Sams Town

9 Não Posso Ficar


Sam jogou-se na cama antes de tirar os sapatos. Fitou o teto como se nele acontecesse algum tipo de mágica, tornando-o mais interessante do que o céu daquela noite. Suspirou profundamente, tentando esvair um pouco de todas as emoções vividas nas últimas horas. Nunca se divertira tanto em sua vida, nem mesmo quando morava em Lima.

Sentou-se na cama e começou a descalçar os sapatos. Os pés doíam, e ele imaginava que isso tivesse algo a ver com o fato de que dançara muito. Ele adorava dançar. Queria poder voltar a ver aquelas pessoas e dançar com elas novamente , talvez na próxima festa em que os white boys dance, que ele não via a hora de acontecer.

- Take me to the place where the white boys dance – ele começou a cantarolar -, take me to the place where they run and pl...

Quinn passou na sua frente com passadas tão pesadas que se estivesse tentando quebrar o teto do andar de baixo com isso, Sam imaginava que, em breve, ela seria muito bem sucedida. Seguiu-a com o olhar, mas como já era tarde demais para ver seu rosto, uma vez que Quinn estava de costas para ele quando entrou no banheiro, ele não conseguiu ver que expressão ela carregava. Não que precisasse, uma vez que passos determinados como aqueles já falavam por si só.

Ele tinha percebido que a futura esposa estava um pouco alterada. Enquanto iam à festa, ela até parecera jovial e simpática, mas na volta não abriu a boca nem para se despedir do responsável pela carona, o que era uma grande falta de educação ao se tratar de Quinn. Sam não conseguia nem imaginar o que poderia ter feito isso com ela. Até onde se lembrava, ela se divertira tanto quanto ele na festa, até o momento em que decidiu ir embora como se sua vida dependesse disso.

Talvez alguma daquelas garotas tenha dito alguma besteira para ela, pensou enquanto afastava os sapatos descalçados para longe da cama. Estava desafivelando o cinto quando mordeu o lábio inferior numa expressão reflexiva. Bem que o Sr. Thowman tentou me avisar que isso podia acontecer. As garotas por aqui são belas, mas são tão maldosas quanto.

Quinn demorou a sair do banheiro. Sam estava pensando em fazer amor com a amada antes de ir dormir realmente, aproveitando o clima de descontração que a festa tinha proporcionado, mas algo em toda aquela demora o fez reconsiderar a ideia. Talvez Quinn não estivesse a fim de se divertir um pouco mais naquela noite, e ele tinha vontade de saber por quê.

Quando ela apareceu, Sam já tinha adormecido. Quinn se sentiu um pouco grata por isso, pois não queria ter que conversar com ele sobre aquela festa tão cedo. Esperava que sua atitude seca e determinada tivesse passado alguma mensagem para o noivo – não que ela tivesse certeza de que Sam fosse um homem inteligente o bastante para captar mensagens no ar. Tinha medo de que, se abrisse a boca para falar algo, começasse a discutir ao menor sinal de que Sam estava mentindo.

Na manhã seguinte, então, os dois acordaram como se nada tivesse acontecido. Apesar de terem dormido pouco, os corpos estavam bem descansados, o que comprovava a teoria de Quinn de que a cidade, por si só, é capaz de fatigar e muito alguém, ao contrário de fins de mundo como Sam’s Town.

- Bom dia, Q. – disse Sam enquanto se encaminhava para o banheiro.

Quinn o acompanhou com o olhar, mas não disse nada. Era uma pena ter que punir aquele corpo tão bonito, assim como o seu dono, por causa de algumas paranoias cheias de fundamento, mas ela achava melhor assim. Quem sabe o futuro marido não deixasse de acreditar em velhos cheios de maldade para espalhar?

Levantou-se e foi até a cômoda apanhar algo para se vestir. Não tinha muitos planos no dia, e por isso pensava em correr um pouco por aqueles quarteirões, razão pela qual procurava uma regata rosa e uma legging preta de mesmo tecido, prontas para atividades físicas, em meio a todas aquelas roupas. Vestiu-se ali mesmo, já que Sam demorou todo aquele tempo no banheiro.

Quando ele saiu, ela conseguiu entender o porquê da demora.

- Sam?

- Sim?

- Onde você pensa que vai?

- Tenho um compromisso agora de manhã. Ainda bem que acordei a tempo.

Quinn riu sem vontade antes de voltar o olhar para o homem e dizer:

- Você fala como se ainda estivesse em Lima e tivesse que se levantar cedo para ir trabalhar. Nunca pensei que um lugar como esse fosse capaz de controlar a sua rotina assim.

