Samantha Roberts - O Livro de Sócrates

11 Consertando quem não conhece os concertos


Notas iniciais
Pus um hiperlink em cada música mencionada, para vocês entrarem no clima também.

Decidimos seguir pela estrada antes que os outros passageiros dessem conta de nosso sumiço.

Jenny me ofereceu uma toalha para tentar enxugar a mistura de gosma e sangue de hidra que cobria meu corpo. O cheiro horrível daquilo me embrulhava o estômago. Eu estava com nojo de até mesmo encostar meus braços na lateral do corpo.

Nem cogitamos em colocar aquela toalha de volta na bolsa de viagem. Assim que terminei o trabalho, joguei-a em cima de um monte de lixo e folhas.

Eu estava inconformada como os dois conseguiam estar relaxados depois do ocorrido. Será que eu era a única que tinha me dado conta que fomos atacados por uma maldita hidra? Mas lá estavam Nick e Jenny, rindo e se empurrando enquanto andavam, como se nada tivesse acontecido.

— Isso acontece sempre? — perguntei.

Nick deu ombros.

— Apenas às terças e quintas.

Fiz cara de desdém.

— Engraçadinho.

Jenny ajeitou sua bolsa no ombro e franziu o cenho.

— Na verdade, acho que tinha algo de especial naquela hidra. Era maior que o normal. Além do mais, parece que ela sabia que estaríamos pela estrada.

— Não era uma hidra. — Nick rebateu. — Era a hidra. Hidra de Lerna. Vocês não sentiram a aura daquilo? Era assustador. Agora, a pergunta é: o que diabos ela não estava fazendo no Submundo e por que ela veio atacar a gente?

Estremeci ao lembrar da sensação do interior de sua boca.

— Talvez a gente devesse perguntar a Queen. — Jenny sugeriu.

— Quem é Queen? — perguntei.

— Uma amiga. Filha de Hades. — ela respondeu. — Você vai conhece-la no verão.

Eu já tinha planos para o verão e nem sabia?

— Estou falando sério. Esse ataque não foi normal. — Nick enfatizou. — Topar com javalis psicóticos? Ok. Alguns mortos-vivos? Aceitável. Mas a Hidra de Lerna? Héracles foi chamado para combater essa coisa. Héracles!

Jenny arqueou as sobrancelhas com ar de convencida.

— Héracles, hum? Parece um nível satisfatório para mim.

— Ele não teve a ajudinha do fogo grego para acabar com a Hidra. — Nick relembrou.

— Que seja. Estamos vivos.

— Mas parece que alguém não deve estar contente com isso.

Jenny pareceu não ligar.

— Isso vamos descobrir em breve.


Andamos por bastante tempo pela beira da estrada. Minhas panturrilhas estavam começando a reclamar de cansaço enquanto meu cabelo se despenteava mais ainda conforme os carros passavam em alta velocidade.

Paramos quando eu não consegui mais andar. Eu contava com que meu tornozelo parasse de doer assim que meu corpo esquentasse com a caminhada, porém isso não aconteceu. Ele ainda latejava e estava evidentemente inchado. Jenny teria que fazer uma tala improvisada para mim.

Impressionei-me com a facilidade que ela manipulava nosso kit de primeiros-socorros. Ela parecia conhecer cada componente da caixa e sua devida localização. Nem precisava olhar para suas mãos para saber o que estava fazendo. E, de certo modo, também me irritei com isso. Até uma semana atrás Jenny se recusava a pegar um band-aid para mim quando eu me cortava durante nossas peripécias na cozinha, e agora ela era uma perita em primeiros socorros.

A tala era uma confusão de gravetos, gazes e esparadrapos, mas parecia bem firme. Jenny ajudou a me levantar quando terminou seu trabalho.

— Agora você fica aí. — Nicholas mandou. — Crianças mancas na estrada causam mais comoção. Pode dar um passinho para a direita, mais perto da estrada?

Rolei os olhos e acatei a ordem.

— Está querendo o que? Uma carona?

— Qualquer pessoa que nos leve até a próxima rodoviária ou coisa do tipo.

— Um posto, por favor! — Jenny suplicou. — Deuses, preciso me limpar. Estou aceitando até aqueles banheiros nojentos de caminhoneiro.

Olhei, apreensiva, para o céu. Logo, logo o sol iria começar a cair e a noite viria. Tínhamos que conseguir algo antes disso.

Começamos a sinalizar com nossos dedões novamente. Demorou algum tempo até nosso milagre de Natal acontecer mais cedo e um caminhão parar no acostamento a nossa frente.

Um homem desceu do banco do motorista e deu a volta pela frente. Era um gordão calvo e com a barba extremamente mal feita. Vestia uma camiseta de flanela xadrez por cima de jeans desbotados e um par de galochas imundas. Não me causou uma boa primeira impressão.

— Algum problema por aqui? — ele indagou.

