Salve-me
15 A Revelação
— A expressão que ele usou foi “em processo de cicatrização” – Kurt insistiu, tentando conter a empolgação de Remi enquanto fechava a porta da sala atrás deles.
— Se ele me liberou para a fisioterapia é porque estou bem – ela o desafiou sorrindo.
— Ele não te liberou do uso da tipoia – voltou a insistir, a puxando pela cintura e a encarando.
— Estou bem, Kurt. Foi isso que o raio-x mostrou e o médico confirmou – esticando o corpo, selou a frase com suave beijo sobre os lábios dele e sorriu.
Um sorriso bobo se formou no rosto dele também. Inferno! Ela conseguiu quebrá-lo de novo!
— Eu sei que você está bem. Só não quero que algum excesso te impeça que continue se recuperando.
— Vou me comportar, eu prometo. Não farei nada que envolva qualquer risco para minha recuperação – disse olhando diretamente para os olhos dele com as mãos em seu peito. – Todos os meus atos serão friamente calculados para garantir meu bem-estar e rápida recuperação.
Nesse momento, a expressão dela mudou completamente. Seu olhar se tornou sedutor e ela mordeu os lábios maliciosamente.
Kurt torceu o pescoço incomodado.
— Não, definitivamente não! Você tem que me prometer que vai se comportar até se completarem, no mínimo, quarenta dias. É isso ou terá que dormir sozinha naquele quarto.
— Isso é uma ameaça, Weller? — divertiu-se com a possibilidade. — Não seria nada arriscado. Sua cama é grande e muito confortável. Não é como se estivéssemos num armário de produtos de limpeza, num beliche de Quântico ou no banco de trás de um carro. Pensei que cuidaria melhor de mim – fez um falso beicinho.
Ele amaldiçoou sua própria desgraça e rosnou algo incompreensível antes de avançar contra o pescoço dela numa sequência de beijos úmidos que acenderam todo o seu corpo. Ela enlaçou seu pescoço, desesperada por mais.
— Também estou com saudade — sussurrou ao pé do seu ouvido. — Com muita saudade. E falta muito pouco para que possamos ter tudo de volta.
— Eu preciso de você, Kurt. Preciso muito. Não posso esperar. Mas posso me comportar. Deixo todo o trabalho duro com você. – esfregando o corpo ao dele, apertou entre suas pernas.
Deus, ele estava perdido!
O som dos passos rápidos pelo corredor fez com que eles se separassem.
— Vocês voltaram! Finalmente! Eu já estava preocupada. O que o médico disse? – a garotinha parecia ansiosa e se aproximou rápido.
— O médico disse que estou muito bem!
— Tem certeza? – Avery questionou se colocando na ponta dos pés para observá-la melhor. – Seu rosto e seu pescoço parecem um pouco vermelhos.
Remi imediatamente levou a mão ao pescoço, sentindo o rubor tomá-la ainda mais.
— Acho que tomei sol demais na rua – argumentou totalmente encabulada olhando suplicante para Kurt que franziu as sobrancelhas numa discreta repreensão.
— Ele disse que a recuperação de Remi vai muito bem, mas ainda exige cuidados. Filha, vocês duas terão ainda muitas horas de filmes pela frente para que nossa paciente não cometa algum exagero.
— Eu posso cuidar disso! – Avery concluiu já puxando Remi pela mão até o sofá. — Venha, vamos começar já! Papai, por favor, prepare um lanche pra gente. Remi deve estar com fome.
— É pra já! – Kurt piscou para as duas e foi para a cozinha.
As duas se acomodaram no sofá e Avery assumiu o controle da TV escolhendo o filme. Remi reclamou:
— Encantada de novo? Já vimos ele diversas vezes, não vimos?
— É meu favorito. Estou analisando esse filme.
— Talvez eu possa te ajudar com a análise – Remi se mostrou interessada enquanto afagava os cabelos da filha.
— Estou tentando descobrir o que há de errado com a Morgan.
— A garotinha do filme? Ela me parece encantadora.
— Não, ela tem um grave problema, um defeito. Talvez seja chata ou feia ou gordinha demais.
