Sams Town
1 Prólogo
Notas iniciais
O escritório estava vazio àquela hora, e até em dias comuns ele costumava estar. Mas aquele não era um dia comum. Fim de ano, segunda semana de dezembro, a empresa inteira estava pronta para comemorar e confraternizar com seus colegas de trabalho, celebrar o bom ano, relembrar as coisas boas – e talvez as ruins – enquanto bebiam e comiam à vontade, tudo nas contas da empresa. Lá, não haveria espaço para timidez ou culpa. A confraternização era o evento onde todos agiam como sempre tiveram vontade de agir, mas, dessa vez, sem sentirem culpados. Quinn Fabray sabia tão bem disso quanto sabia que estava atrasada para o evento.
Morava muito longe de onde trabalhava. Aos 21 anos, quase 22, já morava sozinha em um bairro um tanto quanto esquisito de Lima, em Ohio. Só aceitava aquele lugar como moradia porque, por ora, não tinha opção melhor, e ir morar com os pais não era mesmo algo a considerar. O trabalho que encontrara, por indicação de uma amiga, era distante, mas o salário valia a pena, além de o lugar ser muito bonito, com todos aqueles prédios ao redor e lojas onde ela gastava não só dinheiro, mas uma grande porção de tempo.
Lá, ela era administradora. Administrava a contratação e demissão de funcionários, ao mesmo tempo em que escolhia os novos colaboradores da empresa. Era uma seguradora grande, portanto, o número de pessoas nos três andares que a empresa tomava naquele prédio era grande, o que significava que muito trabalho precisava ser feito. O sonho de ser atriz ainda continuava presente, pois não dera certo quando ela correra atrás. Uma vez que decidira ficar longe da sombra dos pais, precisava se sustentar, e a atuação não prometia ser muito rentável em curto prazo. Não era uma decisão da qual se arrependesse, afinal, estava certa de que em breve voltaria a procurar a atuação.
Sozinha em um escritório cheio de baias vazias, onde apenas uma luz estava acesa, a que ficava sob sua cabeça, ela terminava de passar um batom nos lábios. Era vermelho, forte, e chamaria a atenção eu seu rosto. Amarrara os cabelos para trás num rabo de cavalo sutil. Usava um vestido justo azul, parecido com veludo, que terminava acima dos joelhos. Ela o trouxera na bolsa, assim como toda aquela maquiagem, porque ir para casa e voltar ao escritório para então fazer parte da confraternização era uma ideia inconcebível. Demoraria muito para fazer essas coisas.
Olhou uma última vez no espelho e deu-se por satisfeita. Estava bonita, pelo menos para um evento como aquele, onde ela não precisava se preocupar tanto assim com a aparência, por mais que a maioria das mulheres tivesse prometido um visual arrebatador para a noite. Guardou tudo dentro da bolsa, enfiou-a debaixo dos braços, apagou a luz que acendera e se dirigira em direção à saída. Estava bem perfumada, e o ar parecia carregar o seu aroma. Fechou a porta com a chave que o chefe lhe concedera antes de descer para a festa e tomou o elevador.
A festa aconteceria no térreo, no salão de festas do prédio, usado não só pela empresa, mas por todas as outras organizações que compartilhavam o prédio. Contudo, naquele dia, apenas a seguradora seria responsável pelo evento. Melhor assim, Quinn pensou. Não queria ter que conhecer gente nova àquela hora da noite.
Passou pelos portões do salão e logo ouviu a música tomar conta do seu corpo. Não a conhecia, mas a escolha parecia boa para uma festa como aquela. Ela já estivera naquele salão antes, mas, naquela noite, ele estava ainda mais bonito. Era um espaço amplo, cheio de gente, e, apesar de escuro, luzes e lasers corriam pelo teto como numa coreografia empolgante. Parecia uma danceteria, como as baladas que Quinn frequentava quando era mais jovem. Enquanto caminhava por entre as pessoas, passando agora na frente do bar, onde homens conversavam aos berros sobre a última partida de baseball, ela sentiu o ímpeto de começar a dançar. Conteve-se. Acabara de chegar, queria entender como estava funcionando a festa antes de sair por aí dançando.
