Salvação

1 OneShot - O sentido da coisa.


Notas iniciais
Pessooooas, espero que apreciem a leitura.

Não se pode simplesmente sair da vida das pessoas assim, dizer “adeus” e seguir como se tudo estivesse bem, claro, contando com as condições que vivemos hoje, estar bem não passa de sobreviver dia após dias. Entretanto, se despedir e seguir em frente era tudo o que eu podia fazer, ou achava que podia fazer. Quando as coisas foram ficando piores e era perigoso virar a esquina, eu decidi apenas partir, sozinha como, na verdade, sempre me senti, andando por ai como uma loba solitária, atrás de alguma coisa que traga sentido a minha vida outra vez.
_Não vá, Amy. — eu a ouvi suplicar, sabia que se parece de andar e me virasse jamais encontraria forças para seguir novamente, abaixei a cabeça respirando profundamente.
_Você escolheu ficar, irmã.

Os dias estão se tornando cada vez mais longos, o sol demora a se mover no céu a cima de minha cabeça. Encosto-me a uma árvore seca e me deu o luxo de descansar por alguns instantes, saco minha bolsa que antes estava pendurada em meu pescoço e dou uma boa olhada, suprimento para mais algumas semanas se me mantiver em controle, a água estava acabando e teria de achar um lago logo, caso contrario terei de usar do meu estoque “só para casos terminais”, e eu não quero pensar que estou chegando no meu estado terminal. No canto da bolsa posso ver uma fotografia velha e amaçada, a tomo em mãos e sento meu coração se desdobrar, há quanto tempo tinha me esquecido dela? Alguns meses, talvez. Na foto eu e minha irmã posávamos sorrindo enfrente a nossa antiga casa, nos bons tempos. Ela estava vários centímetros menor que eu, suas sardinhas eram visíveis e meus longos cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo com um laço de cetim enfeitando; mamãe costumava nos deixar como bonecas, claro que nessa época nós ainda permitíamos, eu deveria estar na faixa de dez anos e Bianca com sete. Joguei a foto para dentro da bolsa outra vez e tentei apenas me esquecer dela, como sempre fazia. Veja bem, minha irmã sempre foi e provavelmente sempre será a melhor coisa que já aconteceu comigo, minha melhor amiga desde que me entendo por gente, nossa família nunca foi muito estabilizada, minha mãe sempre submissa ao meu pai valentão e Bianca tentando apaziguar os ares, eu apenas batia a porta e mandava todos a merda. Quando toda essa historia de zumbis começou eu decidi que partiríamos, nossa casa era em um lugar movimentado, varias pessoas já haviam sido infectadas ali e em breve, se não saíssemos, nós seriamos os próximos. Claro que meu pai não aceitou a ideia, ele disse que iria ficar em sua casa até o dia de sua morte, deixei bem claro que com aquela atitude isso não estaria longe, entretanto, não tenho noticias dos mesmos a cerca de dez meses, quando sai de casa sozinha, nem mesmo Bianca me acompanhou, ela tem apenas dezenove anos e não estava pronta para sair, diferente de mim.

Ponto de Vista – Bianca Parker.

_Não suporto mais esse lugar. – digo o mais baixo que pude para minha mãe que estava com a cabeça encostada nas mãos.
_Fique quieta, Bianca, seu pai não aguenta mais ouvir seus murmúrios.
_Você quer que eu minta? Que diga que esta tudo bem? – digo elevando o tom de minha voz e ganhando um olhar de reprovação de mamãe – Se ao menos Amy estivesse aqui… – minha voz sai como um fio fino e tremulo.
_O que disse? – papai diz ameaçadoramente enquanto se aproxima, me afasto assim como mamãe – O que disse, Bianca?
_Eu deveria ter ido com ela! Ela tinha razão quando disse que ficaríamos presos nesse monte de merda. Vendo nossos parentes e amigos morrem e ainda sim presos aqui, sem coragem de pisar o pé para fora dessa maldita casa! – grito tirando toda a fúria que tenho guardada de dentro de mim, vejo William se aproximar rapidamente e desferir um tapa forte em meu rosto, mamãe se levanta e solta um grito que é abafado pelas mãos na boca – Covarde! – digo me recuperando e me pondo de pé. Foi à gota d’água, corro escadas acima e pego minha bolsa que a tanto tenho guardada, desço as escadas novamente e encaro Susie, ela nega com a cabeça e sinto meu coração desabar, a esperança que existia dentro de mim se foi com o abanar de sua cabeça. – Tudo bem… – digo pegando um quadro da estante, rasgo William da foto e jogo esse pedaço no chão – Mesmo que minha irmã esteja morta, ela foi muito mais forte que eu, mais forte que você. – digo a minha mãe e encaro William que entrava pela porta dos fundos no mesmo instante, saiu pela porta de frente os deixando ali, eu sei que ele não irá atrás de mim, eu não tenho mais nada que ele precise, seria um peso a menos.

