Notas iniciais
Essa história foi inspirada na música Salvatore da Lana del Rey e na imagem de uma mulher elegante dentro de um carro vermelho antigo e luxuoso. Nati, escolhi o combo 1 e por mais que tenha sido desafiador criar e escrever esse enredo, também me proporcionou momentos de alegria. Espero que você sinta o mesmo lendo! Escrevi com muito carinho colocando os elementos do combo e informações que você compartilhou sobre você. No mais, para você e para as outras leitoras, boa leitura!!

Meu primeiro pensamento ao concluir o treinamento da Academia do FBI foi que meu pai tinha razão quando disse que me tornar uma agente ia ser o momento mais satisfatório da minha vida. Depois de quatro meses e meio de dedicação total em sala de aula e atividades físicas, exercitando cérebro e corpo de um jeito que eu nunca tinha feito antes, eu finalmente tinha alcançado o objetivo para o qual dediquei toda minha vida.

Porém, mais que a realização profissional de ingressar na Polícia Federal dos Estados Unidos, a conclusão do treinamento significou para mim algo ainda mais importante: estava oficialmente seguindo os passos do meu pai.

Atualmente aposentado, Charlie Swan foi um dos agentes federais mais renomados da sua época e era referência em operações secretas. Enquanto crescia, eu nunca entendi muito bem por que ele passava tanto tempo fora de casa, mas mamãe sempre me garantiu que era por uma boa causa. Já adulta, entendi que ele passava tempo fora pela melhor causa de todas, garantir a segurança da população.

Agora, prestes a entrar na sede do FBI em Seattle e começar meu primeiro dia como agente, sinto meu coração acelerar com a ideia de que serei verdadeiramente colega de profissão do homem que mais admiro na vida.

Localizado no centro da cidade, o escritório onde vou trabalhar nos próximos anos pode passar despercebido em meio a tantos edifícios de estrutura parecida, mas meus olhos treinados o localizam imediatamente.

Chego no hall de entrada do prédio e uma fila com seis catracas é a primeira coisa que vejo. Ao lado das catracas, duas atendentes se encontram atrás de um balcão.

Antes que eu possa andar até a recepção, uma pessoa para ao meu lado e ao me virar para olhar quem é, dou de cara com uma camisa social branca. Um homem usando uma camisa social branca. Inclino minha cabeça para ver seu rosto e encontro um par de olhos verdes me encarando. Dou um passo para trás para ter uma visão mais completa e arfo um pouco com a beleza do homem à minha frente.

O olhar intenso vem acompanhado de um rosto quase criminoso de tão bonito. O nariz reto e a mandíbula definida estão emoldurados por uma massa de cabelo acobreado penteado para trás. A roupa social e a pasta de couro marrom completam seu visual.

— Primeiro dia? — A voz grave e aveludada me faz voltar a atenção para seu rosto.

— Sim, seu primeiro dia também? — pergunto gostando da ideia de não ser a única pessoa começando hoje.

— Não.

Ele não estende sua resposta, mas não faz nenhum movimento para ir embora.

— Como sabia que era meu primeiro dia? — Quebro o silêncio, mudando meu peso de uma perna para outra.

Ele apenas dá de ombros.

— Ah. Você trabalha aqui há muito tempo,…? — Não termino a frase esperando que ele a complete.

— Cullen. Edward Cullen.

— Isabella Swan. — Estico a mão e Edward a olha por tanto tempo que começo a recolhê-la quando finalmente a aperta.

Arfo uma segunda vez, dessa vez ao sentir o toque. Não por ter sido inesperado, mas pela surpresa da sensação da sua pele na minha. O choque na minha palma só pode ser consequência dos meses sem nenhum contato mais íntimo com nenhum homem.

Olho para o rosto de Edward e o encontro me encarando com a testa franzida. Recolho minha mão e luto contra o instinto de flexioná-la.

— Três anos. — Ele finalmente responde.

— Bem, Edward, foi um prazer te conhecer — digo indo em direção às catracas.

— Eu te acompanho. — Ele segue meu passo. — Recursos Humanos, certo?

— Sim, obrigada.

Ele indica o balcão com a cabeça e falo com uma das atendentes. Explico que é meu primeiro dia e ela libera minha entrada. Edward segue comigo e quando entramos no elevador ele aperta o botão do quinto andar.

— Em qual divisão você trabalha? — pergunto quando o silêncio se alonga.

— Inteligência.

— Eu também! Quer dizer, ainda não trabalho, mas vou trabalhar. Seremos colegas!

Ele acena com a cabeça e não faz nenhum outro comentário. O elevador para e Edward coloca um braço em frente a porta quando ela abre. Dou um passo para fora e me viro, pronta para me despedir, mas o vejo saindo do elevador também.

— Você também precisa ir no RH?

— Sim.

Após alguns passos em direção às salas, Edward para em frente a uma porta e eu faço o mesmo.

— Nessa sala, você encontrará Sue. Ela vai lhe orientar e depois lhe levar ao andar da Inteligência — explica sem tirar os olhos dos meus.

— Muito obrigada, te vejo mais tarde!

Ele franze a testa, dá as costas e caminha em direção ao elevador. A porta à minha frente abre e sou recepcionada por uma senhora de rosto amigável. Respiro fundo e foco na mulher sorrindo para mim, e no fato de que minha carreira como agente é real e está prestes a começar.

XXX

Minhas três primeiras semanas de trabalho foram intensas e exigiram muita concentração e dedicação. Conheci o setor, as pessoas que trabalham nele e aos poucos estou me familiarizando com os hábitos de cada um.

Apesar do trabalho em si não ser sempre repetitivo ao ponto de permitir uma rotina exatamente igual a cada dia, consigo perceber certos costumes de alguns colegas.

Emmett, agente que trabalha na mesa ao meu lado, sempre que chega no escritório vai direto para a copa pegar uma xícara de café. Em seguida, ele faz uma parada na mesa de Rosalie, outra agente do nosso andar, e a oferece um gole. Rosalie sempre nega.

O chefe da divisão, Billy Black, ao contrário de Emmett, espera pelo menos uma hora para tomar seu café.

Alguns agentes têm preferências bem específicas quanto à organização do material de trabalho e outros são muito particulares em relação às suas refeições.

O único que continua um mistério é o mesmo que eu conheci assim que cheguei. Naquele dia, achei que por ele ter sido o primeiro a me recepcionar, e por ter me ajudado, iríamos interagir mais.

No entanto, embora eu veja Edward quase diariamente, ele raramente fala comigo. Apenas assuntos de trabalho e sempre conversas rápidas e diretas.

Edward está entrando na sala de Billy quando recebo um e-mail pedindo minha presença na sala do chefe imediatamente.

Entro no cômodo e Edward está em pé, de costas para a porta. Billy se levanta ao me ver chegar e aponta para a cadeira à frente da mesa.

O único sinal que Edward nota minha presença é um pequeno aceno de cabeça enquanto nos sentamos.

— Edward, Isabella, obrigado por terem vindo em tão pouco tempo.

— Claro — respondo.

O homem de cabelos pretos, apesar de ter pelo menos 50 anos, entrelaça as mãos.

— O motivo de eu ter convocado vocês dois tão abruptamente é porque eu acabei de saber do escritório de Miami que a situação com a Família Volturi está avançando rapidamente.

— Achei que eles tinham desistido de fazer negócios na área. — Edward comenta, a testa franzida e os lábios contraídos.

— A divisão em Miami acha que algo na organização mudou, porque eles voltaram a cercar a cidade. Além dos bairros já conhecidos, eles estão tendo acesso mais aberto aos bairros de luxo. O que não era uma prioridade antes. — Billy explica e move o olhar de mim para Edward. — E o que nos traz até vocês.

— O que você quer dizer? — Edward pergunta antes que eu possa.

— Precisamos descobrir qual exatamente é o esquema por trás do ressurgimento dos Volturi na região e, especialmente, como eles estão conseguindo espaço no mundo do luxo.

— O que você está nos pedindo exatamente, chefe? — pergunto já tendo uma ideia de onde essa conversa está chegando.

— Preciso que vocês se disfarçam e investiguem a organização de perto.

A ideia de me disfarçar numa missão secreta me anima. Eu sabia que era uma possibilidade ter que participar de uma missão desse tipo quando comecei a cogitar trabalhar no FBI. E, tendo o pai que tenho, me disfarçar sempre foi um dos meus objetivos. Poder dizer que segui os passos do meu pai não só na profissão como também nas atribuições desta carreira era uma oportunidade que eu não imaginava que ia aparecer tão cedo.

— Pode contar comigo!

— Não. — Edward fala ao mesmo tempo que eu.

— Perdão? — Billy ergue as sobrancelhas para o ruivo à minha direita. — Edward, consultei antes o departamento de disfarces e, considerando a pressa que estamos para enviar alguém para Miami, essa operação é a melhor opção.

— Eu sei que é a melhor opção. — Edward relaxa as costas na cadeira, olha para mim e depois para Billy. — Mas não quero a agente Swan comigo.

Sinto minha bochecha esquentar ao ouvir as palavras saírem da sua boca. Nunca imaginei que a falta de contato de Edward comigo fosse realmente fruto de alguma aversão dele a mim. Não quando ele se ofereceu para me ajudar no meu primeiro dia. E ainda menos porque não interagimos o suficiente para ele desenvolver alguma inimizade.

— Não que você tenha escolha, mas eu posso saber por que você não quer Isabella com você?

— Ela chegou aqui há dois dias.

— Três semanas! — Protesto.

— Ela é inexperiente. — Edward continua.

— Você também já foi inexperiente um dia. — Billy lembra.

— E demorou pelo menos um ano para eu ir numa missão secreta.

Billy abre a boca mas antes que ele fale, eu finalmente me defendo.

— Olha, agente Cullen, nenhuma das suas razões são válidas para me afastar do caso. Sim, eu estou aqui há pouco tempo e sim, é a minha primeira missão. Mas eu fui treinada exatamente para esse momento e eu preciso começar em algum lugar.