Jenny deu um passo a frente.

— Fomos vítimas de uma brincadeira sem graça. É uma longa, longa história. Estávamos seguindo viagem, então de sacanagem deixaram a gente na estrada quando fizemos uma parada para o lanche.

O caminhoneiro nos dirigiu um olhar carrancudo.

— Seus pais sabem da situação de vocês?

— Nossos pais podem nem sonhar que estamos fazendo essa viagem! Estaríamos ferrados! — Nick respondeu. — Estamos por nossa conta.

O homem coçou sua cabeça.

— Ai, que problemão. — ele resmungou. — O seguinte: tenho uma entrega em Salt Lake City. Não posso desviar a rota ou meu chefe vai me matar. Vocês podem subir na traseira da minha carreta e eu deixo vocês lá. Vocês decidem para onde ir depois. Só não fiquem na estrada que é perigoso. Acreditem, eu sei isso.

Nicholas tentou disfarçar um arquejo ao meu lado. Cerrou os punhos e tentou aprumar a postura. Perguntei-me se Jenny e o caminhoneiro também teriam percebido essa mudança.

— Seria maravilhoso. — eu disse. — Muito obrigada. Mesmo.

Ele estendeu a mão.

— Sou Bill, a propósito.

Apertei a mão.

— Samantha. E esses são meus amigos, Nicholas e Jennifer.

Jenny contorceu seu rosto em uma careta. Ela estranhava ouvir o som do próprio nome.

Bill olhou para meu pé com reprovação.

— Vai precisar de ajuda para subir.

Nick pareceu sair de seu estado de torpor.

— Eu ajudo. — ele disse, apressadamente. — Pode deixar. Muito obrigado por ajudar a gente.

Bill meneou a cabeça para comprimento e voltou à sua cabine. Jenny se apoiou na gigante roda e subiu com facilidade até a carreta de madeira do caminhão. Nicholas jogou para ela toda nossa tralha e indicou com o braço para eu ir na frente.

Pus meu pé bom sobre o pneu e tentei me impulsionar para cima. Nicholas envolveu minha cintura firmemente com as duas mãos e me empurrou mais ainda. Passei a perna ruim para dentro na carreta e sentei sobre a murada lateral. Meu tornozelo voltou a reclamar de dor, mas consegui entrar tranquilamente.

Era uma traseira típica de um caminhão rural. Tinha o cheiro de madeira e de fruta. Amarrados num canto, haviam alguns móveis desmontados. Imaginei que Bill deveria estar fazendo algum carreto para alguém.

Nick subiu na traseira sem problemas. Ele deu uma olhada em volta, fazendo um reconhecimento do nosso novo terreno, e então deu algumas batidinhas na janela traseira da cabine do motorista.

— Estamos prontos. — ele disse articuladamente para que Bill pudesse entender.

O caminhoneiro solidário fez um sinal de positivo com a mão e acelerou o caminhão. Pegou o celular e discou um número, mas não prestei atenção em seus lábios para saber o rumo que a conversa tomava.

Sentamo-nos juntos com as costas contra a cabine do motorista e nos entregamos ao silêncio. Iria ser mais uma longa viagem.


Não suportei o barulho do vento por mais que duas horas. Fui até a mochila de Jenny e peguei meu MP3, que só estava comigo porque eu o havia deixado com ela na noite anterior ao quizz acadêmico por algum motivo que eu nem mesmo lembrava mais.

Eu nem fiz questão de escolher a música. Apenas apertei o play e me deleitei ao me dar conta que ele estava em minha playlist de concertos. Fechei os olhos comecei a dedilhar em minha coxa as notas que eu ia ouvindo.

Meu momento erudito foi interrompido por Nick arrancando um de meus fones de ouvido para ouvir a música também.

— Credo! — ele exclamou. — O que é isso? Beethoven?

Puxei de volta meu fone.

— Não! Que blasfêmia! Isso é Tchaikovsky!

— Tchau o que?

Revirei os olhos. Será que eu tinha que desenhar tudo para aquele garoto?

— Tchai-kovs-ky. Tchaikovsky. O mestre!

Nicholas olhou para mim, como se estivesse se segurando para não rir da minha cara.

— Posso saber por que a senhorita tem Tchai-kovs-ky no seu mp3? Você não consegue nem fingir que é normal?

Eu já ia responder aquela afronta, mas Jenny intercedeu por mim:

— Tchaikovsky é um gênio. — ela disse. — Você sabe quem ele é, estúpido. O cara compôs O Lago dos Cisnes. Sam é, tipo, uma devota dele. Ela sabe tocar trocentos ballets e concertos de Tchaikovsky no piano.

Nick arqueou uma sobrancelha para mim.

— É pianista?

Baixei os olhos e ruborizei.

— Era. Parei de estudar no começo do ano... Tive alguns problemas no conservatório musical.

— Sem essa. Você ainda toca em casa. — Jenny rebateu.