Ponto de Vista – Amy Parker.

Não, eu não acredito que esse seja o fim. A muito venho com esse pensamento em minha cabeça, eu sei que não tenho esperança o suficiente para pensar que o mundo voltara a ser como era antes, mas talvez algum dia as coisas fiquem sobre controle, talvez a união realmente faça a força; coisas assim me permitem tirar duas ou três horas de sono. Mexi-me desconfortavelmente encima da árvore em que dormia, ou tentava dormir no caso, afofei o a bolsa que usava como travesseiro improvisado e fechei os olhos outra vez.Creck.Sentei-me prontamente na árvore, estava acostumada demais para cair dali, levantei-me apoiando no tronco para conseguir olhar mais além, nenhum zumbi estava ali, talvez o que causou o barulho fosse um bichinho ou algo assim. Sentei-me novamente, mas ao fechar os olhos uma luz segante me fez cobrir o rosto, mexi a mão para que seja lá o que fosse passasse e quando a luz se afastou abri os olhos, no pé da árvore um caçador que provavelmente descansava anteriormente agora me observava seriamente.

_Droga. – sussurrei enquanto pegava minha bagagem e me preparava para descer, não estou nem um pouco disposta a dividir a área. Já em solo firme encarei o homem de uns trinta e poucos anos, cabelos claros e barba por fazer, seus olhos eram azuis e um tanto “anti-amigos”. – Certo, quem é você? – disse me afastando por segurança.
_Quem é VOCÊ. – ele rebateu no mesmo instante. O observei por mais alguns instantes, ele carregava uma besta que me deixou com vontade de rouba-lo, não seria a coisa mais esperta a fazer, então apenas arrumei a postura e limpei a garganta. Quando estava prestes a dizer alguma coisa como “cai fora”, ouvi uns estralos vindo em nossa direção, me virei de costas para o homem que assim como eu se preparou para atacar. Meia dúzia de zumbis apareceram com diferentes distancias ao nosso oeste, o que estava mais próximo foi atingido por uma flecha no cérebro, esta passou tão perto de mim que me fez prender a respiração, segui em direção aos zumbis e ouvi um grunhido vindo do homem que me seguiu, tirei um dos punhais de meu cinto e mirei rapidamente jogando no monstro que caiu atingido, mais dois zumbis caíram ao chão com as flechas do caçador, um vinha em minha direção, desviei de suas mãos e ele seguiu em direção ao homem, peguei outro punhal e o cravei na parte de trás de sua cabeça, o último que tentava a sorte foi atingido por minha arma silenciosa no mesmo instante em que a flecha o perfurava. Mantive-me no mesmo lugar, não havia percebido antes, mas minha respiração estava descompassada, conseguia ouvir o homem se mover inquietamente alguns metros atrás de mim, virei-me respirando profundamente e estendendo minha mão:

_Amy Parker. – o caçador levantou uma das sobrancelhas e relutou a pegar minha mão, assim que a tomou deu uma leve chacoalhada e a soltou.
_Daryl Dixon.

Recolhi meus punhas dos corpos sem vida dos zumbis e os limpei em um punhado de folhas que estavam no chão. O homem por sua vez limpava as flechas em um pano que antes carregava no bolso de trás da calça.

_Você está sozinha? – ele disse relutante, encarei o chão por alguns segundos e depois o olhei, Dixon desviou o olhar e voltou às flechas.
_Estou.
_Os que estavam com você morrem? – qual é, se isso fosse verdade eu me sentiria ofendida pela total não sutilidade.
_Na verdade, eu os abandonei. – respondo ainda o olhando, o caçador me encara com certa dúvida e depois endireita o corpo.
_Quer um lar? – dou um sorriso sarcástico e ele revira os olhos corrigindo – Um teto sobre sua cabeça.
_Eu… – bom, eu havia fugido de um lar a menos de um ano, e agora eu me sentia tão desnorteada que talvez fosse uma boa ideia, eu não conheço esse homem e cá a parte ele não me parece nada inofensivo, um caipira com quem eu não pegaria uma carona. – aceito. – digo por fim, o medo de ter tomado a decisão errada me invade, é muito cedo para temer, mas quem sabe para onde este homem vai me levar.
_Certo… Vamos então. – ele diz sem ao menos me olhar no rosto e começa a andar, bufo e o sigo.

