Notas iniciais
As coisas vão começar a ficar quentes para a Sam. Boa leitura!

Jenny tentou nos explicar a situação o mais discretamente possível. Contou-nos que viu que algo iria acontecer de errado. Os fatos eram desconexos — mugidos, cacos de vidro, luta, e um mergulho no passado. E ela não sabia direito o que a última parte poderia significar, mas sabia que era importante.

Apenas fitei-a, tentando absorver suas palavras.

— Que foi? — ela perguntou, se sentindo incomodada.

Desacreditada, balancei a cabeça.

— Você teve uma visão. — as palavras que saíram de minha boca pareciam até mentira.

Jenny franziu o cenho e inclinou ligeiramente a cabeça para trás.

— Meu pai disse para você que eu posso fazer isso. Você sabia.

Dei uma risada seca enquanto a traseira do caminhão se chacoalhava por inteiro. Cruzei os braços, na defensiva, e encostei minha cabeça contra a cabine do motorista.

— Ah, para! Para de dizer isso como se fosse algo fácil de engolir. Como se eu não tivesse passado os últimos anos achando que teu pai era o maior cafajeste. Em que mundo você acha que ter visões é aceitável?

Ela piscou algumas vezes, ofendida.

— No grego? No meu, no seu?

— Se isso te conforta — Nick disse —, o pai dela é realmente o maior cafajeste. — ele recebeu um olhar austero de Jenny e entendeu o recado. — Ok, ok. DR das garotas. Tô fora disso.

Jenny respirou fundo.

— Sam, você precisa se acostumar com essas coisas. Não vai funcionar você ficar brava a cada fato novo.

Fato novo. Belo nome para usar quando você descobre que esses anos todos esteve ao lado da Raven e nem sabia.

— Minha melhor amiga é outra pessoa completamente diferente. — disparei. Senti um gosto amargo na boca e olhei para ela. — Não vai funcionar mesmo.

Ela recuou, surpresa, e não disse mais nada.


O caminhão entrou em um pátio que ficava ao lado de um grande posto de serviços. Meus olhos estavam tão acostumados à luminosidade moderada da estrada que até arderam ao encontro com tantas luzes, outdoors e postes.

Bill parou o veículo no estacionamento e desceu da cabine para falar com a gente.

— Estou começando a piscar de tanto sono. É melhor eu parar aqui por hoje.

Meneamos a cabeça, concordando.

— O seguinte: — ele disse. — vou comer alguma coisa lá dentro. Se quiserem, vocês também vêm. Depois vou capotar no caminhão mesmo. É mais seguro do que no acostamento.

— Valeu, mas comemos umas bolachas agora há pouco. — Nick disse. — Acho que vamos só dar uma alongada mesmo.

O caminhoneiro deu ombros e foi andando até a lanchonete do posto de serviços.

— Vamos lá. — disse Jenny.

Em minha cabeça, soava inaceitável termos que abandonar a carona somente porque Jenny tivera uma visão. Por mais que eu tentasse negar, no entanto, eu sentia a necessidade de darmos o fora dali assim que possível.

Após os dois terem descido, Nick ajudou-me a sair do caminhão.

— Certo, Srta. Wikipédia. O plano.

Olhei para os lados, a procura de alguma ideia. Só consegui enxergar fileiras e fileiras de carros estacionados.

— Plano? — ecoei.

— Essa missão é sobre você. — ele disse. — Faça algo.

Fechei a cara, emburrada. Era difícil pensar sob pressão, ainda mais com o tornozelo dolorido.

Armadilha.

Esta palavra veio tão clara e nitidamente à minha mente que até me espantei. Mas não era só isso. Ela fora pronunciada por uma voz. Uma voz que eu demorei algum tempo até ligar a sua dona.

Atena estava falando comigo.

Armadilha, ela tentou mais uma vez, provavelmente achando que eu fosse burra demais para interpretar aquela simples palavra.

