escola duravam tediosos cinquenta minutos de bike, isso quando eu me matava de pedalar. O porteiro já não ía com a minha cara- e quem ía?-, então eu não poderia de jeito nenhum chegar depois das sete horas.
•••~•••
— Sete e dois, senhor Price.
— Mas Senhor Augusto, são só dois minutos de atraso!
— É um atraso.
— Não posso perder um dia inteiro de aula por causa de dois minutinhos!
— Senhor Price, é a primeira e última vez que eu o permito entrar atrasado.
Tá! Agora eu fiquei surpreso! O Senhor Augusto demonstrando um pingo de compreensão? Isso sim é algo inusitado.
Então passei pelo pequeno espaço do portão que ainda estava aberto. O sinal tocou e corri para sala para encarar a primeira aula, a de matemática, com a professora Renata que me olhava com olhos de piedade.
Assim que a professora escreveu na lousa a página do livro que deveria ser aberta, lembrei que não havia levado o livro, e no Colégio Objetivo, não levar o livro, significa ficar a aula inteira no banco em frente à porta da diretoria.
A professora passou de mesa em mesa verificando se alguém não teria levado o livro e na hora que ela chegou à última mesa da primeira fileira- a minha- falou com voz e expressão de reprovação:
— Retire-se da sala, senhor Price, que o Senhor não assistirá à minha aula sem o devido material- fiquei me perguntando como ela sabia que eu não havia levando livro se eu nem ao menos abrira a mochila, mas ignorei esse ponto. Me levantei e segui rumo à saída- Já sabe onde deve ficar, certo Senhor Price?- Concordei sem ao menos fita-la.
Fui ao Pátio, tomei água, pois vira pedalando de casa até a escola sem descanso e já estava com a garganta seca, segui até o banco da diretoria e me sentei. O banco dava de cara com a secretaria, também.
Uns quinze minutos após eu ter me sentado no banco, chega um rapaz de aparentes dezessete anos, acompanhado por uma mulher que provavelmente era sua mãe. Pararam na janela de atendimento da secretaria e após dialogarem aproximadamente uns cinco minutos, o rapaz se vira para meu lado, vem seguindo rumo à porta de entrada, passa por mim e me cumprimenta com um sorriso muito sutil, quase imperceptível e me encara com um olhar firme e azul que no mesmo instante me transmitira conforto.
Eu achei que estivesse vendo demais, mas ele estava dirigindo-se à minha sala, o que me deu uma pontada de esperança, que me deixara constrangido comigo mesmo.
Ainda havia trinta minutos para a aula terminar, e claro, euzinho pingando de sono, não pensei duas vezes para deitar-me. Então me aconcheguei naquele banco e fui adormecendo com aquele olhar azul penetrante na cabeça. Aquele garoto realmente me causara impacto! Considerando meu modo defensivo que evita com que eu me sinta atraído por alguém, podia afirmar que ele tinha algo de especial, afinal, conseguiu atrair a minha atenção, algo bastante incomum, já que evito de todos os modos sucumbir à necessidade de ter uma companhia amorosa.
Cochilei.
Logo, veio um sonho- nunca tinha dormido tão rápido, portanto, desconfiei que o sonho deveria ser uma mensagem, já que estava acostumado com esses sonos repentinos que sempre vinham como premonições, úteis ou não; mas mesmo assim, senti algo de diferente nesse sonho: Havia duas mulheres em trabalho de parto dentro de um castelo em chamas, assim que a criança de uma das mulheres nasceu, a parteira, aflita, entregou a criança a alguém que, logo em seguida, fujira com ela. A mulher assistia à partida de seu filho, relutantemente e a parteira a consolou. Como sempre, eu não havia entendido o sonho, não costumam ter nexo, portanto, não me surpreendi.
Acordei assustado com o sinal para a segunda aula, estava suado, em plenas sete e cinquenta da manhã. Levantei-me e segui até a minha sala, tentando não transparecer fisicamente a pressa que eu sentia para confirmar a presença do provável novo aluno, na minha sala.
Chegando lá, levei uma pontada de decepção, um sentimento de desânimo como se já não valesse a pena estar ali.
Fale com o autor