Sams Town
12 Uma Longa Tomada de Fôlego
Estava frio.
Sam Evans imaginava que a temperatura estivesse tão ruim porque ele estava do lado de fora, mas até as pessoas em suas casas de madeira já tinham se dado conta de que a temperatura caíra. Não naquele dia, é claro, mas dias atrás, inclusive antes até de os turistas chegarem à Sam’s Town. Mas Sam – e muito menos Quinn – não sentira ou provara desse frio. Não houvera espaço para isso. A presença um do outro, até aquele dia, fora responsável por aquecer não só a relação dos dois, mas também os seus dias.
Portanto, longe de Quinn Fabray, Sam sentiu frio.
Ainda sentado no balanço do minúsculo playground, Sam cruzou os braços e segurou os cotovelos. O vento forte daquela noite sacudia sua franja loura com fúria, mas não era com os cabelos que o homem estava preocupado. O mesmo vento também o fazia sentir sérios arrepios por todo o corpo, mas nem esses arrepios pareciam importantes para Sam. Já estava ficando muito mais do que escuro e as ruas, um tanto mal frequentadas, mas Sam não pensava nisso muito menos.
Era impossível se preocupar com qualquer outra coisa além de Quinn em um momento como aquele, e foi por isso que Sam Evans gastou praticamente todo o final daquele dia sentado no playground, esperando o tempo passar. Como não tinha mais nada com o que se preocupar, além dos pensamentos que envolviam Quinn, gastar grande parte do seu tempo ali não pareceu um problema. Como a mulher que amava talvez não fosse mais dar atenção a ele durante uma boa parte da sua vida, sair dali para falar com ela também não era uma opção – pelo menos não por enquanto.
- Você cometeu um grande erro, rapaz – ele começou a dizer para o nada. Fitava a terra que se movia em razão do vento e, de alguma forma, o movimento da areia lhe parecia fascinante. – Não que eu ache que você tenha sido culpado por cem por cento do erro cometido, mas ainda assim tem grande parte da culpa.
As pessoas ao redor viam o turista conversando sozinho e se perguntavam o que aquilo poderia significar. Quer dizer, era normal em Sam’s Town que bêbados conversassem sozinhos em determinados pontos da cidade, principalmente àquela hora da noite, mas não o turista bonitão, louro e de olhos claros. Aquilo era uma novidade.
Quer dizer, quem, em toda a cidade, poderia imaginar que aquele casal tão bonito, exemplo para todos, também tivesse seus momentos de desolação? Não que as pessoas que viram Sam naquela noite tivessem pensado que os dois tivessem separado – conheciam a história do lugar onde os garotos brancos dançavam e sabiam também que Sam havia ido até lá com a namorada dias atrás, mas em nenhum instante pensaram que isso tivesse ocasionado a separação dos dois. Isso não era comum, pelo menos não por ali. Se tinham que se separar, o casal ia embora de Sam’s Town e geralmente resolviam seus problemas no cartório em que foram casados.
Ninguém ia à Sam’s Town para se casar, no final das contas, mas sim para resolver problemas. E foi por isso que Sam e Quinn chamaram a atenção, porque havia uma carga de ousadia tão grande na decisão tomada pelos dois, quando eles decidiram fazer uma cerimônia simples naquela cidade ainda mais simples, que não havia quem não estivesse interessado em acompanhar aquela história. Mas as circunstâncias provaram que, apesar de não estarem lá para resolver um problema, eles haviam adquirido um.
E enquanto muitos torciam pela separação dos dois, a maioria absoluta torcia para que tudo desse certo para eles. Sam’s Town não era uma má cidade, afinal de contas. Não era uma cidade em que as poucas laranjas podres tinham direito de apodrecer as demais.
Talvez tenha sido toda essa carga de positividade que veio com a noite e com as pessoas que saíam às ruas para verificar o movimento antes de trancarem suas portas que fez com que Sam se levantasse. Não que ele tivesse a menor consciência desse ato, mas, quando se deu por si, estava em pé. Contemplava a noite iluminada, com aspecto tão antigo que parecia pertencer ao século passado, com seriedade, como se apenas calculasse sua rota de volta até em casa.