— Pensei que gostava dela. Eu acho Morgan fofa, doce, uma criança muito legal.
A garotinha ficou pensativa e mordeu o lábio inferior com o olhar triste.
— Eu também acho ela muito legal. Mas deve haver um problema porque a mãe a deixou, foi embora e nunca mais voltou.
Remi puxou o ar sem fôlego. De repente, tudo se encaixava naquele quebra-cabeças da vida real. Avery se identificava tanto com o filme porque vivia algo semelhante ao que acontecera com Morgan: o abandono materno. Puxando a filha para o seu colo, afagou seus cabelos enquanto falava olhando nos seus olhos:
— Morgan é perfeita, não há qualquer problema com ela. Adultos são problemáticos, Avery. Quando uma mãe vai embora, nunca é culpa da criança.
— Robert, o pai de Morgan, também é muito legal. Não foi culpa dele. Nem do meu pai.
— Não, não foi. A mãe de Morgan partiu porque tinha problemas com o resto da família dela. Morgan e o pai não tem qualquer culpa nisso – respirou fundo antes de continuar. Sabia que tinha chegado o momento. — Você e seu pai não tiveram qualquer culpa quando sua mãe partiu, Avery. Você é perfeita! É a garotinha mais incrível e legal do mundo todo! E sempre foi assim. Quando eu deixei vocês… — precisou parar por um instante, a emoção fechando sua garganta. — Deixar vocês foi a coisa mais difícil que já fiz. Ficar distante foi horrível porque você é a pessoa que mais amo no mundo todo. Naquele momento, eu acreditei que te deixar era a única forma de te proteger. E me arrependi muito do que fiz. Por isso, estou aqui. Se você puder me perdoar, farei tudo para ser uma boa mãe de agora em diante.
— Então, é você mesmo… E vai ficar, né? Vamos ser uma família completa agora – a garotinha falou ainda insegura.
— Eu sou sua mãe. Não sou legal como a Giselle do filme, sou meio estranha. Mas eu te amo. E não vou mais me afastar de você, Avery. Eu prometo!
Avery sorriu e se jogou sobre Remi num forte e dolorido abraço que ela recebeu com um dos melhores momentos de sua vida. Ficaram por pouco tempo assim. Logo a garotinha a soltou e agarrou o controle da TV.
— Acho que podemos assistir outro filme agora. Lilo & Stitch é bom. Vai te fazer bem.
— Tenho certeza que sim.
Ficaram ali, lado a lado, o braço de Remi envolvendo protetoramente a filha até Kurt voltar com o lanche. Então, Avery fez questão de anunciar enquanto se deliciava com o sanduíche e sem tirar os olhos da TV:
— Papai, Remi é minha mãe. Eu sei a verdade agora. Está tudo bem.
Kurt olhou apreensivo para Remi que assentiu com a cabeça sorrindo.
— É ótimo saber que vocês duas se entenderam – ele concluiu as abraçando. – E, se está tudo bem, então posso ir ao supermercado enquanto vocês cuidam uma da outra?
— Pode, é claro! – Remi confirmou.
— E pode trazer sorvete pra gente comemorar – Avery completou.
— Boa ideia! Roman e Emma já estarão aqui quando eu voltar e vamos comemorar com sorvete.
Assim que Kurt saiu, Avery teve outra ideia:
— Se vamos comemorar, melhor eu te maquiar para você ficar bem linda nas fotos. Vou buscar algumas coisas e já volto!
Remi sabia que era inútil tentar resistir. Aguardou e se deixou maquiar enquanto tentava acompanhar a animação na TV. O bichinho esquisito com aquela família incompleta a agradou mais do que esperava.
— Agora que você e meu pai vão se casar, eu posso ser a daminha. Eu sempre quis ser daminha. A Kimberly já foi e a Annabeth também.
— Calma aí, mocinha. Acho que é cedo para falarmos em casamento. Eu e seu pai …
— Vocês já trocaram um beijo de amor, não é? Depois disso, ele tem que te dar um anel e fazer o pedido.
— Nem sempre é rápido assim, Avery.
