Samantha Roberts - O Livro de Sócrates
18 O Guardião da Árvore
Notas iniciais
Pela primeira vez, eu não sabia muito bem o que fazer. Bom, o sol iria se por em pouco mais que uma hora e não tínhamos como chegar ao Monte Tam. Acho que um taxista também não iria nos levar até lá.
— Como chegaremos? – Perguntei, dessa vez em voz alta.
Jenny sorriu. Ela fez aquela cara ‘’ Há-há eu sabia que isso iria me servir para algo. ‘’ e começou a correr.
— Estão esperando o que? – Ela perguntou. – Me sigam!
Seguimos ela até um uma rua sem saída. Ela não parecia ter muito movimento. Olhei para o sol, o tempo estava se passando. Jenny pegou minha mochila e começou a vasculha-la. Eu reagi com ‘’ Ei, isso é meu! ‘’. De lá, ela tirou um prisma que eu havia trazido para a missão.
Ela o entregou a mim e eu entendi o recado na hora. Coloquei-o em certo ângulo que a luz do sol passou por ele, formando um pequeno arco-íris. Peguei um dracma na minha mochila e joguei para Jenny.
— Ó Iris, deusa do arco-íris. Por favor, aceite nossa oferenda. – Jenny disse e jogou o dracma no arco-iris.
Apareceu aquele circulo rosa que eu vi no caminhão de Bill. Jenny sorriu de novo.
— Mostre-me Zachary Smith. – Ela pediu e o circulo começou a tentar focalizar algo.
— Quem é Zachary? – Perguntei curiosa.
— Não é só você que tem seu irmãozinho mais velho. A diferença é que o meu é do bem, mora em São Francisco e me deve um favorzão. – Ela respondeu um tanto quanto grosseira. Acho que ela ainda estava ressentida. Droga.
A imagem ficou nítida. Do outro lado, vi um rapaz que aparentava ter seus dezoito anos. Ele lembrava muito Apolo. Seus cabelos eram cor de areia e seus olhos eram como os de Jenny. Vestia jeans e uma camiseta básica azul escura. Ele estava deitado em uma cama, que devia ser a do seu quarto, e estava ouvindo música em seu IPod. Quando ele percebeu nossa presença, deligou o IPod e abriu o maior sorriso.
— Jenny, minha maninha! Quanto tempo. Estou morrendo de saudades de você. Pensei que só iria te ver nas férias, quando eu fosse para o acampamento.
— Oi, Zack! Eu também estou com saudades demais. Estou em São Francisco e...
— O que? Você vem para cá e nem me avisa? – Ele se levantou da cama e perguntou.
— Estou numa missão, bobo. Estou aqui com Nick e minha amiga Sam. – Ela apontou para nós. – Preciso ir para o Monte Tam agora. Me empresta seu carro?
— Me-meu carrinho? Mas ele está tão... inteiro. – Ele pensou e despois estalou os dedos. – Já sei. Vocês pedem pegar o da minha irmã mortal aqui. Ela está viajando a trabalho mesmo. Onde vocês estão?
— Florence St. – Falei.
— OK. Chego com o carro daqui a pouco. – Ele disse e depois passou a mão pelo circulo, que se desfez.
Demoraram só uns quinze minutos e Zack apareceu com um Ford preto para nós. Ele pessoalmente era... como posso dizer? Quente como Apolo. Pelo jeito, Nick percebera minha opinião sobre Zack. Ele não tinha gostado muito disso. Amei.
Zack deu um mega abraço de urso em Jenny. Pelo jeito, eles se davam muito bem. Zack cumprimentou Nick com um: E aí, cara. Depois ele ficou olhando para mim.
— Hm, Jenny? Quem é essa sua amiguinha aqui? Eu nunca a vi no Acampamento. – Zack perguntou para Jenny.
— Oi. Meu nome é Samantha, mas pode me chamar de Sam. Sou filha de Atena.