Estaquei por um segundo inteiro, não sabendo ao certo como proceder com aquela situação. Sem mais cartas na manga, recorri à única coisa que me veio à cabeça: minha espada. Pus o pingente para fora de minha camiseta e olhei para ele, hesitante.

— Sofía.

Em pouco tempo a espada ganhara volume em minha mão direita. Nick e Jenny observaram a transformação em silêncio.

— Gente... E-eu... É uma armadilha. Temos que sair daqui agora.

Outro pensamento instintivo tomou conta de minha mente. Olhei para o outro lado do pátio, em direção à lanchonete do posto de serviços, e não avistei ninguém além dos funcionários uniformizados transitando por ali. Onde estaria Bill?

— Gente. — minha voz saiu trêmula. — Acho que estamos enrascados.

Nick deu um passo a frente e olhou em volta.

— Estão sentindo isso?

Jenny retesou os músculos das costas.

— Tem algum monstro por aqui perto.

Um bramido estrondoso chegou aos meus ouvidos. Os pelos de meu corpo se arrepiaram imediatamente, como se sentissem o perigo no ar. Meu corpo ganhou uma injeção de adrenalina, entrando no estado de alerta.

Apertei com força a empunhadura de minha espada, aguardando o que estivesse por vir.

Despontando atrás do posto, Bill reapareceu. Mas ele não estava sozinho. Desta vez, segurava uma coleira que prendia um animal. Se aquilo pudesse ser domesticado como um bicho de estimação.

Era um touro. Um enorme e forte touro de pelagem branca, que bufava convulsivamente pelas narinas. Ele abaixou os chifres e começou a roçar o casco contra o chão repetidamente, se preparando para o ataque.

— Oh-oh. — soltou Jenny.

— O que é aquilo? — perguntei.

Nick pôs a mão sobre meu ombro e começou a me empurrar para longe do monstro.

— Nada mais nada menos que o pai do Minotauro.

Finquei meus pés no chão, assustada, e fiz a ligação do título ao mito.

Certo, não era tão mito assim.

— O Touro de Creta.

— Exatamente.

Nick tirou seu anel do dedo, e este começou a brilhar com uma luz verde. Ele fechou a palma da mão em volta da joia e esperou até que a haste de seu tridente ganhasse forma.

Os três se encostaram contra a lateral de uma minivan.

— Acho que Atena estava tentando me avisar sobre isso. Na minha mente.

O touro urrou uma vez e, logo em seguida, ouvi o barulho de uma colisão. Encolhi em reflexo ao barulho enorme e tentei manter a calma.

— Em que mundo você acha que sua mãe falar na sua cabeça é aceitável? — Jenny devolveu minha provocação.

Dei um sorriso cínico.

— Você estava louca por uma oportunidade para falar isso, não estava?

Ela refletiu o meu sorriso e ficou calada.

Jenny estava brava. Esses momentos eram extremamente raros, porém nunca acabavam bem quando aconteciam. Se havia uma hora inoportuna para Jenny e eu estarmos em pé de guerra, era aquela.

Outro barulho enorme. Olhei por entre as janelas filmadas do carro e testemunhei um carro ser lançado sobre outro pelo touro.

Bill pôs as mãos em forma de concha ao redor da boca e gritou:

— Prontos ou não, aí vou eu!

Obedeci a minha inquietação e, agachada, me espremi entre dois carros e passei para a outra fileira do estacionamento. Olhei para a lataria do carro e reconheci o modelo X5 da BMW.

— Ele vai destruir todos os carros daqui até achar a gente. — Jenny observou, apreensiva.

Fitei novamente o carro em que eu estava escorada e meus neurônios começaram a se agitar em milhões de sinapses. Era uma ideia louca. Mas, bem, aquela situação toda era louca.

— Preciso que vocês distraiam Bill e o bichinho dele.

Nick mantinha os olhos grudados nos dois.

