Salve-me
3 A mentira
Notas iniciais
Parecia absurdo sair assim, descalço e sem camisa, pelas ruas atrás de alguém que ele não fazia a menor ideia de quem era. Mesmo assim, Kurt se lançou na via pública e quase correu para alcançar a pessoa que se afastava.
Mulheres o procuravam o tempo todo quando estava em Clearfield. Ele teria ignorado qualquer uma delas e confirmado àquela com quem se divertia naquele dia que fez o certo ao dispensar quem batia à porta. “Uma adolescente meio gótica metida num moletom preto que caberia no Michael Jordan” Lexx descreveu com desdém. Ele definitivamente não conhecia alguém assim.
Mas algo pulsou dentro dele, uma merda de esperança se acendendo. E seus instintos o lançaram para a rua. Porra! Ele precisava ter certeza.
Quando o rosto dela emergiu do capuz naquela expressão quase vulnerável, ele provou um alívio repentino como quem pode finalmente subir à tona para respirar após meses submerso na água escura.
— Por Deus, Jane – e sorriu com uma sinceridade que sua alma dificilmente alcançava. — Eu não acredito que você veio até aqui – concluiu lutando contra o desejo de puxá-la para si e beijá-la ali mesmo.
Então, a expressão no rosto dela mudou completamente. Fria e distante, ela puxou o braço do aperto da mão dele.
— Não era minha intenção atrapalhar sua “diversão”. Volte e termine o que começou – cuspiu as palavras tomada por uma nova forma de dor que queimava em seu interior.
E continuou caminhando.
Ao ouvir a voz dele, Remi sentiu algo tremer dentro de si, seu coração reconquistando a esperança após semanas mergulhada na lama. Mas a lembrança da loira de lingerie usando a camisa dele a trouxe para a realidade e para o erro que foi ter vindo até ele.
— Ei, espere! – Kurt disse adiantando-se alguns passou e colocando-se em seu caminho. – Jane, não há nada lá que eu precise terminar porque nada sequer começou de verdade. Foi só algo de momento...
— Algo de momento... Como nós? Não começamos nada também.
— Eu sei que não... Mas você está aqui. Por favor, Jane, fique. Vamos conversar.
“Foi um erro ter vindo até aqui. Foi um erro me envolver com você. Foi um erro não usar a merda da camisinha e esquecer a pílula do dia seguinte. Eu te odeio!” Ela articulou cada frase em sua mente e deveria ter dito cada uma delas com toda frieza. Mas o bebê remexeu em seu ventre a lembrando que não era por ela mesma que estava ali.
— Conversar, Weller. Só isso. Mas não com ela por lá.
— Não, não. Claro que não. Ela já estava de saída.
Com um aceno da cabeça ela indicou que o seguiria de volta. Caminharam rápido, ela em silêncio e ele falando sem parar sobre o clima, a rua, a casa.
Já na entrada, Kurt se apressou em abrir a porta. Mesmo imersa na organização de uma narrativa pra abordar o “problema” que veio tratar, Remi precisou morder os lábios diante da gentileza dele, a raiva dentro dela cedendo um pouco.
Não durou muito. A imagem da loira sentada no sofá com uma colher cheia de sorvete na boca fez o sangue de Remi ferver rápido. Então, ela fuzilou Weller com os olhos.
— Eu resolvo isso num minuto – ele se prontificou e, virando para a outra, continuou – Lexx, eu disse que você podia ir.
— Você saiu correndo, não dava pra ouvir o que disse. Vai mesmo me dispensar pra ficar com a coleguinha de turma da Sarah?
—Você sabe que não aceito esse tipo de coisa nem como brincadeira, Lexx. É uma acusação muito séria. Ela é maior de 21. Por favor, vista-se e vá embora.
A loira bufou insatisfeita e subiu as escadas em direção aos quartos. Ele se virou para sua Jane, justificando:
— Ela já está saindo...
— É melhor você manter sua boca fechada, Weller.
Ele assentiu meio encabulado e, então, se deu conta da sua nudez. Foi até o pé da escada.
— Lexx, você pode me jogar a minha camisa?
A camisa que a loira usava voou escada abaixo. Ele a pegou, mas enquanto fazia menção de vesti-la deparou-se com o olhar desaprovador e frio de Remi o observando.
— Eu vou... colocar isso pra lavar. Só um minuto – e saiu andando rápido em direção à lavanderia.