Sam não queria deixar que um erro tolo e único fosse capaz de arruinar sua vida ao lado da mulher que amava, mas choramingar pelos cantos não resolveria em nada essa situação. Ele precisava agir, e foi por isso que deu o primeiro passo de volta à pensão em que ele esperava que Quinn estivesse agora.
Não prestou muita atenção no caminho feito, e não conseguiria fazer o contrário. A imagem de Quinn estava tão presente no seu pensamento que era quase como se estivesse colada aos seus olhos. Ele não a trouxera até aquele fim de mundo para fazê-la se sentir humilhada, trouxera? Não largara um emprego medíocre, mas que pagava bem, de garçom para levar uma mulher à pior decepção que ela poderia sentir em vida, largara? Não. Ele foi até Sam’s Town em busca de felicidade, e ele até conseguia sentir parte dela na atmosfera do lugar, mas sabia que jamais conseguiria tocá-la realmente se não fizesse nada a respeito.
- Eu errei – ele dizia. – Eu sei que errei, mas, puxa, quem nunca errou? Sábio não é aquele que nunca erra, mas o que percebe o erro cometido e faz algo a respeito. Aquele que aprende com o erro. – Sam, vez e outra, levava um indicador aos olhos, limpando lágrimas que ele jamais permitiria que escorressem pela face. – Sou um homem crescido. Quando fiz as minhas malas e vim até aqui, olhei-me no espelho e finalmente me dei conta de que eu era um homem mais velho. Dei uma única e longa respirada e então percebi que essa constatação era parte do que me ajudaria a alcançar a felicidade que eu procurava. Dizem que impulsos são qualidades inerentes a crianças, mas, céus!, o que são os adultos se não crianças crescidas?
Imagens difusas agora corriam a cabeça de Sam. Parecia bêbado, embora estivesse bem longe disso. Os lábios enormes tremulavam quando paravam de falar, denunciando o que a constante limpada de olhos tentava esconder. Ele estava emocionado e prestes a chorar, mas não queria fazer isso. Não agora.
- Pedir desculpas pode ser errado. Pedir perdão não é muito diferente. Pedir que esqueça do que eu fiz, então, é um absurdo! É impossível se esquecer de um tapa na cara, e a dor de uma traição não é muito diferente da dor de uma agressão como essa. Eu já senti isso na pele e, com disse uma vez, posso parecer idiota – e às vezes eu até ajo como um idiota -, mas sei aprender com os meus próprios erros. É o mínimo que um homem como eu deve saber fazer para conviver bem com a mulher que ama. É o que eu tive que aprender para conviver com alguém como a Quinn.
Suspirou longamente. Abaixou a cabeça, contemplando os próprios pés. As palavras vinham com tanta intensidade que, por si só, eram capazes de romper as barreiras dos seus enormes lábios e falarem por si só. Mas até um discurso impulsivo precisava tomar fôlego, e foi por isso que houve essa pausa.
- Já passei da idade de ter segundas intenções. Minhas intenções, desde que amadureci, foram sempre claras. Quando pensei em vir para Sam’s Town para me casar, essa sempre foi a minha primeira e única intenção. Se houvesse uma segunda, nunca que ela seria a de ficar com uma nativa, muito menos de transar com uma. Eu jamais trairia a mulher que eu amo, pelo menos não por vontade própria. Mas é que explicar esse tipo de coisa é difícil, principalmente quando nem mesmo você entende ao certo o que aconteceu. Dizer que a traição não aconteceu seria uma mentira, mas será que dizer que aquela noite de tolice não significou nada para mim adiantaria em alguma coisa?
Sam se jogou de joelhos no chão, agora chorando tão copiosamente que parecia ter perdido um ente querido para a morte. Ou talvez como um homem que não visse mais razão de viver e aceitasse a morte como um presente — pelo menos até o momento em que Quinn Fabray, a mulher da sua vida, aceitasse perdoá-lo.