— Ele vai fazer o pedido, eu sei que vai. Sabe como eu sei?
— Como, Senhorita Sabe Tudo?
— Pelo jeito como ele olha pra você com aquele sorriso bobo. Ele não olha assim para mais ninguém. Nem pra nenhuma outra namorada.
— Seu pai tem namoradas?
— Bom, tem aquelas mulheres que apareciam por aqui. Aquela Allisson me deu um chocolate quando eu corri até o carro pra trazer meu pai pra dentro.
— O que você achou dela? – Remi perguntou e já se arrependeu. Sabia que não devia interrogar a filha sobre isso e que já estava incomodada demais em saber que Kurt e Allie continuavam se encontrando.
Avery entortou os lábios e levantou as sobrancelhas numa expressão de desdém.
— Sem graça. Você é muito mais linda! Mas ela, pelo menos, me deu um chocolate. A outra, nem isso. Entrava aqui na nossa casa, balançava a cabeça e saia. Feia e velha, eu não gostava dela de jeito nenhum.
— Avery, você não deve falar assim das pessoas – repreendeu sutilmente a filha, a curiosidade a correndo para saber mais sobre a tal mulher.
— Ela tem aquele jeito estranho, deve ser lá do país da Kamala, a Miss Marvel. Você já assistiu Miss Marvel?
— Nunca assisti.
Avery abandonou os pincéis e pegou o controle, selecionando um novo programa na TV.
— Tio Roman disse para a Tia Emma que só podia ser excesso de carência do papai e que você tinha que voltar logo pra casa para acalmá-lo.
Quando a TV começou exibir as imagens de Miss Marvel, o estômago Remi começou a revirar por mais que sua cabeça ainda negasse tal possibilidade. Aquelas pessoas eram paquistanesas, impossível não estabelecer uma relação direta com Nas, um de seus algozes no black site ao lado de Keaton e Carter.
Não foi fácil manter-se equilibrada diante da filha. Os sentimentos fervilhavam dentro dela causando um desconforto imenso. O que pode fazer foi se revestir da frieza que lhe cobraram desde a infância, mantendo os diálogos curtos e as reações mecânicas. Avery era esperta, buscou aproximação e um contato físico mais frequente, mas assim que Roman chegou, deu um forte abraço na mãe e chamou o tio para brincar no quintal com o cão Thor.
Kurt retornou pouco depois. Remi o aguardava na sala, semblante fechado, olhar acusador, marchando entre os móveis imponente.
— Está tudo bem? — questionou num tom casual, mesmo que seus instintos e experiências já o alertasse da resposta.
— No quarto — Remi respondeu ríspida lhe dando as costas e marchando em direção ao corredor.
Ele respirou fundo antes de abandonar as comprar sobre a mesa de centro e a seguir.
— Feche a porta — ela ordenou assim que ele entrou.
— O que aconteceu, Remi? — questionou de cabeça erguida, disposto a não se deixar intimidar.
— Qual sua relação com Nas Kamal?
— Ela esteve aqui? — A incerteza o cercou, quebrando suas convicções.
— Responda a pergunta, Weller!
— Nas Kamal é uma agente especial da ASN (Agência de Segurança Nacional). Ela investigava a Sandstorm, codinome que deu para a organização de Shepherd, há um bom tempo. Nas me procurou um pouco antes de descobrirmos que Roman tinha sequestrado Avery. Propôs que eu me tornasse um infiltrado ajudando a derrubar a Sandstorm e me ofereceu anistia. Após termos resgatado Avery, procurei Mayfair no FBI que me orientou sobre os termos desse acordo com a ASN. Incluímos a sua anistia e de Roman além do meu retorno ao FBI.
— Isso é tudo? — tom sarcástico na voz o intimou a colocar todas as cartas na mesa.
Kurt torceu o pescoço descontente e apertou os lábios. O momento dessa conversa o assombrava desde o dia em que Remi voltou para casa. Diversas vezes, pensou em abordar o assunto, mas sabia que não sairia ileso, por isso acovardou-se dizendo a si mesmo que ainda não era o momento certo.