— Weller! – ela o chamou com urgência mal tinha virado as costas. – O banheiro... Onde fica o banheiro?
Ele apontou e Remi correu para lá, batendo a porta assim que entrou. Instantes depois era a porta do quarto lá em cima que batia. A loira desceu as escadas sem pressa.
Weller vestiu uma camiseta limpa que encontrou na lavadora e se preparou.
Dentro do banheiro, Remi teve outra crise de diarreia seguida de fortes dores abdominais. Isso a levou a deduzir que se tratava de cólicas intestinais causadas por algo que comeu. Ela ainda estava se amaldiçoando por tanta má sorte justo nesse momento quando, enquanto se limpava, percebeu uma substância mucosa com traços de sangue.
— Merda! – rosnou de forma quase inaudível.
Cuidaria desse detalhe mais tarde. Agora seu foco precisava estar na difícil conversa que teria com Weller. Dentro dela, a esperança de que ele compreendesse a situação estava mais forte que nunca.
Ao sair do banheiro, lá estava a tal loira, agora vestida e com a mão no peito dele. Inferno! Remi costumava desprezar todas as outras garotas que já conheceu. Nada do que elas fizerem a afetava: nem as provocações das encrenqueiras, nem desdém das populares, nem as tentativas de aproximação das nerds ou outras excluídas da escola. Mas essa tal de Lexx a fazia sentir vontade de extravasar toda a sua raiva. Droga! Só podiam ser os hormônios do final da gravidez que a deixavam assim. Isso tudo tinha que terminar logo.
— Me liga mais tarde, depois que resolver as coisas – a loira aguada disse alisando o peito de Weller e piscando pra ele.
— Você sabe que eu nunca ligo – ele respondeu seco.
A garota desfilou até a porta e, antes de sair, acenou com um tchauzinho. “Humilhante” Remi pensou. Weller sequer viu, toda sua atenção já estava sobre Remi.
— Bem, essa é a casa onde cresci – disse com um sorriso bobo olhando em volta. – Vim visitar Sarah. Você pode ficar a vontade. Podemos nos sentar e...
— Eu prefiro ficar em pé – ela respondeu rápido, sentindo uma estranha insegurança misturada à melancolia a invadir. Remi sabia que aquela conversar poderia salvá-la, mas o preço a pagar seria nunca mais ter o que viveu com ele. – Não vou demorar.
O sorriso no rosto dele ficou incerto, insistindo em se formar por alguma esperança sem nexo.
— Você sumiu...
— Eu... tive alguns problemas.
— Que bom que me encontrou – confessou com um olhar meigo repleto de sinceridade.
Isso a encorajou.
— Weller, eu tô grávida – ela cuspiu a frase e o encarou.
— Grávida?! Uau. Realmente esse não era um assunto que eu esperava nessa conversa. Parabéns – ele concluiu tentando demonstrar que tudo estava bem, mas a confusão insistia em se fazer transparecer no seu rosto.
— E eu preciso saber se você quer ficar com o bebê – ela disse firme, ainda o encarando sem dar brechas para sua vulnerabilidade vir à tona.
Ele riu incrédulo processando aquilo. Sua cabeça não via lógica alguma.
— É, você é bem fora do comum, Jane. Isso é algum tipo de brincadeira? Algum teste para ver minha reação por causa da Lexx?
— É claro que não – ela revirou os olhos inconformada. – Olha, Weller, a coisa é bem simples: nós transamos, eu engravidei e quero saber se você tem interesse em ficar com o bebê. Só isso.
— Só isso? – Ele questionou e riu nervoso. – Nós transamos há meses, Jane. Se você estiver mesmo grávida...
Nesse momento, ela bufou e levantou o moletom exibindo a barriga arredondada. Seu jeans estava aberto, há meses não fechava mais.
— 37 semanas e 4 dias de acordo com o ultrassom. Se você fizer as contas verá que as datas coincidem. Aliás, acho que aconteceu logo na primeira vez.
Weller retorceu o pescoço nervoso olhando para a barriga dela. Após alguns segundos, as palavras encontraram um caminho em meio ao choque do momento:
— Você disse que estava protegida.
— Eu achei que estava. Tinha menstruado há poucos dias e, bem, eu nunca tinha engravidado.
— Meu Deus, Jane. Nada disso significa estar protegida – ele falou mais áspero do que gostaria. Muitos sentimentos e possibilidades estava em ebulição dentro dele tornando difícil manter o controle.