Edward me ignora e dirige a palavra ao nosso chefe.

— Eu não quero a agente Swan nessa missão comigo e ponto. Não acho que é o tipo de situação para ela.

— Edward, seja razoável. Mesmo sendo sua primeira operação, como ela mesmo disse, ela foi treinada para isso.

— Você quer mesmo mandar ela pra máfia em Miami? — Meu colega insiste.

— É a melhor opção.

— Eu realmente não tenho escolha, tenho?

— Não, Edward. Agora, se você me deixar explicar…

Edward suspira e passa a mão no cabelo, sua atenção nunca se voltando para mim. Enquanto nosso chefe nos dá um panorama de como a máfia está crescendo na cidade, eu olho o homem ao meu lado e me pergunto como pude um dia achar que seríamos próximos.

Não entendo sua relutância em me ter como parceira de missão, mas ele vai se arrepender de me subestimar.

XXX

Depois de ter passado a ideia geral da operação, Billy nos enviou para o departamento de disfarces para começar a juntar todas as peças de quem Edward e eu seremos uma vez que pisarmos na Flórida.

A sala de disfarces está repleta de pessoas andando de um lado para o outro carregando perucas, tecidos e máscaras que eu imagino ser de silicone.

— Nossa, isso vai ser divertido! — Comento ao ver o caos à minha frente.

— Não é pra ser divertido, agente Swan.

— Você tem que admitir que é no mínimo interessante o…

— Sejam bem-vindos, Antonio e Maria Salvatore. — Uma mulher baixinha me interrompe.

O sotaque italiano forçado e o sorriso largo no rosto fazem meus ombros relaxarem imediatamente.

— Alice. — Edward a cumprimenta.

— Não vai me apresentar sua amiga, Edward? — Alice pergunta com certa travessura no olhar.

— Ela não é minha amiga e se você sabe qual vai ser seu novo nome, eu tenho certeza que você também conhece o verdadeiro.

Eu travo por um segundo ao ouvir o comentário, mas me forço a lembrar que nós realmente nunca fomos amigos, não importa o quanto eu tenha achado que poderíamos ser.

— Você realmente não mudou, agente Cullen. — A baixinha balança a cabeça de leve. — E já que ele não vai nos apresentar, — ela se vira em minha direção e estende a mão, — eu sou Alice. Isabella, certo?

— Sim. — Aperto e balanço sua mão, retribuindo o sorriso. — Mas pode me chamar de Bella.

— Venham, — Alice se vira e a seguimos até uma mesa no canto direito da sala. — Quero explicar o que pensamos para esse disfarce e os detalhes das suas identidades.

— Você disse que eu seria Maria…

— Salvatore! — Ela completa nos convidando a sentar com um gesto de sua mão. — É um nome italiano relativamente comum. Fácil de se misturar, mas tradicional o suficiente para os Volturi acreditarem que vocês vêm de uma família rica.


Ela entrega a cada um de nós um dossiê e, ao folhear o meu, vejo descrições e informações sobre a minha nova identidade.

— Antonio… — Edward balbucia o nome ao meu lado. — Vocês não foram muito originais.

Levanto a cabeça e o olho com curiosidade. Ele suspira e vira na minha direção.

— Meu nome do meio é Antony.

— Ah. Meu nome do meio é Marie — falo enquanto faço a conexão com nossos novos nomes. — Realmente, Alice, vocês não foram muito criativos.

— Vai facilitar a vida de vocês terem um nome com o qual já estão familiarizados. — Alice explica.

— E seremos irmãos? — pergunto voltando a folhear as páginas do documento em minhas mãos.

— Você serão um casal. — Alice sorri olhando de um para o outro.

Engulo em seco e viro o olhar lentamente para Edward. Ele está olhando em minha direção com o rosto vermelho. Seu desconforto e a ironia da situação me fazem rir. Se ele nem queria que eu fosse junto, imagino que fingir ser meu namorado vai ser um inferno para ele.

— Um casal? — Edward questiona.

— Um casal casado. — A mulher à nossa frente responde com um sorriso de orelha a orelha.

Edward fica impossivelmente mais vermelho e não resisto à oportunidade de lhe provocar um pouco.

— Eu vou ser uma ótima esposa, Pimentinha.

— Pimentinha? — Ele pergunta com a voz mais aguda que já o ouvi falar até agora.

Circulo meu dedo em direção ao seu rosto e ele coloca as duas mãos na face, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Você está amando isso, não está? — indaga ainda escondendo o rosto.

— Eu disse que isso ia ser divertido.

XXX

Tivemos exatamente três dias para nos preparar antes de viajar para Miami.

Após uma leve discussão com Alice sobre mudar ou não a cor do meu cabelo para loiro, com Edward surpreendente se envolvendo na discussão para votar contra, decidimos que manter o mais próximo da nossa aparência verdadeira serviria mais a nosso favor.

Seremos Antonio e Maria Salvatore, um casal rico americano de descendência italiana que após uma temporada na Itália está voltando para os Estados Unidos para expandir seus negócios no ramo de vinhos.

Os últimos dias foram de imersão na missão e se até então eu só havia trocado algumas palavras com Edward, fomos obrigados a passar o resto do tempo de preparação juntos, aprendendo sobre o outro e sobre nossos disfarces.

Aos 32 anos, Edward é três anos mais velho que eu e um pouco mais experiente, tendo começado no departamento federal há 5 anos. Formado em Direito e Justiça Criminal pela Universidade de Yale, ele se candidatou ao FBI assim que terminou sua formação.

Eu sabia que Edward tinha aprendido tudo sobre mim e meu tempo na Califórnia estudando Relações Internacionais. Sabia também que ele tinha ligados os pontos sobre quem era meu pai.

Mesmo assim, ele nunca tentou conversar sobre nossas vidas pessoais ou se desculpou por ter sido contra o meu recrutamento para essa missão.

Ao contrário, enquanto dividimos a mesa estudando, flagrei-o várias vezes me olhando com a testa franzida, só para ficar vermelho e desviar o olhar quando percebia que eu o tinha visto. Agir como se fossemos um casal apaixonado e unido seria um desafio se ele continuasse duvidando da minha capacidade.

Mas eu não tinha mais tempo para pensar sobre a implicância de Edward comigo, pois já estavam anunciando o embarque no nosso voo. De qualquer forma, a partir de agora ele seria obrigado a cooperar comigo e eu me certificaria de que ele não me irritaria. Eu seria a parceira perfeita nessa missão e se tudo desse certo, esse seria o primeiro passo para eu construir uma reputação como a do meu pai.

Usando salto alto e um vestido elegante de grife, a equipe de disfarce foi extremamente eficiente ao providenciar roupas e acessórios e definir meu estilo, sinto Edward me guiar pelo corredor do avião com a mão nas minhas costas até chegarmos aos nossos assentos na primeira classe. Havíamos combinado que toques físicos só seriam trocados quando necessário e apesar de não achar o toque nas costas necessário agora, aprecio o fato que ele já está totalmente focado em ser Antonio.

Eu me acomodo no assento da janela enquanto Edward coloca nossas malas no bagageiro trazendo minha atenção para sua forma. Seus braços estão escondidos pela camisa social e terno, mas uma veia salta no seu pescoço com o esforço feito e quando ele termina de arrumar as malas vejo sua mão grande se apoiando na poltrona antes de sentar. A aliança dourada no dedo anelar me faz lembrar que, a partir de agora, todas as pessoas que nos verem juntos vão saber que ele é meu.

O pensamento possessivo me perturba só um pouco. Apesar de Edward não ir com a minha cara, não posso negar o fato de que ele é o homem mais bonito que eu conheço e que antes de descobrir que ele pode agir como um idiota, minha atração por ele foi quase imediata.

Sinto um arrepio passar pelo corpo com a ideia de que estaremos tão próximos um do outro não só pelas próximas seis horas, mas pelas próximas semanas. É uma pena que ele não vai com a minha cara.

— Você está bem? — Edward pergunta ao sentar, seus olhos verdes avaliando meu rosto.

— Sim, por que?

— Você acabou de tremer.

— É animação — disfarço. — É minha primeira mi…

— Viagem a Miami? — Ele me interrompe. Arregalo os olhos quando me dou conta do que ia falar em voz alta.

Edward aproxima o rosto do meu e sussurra no meu ouvido, o arrepio no meu corpo persistindo ao ouvir sua voz tão perto e sentir sua boca raspar na minha pele. — Cuidado, agente Swan.

Viro o rosto para falar ao seu ouvido. — Estaremos casados pelas próximas semanas. Me chame pelo menos de Isabella.

Ele concordo com a cabeça e se afasta, encostando na poltrona e tirando o celular do bolso. Observo-o mexer no aparelho por uns segundos antes de finalmente desviar o olhar.

Quando eu imaginei que ia ser um inferno para ele fingir ser meu marido, não considerei que manter minha cabeça totalmente na missão seria mais desafiador do que eu pensei.

Depois do meu quase deslize, a viagem de avião passa relativamente rápida. Prestes a pousar, o mar de Miami brilha em azul turquesa abaixo de nós.

No saguão do aeroporto, Edward ergue as sobrancelhas para mim.

— Pronta, Maria?

Faço que sim com a cabeça. Ele entrelaça sua mão na minha e me guia até a limusine que nos espera. O contato causa o mesmo choque do primeiro dia que o conheci e nos cumprimentamos. Não sei se Edward também tem a mesma sensação, mas agora nada disso importa. É hora do show.

XXX

Com suas mansões imponentes e de difícil acesso, Fisher Island era o único bairro possível para ficarmos se quiséssemos ser levados a sérios como os recém chegados ricos da região. Além de ter outras famílias poderosas como vizinhos, o local era vigiado por câmeras de segurança da mais nova tecnologia.