Ele não pareceu surpreso. Zack já havia me visto antes. Mas, aonde? Dava para ver em seus olhos que ele, de algum modo, me esperava. Admito uma coisa: eu sou curiosa.
— De onde você me conhece? Não adianta disfarçar. Eu sei que você já me viu. Está na cara.
Jenny e Nick me olhavam como se eu fosse louca, mas Zack apenas deu uma risadinha.
— Sonhos. Flashs de visões. Não te conheço e nem sou meu pai, Samantha. Mas eu sei que você vai mudar o Acampamento Meio-Sangue por completo. Cuidado e boa sorte na missão. Para todos vocês. – Ele jogou a chave do carro para mim.
Jenny correu e foi dar mais um abraço nele antes que ele fosse embora. Nick e eu acenamos e ficamos na nossa. Zack seguiu caminho a pé e entramos no carro.
Como sempre, sobrou para eu dirigir. Liguei o carro e segui para o Tamalpais.
Eu estava a toda, nunca meti tanto o pé no acelerador. Entrei numa estrada secundária, que era mais estreita. Passávamos por meio de florestas, paisagem verde, e tudo na beira de um desfiladeiro. O cheiro de eucalipto era muito forte. O Monte Tam parecia cada vez maior a medida que nos aproximávamos.
Seguimos pela estrada, só parei quando a névoa à nossa frente estava muito densa.
— Calma, Sam. É só andar devagar. – Jenny disse.
Passei bem devagar pelo nevoeiro. Quando o nevoeiro se dissipou ainda estávamos na encosta da montanha, só que numa estrada de terra. O cume da montanha estava próximo.
Parei o carro, pois logo depois do caminho à frente havia um jardim. O Jardim das Hespérides.
O jardim era magnífico. Com flores das mais variadas e vivas cores. Um caminho era traçado por pedras de mármore negro polido. Logo atrás havia uma enorme macieira com maçãs belas e douradas. A fragrância era muito boa e a vontade de comê-las era enorme. Mas eu não seria muito inteligente em tentar pegar uma maçã da imortalidade, sendo que havia Ládon enroscado logo abaixo da árvore.
Quatro figuras apareceram das sombras, com um lindo canto. As quatro jovens tinham cabelos negros soltos sobre os ombros. Todas nos encaravam e logo vimos que não éramos bem-vindos. Decidi tomar meu ‘papel’ como líder da missão e dei um passo à frente de meus amigos.
— Voltai agora, meios-sangues. Voltai antes que Ládon acorde. – Uma das Hespérides falou.
— Sinto muito, mas chegamos até aqui e não podemos voltar. Estamos em missão a pedido do Acampamento Meio-Sangue. Temos que subir até o pico do Monte Tam para resgatar o Livro de Sócrates. Os deuses querem isso. Iria fortalecer o acampamento.
— Que assim seja. – Disse a Hespéride da ponta esquerda. – Mas antes terão de passar por Ládon. — Ela virou-se para o dragão. — Ládon, acorde!
A vontade de matar aquela Hespéride era muitíssimo grande. Elas desapareceram nas sobras de novo enquanto Ládon se levantava. Nick fez seu anel virar tridente e foi partir para o ataque, mas eu o contive.
— Não! Parem vocês dois! — Olhei para o lado e vi que Jenny já estava com o arco na mão. – Não podemos tentar um ataque direto. É suicídio!
— Então qual é o plano, gênio? – Nick perguntou.
Boa pergunta. Tive que pensar mais rápido do que nunca.
— Hm, vamos ver. Jenny, Nick! Vocês dois, guardem suas armas. Passem pelo lado de Ládon e eu fico aqui distraindo. Ele não pode abandonar a árvore, então desde que eu fique sendo a ameaça maior aqui ele não irá ligar para vocês. E não. Não estou pedindo sua permissão, Nick. O plano definitivamente é esse.
— Você é louca? – Ele perguntou incrédulo.
— Sou. Só agora que você percebeu? Na verdade, sou sua amiga. Não tem como eu não ser louca. Entende? Agora, tchau! – Eu o empurrei antes que ele fizesse algo.