Ponto de Vista – Daryl Dixon.

Não posso negar nem por um segundo que a garota não é uma boa caçadora, ela esteve andando sozinha esse tempo todo por ai e não morreu, segundo ela, abandonou seu grupo, eu não estava disposto a perguntar como isso aconteceu e nem ela a me contar, então apenas disse o que Rick me mandou dizer caso encontrasse alguém sem ninguém, e para minha surpresa ela aceitou.

Enquanto caminhávamos lado a lado me dei o luxo de observa-la de verdade pela primeira vez, os cabelos castanhos caiam livremente pelas costas, o rosto apesar de sujo era incontestavelmente bonito, olhos castanhos e selvagens, depois da cintura fina vinham pernas grossas e bunda redonda, confesso que acabei me perdendo na mulher, não é normal ver mulheres com esse tipo de corpo por ai, normalmente ou são magras demais ou cheias demais, ela era como uma combinação de feminina e sensual. Balanço a cabeça tirando essas ideias de minha mente, estou muito tempo longe de mulher e agora já estou pirando, não é possível.

_Então, Dixon. – a encarei seriamente e uma careta nasceu em seu rosto – Dá para parar de ser sempre tão carrancudo? – ela diz, bufo e encaro o chão novamente – Enfim, para onde está me levando? – um tom de preocupação surge em sua voz e solto uma risada sarcástica, ela me olha sem entender, reviro os olhos e volto o olhar para o caminho.
_Não deveria seguir homens tão facilmente, se eu quisesse fazer algo com você, você seria uma presa fácil. – eu nunca faria isso de verdade, meu irmão com certeza tentaria alguma coisa, mas eu não.
_Sem dúvidas. – ela responde e eu a encaro em dúvida se ela está sendo sarcástica ou não.

POV AMY PARKER

Andamos, andamos e andamos. Não parecia ter fim, e quando estava prestes a jogar tudo para o ar e desistir de ir para esse tal lugar eu o vi. Dixon me lançou um olhar animado e eu não pude deixar de corresponder. O homem se aproximou tão destemidamente que eu cheguei a recuar, era uma prisão enorme, havia um homem na torre e alguns, incluindo uma criança, que vieram abrir um portão gigante para nós. Caminhei tentando ficar calma, encarei aquele punhado de pessoas e não sabia para onde ir. Olhei para Dixon que conversava com um homem de costas para mim, cruzei os braços e esperei.

_Amy, este é Rick. – ele disse me apresentando, encarei o homem por vários segundos e depois o garoto que estava ao lado dele, meu coração pulou uma batida e voltou loucamente.
_Amy Parker?! – o homem disse se aproximando e quando assenti com a cabeça ele veio mais rapidamente e me abraçou.
_Rick! – dei um pequeno grito e correspondi o abraço.
_Você está viva! – quando ele se afastou foi à vez de Carl me abraçar. Meus antigos vizinhos, ali em carne viva, isso só podia ser brincadeira. Quantas vezes esse homem já havia me ajudado com os problemas com William, ele sempre foi um tipo de herói para mim e Bianca – E seus pais? – ele disse animado, olhei rapidamente para Daryl e todos os outros que nos olhavam confusos e depois encarei o chão.
_Eu não sei, os deixei. – levantei os olhos para ele que pareceu entender o porquê, meu pai causou muitos problemas pela vizinhança.

Subimos para a prisão onde ele me apresentou para todo mundo. Sentei-me junto a ele em uma das escadas e depois de colocar o assunto em dia me dei conta de um pequeno detalhe.

_Rick… E Lori? – disse com o coração nas mãos, o homem continuou a me olhar, ele parecia tão longe e depois voltou sorrindo tristemente.
_Ela se foi. E agora nós temos uma filha. – ele disse e eu me senti perdida por um tempo.
_Onde ela está? – me levantei, há quanto tempo não vejo uma criança?

_Olá, princesa. Olá Judith. – digo baixinho brincando com as mãozinhas da linda criança deitada em meus braços. Ela é a coisa mais fofa que eu já vi em toda minha vida, olhinhos brilhantes e bochechas rosadas. Levanto o olhar e Daryl está encostado em uma das celas me olhando – Não precisa me vigiar, Daryl. – digo e depois volto o olhar para a linda criança.
_Não estou vigiando, ninguém. – ele diz mal humorado e depois se aproxima e passa os dedos nos cabelos de Judith que abre um sorriso para ele, os olhos do caçador eram diferentes agora, pareciam mais calmos, ele devolveu o sorriso para a criança e depois levantou os olhos para mim. Sim, eu notei que ele é um homem encantador, mas agora simplesmente estava irresistível. Limpo a garganta e levanto Judith, a segurando encostada em mim – Você leva jeito com a coisa, não é? – ele diz levantando os olhos para mim e depois brincando com Judith outra vez, sorriu em resposta e apenas o observo.