- Eu não conseguiria conter essas lágrimas por mais tempo – ele disse, escondendo os olhos com um indicador e um polegar. – Parece até que o corpo sabe quando é preciso apelar para convencer alguém de um ponto de vista, no caso, o de que eu não traí ninguém. Nem se eu quisesse muito eu choraria assim algum dia. Aliás, a minha vontade de chorar no momento é próxima de zero. Queria eu poder ser inteligente como os demais homens da Terra e saber como resolver os meus problemas com palavras, e não com emoções expostas de maneira tão infantil. Isso me torna vulnerável.
Sam sacudiu a cabeça em negativa. Levantou o olhar e se deparou com o rosto de Quinn sério, com a boca levemente aberta, a fitar-lhe. Não se lembrava em absoluto do momento em que chegara até aquele quarto, àquela posição ou àquela parte do discurso. Mas isso também não importava. A expressão no rosto da mulher que amava era impassível, como se nada do que tivesse ouvido – isso se tivesse ouvido alguma coisa – fizesse alguma diferença. Quinn sabia como agir com indiferença quando queria, e aquele olhar que agora Sam recebia era tão doloroso que mais parecia um disparo acertado no peito.
- Eu te amo, Quinn – ele finalizou e deu de ombros. – Acho que esse monte de baboseira que acabei de falar pode ser resumido desse jeito.
Sam não estava enxergando muito bem, então não viu que, sentada na cama, Quinn também chorava. Estava tão comovida quanto ele, afinal, nunca, em momento nenhum, sua intenção fora largá-lo. Confiava em Sam, apesar de tudo, mas precisava ouvir aquele monte de baboseira para confirmar isso.
- Isso é tudo o que eu tinha a dizer – Sam disse uma vez mais e pensou em se levantar. Mas não tinha forças. Manteve-se naquela posição enquanto fitava os pés parados de Quinn no chão. Pés que ele jamais voltaria a ver assim que saísse daquela pensão.
- Isso é tudo o que tem a dizer? – Quinn perguntou. A voz estava embargada, mas ela soube disfarçar isso ao falar com tanta segurança.
Sam tornou a dar de ombros.
- É a verdade. A mais pura verdade. São coisas que eu nem sabia que seria capaz de dizer. Talvez seja o amor que eu sinto por você que me fez ter tanta sabedoria de repente, mas... Sim. Isso é tudo o que tenho a dizer.
Quinn se levantou. Por alguma razão, Sam pensou que ela fosse se retirar daquele quarto e então eles jamais voltariam a se ver. Nada mais natural, depois de tudo o que acontecera.
Mas na verdade o que ela queria era se sentar no chão.
Apoiou uma mão no chão, dobrou as pernas para o lado e jogou o fino tecido do seu vestido sobre elas, mais por costume do que por necessidade, afinal, aquele homem já a tinha visto nua mais de uma vez, e isso em diferentes épocas. Dessa forma, ficou na altura exata do rosto de Sam, que mal estava erguido. Encarou-o ainda séria e disse.
- Você disse que me ama – ela disse, rouca.
Sam confirmou com a cabeça.
- E você me pediu em casamento. Em um fim de mundo. Tirou-me da minha vida sob a promessa de que seríamos felizes aqui.
Sam se sentia tão envergonhado por receber tantos fatos de uma vez só que não conseguia mais abrir a boca para dizer qualquer coisa.
- É bom que você esteja dizendo a verdade, Sam Evans.
Sam ergueu um pouco mais o rosto, interessado em saber como Quinn terminaria aquela conversa.
- Eu entreguei o meu coração e a minha vida a você porque também te amo – ela disse, séria como se dissesse uma sentença. – Portanto, não pense em cometer um erro como esse novamente. Não o perdoo pelo que fez, mas estou disposta a fazer de conta que essa foi uma parte sem importância do nosso passado.
Quinn sorriu antes de dizer:
- Algo que eu farei questão de esquecer enquanto fizer amor com você nessa noite.
Avançou para frente e roubou os lábios carnudos de Sam com um beijo.
A partir daí, roupas, ambiente e sons exteriores perderam toda a importância que um dia tiveram.
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