Se nosso plano desse certo, e tinha tudo para dar, em algum momento alguém da família Volturi viria até nós e poderíamos capturar imagens ou áudios importantes para uma futura denúncia.

Nosso novo lar é um casarão de dois andares e de arquitetura que mistura o clássico e o moderno. Bem iluminada com janelas que tomam quase a parede inteira, possibilitando uma vista ampla do jardim e da piscina.

Edward sobe as escadas com nossas malas e eu vou explorar a cozinha. Os armários e geladeiras estão estocados de utilidades e comida. Sorrio quando vejo a calda de caramelo na dispensa, lembrando que Alice havia me perguntado que tipo de cobertura eu gostava mais e se surpreendendo quando eu não respondi chocolate.

O primeiro andar tem três quartos e dois banheiros e o segundo andar um quarto principal com uma suíte e uma varanda enorme com uma mesa e quatro cadeiras. Edward está sentado na cama e nossas malas não estão à vista quando entro no cômodo.

— Cadê as malas?

— Coloquei no closet. — Ele indica o espaço em frente à cama.

— Pensei que cada um ia ficar em um quarto.

— Sociais, jantares e festas em casa são uma parte importante da nossa integração. Em algum momento pessoas próximas aos Volturi vão estar aqui, ou até um deles se fizermos nosso trabalho feito, e não podemos deixar margem para nenhuma desconfiança — explica.

Apesar de ser o motivo de estarmos aqui, não gosto da ideia de algum deles tão próximo de nós. Suspiro e olho o espaço com mais atenção. A cama é grande o suficiente para caber três de mim e os tons de bege das paredes e da decoração do quarto tornam o ambiente aconchegante.

— Isso quer dizer que vamos dividir a cama também?

— Não.

Cerro os olhos sem entender sua resposta.

— Você acabou de dizer que não podíamos deixar espaço para nenhuma suspeita.

— Vamos dividir o quarto, mas eu vou dormir no sofá. — Edward indica o sofá de três lugares ao lado da entrada do closet. — Eu verifiquei, e é um sofá-cama.

— Ah. E se alguém ver duas camas no quarto?

— Eu vou desmontar todo dia.

— Certo. — Me aproximo da cama e passo os dedos na coberta. — Bem, não que pareça um grande sacrifício dormir nesse sofá com cara de caro e confortável, mas obrigada por se oferecer.

Seus lábios se contraem um pouco numa ameaça de sorriso.

— Vou deixar você se refrescar e vou preparar comida. Podemos repassar o plano para amanhã enquanto comemos. — Edward propõe.

— Okay, te vejo daqui a pouco.

Cinco minutos como colegas de quarto e nenhuma discussão aconteceu. Se o dia de hoje for um exemplo da nossa convivência, vamos tirar essa missão de letra.

XXX

O restaurante em Liberty City é pequeno, com uma iluminação quase exclusivamente neon. A equipe do FBI de Miami já vinha monitorando alguns estabelecimentos e o que estamos agora foi fortemente ligado à família Volturi.

Jasper, agente lotado no escritório de Miami e nosso maior suporte aqui havia nos avisado que existia uma probabilidade grande de dois associados da máfia estarem aqui hoje a noite. Nosso plano é fazer um primeiro contato com eles hoje e garantir que eles tenham pelo menos nossos nomes em seu radar para uma futura infiltração no mundo e negócio deles.

Edward está com a postura rígida e quando pergunto se ele está preocupado com a chegada dos associados, ele apenas me responde que não gosta do lugar onde estamos.

— Não é o melhor dos restaurantes mesmo — concordo.

— Não é isso, não gosto desse bairro.

Entendo Edward, é um bairro meio barra pesada e também não estou à vontade sabendo que é uma região perigosa.

Estamos sentados numa cabine no canto do restaurante, esperando nossos alvos entrarem. Estamos há 10 minutos bebendo água e beliscando um petisco de qualidade duvidosa quando dois homens altos e fortes, usando ternos bem cortados entram no estabelecimento.

O lugar em que estamos não grita exatamente luxo, então a vestimenta sofisticada dos homens me chamam atenção. Uma das mãos de Edward está segurando o copo na mesa e eu esfrego lentamente seus dedos com as costas da minha mão. Ele levanta seu olhar para mim e seus olhos de esmeralda são tão intensos nos meus que eu quase esqueço que o toquei para avisar da chegada dos nossos possíveis alvos. Ele ergue as sobrancelhas e eu ergo o queixo na direção da entrada do restaurante.

Edward espera alguns segundos e vira a cabeça levemente para a direita em direção ao bar. Voltando o olhar para mim, ele segura minha mão que o estava tocando e dá um rápido aperto antes de soltá-la.

— Um vinho, querida? — pergunta-me ao levantar.

— Por favor — respondo ignorando a vibração no peito ao ouvir sua voz grave usar o termo de carinho.

Ele vai até o balcão e senta num dos bancos ao lado dos homens. Não consigo ouvir o que Edward está falando, mas uns minutos depois os três se viram na minha direção. Os dois estranhos têm uma curiosidade no olhar que mesmo à distância me faz embrulhar o estômago. Retribuo o olhar e dou um leve aceno com a mão, confiando no que Edward está fazendo.

Eles conversam entre si por alguns minutos e logo em seguida vêm em direção a nossa cabine com suas bebidas em mãos.

— Maria, — Edward chama sentando ao meu lado e colocando uma taça de vinho branco na minha frente. — Deixe-me apresentar esses dois cavalheiros.

— Olá, Maria, — o homem loiro mais próximo de mim estende a mão — sou Demetri, prazer em lhe conhecer.

— Igualmente — sorrio de leve ao segurar sua mão.

— Me chamo Félix — o moreno com os cabelos cobrindo a testa se apresenta, sem buscar nenhum contato físico.

Eles sentam na nossa frente e sinto Edward tensionar ao meu lado

— Antonio estava contando como vocês vieram parar aqui — comenta Demetri.

— Estava? — pergunto me virando em seguida na direção de Edward. Ele confirma com a cabeça, uma expressão séria no rosto.

— Um casal tão elegante não combina com um lugar desses. — Demetri continua.

— Meu marido ouviu dizer que aqui servem as melhores asinhas de frango da cidade — respondo voltando a encarar o homem à minha frente. Ele me encara por um segundo com um sorriso no canto nos lábios e baixa o olhar para o prato na mesa. Em seguida, ri do meu comentário e eu desvio o olhar para Félix, que está olhando intensamente para Edward.

— Ele também contou que vocês têm uma vinícola na Itália. — Félix fala. — E querem exportar seu produto direto para cá.

— É o motivo da nossa mudança, na verdade — explico.

— Eu conheço algumas pessoas que podem se interessar em investir no seu negócio. — O moreno declara.

— Inclusive, nós vamos nos reunir com eles esse fim de semana pra um passeio de iate. Por que vocês não vêm? Eu adoraria conhecê-los mais — Demetri sugere, fixando o olhar em mim.

Edward apoia o braço nos meus ombros e eu relaxo com o contato.

— O que acha, amor? — pergunto virando-me para ele. Sua pupila dilata com a pergunta e seu corpo se aproxima ainda mais do meu. Ele é melhor ator do que eu tinha dado crédito.

— Acho uma ótima oportunidade, querida.

— Está combinado então! — Demetri anuncia tirando um cartão de visitas do boldo e o entregando a mim. — Me ligue e acertaremos os detalhes.

Os dois homens se levantam e após uma breve despedida vão embora do restaurante. Eu espero eles saírem e tomo meu vinho em praticamente um gole. Pego a taça de Edward mas antes que eu consiga beber o líquido, ele a toma da minha mão.

— Ei! Eu ia tomar isso! — reclamo.

— Você tecnicamente está em horário de trabalho — aponta.

— Mas eu queria comemorar — explico. — Achei que esse primeiro contato foi bem sucedido.

— Você não pode comemorar só porque não fomos descobertos no primeiro dia, Isabella. — Edward sussurra.

— Poxa, Pimentinha — brinco empurrando uma mecha de seu cabelo para trás. — Podemos celebrar essa pequena vitória.

— Temos que nos preparar para o próximo encontro.

— Sim! Eu sempre quis andar de iate — declaro.

— Vai ser super empolgante. — Edward comenta com a voz monótona.

XXX

Os últimos dias na mansão foram sem conflitos e se eu achava que a convivência forçada ia nos aproximar, eu estava completamente errada. Edward ficava fora da minha vista o máximo de tempo possível e como no escritório em Seattle só falava comigo quando necessário.

Ele sempre fazia questão de cozinhar o jantar e embora eu nunca tenha pedido, havia sempre um prato separado para mim com a comida preparada e quente.

Dividir o quarto também estava sendo relativamente fácil. Ele normalmente ia dormir quando eu já estava deitada, quase dormindo e mais de uma noite a imagem de Edward usando uma calça de moletom e uma camiseta me acompanharam em sonho.

Chegamos ao Porto de Miami exatamente na hora combinada. Mesmo eu insistindo para ligar para Demetri para avisarmos que já estávamos no local, Edward disse que não havia necessidade de eu falar com ele de novo pelo telefone.

Meu parceiro de missão estava mais tenso que o normal e estou começando a pensar que o motivo para ele não me querer na mesma missão que ele é porque ele não é tão durão quanto eu imaginei.

Sua camisa verde claro de linho combina com seus olhos e fazem com que ele pareça um dos milionários donos dos barcos ao nosso redor. Alice tinha pensado em toda e qualquer situação possível nesse disfarce e no figurino que íamos precisar. Meu vestido de estampa floral combina com a roupa de Edward e me pergunto se depois que a missão acabar eu posso guardar algumas roupas de marcas de luxo comigo.

— Ei, — chamo quando estamos em frente ao iate do nosso passeio. Demetri tinha enviado uma foto no dia anterior. — Você acha que hoje vai ser mais perigoso que no restaurante?

— Não.

— Não me leve a mal, mas você tá mais tenso agora do que estava naquele bar escuro num bairro conhecido pela alta taxa de criminalidade.