DOIS MÊSES DEPOIS

_Amy, preciso de você aqui! – ouço Maggie me chamar e vou até ele em resposta.
_São muitos, precisamos acabar com isso, dar um jeito de tira-los das grades. – muitos zumbis se amontoaram nas cercas e se nenhuma medida for tomada logo elas tombaram, olho para Maggie que zoa de descanso enquanto acerta o máximo de zumbis na cabeça com a estaca.
_Certo... O que acha de chamarmos a atenção deles para longe enquanto os homens podem reforçar as cercas, com mais troncos para suportar, ou algo assim. – desde que cheguei aqui venho ajudado com as ideias para manter essas coisas fora, digamos que minha criatividade é fluente.
_Pode ajudar por hora... Vou falar com Rick. – ela visa e vai em direção a Rick e Daryl que conversavam, os observo por alguns segundos e quando os olhos do caçador encontram os meus sorriu levemente e volto minha atenção aos zumbis e acerto um no meio da testa.

_Pode diminuir a velocidade. – aviso para Daryl que desacelera a moto; eu estou estranhamente sentada de costas para ele, de um jeito que posso chamar a atenção dos zumbis e tentar me equilibrar na moto – Ótimo. – digo irritada ao perceber a proximidade dos zumbis. – Espere... Espere... Pode ir.

Ponto de Vista – Daryl Dixon

Acelero a moto ao ouvir o sinal de Amy que quase escorrega do acento, coloco um braço para trás e a seguro pela cintura ainda tendo de controlar a moto.
_Preste atenção, Ams! – falo irritado e a solto quando ela esta estável outra vez. Estamos nessa de atrair os zumbis o mais longe possível da prisão enquanto algumas pessoas fortalecem as cercas, ideia de Amy, claro, espertinha.
_Está funcionando. – a ouso falar animada e sorriu para a mulher que esta me olhar, aqueles olhos brilhando como sempre fazem quando uma de suas ideias da certo. Volto o rosto para frente e o que vejo me faz frear rapidamente – Droga, Dixon! – ela reclama e depois olha para frente.

A mulher parecia uma pedra atrás de mim, conseguia a sentir respirando pesadamente e em segundos ela saiu da moto. Olhei outra vez para a garota a nossa frente que tremia, era a copia exata de Amy com alguns anos a menos, ela abriu um sorriso com dificuldade e antes que Amy pudesse chegar mais perto à garota caiu em seus pés.
_Bianca! – Amy exclamou e se jogou para pegar a garota.

POV Narrador.

_Bianca, vai ficar tudo bem! Está me ouvindo? Você vai ficar bem! – Amy dizia tentando se manter na moto com sua irmã nos braços. A cabeça da mulher rodava, mas mesmo assim ela sentia que precisava ser brava e forte por sua irmã, ela estava ali e era tudo o que importava.

Enquanto ela carregava a garota para dentro da prisão, Daryl tentou ajudar e Amy estremeceu raivosamente, ela precisava fazer aquilo sozinha, mesmo que não conseguisse ela queria, o homem investiu novamente e pegou a garota nos braços enquanto Rick segurava Amy para que ela deixasse o homem ajudar. Quando Bianca foi colocada em uma das celas, Amy se sentou ao seu lado e ficou no mesmo lugar até a irmã abrir os olhos novamente. Hershel se aproximou prestativo e ofereceu um pano húmido, Amy o tomou em mãos, agradeceu com um sorriso e pode ver que atrás de Hershel encostado na grade, Daryl estava a observando com um olhar cuidadoso.

_Sinto muito, Amy. Eu tentei, eu lutei tanto, eu sinto muito! – Bianca disse e recuperou a atenção de Amy que segurou seu rosto e a acariciou.
_Do que está falando, Bianca? Está tudo bem, vai ficar tudo bem! – a mulher repetia tentando convencer até a si mesma.
_Amy, você não entende! – ela disse com dificuldade e seus olhos fecharam. Amy sabia que ela estava cansada e precisava de um sono. Tirou o casaco da irmã e quando foi arrumar a camisa viu algo que a fez estremecer de ponta a ponta, Amy se afastou por instinto e caiu da cama, Daryl se aproximou rapidamente e ajudou a mulher que se levantou com dificuldade, seus olhos estavam mais que embaçados por tantas lágrimas.
_Daryl, Daryl – o nome do caçador saia de sua boca repetidas vezes enquanto seus braços buscavam incansavelmente pelo pescoço do homem que a abraçou, Amy afundou a cabeça no ombro de Daryl, seu coração estava em milhares de pedaços; tudo o que ela via e sentia era dor, tudo o que ele via era uma mordida recente na barrigada de Bianca.

