Notas iniciais
Desculpem-me a demora ... sem criatividade : )

Acabei não sonhando com Nick. Antes fosse.

Quebrando a impertinente sequência do mesmo sonho que eu vinha tendo, este veio em forma de lembrança. Um fantasma de meu passado que tanto lutei para esquecer, resgatado pelo meu inconsciente. Havia muito tempo que eu não pensava sobre o ocorrido, não obstante, ele simplesmente voltou à tona.

Eu tinha oito anos.

Não lembro direito daquele dia na escola, só sei que estava aborrecida com algo. A babá devia ter mandado a merenda que eu não queria ou fui escolhida por último no time de futebol — qualquer coisa idiota a esse nível. Já não estava sendo um dos melhores dias, então aquilo aconteceu.

Era aula de artes e a professora estava nos ensinando sobre a cultura do Pop Art. Enquanto ela recitava uma breve biografia de Peter Blake e Andy Warhol, ela distribuía imagens impressas de uma lata de Coca-Cola. Pediu que usássemos nossa criatividade e pintássemos as imagens com cores vivas e diferentes, uma forma fajuta de imitar com tinta acrílica a técnica do Pop Art.

Eu estava dividindo uma das mesas circulares da sala de artes com um grupo de garotas que nunca pareceram ter ido com minha cara. Não foi escolha minha, apenas não havia outros lugares quando cheguei na classe. Tentei fazer a tarefa ignorando os cochichos e olhares que vinham das cadeiras ao lado.

Houve, no entanto, um momento fatídico em que eu e Tessa, uma das garotas mal encaradas, tentamos alcançar o mesmo pote de tinta. O encontro de nossas mãos ocorreu de forma atrapalhada e acabou ocasionando a derrubada do pote. A tinta havia escorrido para cima do desenho de Tessa antes mesmo que eu percebesse.

— De-desculpa. — balbuciei, nervosa.

Tessa olhou desacreditada para seu desenho, piscando. Respirou fundo e tentou manter a calma. Então um sorriso cínico apareceu em seus lábios. Prendi o ar, assustada, esperando qualquer coisa ruim, mas não prevendo o que aconteceria em seguida.

Ela cuidadosamente abriu outro pote de tinta e despejou seu conteúdo. Não, não foi em meu desenho. Seria menos chocante se fosse assim. Desta vez, a tinta foi derramada sobre mim, encharcando meu cabelo e meu cardigã favorito.

As garotas romperam em gargalhadas imediatamente. A tinta escorria pelo meu rosto enquanto dedos eram apontados em minha direção.

— De-desculpa. — imitou-me Tessa, dissimulada.

Eu estava envergonhada demais para esboçar uma pronta-reação.

A professora, notando o ocorrido, perguntou em tom irritado o que havia acontecido. As amigas de Tessa rapidamente encobriram aquele projeto de megera, alegando que eu a havia xingado e que em defesa ela fez o que fez comigo.

— Isso é verdade, Samantha? — indagou a professora.

Aquilo já era demais.

Eu podia aguentar aquela lambuzada toda, mas eu não iria aceitar levar a culpa por aquilo. Comecei a provar de um sentimento amargo que não lembrava ter sentido alguma outra vez na vida. Meus olhos fincaram-se em Tessa e era como se ninguém mais existisse naquela sala, exceto a gente. Eu só queria que ela pagasse por isso.

De repente, como que do nada, ela levou as mãos à cabeça. O ar vitorioso foi subitamente substituído por um semblante de agonia extrema. Lágrimas verteram de seus olhos, vindo juntamente com os gritos.

— Faz parar! — ela implorou aos berros. O sangue subia para seu resto, deixando-o vermelho. — Faz parar!

A professora ajoelhou ao seu lado e agarrou seus braços, desesperada. Eu não conseguia desviar os olhos da cena. Por um momento, eu queria que aquilo continuasse. Ela merecia essa dor.

— Socorro!

A voz esganiçada me fez voltar para a realidade. Soltei o ar, que até então não havia percebido que estava prendendo, e me permiti ficar pasmada pelo o que estava acontecendo. O que era aquilo tudo?