Edward olha ao redor, para a imensidão azul e suspira.

— Vamos conhecer gente realmente poderosa e potencialmente mais perigosa que Demetri e Félix — avisa.

— Eu sei, estamos contando com isso, certo?

— Certo — concorda. — Mas ainda assim não gosto da situação. Apenas… fique perto de mim.

— Claro.

Ele entrelaça nossos dedos e se aproxima de mim, encostando a testa na lateral da minha cabeça, estou prestes a perguntar o porquê da aproximação quando uma voz me assusta.

— Olha se não é nosso novo casal preferido. — Demetri diz ao chegar e instintivamente me coloco ao lado de Edward.

— Demetri, — Edward cumprimenta. — Obrigada pelo convite.

— É claro! Félix já entrou, vamos — chama andando em direção ao iate. — Tem algumas pessoas que eu gostaria que conhecessem vocês.

Estamos no meio do mar há uma hora e meia e Edward não saiu do meu lado. Ele está interpretando perfeitamente o papel de marido atencioso e é quase palpável o quanto as pessoas ficam presas no seu charme quando ele lança o menor sorriso que seja.

Com três andares, o iate abriga confortavelmente 20 pessoas e hoje está quase com capacidade máxima.

Além de Demetri e Félix, conhecemos alguns empresários, herdeiros e investidores. As duas pessoas que mais nos chamaram a atenção no entanto foram os irmãos Jane e Alec. Eles aparecem na lista de prováveis conexões da família Volturi, mas não imaginamos que nosso encontro com eles seria tão cedo na missão.

Alec conversou conosco alguns minutos e depois desapareceu com Demetri, Félix e um outro homem, mas Jane, com seus cabelos loiros e olhos angelicais, está do nosso lado desde que fomos apresentados, nos observando quase com fascínio.

Quando ela pede licença e diz que vai ao banheiro, aproveito a oportunidade para puxar Edward para uma parte isolada do iate onde sei que não seremos ouvidos. Ele olha para o mar e imediatamente me abraça, curvando-se até que sua cabeça encoste no meu ombro.

Tiro vantagem do contato de sua proximidade e sussurro em seu ouvido.

— Jane é com certeza uma pessoa a investigar a fundo, não é?

Ainda com a cabeça em meu ombro, ele faz um sinal de sim. Para qualquer pessoa presente no barco, nós somos apenas um casal apaixonado desfrutando de um momento de privacidade. Ninguém diria que Edward tem um leve desprezo por mim e uma profunda dúvida sobre meu profissionalismo.

Uma onda mais forte atinge o iate de repente, nos desequilibrando e quase nos fazendo cair. Edward é mais ágil que eu e me segura pelos braços, impedindo minha queda.

— Você está bem? — pergunta se curvando até sua cabeça estar no nível da minha.

— Sim, sim. Obrigada — agradeço, o coração um pouco mais acelerado.

Edward me puxa para sentar em um dos bancos acolchoados atrás de nós e, sentando-se ao meu lado, encosta a cabeça na parte de trás do assento e fecha os olhos. Sua mandíbula e pomo de adão estão em evidência e não pela primeira vez noto quão bonito seu rosto é. Baixo o olhar e noto também que suas mãos estão tremendo.

— Ed… — Me interrompo, lembrando onde estamos. — Antonio, está tudo bem?

— Sim — responde ainda de olhos fechados.

— Suas mãos estão tremendo — observo.

Em um movimento inesperado, ele me pega pela cintura e me coloca sentada em seu colo. Arfo com surpresa e arrumo meu vestido esperando que ninguém tenha visto nada com a ação rápida. Edward aperta minha cintura e me fala olhando nos olhos.

— Não estão mais.

— As pessoas estão olhando para a gente — digo ao perceber algumas cabeças viradas em nossa direção.

— Deixa elas olharem. — Ele fala levando uma mão até meu queixo e me forçando a prestar atenção nele. — Somos casados, não posso segurar minha esposa?

Sei o que ele está fazendo, sei que só está me segurando desse jeito para manter as aparências, sei que tudo não passa de um grande teatro. Ainda assim, quando ele passa o nariz no meu pescoço, meu corpo arrepia.

Também sei que a pergunta foi retórica, mas passo os braços ao redor do pescoço dele e respondo ao pé do ouvido.

— Pode.

Alguém limpa a garganta atrás de mim e Edward afasta o rosto do meu pescoço, as mãos ainda na minha cintura.

— Desculpe interromper, mas gostaria de avisar que vamos voltar para o porto.

— Claro. — Edward responde antes que eu possa me virar e ver quem é.

Ouço a pessoa ir embora e Edward volta sua atenção para mim.

— Me lembra de ligar para Jasper quando chegarmos em casa, querida?

— Lembro — respondo ainda desorientada com a proximidade.

— Ele vai gostar de saber que fizemos novos amigos hoje.

Faço que sim com a cabeça e finalmente saio do colo dele. Temos alguns minutos até a volta e eu talvez consiga socializar mais um pouco e juntar mais informações para o relatório que teremos que passar para o escritório de Miami.

XXX


Edward estava ainda mais silencioso e quieto que o normal nos dias seguintes ao passeio de barco, mas quando perguntei se estava tudo bem ele confirmou e disse que precisava se concentrar mais na missão.

Não temos tanto contato com Demetri e Félix, o primeiro se comunica com Edward para falar sobre investir na nossa marca de vinhos, mas nenhuma outra informação é trocada que possa pelo menos o ligar à Mafia. No entanto, pelo que observamos das interações dele no iate e dos lugares que frequentam, eles não devem estar no topo da pirâmide da Família Volturi.

Jane, ao contrário, continua conversando entusiasmada comigo por mensagens de texto e embora ela pareça um tanto supérflua com os assuntos que prefere debater, a primeira impressão que tive dela é de alguém que escolhe intencionalmente como quer ser percebida.

O silêncio na casa me entendia e numa decisão rápida envio uma mensagem para Jane perguntando se ela quer se encontrar num shopping perto da região.

Estou fazendo minha melhor imitação de uma real housewife de Miami usando um vestido marrom com Gs estampados esperando por Jane num café dentro do centro comercial quando meu celular vibra.

Antonio:Onde você está, Maria???

Maria: Vim encontrar Jane no shopping.

Antonio: Estou a caminho.

Com um suspiro, ligo para Edward antes que ele apareça aqui.

— Amor, não precisa vir — falo com um sorriso preso assim que ele atende a chamada.

— Isabella, se você acha que eu vou deixar você encontrar sozinha alguém que está ligada à máfia…

— Primeiro, — interrompo — ela não vai fazer nada, estamos em um local público, eu escolhi o shopping pensando nisso. Segundo, até onde ela sabe eu sou apenas uma esposa troféu entediada com seu marido e que precisa de um tempo de garotas.

— Não importa, — rebate — se ela desconfiar de algo, por menor que seja, ela vai achar um jeito de te machucar.

— Antonio, — começo mas baixo a voz ao ver Jane se aproximando. — Ela está chegando okay? Vou desligar.

Ouço-o suspirar do outro lado da linha. — Ainda não gosto disso, Isabella. Me envia sua localização.

— Amor, também estou com saudades mas não precisa vir — improviso quando ela para em frente à mesa.

— Ela está aí, não está?

— Sim, te vejo em casa. — Desligo a chamada antes que ele possa me responder e envio minha localização por precaução antes de voltar minha atenção para a mulher à minha frente.

— Maria — Jane me saúda e me levanto para cumprimentá-la com dois beijos no ar.

— Desculpe por te fazer esperar, você sabe como são os homens. — Reviro os olhos.

A loira ri do meu comentário e logo se senta.

— Obrigada por ter me chamado.

— Imagina, você tinha dito que poderia me mostrar um pouco seus lugares favoritos e bem, eu não estava fazendo nada de interessante em casa.

— Nem me fale, — Jane comenta — eu precisava sair de casa pelo motivo contrário.

— Como assim?

— Coisas demais acontecendo — responde com um suspiro.

Minha intuição me pede para explorar o assunto e tento uma forma sutil de lhe fazer continuar a falar.

— É? — É a brilhante pergunta que me vem à mente.

— Não é nada demais, só que nos últimos meses as coisas têm estado mais tensas que o normal.

— Por causa da venda da empresa? — pergunto mexendo meu café com uma colher e levando a xícara à boca.

É de conhecimento público que ela e o irmão estão vendendo a empresa de cosméticos herdada dos pais, que morreram em um trágico acidente de avião.

— Sim, tio Aro acha que não é a melhor ideia. Que podemos esperar mais e cobrar um valor mais alto.

Me engasgo ao ouvir o nome de Aro Volturi surgir tão casualmente na conversa. Ele é o suposto Chefão da máfia e está há meses desaparecido.

— Maria, você está bem? — Jane pergunta se levantando e dando leves tapinhas nas minhas costas.

— Perdão, o café estava mais quente do que pensei — disfarço.

Ela volta para o seu lugar e para minha surpresa continua a falar do tio. Explica que poucas pessoas sabem que ele está de volta ao país e que dará uma festa exclusiva na sua mansão na próxima semana.

— Vou falar com ele para colocar o nome de vocês na lista. — A loira avisa e segue para outro tópico antes que eu possa concordar.

Terminamos nosso café e nos despedimos com a promessa de nos vermos na festa. Disfarço a empolgação com um agradecimento contido e logo chamo um táxi para voltar para casa, animada para contar a novidade para Edward.

Quando o carro para em frente à mansão ele está em frente ao portão me esperando.

— Você devia ter me falado onde iria e, mais importante, com quem estaria. — As palavras saem de sua boca antes mesmo que eu chegue até ele.

— “Bem-vinda de volta, querida! Sua saída foi produtiva?” “Sim, obrigada por perguntar!” — respondo entrando na casa e indo para a sala de estar.