— Fácil. E o que mais? Um chazinho? Torradas com geleia de cereja?

Esfreguei meus dedos, esforçando-me para me concentrar. Eu só havia feito aquilo uma vez e com um material adequado para me auxiliar, bem como um instrutor ao meu lado.

— Nick, tire seu moletom. Preciso de uma adaga. Alguém trouxe?

Jenny tirou seu arco e flecha da mochila que ela levava consigo e preparou-se para um tiro.

— Se eu atiro, denuncio nossa posição. O que acham?

Nick arrancou de qualquer jeito seu moletom da Utah University sujo de sangue de Hidra e o jogou contra mim.

— O que vai fazer?

— Roubar um carro. — eu disse enquanto enrolava o grosso moletom em volta da minha mão que agarrava o punho da espada. — Jenny, espere até eu estourar o vidro para disparar.

Nick arregalou os olhos.

— Vai roubar um carro!

— Sam! — Jenny protestou.

Terminei de atar minha mão com o moletom.

— É uma BMW. Acham que esse cara não tem seguro?

— Sam! — foi a vez de Nick reclamar.

Revirei os olhos e respirei fundo. Não, eu não queria fazer aquilo. Eu não queria ter que fazer aquilo. Precisávamos, no entanto, dar um fora dali. E também precisávamos de um meio para parar aqueles dois. Nick e Jenny não achavam nada demais lutar contra a Hidra de Lerna, mas reclamavam de algo tão banal na comparação quanto roubar um carro?

Escorreguei para longe da porta do motorista e preparei meu braço.

— Fechem os olhos. — mandei, decidida.

Não esperei que eles se manifestassem outra vez — levei minha mão e o punho da espada com força até vidro da janela. O material cedeu ao impacto da batida e se estilhaçou em pequenos pedaços que voaram para todos os lados. Imediatamente, o alarme começou a disparar, juntando-se ao enorme coro de alarmes dos carros revirados pelo estacionamento.

— Ótima hora para vocês me darem uma adaga.

Pressionado pelo estrondoso alarme do carro, Nick sacou da lateral de sua mochila uma adaga e a entregou para mim.

— Distraiam os dois. — ordenei.

Com isso, Jenny disparou a primeira flecha. Não esperei para saber se ela havia acertado ou não, debrucei meu corpo pela janela quebrada e tentei escorregar para dentro do carro.

Nick soltou um palavrão atrás de mim.

— Di Immortales, você não bate bem! Olha os cacos de vidro!

Obrigada, pensei. Eu não sentiria eles perfurarem minha barriga sem sua brilhante observação.

Ele elevou meus quadris e sem delicadeza alguma me jogou para dentro do veículo. Mesmo tentando frear minha queda, bati meu ombro de mal jeito contra o câmbio automático. A tala em meu tornozelo se chocou contra alguma coisa dura e eu tive que segurar um grito de dor. Levantei, gemendo, peguei a adaga largada no tapete e depois sentei-me no banco do motorista.

Nick ainda me olhava meio assustado.

— Vai! — mandei. — Sai daqui! Eu cuido disso!

Ele assentiu apressadamente e correu sei lá para onde. Não importava. Tudo o que eu precisava era que o touro e Bill ficassem distantes por um tempinho.

Fechei os olhos e inspirei fundo, tentando ignorar pressão no ar e a veia que passava por minha têmpora martelando contra minha cabeça. Scott havia me ensinado a fazer isso com seu carro alguns meses antes. Eu iria conseguir.

Certo, Sam. Qual o primeiro passo?

Era dificílimo conseguir ter um pensamento coerente com aquele alarme me tirando do sério. Olhei para o posto de serviços, preocupada. Era um fato de deixar o queixo cair, mas ninguém parecia estar notando o que realmente estava acontecendo. Os funcionários olhavam para nossa direção com um desinteresse que me deixou abismada.

O primeiro passo?

Achar o manual do carro!

