Salve a Rainha Odette!
1 Capítulo 1
Meu pai acabara de morrer e todos estavam naquela cerimônia fúnebre, o caixão de meu pai ali, aberto no meio do salão, todas aquelas pessoas bebendo e oferecendo os pêsames a mim e minha mãe. Não podia ir até lá e abraça-lo, abraçar com força aquele corpo sem vida, e deixar que minhas lágrimas rolassem em direção a sua face fria e pálida. Tinha que manter minha postura, minha postura de príncipe e futuro rei!
Naquele dia todos estranhamente viraram meus amigos, eu ali no trono segurando a mão de minha mãe, recebendo presentes e palavras \"amigas\".
- Aqui está o nosso novo rei! Disse um membro do conselho que era de meu pai.
Assenti suavemente com um gesto.
- É bom ver que está reagindo bem a morte seu pai, Eduardo — disse minha mãe — Você será um bom príncipe.
Nada respondi, apenas esbocei um leve sorriso melancólico. Qualquer pessoa que me olhasse naquele momento, veria um príncipe seguro e inexorável, mas aquela postura nada mais era que uma farsa, pois estava me corroendo por dentro, um sentimento inexplicável, o que eu faria daquele momento em diante? O que seria da minha vida? Não queria ser rei, se nada tivesse acontecido a meu pai, estaria naquele momento longe dali, milhares de milhas distantes! Estaria com um sorriso verdadeiro no rosto, e do meu lado estaria meu amor, minha vida! O meu companheiro Josué, o amava mais do que tudo, mais do que qualquer coroa, mais do que qualquer quantidade de ouro.
Não, minha decisão estava tomada, iria fugir com ele naquela noite! Daquela noite em diante não passava, se contasse sobre meu romance com Josué pra minha mãe, ela não exitaria em me matar e a ele!
Mais tarde.
Fui ao encontro de Josué em sua cabana, me certifiquei de que não havia ninguém olhando e bati a porta. Ele a abriu e me recebeu com um abraço caloroso, senti meu corpo furmigar de alegria, estava feliz por vê-lo, por senti-lo, deixei que meus lábios tocassem os seus por alguns segundos, até ser tomado novamente pela preocupação.
Entramos na cabana, uma cabana humilde, tão diferente do meu palácio. Sentamos a mesa, onde tinha um pedaço de pão e um pouco de vinho. Começamos a discutir o nosso futuro, o que faríamos, fugiríamos para um vilarejo vizinho? Continuariamos ali, eu me tornaria rei e nunca mais teríamos um ao outro? Ele colocou seus dedos em meus lábios e começou a me beijar até sermos interrompidos por um barulho estrondoso, a porta havia sido derrubada e em pé estavam os conselheiros de meu finado pai e guardas do castelo. Haviam nos descoberto.
Nos levaram para minha mãe, e contaram o ocorrido. Ela se levantou de seu trono, e com toda imponência e frieza ordenou que cortassem nossas cabeças.
Aquela história de amor proibida, estava prestes a acabar. Josué estava acorrentado a minha frente, de joelhos, naquele palco sangrento onde havia visto tantos prisioneiros de guerra serem decapitados, e a platéia abismada com os atos de seu principe, mas ansiosa por seu castigo. Minha mãe, a rainha Odette, estava sentada na sacada no palácio, em seu trono, como no dia da morte de meu pai eu estava, agora estava ela, aparentando uma frieza inexorável, um pouco acima de onde eu haveria de morrer. Chegou o carrasco com seu machado afiado. Seus olhos negros saltando de dentro de seu capuz, um brilho obscuro sedento de morte. Se aproximou de meu amado, com aquele mesmo rosto angelical de sempre, sorriu pra mim, em um sorriso doce eterno, estampado na sua cabeça decepada no chão e seu corpo caído sem vida. Ao fundo a multidão gritando \"Salve a rainha Odette\", lágrimas corriam pela minha face, tamanha tortura, mas nada podia ser feito, não poderia voltar no tempo e salvar nossas vidas. Logo seria minha vez, logo aquelas pessoas assistiriam minha morte, meu declinio, ou minha libertação, a libertação da minha alma! Nada veio a minha mente, só a imagem do meu Josué sem vida, sorrindo, então sorri, sorri pelo meu amado, pelos bons momentos que passamos juntos e por estar morrendo ali, com ele, pois não aguentaria viver o resto do meus dias sem o seu abraço.
O carrasco desceu aquela lâmina afiada até o meu pescoço. Nada mais vi, nada mais senti, a última coisa que eu ouvi foi:
-Salve a rainha Odette!
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