Encontrou uma amiga numa mesa não muito distante. Não a teria percebido ali se ela não estivesse sacudindo os braços no ar. Sem se demorar, se dirigiu até ela e tomou o banco ao seu lado. Sem o uniforme de trabalho, a amiga estava linda em um vestido branco, com os cabelos castanhos soltos. Parecia, de fato, pronta para uma balada, e não para a confraternização de uma empresa. Seu nome era Lúcia.
- Estou adorando isso aqui, Quinn – disse empolgada. Gostava de beber. – Bebida grátis, música boa, festa a noite inteira e...
- E...?
- Caras.
- Você não pode estar falando sério – Quinn disse com um sorriso que, sua amiga sabia, era capaz de contagiar muitos ambientes. Bebericou um pouco de seu copo antes de dizer: – Não estou a fim de ficar com nenhum dos caras do nosso trabalho.
- E por que não?
- Não quero perder amigos. Relacionar trabalho a relações amorosas é um erro. Além do mais, ver o rosto de uma pessoa que eu beijei, durante a semana toda, em horário comercial, me parece um pesadelo. Você não acha?
Lúcia balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Talvez. De qualquer forma, não era deles que eu estava falando.
- E quem mais pode ser? Até onde eu sei, os homens que estão aqui são todos do nosso trabalho.
- Nem todos.
Lúcia ergueu um braço no ar e chamou a atenção de um garçom. Prontamente, o homem se dirigiu até ela. Estava vestido com uma camisa branca e uma calça preta que realçava o seu corpo, embora fosse quase que formal demais para uma festa como aquela. Era um homem bonito, Quinn observou. Lúcia correu todo o seu corpo com o olhar assim que ele chegou. Estava flertando.
- Traga para mim uma bebida doce – ela disse com um olhar pedinte. O garçom o captou, esperto como era. – Mas traga com bastante açúcar, se é que me entende.
- Claro que sim, senhorita – ele disse com um sorriso torto que não só Lúcia, mas Quinn também captou.
- Você está pensando em flertar com os garçons? – perguntou, rindo.
- Sim. Mais do que qualquer funcionário que esteja aqui, eles são verdadeiros bonitões.
Quinn gargalhou. Lúcio conseguia diverti-la melhor do que ninguém.
- Veja aquele ali, por exemplo – a amiga voltou a dizer enquanto apontava um dedo. A bebida que segurava sacudia de um lado para o outro, quase caindo. – Ele é a sua cara, você não acha?
Quinn esquadrinhou todo o ambiente em busca do homem que ela apontava, mas estava tão escuro que teve que procurar muito até encontrá-lo. Quando o viu, ele estava de costas, mas mesmo assim a vista era bela. De cabelos louros, porte de um homem forte, com braços que mal conseguiam comportar a camisa de garçom que usava e um traseiro que fez que Quinn morder os lábios, de fato o homem parecia perfeito. Em nenhum momento aquele rapaz a fez se lembrar de Sam Evans, seu antigo namorado de McKinley High, já que fazia muitos anos desde que ela o vira pela última vez. Mesmo assim, quando ele se virou e revelou aquele rosto tão peculiar, de lábios exageradamente carnudos, Quinn se sentiu abalada.
Mais do que isso, quase deixou cair o copo que segurava.
- Eu sei que ele é bonito – Lúcia voltou a dizer. – Mas também não é tudo isso. Se for ficar assim cada vez que vir um garçom bonito, acho melhor ficar em casa. Só assim não vai ficar passando mal por aí.
- Preciso falar com aquele homem.
- E quem não quer falar com ele?
- Não, eu realmente preciso falar com ele – disse Quinn e já se levantava, deixando a amiga de queixo aberto ao demonstrar tanta iniciativa.