Estiquei meu braço até o porta-luvas e comecei a vasculhar em busca do manual. Dei um gritinho vitorioso quando finalmente consegui e procurei desesperadamente pela página da fiação.

Ajustei o banco para trás, a fim de me dar mais espaço. Joguei minha espada e o moletom de Nick paro o passageiro e me agachei para procurar a maldita tampa que ficava em baixo do painel do carro.

Dei graças quando a encontrei e constatei que era uma mera tampa de encaixe. Coloquei a ponta da adaga no vão que havia ali e usei-a como uma alavanca, arrancando a tampa. Deparei-me com uma porção de fios de grossuras e cores diversas.

Procurei no desenho do manual o fio do alarme do carro e, comparando o desenho com o original, achei o dito cujo e o cortei sem hesitar. O alarme cessou-se no mesmo segundo.

Joguei minha cabeça para trás, agradecida pelo silêncio.

Ou pelo silêncio parcial, pois eu ainda ouvia os sons metálicos resultantes das lutas que Jenny e Nick travavam. Temi pelos dois e resisti à tremenda vontade de sair do carro para ajuda-los a combater a fera. E Bill, o caminhoneiro, claro.

Foquei novamente nos fios.

Certo, havia um par de fios vermelhos, de fios marrons e um fio amarelo. Pela espessura dos vermelhos, imaginei que eles fossem ligados ao sistema elétrico do carro.

— Onde está sua outra amiguinha? — ouvi Bill perguntar, sendo seguido por um mugido do touro.

A minha sorte era que um senhor carro esportivo estava estacionado na minha frente, me escondendo bem. Mas ainda assim não era uma camuflagem ideal. Eu podia não ter muito tempo.

Saquei a adaga e cortei os dois fios vermelhos. Com a ponta de lâmina, raspei o plástico isolante de ambos até a fiação estar amostra. Com cuidado para evitar choques, juntei a parte exposta dos fios e enrolei-as.

As luzes do carro se acenderam.

— Há-há! — eu gritei, alegre. — Sou demais!

Segurei a adaga com força e a coloquei no vão que havia atrás do volante, forçando até que ele se destravasse. Quando ouvi um click confirmando meu sucesso, voltei-me para os fios.

O outro par de fios, o marrom, só podia servir para a partida. Descasquei a camada isolante até ver o pedaço de cobre. Peguei o moletom de Nick, pois sabia que esse fio específico carregava uma alta voltagem. Com uma artimanha usando a ponta da manga do casaco, consegui entortar a extremidade dos dois fios.

Peguei na parte isolante e fiz o contato entre os fios. O motor, em resposta, começou a roncar. Então enrolei os dois de tal maneira que eles não se soltassem.

Meu sorriso de satisfação foi abalado por uma coisa: eu tivera apenas duas aulas práticas de direção até o momento. E agora teria dirigir aquela espaçonave que chamavam de carro.

Decidi jogar tudo para o ar.

— Que se dane! — resmunguei para mim mesma ao virar meu tronco para trás e ter uma visão melhor do espaço da vaga. — Eu sou uma semideusa.

Pisei no pedal do freio enquanto levei o câmbio até a posição R, a marcha ré. Acelerei lentamente e consegui tirar o carro da vaga. Soltei o ar, aliviada. Joguei o câmbio para a posição D e comecei a andar com o carro pelo estacionamento.

Não foi difícil acha-los. Afinal, se tratava se um adolescente com um tridente enorme, um touro barulhento, um gordão distribuindo golpes e uma garota bancando o Rodin Hood. Não é algo que acontecia em qualquer estacionamento da Wallmart ou coisa assim.

Encontrei-os em meio a um largo corredor entre duas fileiras de carro. Nick cuidava do Touro de Creta, manipulando seu tridente com invejável maestria. Ele parecia tão acostumado com a arma que o tridente agia como se fosse uma extensão de seu corpo.

