Samantha Roberts - O Livro de Sócrates
13 Pago quando puder
Notas iniciais
O silêncio desconfortável do carro era preenchido pelas rimas nostálgicas de John Denver. Ao som de Take me home, country roads, eu dirigia cuidadosamente interestadual abaixo. Talvez cuidadosamente demais, ao julgar pelas buzinadas que os outros motoristas me davam. No entanto, eu preferia viajar numa velocidade de quarenta quilômetros por hora a ter outro acidente na estrada.
Também preferia acreditar que era o cansaço que nos impedia de conversar. Porém estava sendo difícil ignorar a sensação de que éramos três desconhecidos dividindo um espaço pequeno.
Não demorou muito até Nick encostar a cabeça na janela e pegar no sono. Pelo retrovisor, eu conseguia ver Jenny relaxada no banco, observando com certo desinteresse a paisagem lá fora. Cara, ela estava muito chateada. Desejei conversar com Jenny, só que eu não sabia muito o bem o que dizer. Ou por que dizer. Ainda soava errado em minha cabeça pedir desculpas por ela ter guardado o maior segredo da minha vida.
Um carro passou com alta velocidade por mim, o que me fez prestar mais atenção na estrada. Peguei no volante com mais força e tentei me manter dentro da faixa.
Claro que a concentração não durou muito mais que meio minuto. Os acontecimentos do dia invadiam minha mente sem que eu ao menos percebesse sua chegada. Tudo parecia ser tão surreal. Mas aconteceu. Eu estava lá, e fiz tudo aquilo. As dores de meu corpo serviam como incontestáveis testemunhas. Entretanto, eu não tinha certeza de até onde eu queria acreditar.
Ao meu lado, Nick ressonou baixinho.
Eu não conseguia aceitar o modo como ele se transfigurava enquanto dormia. Seu rosto era tomado por uma serenidade cativante. Com as expressões suavizadas pelo sono, Nick demonstrava a confiança entregue de uma criança que dorme sentindo-se protegida no colo de um adulto.
— Ele não dorme assim há éons. — Jenny comentou ao me pegar olhando para Nick. — Deve estar cansado pra cacete.
Desviei o olhar rapidamente, encabulada por ter sido flagrada.
— Ele é do tipo que tem pesadelos?
— Ele é do tipo que lembra. Até demais.
Notei pelo espelho o jeito terno como Jenny olhou para Nick naquele momento. Percebi que havia uma ligação realmente forte entre eles. Fiquei pensando no que os dois poderiam ter vivido juntos até então, no que tornaria a amizade dos dois tão forte.
— Nick me pareceu meio atormentado. — comentei.
— Ela já enfrentou seus perrengues.
Respirei fundo.
— Ele me falou da irmã. Ontem à noite.
Observei o reflexo dos olhos de Jenny, que faiscaram com a informação. Ela estava lá quando tudo aconteceu, afinal. Olhou para Nick, como que quisesse verificar se ele estava mesmo dormindo, então me respondeu:
— Não gostamos muito de lembrar disso. As coisas nunca mais foram as mesmas depois dela... Você sabe.
— Vocês eram amigas?
Jenny começou a roçar o polegar sobre a outra mão, típico de quando ela está incomodada.
— Parceiras de crime.
Resolvi deixa-la com seus pensamentos e não mais tocar no assunto.
Fiquei quieta, no entanto, pensando sobre as duas. Ainda era difícil pensar que Jenny tinha toda uma vida por trás das cortinas. Achava que eu era sua parceira de crimes, só que estes iam até no máximo escapar de uma aula ou dizer aos nossos pais que iríamos dormir na casa uma da outra quando, na verdade, iríamos numa festa. Com Susana devia ter sido diferente. Devia ter sido de verdade. Cometer verdadeiras loucuras, fazer coisas que representavam um risco estupidamente maior que uma semana de castigo.
Eu estava me sentindo jogada de escanteio por uma garota que estava morta há dois anos. Que ridículo, Samantha.
Irritada, comecei a cantar junto com John Denver, louca para poder chegar no hotel e tentar dormir um pouco.
Mesmo com minha admirável lentidão, demorou um pouco mais de quarenta minutos para o outdoor de propaganda Steinfield Hotel ficar visível entre os enormes pinheiros que cercavam a estrada. Ele indicava que pegássemos a primeira estrada secundária à direita, e foi o que fiz.
O hotel três estrelas ficava à beira da rodovia. Mais adiante, uma pequena cidade parecia se erguer. O hotel era circunvizinhado por pequenos comércios — um bar pouco movimentado, uma livraria com a faixada decaída, uma mercearia pequena e até mesmo uma lojinha que, pela vitrine, aparentava vender bugigangas.