Tessa desabou no chão. Primeiramente, imaginei que tivesse desmaiado, mas então pude ouvir seu choro. Seu corpo estremecia, exibindo uma fragilidade que eu jamais cogitaria existir.

Ela apoiou os braços no chão e usou de esforço para se erguer. Ainda tremia. Virou lentamente o rosto para mim, e acusou:

— Seu... Monstro!

Logo a socorreram e levaram-na para a enfermaria. A professora me levou ao banheiro e ajudou a tirar a tinta de meu cabelo e de todas as outras partes tingidas. Disse-me que depois o diretor iria querer falar comigo.

A simples ideia de parar na diretoria para qualquer coisa além de receber um caloroso elogio me atormentaria até o pó da alma. Naquele momento, porém, só havia duas coisas que ocupavam meu pensamento infantil.

O modo como Tessa achara que tinha sido eu.

E o modo como eu tinha certeza disso.



A primeira coisa que vi ao acordar foi o par de olhos verdes de Nick, arregalados em sinal alarme. Senti suas mãos segurando firmemente meus ombros, balançando-me energicamente.

Abri a boca e resgatei desesperadamente algum fôlego, assustada. Afinal, não era toda hora que eu acordava e encontrava um garoto em cima de mim e me chacoalhando inteira. Sem pensar direito, tentei me esquivar, mas Nick conseguiu me segurar no lugar.

— Sou eu, sou eu! — ele disse apressadamente. — Calma! Sou eu.

Desvencilhei-me dele e me sentei contra a cabeceira da cama, altamente taquicárdica.

Demorei alguns segundos até entender que tudo não bastava de um sonho. A lembrança veio de forma tão real que verdadeiramente pareci reviver aquele incidente. Não era a toa que eu procurava deixa-lo enterrado. Era horrível ter que conviver com algo inacreditável e incompreensível, mas que ao mesmo tempo era real. Eu tinha certeza que era.

Apenas Jenny conhecia esta história. Quando contei a ela, senti que ela acreditara em mim. Não conseguimos chegar a um consenso sobre o que poderia ter acontecido, mas eu já me sentia melhor por ter sido compreendida.

Mas talvez agora houvesse uma explicação.

— Estava passando pelo corredor quando te ouvi agitada. — Nick explicou, dando-me espaço ao sentar na beirada do colchão.

Tirei o cabelo da frente de meu rosto. Olhei para ele, hesitante. Não sabia se devia agradecê-lo por me acordar ou pedir desculpas, ou qualquer coisa do gênero. Sua expressão não era de preocupação, mas talvez de curiosidade. Pensei que ele poderia me ajudar. Afinal, Nick devia ser doutorado em esquisitices.

— Tenho um pergunta. — disse, por fim.

— Pode falar.

Respirei fundo e relaxei meu corpo. Aconcheguei-me nas cobertas da cama, tentando me sentir à vontade. Nick me observava com atenção, como se estivesse tentando prever o que sairia de minha boca.

Comecei a contar-lhe meu sonho. Forneci a ele todos os detalhes que ainda flutuavam em minha memória. Era estranho compartilhar aquilo com alguém que eu mal conhecia. Eu havia tornado o episódio tão pessoal que simplesmente dizê-lo em voz alta parecia errado. Mas eu continuei. Até o fim.

— Você... já viu isso antes?

Ele assentiu. Por baixo de suas sobrancelhas franzidas, seus olhos estavam perdidos em algum ponto fixo na cabeceira da cama. Então, ele olhou para mim. Subitamente, me senti tão exposta. Era como se ele conseguisse olhar através de mim e enxergar todo meu passado.

— Quantas vocês isso aconteceu? — ele indagou.

— Apenas uma.

— Quantos anos você disse que tinha mesmo?

— Oito.

Nick deixou escapar um arquejo de surpresa. — Di Immortales, Samantha. Sei que você não é humana... Mas mesmo assim! Você era muito pequena!

Abracei meus joelhos contra meu peito.

— Pode me explicar?