Jenny largara o arco e flecha e partira para o corpo a corpo com o caminhoneiro, que na verdade não devia ser caminhoneiro porcaria nenhuma, coisa que não vem ao caso. A luta, surpreendentemente, seguia de igual para igual. Bill era grande e forte, porém Jenny era mais rápida e mais ágil. Ela conseguia escapar dos golpes do homem sem aparentar dificuldade, e ainda deslocar seu corpo até achar uma brecha para encaixar um soco ou chute.

Liguei o farol alto para chamar atenção. A luz forte interrompeu as brigas por um pequeno segundo, enquanto todos tentavam identificar a fonte misteriosa dela.

Torci para que meus companheiros de missão entendessem o recado — SAIAM JÁ DAÍ! — e afundei meu pé no acelerador. O carro arrancou, me jogando contra o banco, e foi ganhando velocidade em direção aos quatro.

Nick entendeu e logo saiu do caminho. Jenny, ainda engajada na luta, demorou mais um tempo. Ela arregalou os olhos, surpresa, e, antes de escapar do carro, derrubou Bill no chão com uma rasteira.

À esquerda, Bill se recuperava do golpe desorientador; à direita, o touro ainda bufava, transtornado. A dianteira era suficientemente grande para acertar os dois ao mesmo tempo.

Fechei os olhos e enterrei o pedal do acelerador.

As duas colisões simultâneas desestabilizaram a direção do carro. Jogaram-me de um lado para o outro, fazendo o mundo todo balançar. Xinguei-me por ter esquecido do cinto de segurança. As suspensões atingiram o asfalto com uma batida seca. Por cima dessa barulhada toda, consegui escutar o grito horrível de dor que Bill soltou.

Desesperada e sem saber o que fazer, freei o carro.

Os pneus cantaram e, sem forças para lutar contra a Inércia, fui lançada para frente pelo impacto. Meu tórax bateu contra o volante e o choque elástico mandou-me para trás novamente.

Expirei com a boca bem aberta, desacreditada com o que eu acabara de fazer.

Abri a porta e saltei para fora do carro. Senti minhas pernas bambearem e minha pressão cair drasticamente. Apoiei-me contra o carro e fui andando escorada a ele, respirando fundo a cada dois segundos.

Cheguei à traseira a tempo de ver Nick se aproveitar da confusão do touro atropelado e enfiar o tridente contra o lombo do animal. O Touro de Creta se encolheu e, em meio a um urro, se desfez em pó.

Bill emitiu um pequeno gemido, deitado no chão, então perdeu a consciência de vez.

Era coisa demais para acreditar.

Jenny tendo visões. Caminhoneiros que não eram caminhoneiros. Monstros mitológicos que vindo me atacar e se desfazendo como se fossem feitos de areia, ou explodindo um tipo de fogo mágico. Eu roubando um carro e atropelando pessoas propositalmente.

Deuses, o que eu estou fazendo com minha vida?

Essa quantidade abundante de informações novas giravam ao redor de minha cabeça, me deixando tonta. Toda a coragem que eu havia reunido nos últimos minutos pareceu se dissipar de uma vez.

Enfiei minhas mãos no cabelo e tentei manter a calma.

— Sam? — Nick perguntou ao encolher seu tridente na forma de anel. Sabe-se lá como. — Tudo ok? Você está pálida.

Assenti, mesmo sendo a maior mentira.

Jenny recolheu sua aljava e o arco, e enfiou tudo dentro de sua mochila. Ela ficou em pé de frente para Bill, observando-o.

— Agora você vai me dizer que loucura foi essa? — indagou Nick. — Quer dizer, nossa!

Eu não conseguia nem pensar direito.

— Minha amiga... Ela tem um namorado mais velho e...

Jenny revirou os olhos.

— Deuses, você ainda sai com o panaca do Scott? Qual é! Esse cara não quer nada com a vida!

Dirigi um olhar severo a ela.