Eu vi a cara de Jenny. Os olhos dela demonstraram compaixão, preocupação e até um pouquinho de mágoa. Eu disse bem baixinho, o suficiente para ela ler meus lábios:
— Eu vou ficar bem, sua louca. Te amo, amiga.
— Cuidado. Ainda quero te matar depois de ontem e não vou poder te matar se você morrer. Também te amo. – Ela sorriu e saiu correndo pela lateral do jardim.
Olhei para cima e me arrependi do plano na hora. Aqueles muitos e muitos olhos olhando com raiva para mim. E aquele mau hálito me dava vontade de vomitar.
— Sofía! – Minha querida espada se materializou em minha mão.
Eu comecei a balançar a espada na frente dele para Ládon não notar meus amigos.
— Ei, Ládon. Sabia que você é um dragão bem legal? – Eu falava enquanto eu tentava rodeá-lo – Eu ouvi muitas histórias sobre você. Eu achava bem legal, apesar de achar que erma somente um mitos.
Não sei mesmo se ele entendia nossa língua. Só sei que ele não apreciou muito esse meu ultimo comentário. Ládon investiu contra mim. Desviei da primeira cabeça por reflexo. Eu corri enquanto ele tentava me morder. Eu bati com a espada em algumas de suas cabeças, mas ele conseguiu acertar meu braço esquerdo. Olhei para eu meu braço, o corte não foi profundo e nem grande. Por sorte, foi como se eu tivesse caído na rua ou coisa do tipo. O veneno na chegara a entrar em meu corpo. Mas isso não impedia de meu braço arder como se estivesse em chamas.
Quando eu pensei que eu não iria conseguir mais correr, vi um raio de luz azul passar por cima de mim. Nick chegou ao meu lado e disparou muitos raios com o tridente em Ládon. Ele pegou meu braço e me puxou para longe da árvore.
Ao ver meu braço, Jenny pegou o kit de primeiros socorros e foi fazer as ataduras. Me braço doía tanto que até latejava. Jenny limpou o ferimento e enfaixou a parte machucada do meu braço. Depois que ela se deu conta do que fiz me deu um típico tapa na cabeça.
— Sua louca! Ainda bem que o veneno não entrou no seu corpo. Você poderia ter morrido! Sabe como eu ficaria? Não! Você...você...
Jenny fez a cara de que estava tendo uma visão. Do nada ela sentou no chão e começou a chorar. Eu raramente a vi chorar enquanto éramos amigas, mas agora ela chorava como nunca tinha visto antes. Sentei no lado dela.
— Jenny, o que foi? – Perguntei.
Ela olhou para mim e depois para Nick e começou a chorar mais ainda. Eu comecei a dar tapinhas em suas costas.
— Eu... eu não quero mais continuar. Eu não vou conseguir ver isso de novo! Sam, vamos voltar agora, por favor. – Ela me pediu.
— O que você viu?- Eu perguntei em um tom mais alto.
— Prometa! Prometa que não vamos continuar. – Ela disse.
Eu vi que nunca iria me falar. Então, ousei entrar em seu cérebro. Assim como ela, nunca mais eu queria ver aquilo de novo.
Estávamos em cima do Monte Tam. Eu olhava com os olhos de Jenny. Ele me viu logo acima, em outra parte da montanha. Eu também tinha lágrimas nos rostos. Desci correndo com minha espada não mão, com vários cortes no corpo e mancando. Jenny olhou mais uma vez para baixo e viu Nick desacordado, com um corte na cabeça como se ele estivesse caído de uma altura incrível.
Jenny tentava conferir seu pulso. Não sentiu nada. Ela fez um sinal de negação com a cabeça para mim. Eu comecei a chorar tanto que não reconhecia e mim mesma. Deitei sobre o corpo de Nick e comecei o chorar como nunca havia chorado na vida. E eu só tinha uma certeza ao ver aquela cena: Nick estava morto.
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