Sam estava lindo. Quer dizer, naturalmente, Sam era um homem bonito, mas conseguira melhorar um pouco mais da sua aparência naquela manhã. Quinn conhecia bem a camisa polo que ele usava agora, assim como o jeans e os tênis chamativos. Sam sempre se vestia assim quando pensava em dar uma volta e parecer sério ao mesmo tempo. Por isso ela se sentiu tão intrigada.

Houve um instante de silêncio entre os dois. Sam continuou a arrumar alguns acessórios no corpo, como o cinto que ele usara na noite passada, enquanto Quinn o observava boquiaberta.

Ele está me provocando, ela percebeu. Está agindo assim porque quer me causar raiva. Mas o que ele devia saber é que a pessoa no direito de se sentir assim aqui sou eu, e não ele.

- Não vai me dizer aonde vai, mesmo? – tornou a perguntar.

- Vou. Estou indo à alfaiataria cuidar da roupa do casamento.

Menos mal.

Quinn pensou em perguntar se estava tudo bem entre eles, mas a pessoa a fazer essa pergunta, no caso, devia ser ele, já que fora ele o causador da indiferença dela. Manteve-se calada, portanto. Por algum motivo, preferiu não causar mais intrigas.

- Está certo.

Sam ensaiou um sorriso ao partir pela porta do quarto. Quinn sorriu de volta e logo se arrependeu de ter feito isso.

Ela está linda, foi a primeira coisa que Sam pensou ao tomar a rua em frente à pensão. Vestida em sua roupa de ginástica, uma roupa que ele conhecia bem de tempos atrás, Quinn estava mais atraente do que nunca. Tal constatação o fez se sentir ainda mais entristecido por não tê-la tocado na noite passada. E por que razão isso tinha acontecido mesmo? Eu não sei, respondeu-se em pensamento. Ela não quer dizer.

A verdade era que Quinn não queria conversar. Estava mais do que claro que, entre os dois, havia um problema não resolvido, uma situação que precisava ser discutida, mas ela não queria fazer isso. No lugar, queria puni-lo com o silêncio, e estava se saindo muito bem. Isso, no entanto, fez com que Sam quisesse se vingar, e era por isso que ele se arrumara tanto. Queria provar para a mulher que ela estava cometendo o maior dos erros se sua intenção era fazê-lo sentir raiva dela e questionar a sua atitude.

Sam estava de fato indo à alfaiataria. Enquanto caminhava até – com poucos minutos de caminhada, era possível chegar ao lugar -, ele olhava ao redor e tentava coletar os olhares alheios. Sam sabia que era um homem de chamar a atenção, e não era de se admirar, já que ele trabalhara duramente para que isso fosse possível.

Ao entrar na alfaiataria, que, como de habitual, parecia vazia, Sam ouviu a sineta tocar à porta. As cortinas do lugar ainda estavam fechadas, o que o fez pensar se, de fato, a loja estava funcionando. Ficou em pé ali, durante alguns minutos, sem ninguém aparecer, até que pensou em dizer um "Olá!".

Foi então que alguém surgiu no recinto.

- Achei que não fosse mais aparecer – disse uma voz feminina em algum lugar, mas não a que ele esperava.

A confirmação disso veio quando, de trás de uma arara cheia de vestidos, surgiu uma garota jovem, de não mais do que vinte anos. A dona da voz.

Definitivamente, aquela não era a mesma pessoa que o atendeu na última vez em que ele tinha ido até lá. Por mais que tivesse bebido na noite passada, ainda podia se lembrar que a atendente daquela alfaiataria era bem mais velha e mal arrumada. Aquela menina, no entanto, era de arrancar suspiros de qualquer homem.

Apesar de nova, aparentava mais madura, como a maioria das pessoas em Sam’s Town. Usando uma saia mais curta do que as demais mulheres costumavam usar, ela parecia provocante enquanto andava de um lado para o outro com aquelas pelas pernas morenas à mostra. Tinha cabelos ondulados descendo ao redor do rosto e um olhar esperto. Era o tipo de pessoa que Sam associava ao México, talvez por causa do tom da pele.

- Eu devo ter entrado no lugar errado... – ele começou a dizer.

- Não... A minha mãe avisou que você viria.

- Como pode ter certeza de que sou eu mesmo?

- Uma descrição feita de alguém que nem você não é fácil de esquecer.

Sam engoliu em seco. De repente, sentiu muita vontade de ir embora dali.