— Isabella, eu tô falando sério, o que você fez foi perigoso. — Edward me segue e seu rosto está tão fechado que meus pensamentos voltam imediatamente ao momento na sala de Billy, quando ele disse que não me queria na missão com ele.

— Olha, Edward, talvez eu devesse ter dito antes onde e com quem estaria, — concedo, — mas ainda acho que foi melhor ter ido sozinha.

— Você poderia ter se colocado numa situação de risco, e eu não estaria lá para lhe ajudar.

— Achei que ela talvez baixasse a guarda se fosse só nós duas — argumento. — E eu tinha razão.

— Como assim?

— Maria e Antonio foram convidados para uma festa exclusiva na mansão de Aro Volturi. — Pauso para dar um maior efeito. — E ele estará presente.

— Isabella, Aro está fora do país há meses com medo das investigações. Nenhum dos nossos escritórios conseguiu localizá-lo.

— Jane me falou que poucas pessoas sabem que ele está de volta. E que ela acha que ele vai amar nos conhecer.

— Isso pode ser uma armadilha — pondera. — Você acha que ela desconfia de nós?

— Ainda acho que ela não tem motivos para isso. Eu reclamei um pouco de você e nada une duas mulheres quanto falar mal de homem. — Dou de ombros e sento mais confortável no sofá. — Acho que ela quer mesmo uma amiga.

Edward esboça um sorriso minúsculo. — Não acredito que conseguimos um convite às custas da minha reputação como marido.

— Bem, eu não reclamei tanto assim. E, armadilha ou não, é uma das nossas melhores chances de chegar mais perto deles.

— É, acho que você tem razão — admite.

— Eu ouvi direito? Edward você acabou de dizer que eu tenho razão?

— Não se engane — diz sentando do meu lado no sofá. — Ainda acho que foi descuidado da sua parte ir sozinha. Jane não é a única pessoa perigosa dessa cidade. Essa cidade é perigosa. Eu… — Ele hesita e depois olha para mim. — Eu fiquei preocupado.

Meu coração acelera com sua admissão e sua proximidade. Não sei se ele se preocupa por que duvida da minha capacidade como agente ou por que se importa com meu bem estar. De qualquer forma, ouvir as palavras diretamente dele mexe comigo.

— Não se preocupe, Pimentinha, — falo colocando minha mão no seu braço e dando um leve aperto. — Eu sou uma agente treinada do FBI. Essa cidade é que deveria ter medo de mim.

XXX

A preparação para a festa de Aro exigiu mais concentração e desempenho que as outras saídas. Sabendo da chance de encontrar outros membros mais relevantes da máfia, potencialmente até o chefão, Edward e eu informamos os dois escritórios do FBI e uma equipe local estará a postos em uma van há algumas quadras do lugar do evento só para o caso de algo der errado.

Vestidos a caráter, Edward está usando um smoking preto com uma camisa social branca por dentro e uma gravata borboleta do tipo que eu quebraria a cabeça tentando arrumar mas que ele nem precisou ver de tutorial na internet para dar o nó.

Ele ficou pronto mais cedo que eu e foi buscar alguns instrumentos que podemos levar conosco, deixando-me sozinha no quarto terminando de me arrumar.

Meu vestido longo de cetim é do mesmo tom de marrom dos meus olhos e apesar de cobrir todo meu tronco, o decote nas minhas costas é revelador o suficiente para me fazer sentir quase completamente exposta.

Finalizo minha maquiagem com uma máscara de cílios bordô e um gloss por cima do batom rosa e antes de sair me olho no espelho gostando do que vejo.

Edward está na cozinha de costas para mim quando entro no cômodo. Ele deve escutar meus passos, pois se vira imediatamente com a minha chegada.

— Isabella, eu… — O ruivo para de falar no meio da frase e seus olhos me percorrem de cima a baixo tantas vezes que eu aposto que ele não percebe que está encarando.

— Gostou do que viu, amor? — Brinco dando uma voltinha. Sua reação faz as borboletas no meu estômago se agitarem e fazer piada parece a melhor saída.

— Você está muito bonita, Isabella — elogia.

— Ah muito obrigada, você também está muito bonito — respondo me aproximando dele e notando que ele segura um objeto brilhante. — O que temos aqui?

Ele dá um passo em minha direção e, parando há um palmo de distância, abre a mão e me mostra dois grampos de cabelo dourados com uma pedra cintilante na ponta.

Edward encaixa um grampo em cada lado do meu coque e passa a mão pela franja longa que deixei separada do cabelo preso. As notas amadeiradas e almiscaradas do seu perfume invadem meus sentidos e tenho uma vontade irracional de encostar o nariz no seu pescoço.

Ele se afasta, cedo demais, e quase peço para ele voltar exatamente onde estava.

— Suas escutas — explica. Ela toca suas abotoaduras e fala segurando meu olhar. — Minhas escutas.

O time de Jasper estará escutando tudo que conseguirmos captar e, com alguma sorte e habilidade, esperamos conseguir alguma admissão hoje, ou pelo menos alguma informação que nos dê uma base mais sólida de como a máfia está concretamente atuando na região.

— Isabella, — Edward para na minha frente ao sairmos da casa. — Fique perto de mim essa noite. Não confio em ninguém que estará lá e apesar da aparência de uma festa civilizada, tenho a impressão de que é uma grande farsa.

Faço que sim com a cabeça e não rebato seu comentário. Entendo sua reticência quanto a esse evento em específico. Se Aro estiver mesmo presente, o local estará mais protegido que o normal e teremos mais chances de sermos descobertos.

A limusine nos deixa em frente há uma mansão de três andares com a iluminação artificial do jardim fazendo-a parecer ainda mais imponente do que é. Apoio minha mão no braço de Edward para sair do carro, em seguida ele entrelaça nossos dedos e seguimos de mãos dadas até a entrada onde um segurança está segurando um tablet.

Edward dá nossos nomes e já na entrada sei que terei que aguçar todos os meus sentidos essa noite. As luzes estão ligadas de uma forma que permite que as pessoas reconheçam umas as outras mas baixas o suficientes para deixar o clima mais aconchegante. Ou propício para travessuras.

Avistamos Demetri e Félix primeiro e eles nos apresentam Santiago, um rapaz mais novo que eles que não consegue segurar nosso olhar por mais de 2 segundos. Sua visão sempre se volta para uma porta no final do salão e antes de aprofundar alguma conversa ele pede licença e vai embora.

Jane não está em nenhum lugar a vista e mesmo se quisesse lhe enviar uma mensagem para saber se ela já chegou, não poderia. Ela havia informado que celulares estavam proibidos na festa, então deixei o meu em casa.

Estamos bebericando champanhe quando um senhor de cabelos loiros com toques grisalhos se aproxima de nós. Edward coloca a mão nas minhas costas e estremeço de leve com o toque inesperado nas minhas costas nuas. Meu marido de mentirinha fica tenso ao meu lado e me pergunto se ele está desconfortável com a proximidade.

— Boa noite e sejam bem-vindos. Eu sou Caius e sou um dos anfitriões da noite. — O homem nos cumprimenta e se seu nome não tivesse entregado quem ele é, sua postura o faria.

Estamos em frente a Caius Volturi, irmão de Aro. Os rumores de que ele está em uma posição elevada na máfia só não são totalmente confirmados pois ele faz questão de se manter distante da figura do irmão. O fato de que ele está nessa festa e não só isso, mas se apresentando para desconhecidos como um dos anfitriões me informa que talvez ele não esteja tão preocupado em estar ligado à reputação da família Volturi. Pelo contrário, ele deve estar perto de assumir até mais responsabilidades.

Edward acaricia minhas costas com o polegar e tenho quase certeza que ele está pensando o mesmo que eu.

— Obrigada por nos receber — respondo. — Eu sou Maria e esse é meu marido, Antonio Salvatore.

— Jane me avisou que vocês viriam e me pediu para recebê-los pessoalmente.

Edward estende a mão e Caius a aperta. Num momento impetuoso, e torcendo para minha estratégia dar certo, cumprimento-o com dois beijos na bochecha.

Caius e Edward paralisam ao meu redor e começo a me arrepender do gesto. Mas logo depois Caius solta uma gargalhada e minha alma volta para o corpo.

Sto parlando con una vera italiana! — exclama admirado-se por estar falando com uma verdadeira italiana.

Edward continua paralisado ao meu lado mas a reação de Caius é exatamente o que eu estava esperando conseguir quando o cumprimentei.

Dobbiamo restare uniti in questo mondo di americani — respondo com um sorriso. Digo que devemos estar unidos num mundo de americanos esperando que ele ignore que tecnicamente também sou americana.

Non parli italiano? — Caius se vira para Edward.

— Não, infelizmente não sou fluente como minha bellissima esposa.

Bellissima, de fato. — O homem loiro concorda. — Jane me falou muito sobre você, Maria, mas não me falou que você falava italiano.

— É que o assunto não surgiu — explico intrigada com as possíveis informações que Jane pode ter dado.

— Que prazer conhecê-los. Por favor, qualquer problema podem mandar me chamar e eu cuidarei da situação pessoalmente.

Grazie! — agradeço e Caius nos deixa e vai em direção às escadas ao lado oposto de nós.

— Não sabia que você falava italiano — Edward diz finalmente soltando a respiração. — Achei que seríamos pegos naquele momento.

— Relaxa, amore, eu sabia que tinha essa possibilidade quando o cumprimentei. — Coloco nossas taças de champanhe no bar e o puxo para a pista de dança. — E para futuras referências, eu também falo espanhol e francês. E tô querendo aprender russo.

Toda essa interação me deixou tensa e dançar talvez me acalme por uns minutos. Edward não protesta e coloca as duas mãos na minha cintura. Eu passo meus braços ao redor do seu pescoço e nos balançamos num ritmo lento. Com a cabeça curvada, ele encosta os lábios no meu ouvido e comenta:

— Você também achou nosso novo amigo Santiago um pouco inquieto?