— Agora eu sei disso.
— Foi por isso que você sumiu?
— Não! Eu tive problemas, já disse.
— E por que não me procurou quando descobriu a gravidez?
— Descobri a gravidez muito tempo depois de você ter deixado Quantico. Já estava com dezoito semanas.
— Entre 18 e 37 existem 19 semanas. Inferno! – ele estava realmente se descontrolando. – Por que não me ligou? Você podia, pelo menos, ter me deixado seu número. Eu teria ligado!
— Você nunca liga – ela respondeu com desprezo usando o mesmo argumento que o ouviu usar com a loira a pouco.
— Pra você eu ligaria – ele respondeu a desafiando.
De repente, a dor veio de novo a fazendo buscar apoio nas costas do sofá. Ela fechou os olhos e se concentrou em respirar rezando para que aquilo passasse logo. Então, sentiu a mão quente dele pousando em suas costas enquanto o calor de seu corpo invadia seu espaço pessoal. A dor e a presença dele juntos bagunçavam tudo dentro de Remi. A imparcialidade com a qual conduzia as situações estava a um passo de se romper.
— Você está bem? – ele perguntou com a voz mansa.
Como ela não respondeu, ele esperou. Quando a dor refluiu, ela se endireitou e olhou para ele. Só então percebeu que sua mão estava agarrada a dele. Weller a olhava tomado de cuidado e preocupação.
— Melhor? – Voltou a questioná-la com doçura, disposto a ser mais cuidadoso com as palavras.
Ela assentiu arfando enquanto se recuperava sem soltar a mão dele.
— Eu posso te levar até um médico. O hospital não fica longe daqui...
— Não! Isso não é necessário. São só contrações de treinamento. Acontece com frequência nas últimas semanas – mentiu, quer dizer ela vinha mesmo tendo as tais contrações de treinamento só não tinham sido tão fortes e doloridas.
Vendo que a preocupação no rosto dele cedeu, resolveu retomar o motivo que a trouxe ali.
— E então, você pode ficar com o bebê?
— Eu tô dentro. Vamos fazer isso juntos – e sorriu passando segurança a ela. – Inclusive se você quiser ir pra NYC comigo...
— Acho que você não entendeu. Eu perguntei se você pode ficar com o bebê. Só o bebê. Eu não tenho muito tempo. Se você quiser ficar com ele, precisamos conversar e traçar um plano sobre o parto pra isso dar certo.
Ele a soltou e se afastou. Incrédulo, criou a coragem para formular a pergunta?
— Você não quer o bebê, é isso?
Ela queria dizer que não era tão simples assim, que precisava cuidar de Roman, que tinha que ser leal a Ellen, mas nada disso podia compartilhar. Também queria confirmar essa versão equivocada dele para poder ter uma resposta e partir para a próxima etapa, mas não podia. Então, disse apenas:
— É complicado... – e uma nova onda de dor a tomou, ainda mais forte que as anteriores forçando-a a se abaixar para suportar aquilo.
Foi então que ela sentiu sua calça se enxercando. Ela se amaldiçoou por ser tão fraca diante da dor ao ponto de deixar o xixi escapar. Como resolveria isso? Precisaria trocar de roupa para voltar pra casa. O cheiro chamaria a atenção das pessoas no trem.
— Você tem certeza que isso é normal? – lá estava ele de joelhos ao lado dela, puxando o capuz de seu moletom como quem adivinha que aquilo a estava sufocando.
De repente, ela se sentiu sobrecarregada demais: a dor, ter que abrir mão do bebê, estar decepcionando Weller e ainda ter que roubar uma droga de calça no caminho pra casa. Ela puxou o ar e fez como foi ensinada a vida toda: deixou tudo aquilo se converter em raiva para que ninguém percebesse sua fragilidade:
— Eu já disse que está tudo bem, porra! – Rosnou. – Só preciso que você me responda a droga da pergunta que estou fazendo desde o início dessa conversa: você vai ficar com o bebê?
— Eu não abandonaria um filho, Jane – ele devolveu com frieza, decepcionado com a raiva na voz dela.