Sam não a percebeu e não perceberia tão facilmente. Além de estar bastante atento à bandeja que carregava de um lado para o outro, havia tantas pessoas ao redor que reconhecer uma delas seria praticamente impossível. Além do mais, fazia quanto tempo que ele não via Quinn? Não a reconheceria de primeira se a visse do outro lado da rua. Pelo menos era nisso que Quinn acreditava.
Depois de distribuir inúmeros “Com licenças!” e fazer pelo menos duas pessoas derramarem suas bebidas, ela finalmente conseguiu alcançá-lo. Cutucou-lhe o ombro enquanto ele manobrava o corpo e a bandeja entre duas tentativas de dançarinos numa pista de dança, e mesmo assim ele a ignorou, tão focado que estava em seu trabalho. Quando Quinn o cutucou de novo, ele disse algo que ela não entendeu. Chegaram à mesa onde a bebida seria servida e ele serviu duas taças com o que pareciam ser espumantes. Havia duas mulheres naquele lugar e as duas, sem exceção, distribuíram olhares maliciosos na direção do rapaz. Se ele os retribuiu, Quinn não sabia dizer, porque ele ainda estava de costas.
Mas assim que terminou o serviço por ali, Sam Evans se virou e finalmente seu olhar encontrou o de Quinn. Sua enorme boca se abriu num ligeiro O e seus olhos se arregalaram de tal forma que Quinn não conseguiu evitar um sorriso mais exagerado.
- Q-Quinn? – ele disse com aquela voz inconfundível.
- Sam – ela disse. Não se lembrava de ter ficado tão alegre antes quanto estava naquele momento.
- O mundo é mesmo muito pequeno – ele disse com certa dificuldade. O ambiente estava muito barulhento.
- Lima que é muito pequena, Sam – ela disse.
- Quer ir para um lugar mais silencioso?
- É claro.
Saíram dali e tomaram um canto no enorme balcão do bar. Ninguém reclamou por Sam estar conversando quando devia estar trabalhando, porque os outros garçons, quando podiam, também costumavam flertar com suas clientes. Entendiam essa necessidade.
- Não achei que fosse encontrá-la aqui – Sam disse com um sorriso.
- Eu nunca achei que fosse encontrá-lo novamente.
- Você sempre foi a mais pessimista, não é mesmo?
- Não era o que eu ouvia naquela época.
Ao dizer isso, Quinn e Sam gargalharam. Talvez fosse a bebida que os tivesse deixado tão alegres.
- Quer dançar? – ela pediu quando uma música mais lenta começou a tocar.
- Estou trabalhando, Q, mas...
-... você quer fazer isso tanto quanto eu, não é?
Sam não disse nada em concordância. Apenas sorriu e tomou uma mão de Quinn, levando-a para o centro da pista de dança.
Começaram com uma dança tímida, apenas segurando mãos, movendo o corpo de um lado para o outro no embalo da música. Sam olhava para Quinn e ela retribuía o olhar, mas por mais que já se conhecessem de longa data, a distância parecia ter esfriado a intimidade que eles tinham. Além do mais, Sam parecia estar preocupado com a possibilidade de ser visto por algum superior quando devia estar trabalhando. Quinn percebeu isso e, puxando-o mais para perto, o obrigou a prestar atenção só naquele momento.
- Quem te deixou partir, Sam? – ela perguntou ao ouvido de Sam, agora que sua cabeça estava apoiada no ombro do homem.
- O que quer dizer com isso?
- Achei que não pudesse ter sido mais clara. Uma vez, prometemos que iríamos ficar juntos para sempre. Você me pediu em casamento e eu aceitei, mesmo que, dias depois, eu tivesse cometido um erro e anulado tudo isso. Mas quem foi que te deixou partir?
- Não sei – ele disse e escorregou as mãos pelas costas da mulher, pousando-as suavemente na sua cintura enquanto prosseguia com a dança. Aquele era o primeiro sinal de que ele estava à vontade com aquilo. – Talvez um amor.
- Um amor?
- Sim. Você.
- Você acha que eu o deixei partir?