A menina, no entanto, começou a apanhar alguns tecidos ao redor, a maioria de cores preta ou branca, provavelmente para o terno, e acabou por obrigá-lo a ficar. Quando se deu por satisfeita, foi até Sam e jogou uma tira de pano negro em seu ombro, o que o assustou.

- Quer fazer isso vestido? – ela perguntou, rouca.

- Como assim?

- Algumas pessoas preferem provar as roupas sem ter nada por baixo. Por isso a cortina fechada.

- Quero fazer isso vestido, por favor.

- Tudo bem. Meu nome é Nicki, caso queira saber, Sam – Nicki finalizou e se retirou para o balcão.

Sam assentiu sem dizer nada. Estava suficientemente intimidado pela situação e sentia como se a garota o sufocasse. Queria poder ter sido avisado de que a alfaiate de antes não poderia atendê-lo, pois assim teria se preparado melhor.

Ou se preparado menos.

- Você esteve ontem no lugar onde os garotos brancos dançam.

Como é que ela sabe disso?

- Estive. Por que a pergunta?

- Não foi uma pergunta. Eu te vi lá.

Sam vasculhou a mente em busca do momento em que pudesse tê-la visto, mas não o encontrou. Talvez ela estivesse blefando.

- É uma festa muito popular por aqui, sabia? – ela continuou.

- Estou por dentro da história.

Nicki balançou a cabeça em confirmação, mas o fez de forma demorada. Largou sobre a mesa a tesoura e o tecido que tinha acabado de apanhar e voltou o olhar na direção de Sam, que o recebeu com algum receio.

- Você disse que está por dentro da história da festa que acontece no lugar onde os garotos brancos dançam?

- Foi o que eu disse.

- Então quer dizer que você sabe que...

- Não precisa contar a história de novo, eu disse que já ouvi.

-... aquele é um lugar para onde solteiros vão.

- Fui pra lá com a minha noiva, como numa despedida de solteiro.

Nicki reprimiu o ímpeto de rir.

- Com ela? E você ficou ao lado dela o tempo inteiro?

Sam hesitou antes de responder. Nicki se antecipou a ele.

- Não, Sam... Eu e todo o pessoal de Sam’s Town sabemos que mensagem você quis passar ao aceitar ir para uma festa que nem aquela...

Nicki saiu de trás do balcão em que estava apoiada e caminhou lentamente na direção de Sam. Sem que ele pudesse perceber, ela ergueu uma mão à frente e o empurrou para trás, fazendo-o se desequilibrar e se sentar numa cadeira que ele nem sabia que estava lá. A partir daí, fitou-o de cima, a cabeça pendida para um dos lados como se avaliasse o estado do homem à frente.

- Você pode até ser tão ingênuo quanto pensa que eu sou, mas... — Sem aviso, Nicki levantou uma das pernas e, sem pedir licença, sentou-se sobre as de Sam, pousando os braços em seus ombros. Seu olhar, sob aquela perspectiva, era ainda mais provocante do que o rapaz podia aguentar. — Eu não sou. Ninguém em Sam's Town é.

Sam se sentia eletrizado, e temia que isso simbolizasse alguma vontade de trair Quinn. Por mais que tivesse se irritado com ela ainda mais cedo, ele não queria traí-la. Sou melhor que isso!

- Eu não posso ficar...

- Minha mãe me disse que você estaria aqui hoje pela manhã. Eu não podia perder essa oportunidade de jeito nenhum.

- Nicki, eu preciso ir embora agora...

- E ela sabe disso tanto quanto eu. Ninguém vem a Sam's Town se não está querendo fugir de alguma antiga história. E nenhum homem compromissado vai à festa no lugar onde os garotos brancos dançam...

- Nicki!

-... se não está tentando se esquecer da mulher que ama!

- O quê...?!

Sam teve sua exclamação interrompida assim que os lábios de Nicki tocaram os seus num beijo intenso. Ele até tentou afastá-la com as mãos, mas a garota em seu colo pareceu adorar o toque em seu abdome. Com os braços ao redor dele, remexia-se para frente e para trás como se fizesse amor. A sensação deveria ser prazerosa, mas, para Sam, era como se seu peito estivesse sendo esmagado pela dor da decepção.

E ele nunca se sentiu tão arrependido de ter ido a Sam's Town quanto naquele momento.

Notas finais
Há quanto tempo não posto? Nem eu sei rs
Faculdade faz isso com as pessoas. Falta de inspiração também. Pensem como deve ser ler livros de exatas o tempo inteiro e tentar escrever uma fanfic depois? Pois é, não dá certo rs
Espero que esse capítulo tenha ficado tão bom quanto eu o idealizei :)