Segui a multidão até o pavilhão do refeitório. Meus irmãos estavam em êxtase. Afinal, o que seria mais delicioso que derrotar o time de Ares? Agrupamo-nos perto das mesas e os integrantes puseram Natalie no chão, que ainda estava sorridente. Os demais semideuses que aguardavam sua vez para jogar olharam para Quíron com expectativa.

– Vitória do time azul! – ele anunciou para os que ficaram de fora da primeira partida. – Próxima rodada em cinco minutos. Preparem-se!

Ao ouvirem isso, os times de Deméter e Quione saíram do refeitório e foram se posicionar. Sentei-me em uma das mesas e apoiei meus pés no banco. Quanto mais o sangue esfriava, mais em me sentia cansada. Jenny fez o mesmo; e Nick andou até nós, com a cara enfezada e com um algodão e cada narina. Ele pareceu querer falar algo, mas o que apenas saiu de sua boca foi:

– Meus parabéns.

Depois ele se virou e foi fazer não sei o que. Jenny assistiu à cena sorrindo.

– Você feriu a confiança do garoto. – ela contou.

– Diz isso como se eu ligasse. – dei ombros.

Jenny olhou para mim.

– Melhor você começar a ligar. – ela avisou. – Depois de amanhã seremos um time. E é melhor nós sermos um dos bons, porque eu não to afim de que um de nós três fique. – ela se levantou. – Pense nisso. Vou tomar uma ducha. Nos vemos no almoço.

Fiquei olhando ela ir embora, já me arrependendo do que eu teria que fazer a seguir. Joguei minha cabeça para trás e respirei fundo. Ainda eram dez da manhã, mesmo assim meu corpo já implorava por cama.

Fui fraca e cedi aos desejos de meu próprio corpo. Assim que meus olhos se fecharam quando me deitei na minha cama, eles não abriram até eu ser acordada pela cantoria da fogueira que estava acontecendo lá fora.

Levantei-me, confusa. Será que eu tinha perdido o almoço? Com a visão embaçada, procurei pelo relógio de parede. Oito horas da noite. Deuses do Olimpo, como eu consegui dormir tanto?

Eu já não mais me sentia cansada, porém minha cabeça estava explodindo. Pela primeira vez, odiei a cantoria da fogueira. Tudo o que eu queria era silêncio. E aspirina.

Tentei dar um jeito em meu cabelo embaraçado e saí do chalé, tentando ignorar o incomodo da dor de cabeça. Sentei-me ao lado de Briana em silêncio, encarando as labaredas de fogo que dançavam à minha frente. Quanto mais fervorosamente nós cantávamos as músicas, mais o fogo parecia aumentar. Era como se a fogueira fosse a representação de nossa própria chama.

– Eu tentei acordar você para o almoço. – Briana contou. – Você nem se mexeu.

– Não sei o que houve comigo. – falei. – Minha bateria descarregou do nada.

Olhei para Briana e vi que seus olhos refletiam as chamas da fogueira.

– Acontece quando você vai usando seus poderes pelas primeiras vezes. – ela explicou. – Se com coisas bobas acontecem isso, imagina você que conseguiu invadir as funções motoras de alguém. Não sei como ainda está de pé. Mas com o tempo você vai se acostumando.

– Eu espero. – eu disse baixinho.

A dor de cabeça estava aumentando tanto conforme o tempo que eu já estava cogitando a me levantar e voltar para o chalé. Mas, para minha sorte, a fogueira havia acabado. Os campistas estavam indo para seus chalés e os que ficaram estavam apenas conversando.

Meu olhar se cruzou com o de Jenny, que estava sentada a quatro toras de mim. Ela apontou com a cabeça para seu lado direito, e vi que Nicholas estava conversando com um grupo de outros campistas. Implorei com os olhos para que deixasse essa história para lá e ela respondeu com outro olhar fulminante.

Dei um longo suspiro e me levantei para ir até o encontro do filho de Poseidon. Abri espaço entre as pessoas que faziam um semicírculo em volta dele.

– Preciso falar com você. – eu disse.

– Hm, talvez outra hora. – ele respondeu e voltou a contar a história que ele estava contando pro pessoal.

Cruzei os braços impaciente, esperando que ele tomasse vergonha na cara e me desse alguma atenção. Não aconteceu.

– Eu disse que preciso falar com você. – repeti, agarrando sua camisa a tirando-o do meio da rodinha.

– Sua louca! – ele disse. – Para de me puxar!

Não atendi a seu pedido até estarmos fora da área dos chalés, logo, a uma distância segura de todo mundo.

Larguei sua camisa.

– Olha aí! – ele reclamou, apontando para sua roupa. – Ela tá toda amassada agora.

– É tudo culpa sua. – eu disse.

Ele olhou para mim, incrédulo.

– Culpa... Minha? – ele soltou uma risada sem humor. – Você que me agarrou!

Revirei os olhos.

– Mas foi você quem não me deu ouvidos. – respirei fundo. – É o seguinte: eu não vou com sua cara e você não vai com a minha.

– E daí?

– E daí que sairemos em missão juntos em pouquíssimo tempo. E, se o Oráculo de Delfos colocou a gente nessa, é porque temos que agir em harmonia. Não foi minha escolha, nem sua. Na verdade, eu adoraria estar no extremo do país oposto ao que você estaria. Então, o que eu estou pedindo é... – alternei o peso do corpo de uma perna para outra e olhei para baixo. – é...

– Uma trégua? – ele arriscou.

– Isso! Bom, pelo menos até a missão acabar. Também não curto muito a ideia. Mas é pelo bem da missão, não é? Ainda temos que descobrir um jeito de voltarmos vivos e com o livro.

– Só até o fim da missão?

– Só até o fim da missão.

Ele estendeu a mão e eu a apertei.

– Feito. – ele disse.

Ele enfiou as mãos no bolso e começou a andar. Eu o acompanhei.

– É melhor você tomar cuidado, sabe? – ele disse depois de um bom tempo. – Pode ficar minha amiga. E ambos não queremos isso.

– Ah, vai nessa. – eu ri.

– Eu sou uma pessoa muito legal!

– Aposto que é.

– Estou falando sério!

– Eu não.

Ele me encarou ofendido, eu apenas sorri. E fomos andando juntos até a área dos chalés novamente; eu pensando no que faria a madrugada inteira, pois sabia que não iria conseguir dormir tão cedo.