Ponto de Vista D. Dixon.

Nunca há vi deste jeito, seu choro, apesar de baixo, era forte, as lágrimas molharam minha camiseta e eu sinceramente não me importo com isso, só quero ser útil de verdade para Amy. E se parar para pensar nisto agora, enquanto ela está em meus braços eu sinto que eu sempre me importei com essa mulher, apesar do modo que ela age, sempre sento independente e seguindo seu próprio caminho, desde que a encontrei naquela floresta eu sinto algo, como um feitiço estranho daqueles olhos profundos; obviamente já resgatei muitas pessoas e mulheres prisão a fora, mas com ela foi diferente, aquela necessidade de salva-la que eu mesmo não aceitei quando senti, agora sentir seu corpo estremecer e chorar sobre o meu me faz pensar e acreditar que ela também precisa de mim, talvez seja uma bobagem, talvez ela aceitasse qualquer um naquele momento, que precisasse apenas de um ombro amigo e por acaso eu estava ali, mas ela disse meu nome, e isso, espero eu, tenho algum sentido.

Os próximos passos nãos foram fáceis, Bianco não iria acordar de qualquer maneira. Amy se escondeu em sua cama e não saiu de lá, Rick e eu levamos a irmã da garota para uma ala isolada da prisão e fizemos o que era preciso, o cowboy me contou como as duas eram ligadas antes de tudo isso acontecer e como ela foi corajosa de largar a família para seu próprio bem.

DOIS MÊSES DEPOIS – POV , Ams.

_Estou indo! – ouvi Daryl gritar, me aproximei correndo e subindo na garupa de sua moto, o homem estremeceu quando o apertei na cintura e soltei um riso baixinho. Durante a pequena viagem até um mercado próximo nós mantemos silêncio, pra mim estava bom, apenas sentir o vento em meus cabelos e o corpo quente de Daryl a minha frente eram deliciosos. Encostei a cabeça em suas costas fechando os olhos com força e espantando todos os fantasmas que me assombravam constantemente.
_Chegamos. – descemos da moto e ele foi a frente empunhando a besta, passei em sua frente e o ouvi resmungar como sempre fazia quando não ficava na dianteira. Pegamos só o necessário e saímos o mais rápido que pudemos, sem grandes problemas, os zumbis que eram encontrados pelo caminho foram aniquilados no mesmo instante.
_Ainda temos algum tempo vago? – perguntei levantando o olhar para o caçador que sorriu sabendo do que eu estava falando. Toda vez que podíamos nós seguíamos para uma campina aberta e ficávamos ali, apenas olhando o céu e tentando se sentir fora de todo o complexo que vivemos. Subimos na moto outra vez e ele dirigiu até o “nosso” lugar. Desde o que aconteceu com Bianca, eu e Daryl ficamos cada vez mais próximos, a explicação eu não sei ao certo, talvez por que ele vem me ajudando com essas coisas, sempre prestativo, apesar do espirito de badboy não ter saído dali, ele parece mais calmo e menos rabugento ao meu lado.

_São minhas coisas favoritas no mundo. – digo baixo enquanto observo o lindo mar de estrelas.
_Eu sei, você diz isso toda vez. – o caçador mantia um tom divertido que eu raramente presenciava quando estávamos na prisão. O olho me virando de lado, aqueles olhos são sempre convidativos, raramente amistosos, mas convidativos. Daryl abriu os lábios lentamente e parecia prestes a dizer algo, então apenas observou o céu novamente e eu sorri, por que ele insistia em fazer isso? Meu enorme ponto de interrogação sobre seus pensamentos continuará ali. O caçador voltou o olhar para cima de mim e então sua mão pousou em meu rosto, retirou os cabelos que ali estavam e depois voltou ao chão.
_Você jamais deixara os sentimentos tomarem o lugar da razão, não é? – digo revirando os olhos, aquela vontade que eu mantia presa dentro de mim de abraça-lo e toma-lo para mim era desgastante, eu tinha uma certa esperança que ele também esperasse isso de mim, só não tinha certeza.
_Do que está falando? – ele sentou-se ao meu lado e me encarou.
_Esqueça, estou apenas resmungando. – me sentei ao seu lado e ele esticou o braço me puxando. BINGO! Algumas das vezes em que viemos observar as estrelas ele me tomava nos braços e eu apenas ficava ali, sentindo sua respiração calma, era extasiante, porém, quando voltávamos para a prisão era como se nunca tivéssemos nos tocado. Talvez quatro meses seja pouco para alguém ter intimidade com outra pessoa, mas ele era diferente.