- Não que a culpa tenha sido inteiramente sua, mas... É, eu também tenho culpa nisso. Não sei com o que estava na cabeça quando parti.
- Achávamos que poderíamos ser amigos quando terminamos e prometemos que nada de ruim voltaria a acontecer em nossas vidas.
- Achávamos que poderíamos ser amigos? Eu acho que não – ele falou e ensaiou uma risada.
- Por quê?
- Alguém pode até ter te amado, mas não do jeito que eu amei. Não era amor de amigo, nem depois, quando passamos a nos aturar como amigos. Eu sempre te amei de uma maneira diferente, Quinn. Você foi a única garota para quem entreguei meu coração logo de primeira.
Quinn sentiu arrepios, com um tipo diferente de animação.
- Uau.
- Eu adorava quando você me olhava bem dentro nos olhos, de uma maneira que só você sabe fazer. Não conheci mais ninguém que fizesse igual. Isso era tão romântico.
- E você perdia o controle quando eu fazia isso – ela disse e sorriu. Abraçou-o ainda mais, encostando seu peito no dele, mantendo o ritmo lento da canção.
Sam, então, desviou o rosto e começou a beijar o pescoço de Quinn de leve, fazendo-a sentir ainda mais arrepios. Quinn desceu um pouco as mãos e tocou as costas do rapaz – aquelas enormes e fortes costas -, fazendo-o se arrepiar, dessa vez.
- Quem te deixou partir, Sam?
- O que isso significa, Q?
- Eu não sei... – ela respondeu e dessa vez desceu as mãos mais para baixo, tocando sua cintura. – Mas eu só estive pensando aqui... Quem te deixou ir...?
- Não sei se quero continuar aqui essa noite.
- Eu não sei se quero continuar aqui agora.
- Eu precisaria avisar algum superior.
- Eu preciso falar com a minha amiga.
Desprenderam-se do abraço, mas não deixaram de se tocar até que seus dedos, entrelaçados, se soltaram também. Olharam um para o outro com ternura. Quinn queria poder beijá-lo ali, mas mesmo assim se refreou.
Saindo da pista de dança, ela avisou a amiga que iria embora. Mentiu, dizendo que estava mal e que preferia ir dormir cedo a ouvir aquelas músicas desconhecidas enquanto bebia, mas Lúcia era suficientemente esperta para entender que a dança com o garçom fizera alguma coisa acontecer. Sorriu, contente pela amiga.
Quando deixou o prédio, Sam já estava lá fora aguardando a sua saída. Estava encostado em um carro preto, estacionado bem em frente à entrada. Ainda vestia as mesmas roupas de garçom. Assim que a percebeu, abriu a porta do passageiro para que ela pudesse entrar.
- Oh... – ele disse assim que seus olhos pousaram nas pernas de Quinn, que acabava de se sentar. Quando ela a recolheu, Sam se sentiu mais empolgado do que nunca. Adorava as pernas de Quinn. Fechou a porta do carro e mal podia acreditar que estava prestes a tocar aquelas pernas novamente.
Circulou o carro, passando pela frente, sendo iluminado pelos faróis acesos, e tomou o banco do motorista. Não ligou o carro de imediato, porque tinha que arrumar os espelhos. Quando movimentou o retrovisor, seu olhar encontrou o de Quinn, que o encarava sedutoramente pelo reflexo.
Deixando os espelhos para lá, Sam virou o rosto na direção de Quinn e apertou os olhos, como se verificasse se aquela era a realidade. Como se tivessem combinado mentalmente, os dois se encurvaram para frente e, segundos depois, seus lábios se beijavam ternamente num beijo que, a muitos, poderia parecer selvagem. Sam tinha tanta fome de Quinn quanto ela tinha dele, e talvez por isso não só os lábios queriam se tocar, como também as mãos, que logo fizeram o trabalho de explorar o corpo alheio, sentindo os arrepios que cada um deles sentia.
E aquele beijo, eles sabiam, seria apenas o começo daquela noite.
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