Concordo com a cabeça não querendo deixar evidente que estamos conversando, mas também não querendo que ele mude de posição. Dançamos por mais alguns minutos quando Edward levanta meu queixo com o dedo e vira minha cabeça sutilmente para a saída do jardim.

Santiago está cochichando no ouvido de um outro homem e logo os dois saem do salão.

— Se importa se eu for tomar um ar, querida? — Edward pergunta enquanto indica com a cabeça que vai segui-los.

— Claro. Estarei esperando no bar.

Faço o caminho de volta ainda sem ver Jane. Sua ausência está começando a me preocupar.

— Olá, Maria. — Uma voz desconhecida fala ao meu lado. Um calafrio passa pelo meu corpo e imediatamente desejo que Edward reapareça do meu lado.

Me viro para descobrir o dono da voz e um homem alto de cabelos castanhos e olhos castanhos claros está me encarando.

— Olá. Já nos conhecemos? — Eu tenho certeza que nunca o vi antes. Não gosto que ele sabe meu nome.

— Não. Mas vi você sozinha e achei uma pena uma mulher tão bonita estar desacompanhada.

— Não precisa sentir pena — rebato. — Meu marido já vai voltar.

— Claro. — Seu sorriso não chega aos olhos e ele continua me olhando quase sem piscar. — Mas se ficar cansada de esperar por ele, estarei por aqui.

Ele vai embora e solto a respiração. Não lembro de tê-lo visto no iate ou mesmo no restaurante em que conhecemos Demetri e Félix.

Vejo Edward voltando e meu alívio é tão grande em vê-lo que, sem hesitar, o abraço quando ele chega perto de mim. Se ele estranha o movimento, não deixa transparecer pois me abraça de volta sem hesitação.

— Está tudo bem? — pergunta.

— Sim, um cara estranho estava aqui e sei lá, senti uma sensação ruim.

— Alguém suspeito? — Sua mão se encaixa na minha nuca e relaxo ainda mais em seus braços. — Mais suspeito que o normal?

— Não sei se mais suspeito que o normal, mas com uma vibe estranha.

— Qual o nome dele?

— Ele não disse e, sinceramente, eu queria tanto que ele fosse embora logo que nem lembrei de perguntar.

— Tudo bem, não vou te deixar sozinha de novo.

Andamos um pouco pela festa e quando pergunto a Edward se ele viu Jane, ele nega, me avisando que Alec também não parece estar presente.

Estou prestes a comentar que estou achando essa festa um tanto estranha quando barulhos de tiros ecoam bem perto de nós. Quase no mesmo segundo, Edward me puxa para baixo e agachados vamos em direção a uma das saídas do salão.

O caos de pessoas tentando sair nos faz mudar de rumo e de repente estamos num corredor praticamente vazio.

— Você está bem? Se machucou? — Edward pergunta segurando meu rosto com as duas mãos.

— Não, estou bem. Você está machucado?

— Não. Precisamos saber o que aconteceu.

Estamos atravessando o corredor quando escuto vozes mais alteradas vindo de uma sala à nossa direita. Paro e Edward acompanha meu movimento ouvindo o barulho também.

— Você enlouqueceu de vez? — Um homem grita.

— Eles iam descobrir, o que você queria que eu fizesse? — Outro homem responde, a voz mais jovem e um pouco mais baixa que a do primeiro.

Olho para Edward e pergunto num sussurro se ele reconhece as vozes e ele apenas balança a cabeça para dizer não. Ele dá um passo em direção a porta, mas seguro sua mão o parando. É arriscado demais chegar mais perto e se eles continuarem gritando vamos ouvir tudo nitidamente.

— Com certeza eu não ia mandar atirar num dos membros mais importantes da Família.

— Aquele velho já tá passando da hora de ir embora. Algum sangue novo vai fazer bem para os negócios.

— Você não pensa? Achou mesmo que era a melhor ideia acabar com ele hoje? Num lugar com poucas pessoas? Sendo a maior parte dela membros da família?

O homem mais jovem não responde e ouço passos vindo em direção a porta. Olho para Edward e ele me posiciona contra a parede. Antes que eu possa perguntar o que ele está fazendo, seu corpo se aproxima do meu e nossos lábios se tocam.

Edward me beija com intensidade e propósito, sua cabeça inclinada fazendo que o encaixe de nossas bocas seja perfeito. Ele tem uma mão posicionada no meu pescoço, o polegar acariciando minha bochecha e a outra mão está firme na minha cintura.

Minhas mãos ganham vida e o puxo pelo quadril para ficar ainda mais próximo de mim.

— O que está acontecendo aqui?

A voz atrás de Edward soa irritada, eu só quero continuar o beijo.

— Quem são vocês? — o outro homem pergunta.

Edward me dá um selinho antes de se virar para falar com os homens. Quase como se também não quisesse ter sido interrompido.

Ele me cobre com seu corpo e eu só consigo ver que o homem que fez a primeira pergunta é um rapaz de cabelos escuros e o outro homem tem alguns fios grisalhos enfeitando o cabelo castanho.

— Perdão, não sabia que tinha outras pessoas por perto. — Edward mente calmamente.

— Como chegou aqui? — O homem grisalho questiona.

— Estava apenas procurando um lugar tranquilo para curtir minha esposa.

Os dois estranhos voltam sua atenção para mim, mas Edward continua usando seu corpo como um escudo.

— Já estamos indo — anuncia e me puxa em direção ao salão principal, me colocando à sua frente dessa vez.

Estamos fora da mansão antes que os homens perguntem mais alguma coisa.

Entramos na limusine que Jasper disse que enviaria e o caminho até casa é silencioso. Apesar de todas as interações da noite, é o beijo que Edward me deu que não sai da minha mente. Sei que só me beijou para não sermos pegos, mas ainda sinto seus lábios no meu.

Chegamos em casa e Edward tira o terno, o colocando no sofá da sala. Eu tiro meus saltos e estou prestes a perguntar a Edward quem ele acha que os dois homens são quando ele comenta:

— Eu sabia que não era uma boa ideia você vir junto.

— Como é que é? — pergunto.

— Você ouviu. Não era pra você ter vindo.

— Se você for começar de novo com essa história de que eu sou inexperiente, de que não sou boa o suficiente para o trabalho…

— Eu nunca disse que você não era boa — rebate.

— Mas é o que você está insinuando.

Ele respira fundo.

— Acho que você é boa no trabalho, acho que é uma ótima agente. Mas estávamos no meio de um tiroteio, Isabella. Um daqueles homens no corredor estava armado.

Seus elogios me pegam de surpresa. Eu tenho feito meu máximo para provar que ter sido escolhida para essa missão não foi um erro e não esperava que ele fosse admitir tão abertamente que meus esforços estão sendo reconhecidos.

— Você acha mesmo que sou boa?

— Sim. Sei que é sua primeira missão, mas posso ver o quão dedicada você é.

— Então você tem que acreditar que sou treinada para esse tipo de situação. — Rebato quando me recupero do choque de ouvir suas palavras. — Tão treinada quanto você.

— Ainda assim, não quero você nesse mundo. Até agora você só viu o lado glamuroso — Ele fala a palavra revirando os olhos.

— Glamuroso? Edward, houve um tiroteio hoje à noite.

— Exatamente meu ponto! Você podia ter se machucado. Você não sabe o que é andar num bairro pobre sabendo que quem tá mantendo a segurança do lugar são criminosos.

— E você sabe? Não seja hipócrita, Edward. Pais médicos, formado em direito por uma universidade da Ivy League, não me diga que você sabe mais do que eu do que a máfia é capaz.

— Isso não importa.

Edward passa a mão no cabelo e suspira.

— Achei que apesar de tudo, hoje tinha sido uma noite produtiva para a missão — comento, a voz mais baixa. Não gosto de brigar. Gosto de brigar menos ainda com uma pessoa que estava começando a me dar bem.

Vejo seus olhos baixarem para minha boca e sei que ele também está lembrando do beijo.

— Foi produtiva — concorda

— Você tem que aprender a confiar em mim, Pimentinha. — Tento aliviar o clima.

— Não é em você que não confio, Isabella — diz com um sorriso de canto de boca. — Sei que parece que sou muito duro com você, mas já perdi outras pessoas importantes na minha vida e não quero que se repita.

Aceno com a cabeça e recolho meus sapatos. É a primeira vez que ele compartilha algo tão vulnerável comigo. E não me passa despercebido que ele admitiu que me acha importante. Mas entre os acontecimentos na festa e essa conversa, não tenho energia para destrinchar mais nada.

— Amanhã discutimos o que aconteceu hoje? — pergunto.

Edward parece estar no mesmo estado que eu pois não protesta contra a minha sugestão. Subo para o quarto e ele fica na sala até depois de eu me desarrumar.

Quando estou quase pegando no sono, Edward entra no quarto e apaga as luzes.

XXX

Não tenho certeza de como estará o humor de Edward pela manhã. Sendo honesta comigo mesma, gostaria que ele compartilhasse mais da sua vida pessoal e, mais que isso, queria saber se nosso beijo o afetou tanto quanto me afetou. Se ele já queria me beijar e apenas achou uma desculpa conveniente. Se ele também sonhou com o momento e, no sonho, ao invés de sermos interrompidos, continuamos explorando nossos corpos.

Mas para o bem da missão, preciso apenas saber sua opinião profissional sobre o que vivenciamos na noite anterior.

Encontro-o na cozinha servindo duas canecas de café. Me aproximo do balcão e pego a caneca mais próxima de mim.

— Obrigada — digo levando o objeto ao nariz e apreciando o aroma. — Bom dia.

— Bom dia. Dormiu bem?

Respondo que sim e depois de tomar um gole de café vou preparar torradas e ovos mexidos. Num acordo tácito, Edward geralmente cozinha nossas refeições e eu me encarrego de lavar a louça. Mas hoje quero levantar uma bandeira branca e começar a conversa sobre o caso em bons termos.