Ele se arrastou para mais perto de mim. Sua presença não soava como invasiva, mas tê-lo tão perto me deixava desconfortável. Ao mesmo tempo, eu não sentia o desejo de me afastar.

— Só conheci uma pessoa capaz de fazer isso. Ela era a pessoa mais poderosa com quem eu já tive contato.

— Ela era?

— Sim.

Engoli seco.

— Emma Belucce, ex conselheira-chefe do chalé seis. — ele disse. — Talvez Briana tenha falado sobre ela... Não sei. O fato é que Emma ensinava tudo o que sabia para Briana. Mas essa é uma história que sua irmã não gosta de trazer à tona.

Ele deu uma pausa, como que para procurar as palavras certas.

— Isso... Isso que aconteceu com você é uma habilidade dos filhos de Atena. Bem sinistra, por sinal. É como se vocês pudessem mexer no cérebro dos outros com o poder da mente. Mas digo... Mexer fisicamente. Vocês podem causar uma dor tão intensa que a vítima desmaia. Ou morre. Só que quase ninguém consegue fazer isso. Até mesmo Emma, que foi uma das semideusas mais incríveis de que já tive notícia, demorou anos para desenvolver essa coisa.

— Eu estava com raiva e confusa na hora. — admiti. — Tipo quando jogamos Caça à Bandeira e eu entrei no seu sistema motor.

— Seus sentimentos alavancam seus poderes. Cara, como isso pode ser perigoso. Você vai ter que aprender a se controlar daqui pra frente.

— É assim com você?

Nick permaneceu em silêncio por algum tempo, como que pensando. Ele olhou ao redor, para cada canto do quarto da falecida irmã. Perguntei-me quão estranho estaria sendo para ele ficar ali. Como ele se sentia trazendo outra garota para dormir no lugar de sua irmã.

— É difícil de explicar. — ele por fim disse, os olhos sobre a escrivaninha do quarto. — É como se a água fosse viva. E diretamente ligada a mim. Eu posso senti-la e... Ah, sei lá, é bem bizarro. — ele respirou fundo. — Você está bem agora?

— Estou sim. Foi só... um pesadelo. Vai passar. Não conseguiu dormir de novo?

Ele sacudiu a cabeça.

— Acho que é a casa. Muitas lembranças. Sabe como é.

Então uma ideia estúpida me veio à mente.

— Quer dar uma volta?



Se alguém dissesse para mim um mês antes que um dia eu estaria em um café no estado de Utah às três da madrugada com um semideus chamado Nicholas Jonhson, eu provavelmente daria risada.

Mas lá estava eu, encostada preguiçosamente em um banco de couro estofado, observando pela janela a vida noturna de Provo enquanto esperava que Nick viesse com meu chocolate quente.

A maior descoberta da missão talvez fosse que Nick é um cara muito mais legal depois das dez da noite. Ele não havia pensado duas vezes no convite. Tirou-me daquela casa e começou a me mostrar a cidade onde crescera. Enchia-me de histórias e referências, tudo com um tom nostálgico na voz. Nick amava cada centímetro daquela cidade. Era perceptível.

Por fim, paramos no Café Guru, um dos poucos estabelecimentos abertos até aquela hora. Nick foi fazer nosso pedido e em pouco tempo já estava de volta à mesa que pegamos, trazendo consigo a bandeja com nossas bebidas.

— Tem sorte deles estarem abertos. — Nick disse ao se sentar. — Eles têm o melhor chocolate quente do bairro.

Com as mãos em concha, elevei minha caneca à altura de meu rosto e o doce aroma que ela exalava. Não pude evitar salivar. A temperatura elevada era aconchegante, apesar de aquela não ser uma noite fria.

— Então. — ele voltou a puxar assunto. — É sempre adepta a escapadas noturnas assim?

Beberiquei meu chocolate e deixei que seu sabor inundasse minha boca, sem pressa alguma de responder a pergunta de Nicholas. Constatei que seu elogio feito ao Café Guru fazia jus ao produto. Era realmente delicioso.