POV – D. Dixon.

Essa garota me tira do serio, quando ela revira os olhos e se faz de mandona tenho vontade de deixa-la ali e ficar sozinho. Engraçado, pois todas as vezes que discutimos e nossos caminhos se separam eu sinto aquela coisa estranho no peito, talvez seja saudade, um Dixon sentindo saudade; meu irmão riria da minha cara, mas eu preciso apenas sentir, como ela sempre diz.

_Vamos? – digo me levantando e a puxando comigo, Amy apenas concordou com a cabeça e subiu na moto me esperando.

_O que há de errado com vocês? – Rick perguntou enquanto eu olhava para Amy brincar com Judith.
_Do que está falando?
_Depois da noite passada vocês dois estão afastados. – o encarei e ele riu desdenhoso – Acha que eu não vejo? O que houve?
_Bom... – não seria uma má ideia contar – Ela fica dizendo algo sobre sentimento e razão; Amy é louca e você mais do que ninguém sabe disso.
_Daryl, ela gosta de você. – o que? Alguém realmente gosta de um Dixon? Franzi as sobrancelhas e o encarei seriamente – Só você não percebeu; sinceramente, eu a conheço há anos, eu sei do que estou falando, Amy está se apegando demais a você.
_Onde ela está? – perguntei encarando o chão, ele olhou ao redor e depois passou a mão nos cabelos como quem pensa.
_Ela foi caçar... – o encarei por longos segundos, ele ergueu as mãos em sinal de rendição, Rick sabia que eu não queria ninguém saindo sozinho, especialmente Amy depois do que ela passou com a irmã – Ela já é bem grande, Daryl, ela sabe se cuidar!
_Não me importo, ela está por ai sozinha e você sabe o perigo disso! – grito pegando a besta em mãos e descendo as escadas.
_Ela não é sua responsabilidade. – Rick sussurrou e eu me virei para observa-lo por um segundo, seus olhos me fitavam e diferente do que imaginei não havia raiva neles; eu sei que talvez ele a veja como uma espécie de filha por ter cuidado dela ou algo assim, mas eu há ajudei alguns meses atrás e isso me faz seu protetor, ou algo assim.
_Tanto faz. – respondo e continuo a andar.

POV – Narrador.

O caçador saiu pelos portões da prisão como quem realmente está sendo solto, seus passos apresados seguiam em direção à floresta, seus olhos corriam por toda a mata atrás da mulher.

Amy observava os pássaros na árvore acima, seus passos leves não faziam barulhos alguns e em questão de segundos ela empunhou o punhal o jogando em um dos pássaros que foi atingido em cheio e caiu aos pés da garota. Depois de guarda-lo em sua bolsa, seu próximo alvo foi mirado, um esquilo grande e rechonchudo, ele e o pássaro não alimentariam muitas pessoas, mas talvez ajudasse. Amy esticou o braço em direção ao bicho felpudo que mexia em algumas folhar e quando estava prestes a atirar sentiu uma mão pesada em seu ombro.
_Droga, Caçador! Eu estava com um dos bons aqui! – ela reclamou alto, mas neste ponto o bicho já estava longe. Daryl a encarava seriamente e a puxou pelo braço até atrás de uma árvore.
_Shhh! — ele fez o som com a boca e apontou para alguns zumbis que caminhavam para o leste. Quando estavam longe o suficiente ela começou a andar em direção à prisão – Eu estava te ajudando! – ele disse e recebeu um sonoro “silencio” em resposta – Ams, eu queria falar com você sobre... Da pra parar de andar? – gritou a fazendo virar para ele e o encarar.
_O que foi? Você não precisa gritar comigo para tudo. – ela reclamou e cruzou os braços. Daryl revirou os olhos e começou a se aproximar drasticamente, Amy recuou alguns passos, mas foi envolvida pelos braços fortes do caçador.
_Você tem que parar de reclamar. – ele não sabia expressar sentimentos, como era bem claro, e acredite se quiser essa era à maneira mais sutil que ele pode pensar. A mulher abriu a boca para rebater, mas o homem prensou seus lábios em um só fazendo com que Amy perdesse todo o ar de seus pulmões.
_Me beije. – ela implorou fazendo o que ele esperava, suas bocas se abriram e os braços da mulher envolveram o pescoço do caçador aprofundando o beijo, o peito de Daryl queimava, aquela vontade que esteve ali por tanto tempo enfim fora saciada, pelo menos uma parte dela.