Ele agradece o prato e come com entusiasmo. Sorrio ao ver sua empolgação com uma comida tão simples e ele cora ao perceber que o estou encarando.

— Está muito bom — elogia.

— É só torrada com ovo.

— Ainda assim, está muito bom.

Terminamos de comer em silêncio e depois de lavarmos os pratos juntos vamos para o escritório debater os fatos da festa de Aro.

Edward senta no sofá e seus olhos demoram nas minhas pernas quando sento ao seu lado. Olho para onde ele está encarando e percebo que não troquei a regata e o short curto de algodão que uso como pijama.

Nos outros dias eu tomava café da manhã já vestida, mas hoje estava ansiosa para vê-lo e trocar de roupa pareceu muito demorado.

Limpo a garganta para chamar sua atenção para mim e ele cora mais uma vez com o flagra. Como na primeira vez que ele ficou vermelho na minha frente, sinto uma leve satisfação em saber que ele não é tão desafetado quando mostra ser.

— Então, sobre ontem a noite… — Ele começa e torço para ele citar o beijo. — Não consegui descobrir a identidade dos dois homens.

Decepção me inunda com o rumo das suas palavras.

— Jasper ligou antes de você acordar e me informou que nada do que foi gravado é realmente incriminador — continua.

— Você tem alguma ideia de quem eles podem ser? Se entendi direito, um deles mandou começar o tiroteio no meio da festa, certo?

— Cheguei à mesma conclusão que você. O que está me incomodando é que ontem era uma festa extremamente exclusiva…

— Eles têm que ser homens de confiança dos Volturi — concluo seu raciocínio.

— Sim. Ou a segurança deles está mais fraca que o normal. Ou está trabalhando contra eles — Edward cita as possibilidades.

— Sem falar que foi estranho Jane e Alec não estarem lá quando ela falou com tanto entusiasmo dessa festa.

— Ela tentou de contactar?

— Não. E Aro também não estava lá.

— Tem certeza?

— Não, mas se era o anfitrião da festa, era de se esperar que em algum momento ele daria as caras.

Edward olha pela janela e me distraio admirando seu perfil.

— Aqueles homens falaram sobre acabar com um velho. Você acha que estavam falando de Aro ou de Caius? — questiono.

— Eu achava que era Aro, mas agora com a possibilidade dele nem estar na festa, tanto um quanto o outro são alvos plausíveis.

— Não estamos nem perto de chegar a uma conclusão, estamos?

— Não, acho que não. — Ele suspira e passa a mão no cabelo já bagunçado.

Ele muda de posição no sofá, ficando praticamente deitado e fecha os olhos. A postura relaxada me encoraja a perguntar sobre o outro acontecimento da noite.

— Edward?

— Sim — responde ainda sem abrir os olhos.

— Vamos falar sobre aquele beijo?

Sua mandíbula trava e ele cerra o punho. Sentando-se novamente, ele se vira na minha direção e me encara com intensidade.

— Isabella, me desculpe se fui longe demais.

— Me pegou de surpresa, mas eu entendi por que fez isso.

— Eu devia ter perguntado antes, mas eles estavam se aproximando rápido e foi a primeira coisa que me veio à mente.

— Tudo bem, eu sabia que teria que fazer alguns sacrifícios quando me candidatei à essa profissão — brinco.

— Ah, qual é?! Não foi tão ruim assim!

Rio do seu protesto e ele joga uma almofada no meu colo. Abraço o objeto e olho para o homem ao meu lado, admirando o quão mais bonito ele fica quando está descontraído.

— Edward?

— Sim?

— Foi um bom beijo — elogio.

— Foi só um beijo.

— Ainda assim, foi muito bom.

Sem novidades sobre o caso e depois de repassarmos mais alguns detalhes, decidimos aproveitar o dia ensolarado e ir à praia. Edward não é fã da ideia, mas quando sugiro ir sozinha ele começa a arrumar as coisas pra ir comigo.

A areia e o mar claros são tão diferentes das praias de Seattle que parece que estamos em outro país. Edward está tenso o tempo todo e pergunta mil vezes se tenho certeza de que quero entrar no mar.

— Não vai fundo — ordena.

— Tá tranquilo, Pimentinha, eu sei nadar.

— Se você nadar muito longe eu não posso… — Ele se interrompe e recomeça. — Por favor, não vai pro fundo.

Apesar de me considerar uma excelente nadadora, acho melhor não afrontar Edward. Ele parece levar muito a sério essa história de entrar no mar e depois da manhã que tivemos não quero estragar o clima agradável entre nós.

Estou boiando de olhos fechados quando uma onda forte me atinge. O susto atrapalha meus reflexos e agito os braços e as pernas de forma desengonçada sem conseguir achar a superfície.

Momentos depois alguém me carrega para a areia e tusso a água que nem percebi ter engolido.

— Isabella, Isabella. — Edward chama meu nome, meu verdadeiro nome, e um alarme toca na minha cabeça no meio dessa confusão.

— Antonio — falo com a voz fraca. — Antonio. — Tento de novo, mais firme. — Estou bem.

Engasgo mais algumas vezes e sinto seus braços me envolverem, sua testa encostando na minha.

— Eu sabia que era perigoso — fala baixo, quase para si mesmo.

— Estou bem — repito.

— Eu tive que chamar o salva-vidas, eu… — Ele hesita. — Eu avisei que não poderia…

Abraço-o de volta e respiro fundo algumas vezes. Olho em volta e uma pequena multidão se formou ao nosso redor.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Vamos pra casa? — peço.

Edward me ajuda a levantar e recolhemos nossas coisas. Sem me soltar em nenhum momento, ele me guia por todo o trajeto até o carro.

— Tem certeza que você está bem? Talvez devêssemos ir ao médico, só por precaução.

— Juro que estou bem, só quero ir pra casa.

— Certo, mas se mudar de ideia, vou no hospital com você.

— Edward? Você… — hesito sem saber se ele vai se ofender com a pergunta. — Você tem medo do mar?

Ele suspira e olha para fora da janela.

— Chama talassofobia. Eu só fui diagnosticado recentemente. — Ele começa e espero em silêncio enquanto ele pensa. — Quando eu era criança, uns cinco ou seis anos, eu estava com meus pais em um barco. Em um momento estava brincando e rindo e no momento seguinte estava na água. Eu não sabia andar ainda e por pouco não me afoguei.

— Sinto muito.

— Eu aprendi a nadar e consigo lidar com piscinas, mas mar aberto é difícil para mim.

— Obrigada por ter me contado.

Seguro sua mão e apoio minha cabeça no seu ombro. Não falamos mais nada pelo resto do caminho e guardo na mente mais essa informação. Mais esse pedacinho de Edward.

O carro para e ele me ajuda a sair do veículo, mas para bruscamente ao se virar para a casa.

— O que foi?

— Temos visita.

Ao nos aproximar, reconheço o rosto em frente a porta. Jane está nos esperando nos degraus da entrada.

XXX

Andamos de mãos dadas até a porta de casa e Jane se levanta para nos receber.

— Jane? Está tudo bem? — pergunto ao notar o cabelo desgrenhado e as olheiras.

— Oi Maria, desculpe aparecer assim sem avisar. Será que podemos entrar? — Ela pede ignorando minha pergunta.

— Claro — respondo e enquanto ela se dirige à porta, arregalo os olhos para Edward. Ele discretamente dá de ombros.

Dentro da casa, vou direto para a cozinha buscar um copo d’água e os dois me seguem. Jane olha apreensiva para Edward e sinto que talvez seja melhor ter uma conversa de mulher pra mulher.

— Amor, — Me aproximo de Edward — pode me fazer um favor? Pode arrumar a bagunça que deixamos no quarto?

Sei que ele não pode ler mentes, mas neste momento espero que ele entenda que o que realmente quero é conversar a sós com Jane. Ele entende, e sai do cômodo sem protestar.

Jane solta a respiração e indico um dos bancos para que ela possa se sentar. Coloco um copo d’água à sua frente no balcão e me sirvo um copo enquanto espero ela começar a falar.

— Desculpe estar interrompendo o final de semana de vocês, — A loira diz, seus dedos brincando com a borda e as laterais do copo. — mas eu não sabia mais aonde ir.

— O que aconteceu?

— Você lembra que Alec e eu vamos vender a empresa do meu pai?

Confirmo com a cabeça.

— Descobri recentemente que as contas não estavam fechando. Nunca estive envolvida de forma direta nos negócios, mas ultimamente venho tentando prestar mais atenção.

— Você falou com Alec? Ou com o contador da empresa?

— Sim, marquei uma reunião com os dois, mas eles disseram pra eu não me preocupar, que estava tudo sob controle.

Jane se levanta e começa a andar de um lado para o outro da cozinha.

— Você estava na festa de ontem, não estava? — Ela questiona.

— Sim, procurei por você a noite toda e não te vi.

— Eu não deveria ter te chamado, Maria, eu achei que… — Jane hesita, fecha os olhos e suspira. — Eu só preciso de um lugar para passar a noite, amanhã eu deixo vocês em paz.

— Pode ficar o tempo que for necessário, mas Jane, eu preciso saber… Você está em perigo?

— Eu não sei.

Ela desvia o olhar e não acho que vá compartilhar mais nada comigo hoje.

— Tudo bem se eu te deixar sozinha alguns minutos? Vou avisar a Antonio que teremos hóspedes.

— Maria, o seu marido… — Jane se interrompe.

— O que tem ele?

— Ele nunca foi violento com você, foi?

— Não, Antonio nunca nem levantou a voz para mim. Por que?

— É que ele me lembra… deixa pra lá.

Decido não persistir no assunto.

— Vou arrumar o quarto de hóspedes, está bem?

— Obrigada, e desculpa mesmo pela intromissão.

— Imagina.

Aperto seu ombro no caminho para fora da cozinha e tento organizar os pensamentos. Jane parece verdadeiramente abalada com o que quer que esteja acontecendo. Ela obviamente tinha um motivo para não estar na festa de ontem. Um motivo forte o suficiente para ele ter se arrependido de ter me convidado.