— Como eu estava dizendo, Nick, ele é mecânico. Fui com essa minha amiga na oficina dele, depois do expediente. Ele me ensinou umas coisinhas.

Jenny jogou a mochila sobre os ombros e começou a dar passos firmes em direção ao posto.

— Vou dar um jeito no pessoal lá dentro. — ela anunciou. — A névoa sozinha não vai conseguir explicar esses estragos todos.

Assisti-a entrar na lanchonete, travando meu maxilar de tanta raiva.

Nick sentou-se sobre o capô, ao lado de onde eu estava encostada. Ficamos em silêncio, observando juntos a falta de reação de Bill. Ele parecia estar morto, porém eu não queria ir até lá para verificar.

Tinha um homem morto a minha frente. Como eu não estava entrando em colapso?

— É muita coisa nova, mas você vai conseguir lidar. Juro. — Nick disse, como se tivesse lido minha mente. Paralisei. Será que ele também podia? — Seu jeito de encarar algumas situações vai mudando, sabe?

Eu sentia como se eu possuísse duas identidades — a Sam normal e a Sam semideusa —, uma diferente da outra, e elas duas estivessem brigando entre si.

— Isso — ele apontou para Bill — será normal. Uma droga, eu sei. Às vezes eu me sinto o maior cretino sangue frio.

Olhei para a lanchonete, onde várias pessoas sentavam perto da janela e não percebiam nossa movimentação. Jenny estava ali, discretamente parada em um canto. Ela encarava a multidão com o semblante tremendamente sério. Estava se concentrando.

Parecia que eu não pertencia mais àquele mundo normal, onde pessoas e famílias faziam uma viagem agradável e paravam a noite para descansar um pouco numa rede de postos de serviço aconchegante. Eu agora pertencia a uma realidade a parte, invisível para o resto.

Meu coração apertou-se numa sensação horrível quando reconheci que Jenny estava tentando me proteger disso. E foi como um tapa na cara quando decidi que faria a mesma coisa por ela.

— Você está se saindo bem, Srta. Wikipédia. — Nick tentou me animar. — Não me obrigue a dizer isso de novo. E não fique com essa cara também.

Sorri amarelo.

— Não vou obrigar. — respondi.

— Agradecido.

Jenny voltou depois de um tempo, com um mapa na mão. Ela entregou-me o mapa e olhou para os amassados da lataria do carro com desaprovação.

— Temos que dar o fora daqui. — ela alertou. — Rápido.

— O que a polícia rodoviária vai achar quando ver uma pirralha dirigindo uma BMW? — perguntei.

— Tenho uns documentos falsos na mochila. Nós três temos carteira de motorista, passaportes, identificação com idade de 21 anos e essas coisinhas básicas. Só uma mexidinha com a névoa e pluft. Eles caem. Sua melhor amiga duas-caras também sabe ser prevenida. E, sim, ela tem visões. E pega bronzeado mais fácil, só que isso é um bônus.

Suspirei.

— Jenny, eu...

— Vamos embora. Estou cansada.

Igualmente cansada para discutir com ela, entrei no carro que ainda estava ligado. Ajustei o banco do motorista e os retrovisores, então pus o bendito cinto de segurança. Nick sentou-se ao meu lado e pegou o mapa de minha mão para dar uma olhada. Protestei, mas ele me ignorou.

— Tem um hotel a cinco quilômetros daqui.

— Muito perto. — Jenny opinou com um ar entediado.

Nick entortou o mapa a sua frente, como se esse gesto fizesse brotar hotéis por perto.

— Um a vinte e oito quilômetros, pegando um desvio na interestadual.

— Vai ser esse. — eu disse, indisposta para dirigir muito mais que isso.

Pisei no acelerador com um receoso cuidado e tirei a gente daquele lugar. Dei uma última olhada no retrovisor antes de entrar na estrada. Bill ainda não se mexia.

Com medo demais para voltar atrás, liguei o rádio e fingi que aquilo tudo não tinha acontecido.