Rodei pelo quarteirão até achar o lugar mais ermo possível para poder largar o carro. Não achava que uma BMW daquelas com o vidro quebrado iria causar uma boa impressão. Demorei cinco minutos até conseguir fazer a baliza corretamente. Verifiquei se alguém estava nos vigiando e, após me certificar que não, desfiz o contato entre os fios.
Acordamos Nick e, cautelosamente, andamos até o hotel.
Ao entrarmos, nos deparamos com um pequeno saguão. O lugar estava longe de ser luxuoso, porém eu pouco estava ligando para isso naquele momento. Ele era dividido em dois ambientes: uma sala de espera decorada com estilo rústico, e o balcão, sobre onde um homem de meia-idade e aparência cansada apoiava preguiçosamente seu corpo.
Jenny devia ser realmente boa com a névoa, pois rapidamente conseguimos fazer check-in e arrumar dois quartos para aquela noite. O balconista nem sequer desconfiou dos documentos falsos ou notou o fato de não aparentarmos ser maiores de idade.
No caminho para os quartos, localizados no mesmo andar, Nick nos contou sobre um sonho estranho que teve. Algo sobre ele estar só de cueca numa tempestade de neve. Não era algo sobre que eu gostaria de imaginar, então simplesmente não dei bola para sua aventura seminua.
Chegamos no segundo andar e eu tirei as chaves de meu bolso.
— Quarto vinte e cinco para nosso garoto aqui. — eu disse ao entregar-lhe a chave. — E vinte e nove para a gente.
Nick enfiou sua chave no bolso.
— Tomem cuidado, vocês duas. Quem quer que esteja atrás da gente, parece estar bem empolgado.
— É só uma droga de livro. — Jenny resmungou. — Mas agora, por que o envolvimento do meu pai e esses incidentes todos? O que ele sabe que a gente não? E quem quer que a gente não pegue o livro? Qual a ligação disso tudo? Eu não estou conseguindo entender.
As perguntas de Jenny pareciam flutuar ao redor de minha cabeça. Atena me confirmara que havia algo por trás disso tudo — algo fora de sua alçada. Eu não conseguia, no entanto, fazer ideia do que estava acontecendo.
— Estou cansando desses joguinhos. — reclamou Nick. — Na moral.
Jenny suspirou.
— Estou cansada é desse dia. — ela abraçou e deu um beijo na bochecha do filho de Poseidon. — Boa noite, Nick. — e foi andando corredor abaixo, rumando para o quarto que dividiríamos naquela noite.
Nick e eu ficamos no lugar, nos encarando sem saber o que fazer em seguida. Estávamos naquela desconfortável situação em que um beijo na bochecha soava íntimo demais, enquanto apenas um aceno parecia ser muito seco.
— É... — tentei dizer.
— É. — Nick repetiu, estreitando os olhos e balançando sutilmente a cabeça.
Estendi-lhe a mão para um cumprimento no exato momento em que ele avançou para tentar me abraçar; deteve-se, minha mão esquisitamente a centímetros de sua barriga. Recolhi a mão e abri os braços, meio sem jeito, para tentar consertar o que havia feito. Entretanto, foi a vez de Nick me dar a mão e interromper o abraço.
Endireitei meu corpo e fiquei parada olhando para ele, pensando no quanto isso havia sido constrangedor. Nick pareceu não se segurar e soltou uma risada.
— Tá, isso foi bizarro. — ele ergueu a mão na altura do rosto, ao lado do queixo. — Um hi-five de boa noite?
Não contive um meio sorriso. Bati com a mão espalmada na dele.
— Hi-five.
Ele virou sobre os calcanhares, olhou para o número em sua chave, e depois começou a procurar por seu quarto. Resolvi fazer o mesmo e segui o mesmo caminho que Jenny tinha feito.
A porta do quarto estava aberta. Eu só entrei.
Era um quarto pequeno, mas tinha um ar aconchegante. Era composto por duas camas de solteiro, um closet e uma pequena bancada com uma TV sobre ela. Havia uma porta, o que me levou a concluir que levaria ao banheiro.
Jenny estava deitada sobre os lençóis verde-bebê de uma das camas. Ergueu a cabeça ao notar a aproximação de alguém, e então voltou a deitar-se quando viu que era apenas eu.
Manquei até a outra cama e sentei na beirada. Meus músculos pareceram suspirar de alívio ao entrar em contato com o colchão surpreendentemente macio. Respirei fundo e fechei os olhos. Céus, como eu estava cansada.
Movimentei minha perna e sente a tala improvisada roçar em minha pele, fazendo-me lembrar de sua presença ali. Olhei para aquele emaranhado louco de gravetos e gazes e ponderei por onde começar. Desistindo, recorri à ajuda dos universitários.
— Pode me ajudar com isso?
Jenny olhou para meu pé e, sem dizer nada, sentou-se na cama. Pegou sua mochila no chão e de lá sacou um punhal. Virou a arma dos dois lados, como que confirmando se a lâmina estava bem afiada. Após concluir sua verificação, ajoelhou-se ao lado de minha perna e começou a desfazer a tala.