— Após derrubarmos a Sandstorm, enquanto você ficou desaparecida, Nas e eu nos tornamos… amigos. Ela parecia compreender o peso que estava sobre mim. Era sensata nas considerações que fazia. Indicava um norte para que eu seguisse saindo de um ciclo vicioso que …
— Sensata… – debochou — Quais considerações eram essas, Weller? Eram sobre mim, não eram? Eu era o ciclo vicioso.
— Você não é e nunca foi, Remi. Mas, naquele momento, eu estava confuso.
— E eu estava sendo torturada! — ela explodiu, sua voz ecoando mais alto do que desejava.
O silêncio que se seguiu acusava Kurt mais do que o olhar de Remi. Ele se sentou aos pés da cama e afundou a cabeça entre as mãos.
— Que tipo de amizade vocês tiveram? — Ela deixou as palavras saírem ríspidas sem facilitar nada para ele.
— Ela já deve ter te contado.
Kurt fugiu de colocar o passado em palavras, o arrependimento o massacrando.
— Ela não esteve aqui, Weller. É “sensata” e covarde demais para me encarar sem que eu esteja faminta, esfolada e acorrentada!
Derrotado, ele quase balbuciou:
— Eu não fazia ideia do que estava acontecendo com você. Você desapareceu tantas vezes… Podia estar em qualquer lugar, recomeçando sua vida.
— Sem Avery, sem Roman, sem você? — questionou incrédula.
— Eu sei que é um raciocínio absurdo, mas Nas dizia de forma tão lógica e coerente…
— Não jogue seus erros nas costas dela, Weller. Sabe o que ela me dizia sobre você? Dizia que tinha repulsa em ouvir meu nome e que o acordo entre vocês previa que eu apodreceria naquele blacksite bem longe da “sua filha”. Era uma fala lógica e coerente, eu estava ferida, confusa, assustada, mas ainda assim não acreditei nela. EU NÃO ACREDITEI EM SEQUER UMA MERDA DE PALAVRA QUE SAÍA DAQUELA BOCA IMUNDA! — precisou respirar antes de continuar — Dia após dia eu escolhi acreditar em você, nas suas promessas, no seu amor… Enquanto você escolhia se enfiar entre as pernas daquela vadia.
— Remi…
Antes que ele encontrasse qualquer palavra para continuar, ela saiu do quarto pisando firme.
Desesperado, Kurt a seguiu, mas Remi atravessou a sala e deixou a casa batendo a porta. Derrotado, ele deixou seu corpo despencar na poltrona. Sua cabeça latejava de dor impedindo que os pensamentos se encadeiassem numa ação que trouxesse resultado, talvez porque nada que ele fizesse mudaria o passado e a traria de volta.
Foi quando a porta abriu e Emma entrou, chegando do trabalho.
— O que aconteceu? Remi passou por mim muito irritada.
Ao colocar os olhos sobre ele, antecipou o desentendimento do casal. Então, o fitou compreensiva e se aproximou apertando seu ombro.
— Casais se desentendem, Kurt. Os relacionamentos têm altos e baixos. Vocês passaram por muita coisa. Se acalme para não deixar Avery ser envolvida nisso. E se prepare para quando Remi voltar.
— Ela foi embora, Emma. E nunca mais vai voltar. A culpa é minha.
— O que exatamente você fez?
— Ela descobriu que tive um relacionamento com Nas.
Emma respirou fundo, dando-se conta do quanto o sofrimento dele o impedia de enxergar certas coisas. Tocou seu rosto, direcionando o olhar dele de encontro ao seu:
— Ela vai voltar. Todos que ela ama estão aqui. Se ela estivesse mesmo partindo, nenhum de nós teria a visto deixar essa casa.
Então, deu um leve tapa no ombro dele, soltou a bolsa sobre a mesa de centro e caminhou para a porta.
— Onde você vai? — Kurt perguntou confuso. Estava acostumado a ter o amparo de Emma sempre que Remi partia.
— Guarde as compras, Kurt. Eu vou atrás dela. Remi está precisando mais de mim do que você.
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