Nick deu ombros e roubou novamente meu fone para continuar ouvindo piano concerto No.1, Op. 23 — concerto este que eu ainda estava estudando na esperança de que um dia eu pudesse toca-lo com perfeição.

— Não é tão ruim assim. — ele disse após um tempo. — Mas é estranho de qualquer jeito. E aí? Você tem outro?

— Concerto?

— Não. Outro gosto estranho.

Meus lábios se repuxaram em um sorriso tímido. Fiz que não com a cabeça. Eu não classificava meus outros gostos — ou minha devoção por Tchaikovsky — como estranhos, ao menos.

Jenny enrijeceu-se no lugar e soltou um palavrão.

— Que foi? — perguntei.

Ela olhou para mim, desesperada.

— Meu violão. Não peguei meu violão no ônibus.

Cobri minha boca com a mão. Nick também resmungou alguma coisa em voz baixa.

— Ai, Jenny. Mas isso é...

— Uma tragédia. — ela completou. — Foi um presente do meu pai. A primeira vez que ele notou que eu existia. — ela enfiou a cabeça entre as mãos. — Mas eu sou uma idiota!

Nick adiantou-se para dizer algo, mas eu o impedi com a mão. Era sempre melhor esperar um tempo antes de conversar com Jenny sobre algo que a chateara. Era impossível dialogar com ela de imediato.

Minha preocupação por Jenny foi cortada para uma inusitada aparição. Um círculo de luz iridescente formou-se a minha frente. Aos poucos, as cores foram formando uma imagem e eu consegui identificar um rosto conhecido. Do outro lado do círculo, Julia e Briana se encolhiam e empurravam para aparecer melhor.

— Mensagem de Íris. — Nick explicou. — O Skype semideus.

Assenti, lembrando-me da breve apresentação que Clarck me fizera deste recurso no meio de minha semana de treinamento.

Briana sorriu.

— Que bom que conseguimos achar vocês. Olhe, só temos cinco minutos. Vamos ser breves. Como estão indo?

Tentei contar brevemente tudo o que tinha acontecido desde o momento que pisamos fora do Acampamento Meio-Sangue. O fato de a missão ter sido arranjada por Apolo, nossa viagem, o estranho incidente com a Hidra e nossa carona.

— Estou realmente impressionada pelo fato de vocês não terem se matado ainda. — Julia admitiu.

Briana deu-lhe um olhar de repreensão.

— E o ataque da Hidra foi, assim, do nada? — ela perguntou.

— Totalmente. — Nick respondeu. — Não sei de onde pode ter vindo. Meu tio, talvez? Hades não é meu maior fã.

— Vou pesquisar isso a fundo. — Briana assegurou. — É um belo motivo para ficarmos alerta. Bom, tomem cuidado, certo? Essa profecia ainda me deixa nervosa. Não façam nenhuma asneira.

Minha espinha gelou ao me lembrar do verso da profecia que sentenciava um de nós três a um futuro tenebroso.

E, ao deixar todos a salvos, tornarão a viagem vã.

— Asneira é meu nome do meio. — Nick disse com um sorriso largo. — Jenny e eu já somos velhos conhecidos dessa vida. Você sabe. Fica aí de boa e nós tomaremos conta de sua irmãzinha aqui.

Cruzei os braços.

— Ninguém vai tomar conta de mim.

Briana dirigiu um olhar significativo a Nick, o que desaprovei imediatamente. Eu sabia que esses dois queriam dizer.

— Precisamos desligar. — Julia lembrou a Briana, que assentiu.

— Juízo. — ela falou. —Vou tentar ligar outro dia. Boa sorte para vocês.

E o círculo se desfez no ar.

Jenny continuou em seu canto, olhando emburrada para a paisagem que se locomovia rapidamente. Nick novamente dividiu os fones comigo e começou a brincar com meu mp3.

Fechei os olhos e tentei não me incomodar pelo fato de ele interromper a música e passar para a próxima antes mesmo de ela estar um minuto inteiro tocando. Nick não me deixava ouvir um simples movimento completo.

— Ei, ei! — ele me cutucou, alegre. — Essa eu conheço!

Eu não precisava olhar o led para saber que composição era.

— O Quebra-Nozes. Dança da Fada Açucarada.

Nick soltou uma gargalhada.

— Esse é o nome da música? Que ridículo! — então ele viu meu olhar. — Tá, tá. Saquei. Não blasfeme o mestre.

— Bom garoto.

Jenny fez um movimento brusco e alto que me assustou. Ela ficou estática por alguns segundos, com os olhos fitando nada específico. Então olhou para nós dois, procurando o que falar.

— Tive uma visão.

— Droga. — Nick disse por cima. — Droga, droga, droga.

— O que é? — inquiri.

Jenny olhou em volta, estudando novamente a carreta em que nos encontrávamos.

— Temos que sair daqui na primeira oportunidade.