Como toda vez que eles expressam afeto um ao outro, voltaram sem tocar no assunto para a prisão, Amy esfregava os braços constantemente com o frio que surgia, ele a observou de baixo a cima e revirou os olhos, “quem usa short sabendo que está frio”, era tudo o que ele podia pensar. Agora já ficou bem claro o tipo de relação que os dois vivem e possivelmente vão viver por muito tempo, amor e ódio, é como é chamada.

_Quer minha jaqueta? – ela o olhou com um sorriso sarcástico e quando notou que ele não estava brincando apenas concordou com a cabeça. AQUELA jaqueta estava a aquecendo, a jaqueta que o faz conhecido por ali, um tanto egocêntrico com aquelas asas nas costas, mas de qualquer jeito era a jaqueta de Daryl Dixon – Ficou enorme. – ele disse amolecendo a voz, Amy o olhou com um pequeno sorriso enquanto esticava os braços e notava o tanto de pano que sobrava em suas mãos.
_Realmente; mas está ótimo, obrigada. – seu tom de voz era encantador para o homem, ele sorriu e apenas continuou andando com a besta em suas costas.

_Você realmente acha que ele gosta dela? Claro que não, ele só quer ficar com ela, sabe como é, homens. – Carol dizia enquanto dobrava algumas roupas e Beth apenas ouvia com Judith nos braços, a garota não concordava com Carol, por que o homem não podia gostar de Amy de verdade?
_Talvez você se importe demais. – ela respondeu baixinho, Carol a encarou por pouco tempo e depois voltou à atenção para as roupas, ela estava certa, aquela atenção normalmente era direcionada a Carol, era, até Amy chegar. – Rumm... – Beth limpou a garganta fazendo com que a mulher erguesse o olhar e visse Amy se aproximar. Carol lançou um olhar sarcástico para Beth, a mulher estava com a jaqueta de Daryl e isso a deixava com a ideia de que eles haviam feito algo a mais.
_Algum problema, Carol? – Amy disse se aproximando ao ver mais um dos olhares venenosos da mulher, ela estava farta disto.
_Na verdade nenhum. Você sabe se Daryl tem alguma roupa para lavar?
_E por que eu saberia? – ela respondeu a encarando confusa, Carol a olhou com um sorriso supostamente amigável.
_Bom, talvez por que agora vocês dividem roupas, certo? – ela queria dizer a jaqueta. Beth se afastou rapidamente com Judith, ela não precisava ouvir outra discussão das mulheres. Várias palavras grosseiras incumbidas com sorrisos, Carol finalmente disparou:
_Quer saber, Amy? Você está aqui há meses e não ajuda em nada, você é a única pessoa aqui que não move um dedo para ajudar o grupo. – Amy piscou os olhos várias vezes tentando se situar.
_Eu trago caça...
_Não, você trás coelhinhos e pássaros! Você realmente acha que isso vai alimentar todos nós? Por que não tira esse olhar superior da cara e vem ajudar a lavar roupa? Talvez esse seja seu lugar.
_Se não está satisfeita com minha caça vá você mesma e pare de reclamar. – a voz de Amy era tremula, desde que chegou a prisão sua impressão era de que estava ajudando tanto quanto qualquer outra pessoa, e agora tudo isso o que Carol disse fazia sentido para ela, peso morto como sempre foi em sua casa, era assim que ela se sentia.
_Estou sendo realista, você tem que parar de correr atrás de Daryl como um cãozinho e se preocupar com alguém que se importe. – os olhos de Amy flamejaram – Ele está comigo há muito mais tempo e sinceramente, por que um homem como ele iria querer uma garota como você? – Carol soltou uma risadinha e finalizou. Amy encarou o chão por alguns instantes sem saber o que falar, agora não se importava em rebater a mulher, apenas queria sair dali.

_Você está certa. – ela disse para a surpresa de Carol que arrumou a postura e apenas soltou um “hum”.