O rosto sério de Jenny, bem como a pequena ruga de expressão entre suas sobrancelhas, me levaram bem longe no passado, para o dia em que eu finalmente cedi e comecei a conversar com ela.
Tudo aconteceu por causa de um acidente na educação física.
Estávamos jogando queimado no ginásio e, admito, eu não estava em meus melhores dias. Fiquei no fundo da quadra, logo abaixo da tabela de basquete. Minha estratégia de me esconder estava dando muito certo, até uma bola bater violentamente em meu rosto. O impacto da batida me jogou para o lado e eu acabei batendo com força contra o poste de sustentação da tabela de basquete.
Eu estava confusa demais para entender o que tinha acontecido. Um pequeno círculo de pessoas se formou ao meu redor, encarando o estrago em minha testa. O professor perguntou se eu conseguia ouvi-lo, e eu assenti, sentindo uma enorme dor na região da batida. Ele pediu para que Jenny, que tinha essa aula comigo, me acompanhasse até a enfermaria e cuidasse de que eu ficaria bem.
Era época de epidemia de gripe e a enfermaria estava lotada. A enfermeira rapidamente limpou o corte em minha testa e pediu que Jenny segurasse uma compressa de gelo contra o galo que estava se formando.
Jenny me olhava de um jeito tão sério e preocupado que nem parecia que a tarefa dela era me enfiar gelo na cara. Mesmo meio zonza e com dor, não consegui evitar de achar isso engraçado.
— Ai, meu Deus, doutora! — exclamei. — Eu vou morrer?
Ela pareceu se assustar — nunca havia conseguido me arrancar mais de três palavras. Demorou um tempo até reconhecer me tom de brincadeira. Ela abriu um sorriso largo e permitiu-se relaxar.
— Com certeza. — ela respondeu. — Mas não por isso.
Depois disso só paramos de conversar quando o sinal do último tempo tocou.
Naquele momento, cuidando de minha tala, Jenny nem parecia fazer ideia do quanto seu semblante sério estava me lembrando de quando ela estava segurando a compressa para mim. Achei que seria a melhor hora para quebrar o gelo.
Senti-me obrigada a reencenar aquele momento.
— Ai, meu Deus, doutora! — fiz até questão de usar minha voz mais infantil. — Eu vou morrer?
Ela até tentou, mas não conteve o sorriso.
— Com certeza. Mas não por isso.
Jenny cortou um último pedaço estratégico de esparadrapo e arrancou toda a gaze de uma vez. Os gravetos, perdendo seu apoio, caíram no chão. O tornozelo mostrou-se levemente inchado, mas não era algo exorbitante.
Fiz um movimento circular com tornozelo, para tentar avaliar minha dor. Era muito incômoda, porém não era insuportável.
Encarei Jenny por um tempo, então criei coragem pra dizer:
— É, talvez você não seja uma pessoa completamente diferente da minha melhor amiga.
Ela reconheceu meu jeitinho de admitir que havia falado besteira e aceitou as desculpas. Largou o punhal dentro da mochila e voltou a sentar-se na cama, bem de frente para mim.
— Você pareceu aceitar melhor as coisas no acampamento.
Abaixei a cabeça.
— Eu sei. É que hoje foi tão...
— Real?
— Por aí.
Ela tinha razão. Tudo parecia real demais. Porém o fato era que, ao mesmo tempo, tudo parecia não ser real demais. Eu estava sendo forçada a viver um pesadelo com elementos quiméricos em um plano não-imaginário. Ainda me sentia em conflito com esse paradoxo.
— Tudo bem ficar assim. — ela me confortou. — A maioria das pessoas passam meses, anos dentro do acampamento depois de descobrirem que são semideuses. E, droga, você mal ficou uma semana lá! É muita coisa em pouco tempo.
Abri mais os olhos, em concordância.
— Ô, se é.
Ela me mandou um olhar empático.
— Eu não era outra pessoa com você. — se justificou Jenny. — É que só... Eu só podia ser metade do que eu sou de verdade, entende? Não acha que eu não queria conversar com você sobre tudo o que eu estava passando? — ela abriu um sorriso. — Ou até mesmo exibir meu namorado gatão?
— Você ainda tem muita coisa pra me falar. — cobrei.
Jenny se levantou da cama com um ar travesso em seu semblante. Antes de se dirigir ao banheiro, disse para mim:
— Devo, não nego. Pago quando puder.
Aquela com certeza era a mesma Jenny de sempre.
Deitei na cama, completamente exaurida. Fechei os olhos e tentei entender tudo o que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas. Na última semana. O estranho era que, mesmo nada estando certo em minha vida, não consegui impedir a sensação de que agora as coisas estavam bem.
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