Enquanto eu dava outro gole, fiquei analisando a expressão de Nick. Ele me olhava de uma forma que parecia querer tirar algo de mim. Eu não o entendia. Mas o engraçado era que eu queria entende-lo. A cada momento que passávamos juntos, mais próximo eu parecia estar do Nick que ele não gostava muito de mostrar. Eu queria provar a mim mesma que a análise que fizera na cozinha na outra madrugada estava certa.

A propósito, ele tinha uma pintinha fofa perto da boca. Mas eu não iria compartilhar esse pensamento com ele.

— Nova York é uma cidade bem 24h. Mas não é sempre que eu faço isso. Uma porque meu pai é super-protetor; e outra porque fazer toda hora perde a graça.

— Então a garotinha do papai está aproveitando do momento para se rebelar?

— Não é bem assim. Meu pai marca em cima, mas é um doce. Gosto da atenção dele. Apenas gostaria que ele me deixasse mais solta às vezes.

Nick recostou-se no banco.

— Fugi de casa aos dez. Sou mais solto impossível.

— E você sente falta? De alguém pegando no seu pé?

— Acho que eu não conseguiria viver de outro jeito. Mas, bem, desde que Susana se foi eu não tenho mais... Sabe, é bom saber que alguém está cuidando de você.

Indaguei-me se alguma vez Nick já havia namorado. Não que eu me importasse muito com seu histórico, ou que eu visse algum problema em ele ter um. Entretanto, o jeito que Nicholas falava denunciava que a única garota da vida dele tinha sido sua irmã. Isso me deixava curiosa.

— Posso te perguntar algo?

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso.

— Manda.

— Jenny... Ela sabia dessa história? Digo, a de Emma?

Nick cruzou os braços, na defensiva. Eu havia o colocado numa enrascada, obviamente. Caso a resposta fosse positiva, eu teria outro motivo para ficar chateada com Jenny. Ele sabia disso e não queria se meter na nossa amizade.

— Emma era bastante conhecida no acampamento.
— Então Jenny sabia. — concluí.

O filho de Poseidon parecia contrariado.

— Relaxa. — falei. — Não vou brigar com ela de novo. Só fico chateada. Isso foi algo que sempre me atormentou e ela guardou essa explicação por anos! Quer dizer, sabe quantas vezes eu cheguei a duvidar de mim mesma?

— Deve ter sido uma grande responsabilidade pra ela cuidar de você. Se Jenny conseguiu ligar o evento à Emma... Ela devia saber que você tinha um dom especial. Maior o poder, maior o perigo. Bem-vinda ao meu mundo.

Minha mente tentava cogitar o número de vezes em que eu quase teria sido atacada por monstros se não fosse por minha amiga. Quantas vezes seus sumiços estranhos teriam a ver com solucionar algum problema, algum perigo? Eu não conseguia decidir se me sentia traída, ou agradecida, ou até mesmo magoada.

— Mas tudo bem. — ele terminou seu chocolate quente com um grande gole. — Agora que você ligou os pontos, Quíron pode trabalhar em cima disso. E você vai aprender a controlar essa parada esquisita e sociopata. Se você me der licença, vou pagar a conta. A senhorita já tomou muito do meu precioso tempo hoje.

Fiquei sozinha, encarando o líquido grosso e impregnado de bolinhas de ar dentro da caneca. Esquisita e sociopata. Boa definição.



A manhã seguinte foi marcada por choro e despedidas, mais por parte de Liza que qualquer outra coisa. Era difícil para a mãe deixar Nick partir novamente depois de tanto tempo de contato limitado. A cena era apertar o coração, embora o metido a macho tentasse não transparecer abalo. Prometemos em nome dele que Nick mandaria mais notícias para casa a partir de então.

Jimmy — porque James não aceitava mais que o chamássemos pelo nome ou sobrenome — nos levou até a rodoviária, onde pegamos um ônibus em direção à costa oeste. Nosso pit stop tinha sido muito bom e útil para a missão e, principalmente, para o psicológico de Nicholas.

Mas ainda havia muita estrada pela frente.