Amy se afastou rapidamente e foi em direção a sua cela, recolheu todas suas coisas e as jogou na bolsa, a pôs nos ombros e guardou todas as suas armas. – Quando seu tempo termina em um lugar é preciso partir, quando tudo não faz mais sentido é necessário mudar, para que talvez faça novamente – a mulher respirou fundo e levantou-se da cama. Já na saída pra prisão, Carl a olhou curioso.
_Onde vai, Ams? – ele perguntou.
_Andar, meu tempo aqui acabou. – ela respondeu.
Arrependimentos não levam a lugar algum, é preciso não olhar para trás e ignorar o que quer que seja que faça mal.

A floresta escura não era mais um lugar habitual para Amy, ela não se sentia mais em casa, não conseguia se imaginar subindo em uma árvore e dormindo ali, não podia simplesmente pensar em acordar um dia e não ouvir a voz rouca de Daryl; mas sabe como é, é tudo questão de habito, as pessoas se acostumam com qualquer coisa, ruins ou boas, é questão de tempo.

Depois de uma breve discussão com Carol, Daryl correu até Rick e questionou o paradeiro da garota. – O que houve? Por que ela partiria? – o xerife perguntou confuso – Deixe-a ir, não é sua escolha – foi o que ele recomendou afinal. – Não, eu não posso, por que... Por que eu amo! – o caçador revelou a si mesmo sentindo sua cabeça rodar – Preciso trazê-la de volta.

Amy tentava se acostumar com o tronco áspero em suas costas, o tempo frio a fazia estremecer, mas ainda sim ela tentava dormir, quando fechou os olhos sentiu uma luz ofuscante, ao olhar para baixo viu um caçador a encarando, ele respirava fortemente e estendeu a mão para ela que desceu até ele.

_O que está fazendo aqui? – Amy questionou o encarando enquanto sentia seu corpo em chamas.
_Você não pode me deixar. – seus olhos pareciam irracionais de certo modo, ele nunca pensou em se sentir assim por alguém – Não pode.
_Eu não posso ficar correndo atrás de você, Daryl. – ela repetiu as palavras da outra mulher – Preciso achar meu próprio caminho, meu paradeiro. – Amy piscou fortemente sentindo algumas lágrimas rolarem pelo seu rosto.
_O seu caminho é comigo! – ele disse soltando o peso dos ombros e a encarando, quando viu os olhos confusos de Amy apenas se afastou inquieto e andou para os lados – Não quero ouvir essa historia de destino, Amy. Você não pode achar que algo milagroso vai aparecer no seu “caminho” e uma luz no fim do túnel vai surgir te levando para sua terra prometida, qual é, encare a realidade. – ele disse sem pudor, mas ao ver um sorriso inocente nascer nos lábios da garota o homem franziu o cenho.
_Daryl, você apareceu, não é? E você está certo, nem todas as opções são fáceis, acabei de tomar uma idiota decisão.
_Não. – ele sussurrou e soltou a besta no chão indo em direção à mulher – Não pode... – o caçador foi interrompido pela mulher que acariciou seus cabelos como sempre quis fazer. – Você não está sempre certa! Achar seu objetivo é difícil, é preciso errar e tentar novamente, e errar e tentar outra vez. Você se quer tentou! – Amy limpou as lágrimas dos olhos e apenas chacoalhou a cabeça, virou as costas e começou a andar, alguns passos depois voltou-se para Daryl e falou com a voz alterada:
_O problema é que você não se mexe, está tão acostumado com seu dia-a-dia que não pensa em algo novo, não pensar em incluir alguém em sua vida. – ele abaixou a cabeça e a olhou com um sorriso de lado.
_Eu posso fazer isso; não posso aceitar aquele sentimento de perda novamente, por que eu te amo. – foi a vez da garota o observar com os olhos arregalados, ela sentiu seu coração bater em sua garganta – Engula esse orgulho idiota e volte comigo, o seu tal destino te trouxe até mim, não é? Então acredite como acredita nas estrelas e volte ao meu lado.

Nunca tente adivinhas seu próprio futuro, às vezes as sementes mais improváveis serão as que darão frutos. Uma escolha pode mudar todo o curso de sua vida, de qualquer jeito, no final de tudo as coisas vão se encaixar como um quebra-cabeça. Sim, a garota problemática pode encontrar o amor no fim do mundo; sim, o caipira solitário pode achar sua outra metade em meio ao caos, estradas vem e vão, a questão não é qual tomar, mas sim quando. Aquele sentindo que eu buscava no começo da historia foi encontrado, ele se chama Daryl Dixon.

Notas finais
O que acharam? Eu sei que ficou meio vago e eu não sabia e na verdade nem queria dar um "ponto final" na historia, então possivelmente ( e se quiserem ) posso fazer uma continuação.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!