Aquela frase dilacerou sua alma como uma lâmina afiada. Remi puxou o ar e se levantou rápido. Precisa se afastar dele. Ganhar espaço para retomar o controle. Mas algo aconteceu. Trocar os passos não era mais tão fácil e ela simplesmente não conseguia parar de fazer xixi. Sua calça foi enxarcando rápido, a obrigando a parar. Como o jeans demorava para absorver, o líquido escorria por suas pernas, molhando o tênis e o chão.
Ela rezou para que ele não tivesse percebido, mas seus olhos subiram do chão e se encontraram com os dele fazendo o mesmo caminho. Merda!
— Eu vou limpar tudo. Isso nunca aconteceu.
— Precisamos procurar um médico.
— Eu não vou em porra de médico nenhum, Weller. Vou limpar isso e depois vamos decidir sobre o parto. E já que você viu a minha vergonhosa situação, podia me arrumar roupas da sua irmã para eu ir embora.
— Você não precisa limpar nada. Enquanto cuido disso, suba e tome um banho. Vou separar algumas roupas de Sarah para você usar. Depois vamos procurar um médico – disse firme a encarando.
— Nem fodendo! – Respondeu o encarando de volta. – Não tenho tempo para satisfazer sua necessidade de bancar o garanhão protetor com a fêmea prenha, Weller. Isso aqui é a vida real e não a droga de um romance.
Os olhos de Weller se estreitaram em torno de cada detalhe da mulher a sua frente. A veia pulsando na sua fonte, os punhos cerrados. Parecia um soldado pronto para enfrentar o inimigo. E ele não queria uma batalha por mais que as atitudes delas merecessem isso. Seus instintos gritaram que ela devia estar muito constrangida pelo que aconteceu.
Enquanto raciocinava sobre uma nova forma de abordagem, o rosto dela se contorceu em nova dor e ela se abaixou, soltando um gemido rouco e baixo. Isso não era bom.
Ele se colocou ao lado dela e ofereceu a mão para que ela segurasse se surpreendendo com a força do aperto que ela colocou ali.
— A viagem até aqui, a forma como nos reencontramos e essa conversa podem ter mudado um pouco as coisas, Jane. Talvez esse líquido seja a bolsa que rompeu. Você precisa se avaliada por um médico, entenda isso!
— Eu não posso estar em trabalho de parto, Weller – ela rosnou entre os dentes e depois só se concentrou em respirar.
Ele esperou paciente e solidário com a luta que ela travava. Quando a dor passou, ela não tentou se levantar. Sentou-se sobre as pernas, derrotada:
— Preciso voltar pra casa ainda essa tarde.
— Se você estiver em trabalho de parto, isso será impossível. Só saberemos indo o hospital.
— Hospitais e médicos estão fora de cogitação, Weller.
— Eu te levo até o médico e, se tudo estiver bem, alugo um carro para te levar até sua casa. E, se estiver em trabalho de parto, eu mesmo falo com seus pais e explico tudo.
— Eu não posso procurar um médico ou um hospital, Weller. E você não pode conhecer meu pai. A única chance que temos é se mantermos sua identidade em absoluto sigilo.
— Olha, sei que tudo isso é assustador e que ele deve ter dito horrores a meu respeito, mas isso não é o fim do mundo.
— Meu pai é marechal-general da Força Aérea. Ele tem planos pra mim. Assumi o compromisso e não posso voltar atrás. Devo muito a ele. Minha gravidez não estava incluída nesses planos. Como descobrimos tarde demais, não foi possível fazer um aborto. Meu pai queria que acabar logo com tudo, mas o médico não aceitou. Então, ele decidiu que o melhor caminho era a adoção. Conseguiu um casal com uma situação econômica muito confortável. Já assinei todos os papéis com os advogados abrindo mão da criança. Se eu for para um hospital ou a um médico, assim que essa criança nascer será levada e nunca mais saberemos dela.
— Eu não acredito que você fez concordou com isso sem me consultar! Não cabia a seu pai essa decisão. Além disso, eu também tenho direitos com relação a criança.
— Meu pai não está nada feliz. Ele é muito mais influente do que você imagina. Acha que o pai do bebê é um garoto do colégio. Se ele souber que é você, além de não te deixar ficar com o bebê, sua carreira estará acabada e você pode ser preso.
— Não importa o quanto ele seja influente, temos que confiar na justiça, Jane. Vamos resolver isso nos tribunais. Ele não tem nada que possa usar contra mim.
— Weller, eu tenho 16 anos. A idade de consentimento nesse estado é 18. Nenhum tribunal te inocentaria disso.
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