Preciso conversar com Edward mas com Jane na casa, não posso falar abertamente sobre o assunto. Encontro-o no escritório, digitando algo no computador. Ele imediatamente para o que está fazendo quando me vê entrar.

— Então?

— Jane passará a noite aqui.

— E sabemos o porquê?

— Não exatamente.

Ele abre a boca para dizer alguma coisa, mas antes que ele continue, contorno a mesa e me aproximo de onde ele está sentado. Me apoiando na mesa, chamo-o com o dedo e ele se levanta, parando na minha frente.

— Quero contar sobre o que falamos — sussurro e ele baixa o ouvido na altura da minha boca. — Mas não quero que ela desconfie que sei mais do que sei.

Ele faz que sim com a cabeça e seu cabelo passa de raspão na minha bochecha causando uma sensação agradável.

— Disse a ela que viria te avisar que teríamos hóspedes — falo com a boca encostada na orelha dele, tão perto que o sinto estremecer. — Mas quando formos dormir, te conto tudo.

Ele aperta minha cintura e apoia a testa do meu ombro. Antes que eu possa fazer algo estúpido como abraçá-lo, me desvio do contato e aviso que vou preparar o quarto de hospedes.

Toda essa proximidade com Edward está mexendo com meu cérebro. Posso justificar para mim mesma que todo aperto de mão, abraço e conversa ao pé do ouvido foram casos de extrema necessidade, mas se eu for honesta comigo mesma, cada contato foi bem-vindo.

Algumas horas depois, estamos os três na sala de jantar compartilhando a comida que Edward preparou. Conversamos sobre amenidades, mas antes de nos recolher pelo resto da noite, aviso a Jane que qualquer problema ela pode me chamar.

O sofá-cama em que Edward dorme não está montado essa noite. Paro na entrada do quarto no mesmo momento em que ele sai do closet vestido com uma camisa branca e uma calça de moletom. Ele também para ao me ver e o silêncio seria cômodo se eu não tivesse percebendo que estou prestes a dividir a cama com Edward.

— Você vai ter que fazer mais um sacrifício e dormir comigo — Edward quebra o silêncio e relaxo com o tom leve em que fala.

— É, acho que não tenho escolha — respondo com um pequeno sorriso. Gosto do lado mais descontraído dele. Gosto de saber que provavelmente poucas pessoas no trabalho têm acesso a essa parte dele.

Visto meu pijama e escovo os dentes e quando volto, ele já está deitado na cama. A luz de cabeceira do seu lado acesa enquanto ele olha o celular. Deito e puxando a coberta até o queixo me viro para ficar de frente a ele. Ele deixa o celular na mesinha ao lado e espelha minha posição.

— Agora vai me explicar o que aconteceu mais cedo?

Conto o que Jane me falou sobre a empresa, sobre a festa e sua pergunta sobre Edward ser violento. Ele escuta com atenção e depois de debatermos algumas possibilidades, juntos concluímos que das duas uma: ou Jane é melhor atriz do que imaginamos e está fazendo um teatro para nos comover ou ela está realmente desconfiada da própria família.

Minha cabeça não para e entre quase me afogar e receber um potencial membro da máfia dentro da minha casa, eu preciso de uma boa noite de sono. Suspiro e Edward coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Sorrio com o gesto e uma vontade quase incontrolável surge de pedir para ele continuar mexendo no meu cabelo, ou segurar minha mão ou fazer qualquer coisa que me mostre que ele também gosta quando estou perto.

— Você se saiu muito bem hoje — elogia. — Quase se afogou e logo depois, tendo que lidar com Jane aparecendo de surpresa… Você foi excelente.

Sinto o coração aquecer com as palavras. E me sinto mais confiante de que estou no caminho certo. É verdade que hoje poderia ter dado errado, mas não fui só eu quem se saiu bem. Edward soube a hora de recuar e isso fez toda a diferença.

— Não acho que teria me saído tão bem se não fosse por você — afirmo e acaricio seu rosto com meus dedos. Não me acostumo com sua beleza. E ele é ainda mais deslumbrante de perto.

— Teria sim, — confirma. — mas é bom estar perto testemunhando seu desempenho.

— Obrigada.

Deixo minha mão cair na cama e no mesmo instante sinto falta do contato.

— Edward, será que você pode… — Não continuo a frase mudando de ideia. Ele provavelmente vai achar besteira. — Quer saber? Deixa pra lá.

— Me fala.

— Nada não.

Me viro para apagar a luz e continuo de costas para ele. Meu rosto quente de vergonha com o que quase pedi. Ele apaga a luz do lado dele e o ouço limpar a garganta.

— Isabella, — chama — acho que é uma boa ideia a gente dormir abraçados.

— O quê? — sento alarmada e me estremeço percebendo que falei alto demais.

— Tô falando sério — continua. — E se Jane entrar no quarto por que teve um pesadelo e acordou assustada?

Abro a boca para responder quando noto o sorriso em seu rosto.

— Edward, você fez uma piada?

— Só estou dizendo, — Ele dá um sorriso ainda mais largo. — Melhor não correr riscos.

Estreito os olhos, sem ter certeza se ele está rindo de mim.

— Piada ou não, — declaro. — O feitiço virou contra o feiticeiro, porque eu quero dormir abraçada sim.

— Acho que dessa vez eu posso fazer um sacrifício — comenta, mas um segundo depois está me puxando para seus braços e sinto seu sorriso na minha nuca.

Acordo no dia seguinte com o calor de Edward ao meu redor. Dormi quase instantaneamente depois que ele me abraçou e agora, sentindo seu corpo sob mim, queria ficar mais tempo nessa bolha.

A lembrança de que Jane está no outro quarto me alerta e sei que não podemos mais protelar o dia. Acordo Edward e sei pelo seu protesto que ele também está confortável onde está. Mas como eu, ele sabe que o dever nos chama.

Jane aparece na cozinha quando estamos preparando o café da manhã. Estou bebendo uma xícara de café e pensando em como abordar o assunto família Volturi quando ela me surpreende.

— Preciso que vocês me ajudem a fazer uma denúncia.

Engasgo com o líquido e Edward vem de imediato para o meu lado.

— Está bem, querida? — pergunta passando a mão em movimentos circulares nas minhas costas.

— Sim, sim. Perdão — Me volto para Jane. — O que disse?

Ela se serve com café e senta à minha frente. Olha para Edward com a testa franzida, mas depois volta sua atenção para mim.

— Você perguntou se eu estava em perigo. Eu passei a noite inteira pensando e concluí que a resposta é sim. O motivo de vocês não terem me visto na festa do tio Aro é que eu soube que um… — Jane pausa — conhecido estaria lá.

— Alguém que não queria que você fosse na festa? — Edward pergunta.

— Alguém que eu não queria ver na festa. Eu soube no último instante e decidi não ir. Tio Caius me contou que esse conhecido perguntou por mim e ficou muito frustrado quando não me viu.

— E você acha que esse conhecido quer te fazer mal? — questiono.

— Sim.

— Por motivos pessoais ou de negócios? — Edward sonda.

— Os dois. Eu falei que as contas da empresa não estavam fechando. Quando Alec não quis me dar mais detalhes, decidi investigar por conta própria.

— E descobriu alguma coisa?

Ela diz que sim com a cabeça e toma um gole de café.

— Aparentemente o jeito que minha família faz negócios não é dos mais convencionais.

Edward e eu nos entreolhamos. Depois do iate, concordamos que Jane seria uma das pessoas com um cargo de alta importância na Família Volturi. Mas ela está na nossa frente dizendo que acabou de descobrir sobre os negócios obscuros de sua família. Me repreendo por não estar usando a escuta disfarçada de grampo.

— Como assim? — indago.

— Lavagem de dinheiro, ameaças, uso de laranjas… — cita. — É tudo pior do que imaginei. Isso tem que mudar. E se eu não conseguir mudar sozinha como as coisas são feitas, o mínimo que posso fazer, é não ser cúmplice disso.

— E você acha que podemos ajudar? — Edward pergunta dessa vez.

— Acho. Pelo que entendi, todos nessa cidade estão sob o comando deles. Mas vocês são novos por aqui, eles ainda não tiveram tempo de abordar vocês. Não diretamente pelo menos. Todos esses convites são provavelmente um cortejo para envolver vocês no mundo deles.

— Jane, não podemos denunciar nada sem ter algum elemento, alguma prova de que o que que você está falando é verdade.

— Eu sei, mas eu tenho um plano.

— Um plano? — ecoo.

— Sim. E envolve o Grand Prix de Miami.

XXX

Jane ficou mais três dias conosco depois de compartilhar sua ideia de como poderíamos conseguir uma prova de que sua família está envolvida em esquemas ilícitos. O Grand Prix de Miami aconteceria no final de semana seguinte, e precisamos articular nossos próximos passos rapidamente.

Sem fazer ideia de que Edward e eu somos agentes federais, ela não imaginava que as informações que estava nos passando eram transmitidas diretamente ao escritório do FBI. E que boa parte do plano foi feito com o aval da polícia.

Com a presença de Jane na casa, foi inevitável dividir a cama com Edward de novo. Também foi inevitável ele me puxar para seus braços na hora de dormir.

Jane não voltou a perguntar sobre o comportamento de Edward e acredito que conviver com ele, mesmo que por um período curto, a fez perceber que ele não é um homem violento.

Finalmente o final de semana da corrida chegou e embora tenhamos acompanhado a movimentação dos eventos da sexta-feira e do sábado de longe, domingo era o dia em que mais membros da família estariam presentes e que teríamos mais chances de ter alguma interação proveitosa.

Estamos entrando no autódromo e sinto uma vibração diferente no meu corpo, o ambiente me faz quase saltitar. Não acompanho muito as corridas, mas do pouco que assisto tenho um piloto favorito e a ideia de estar no mesmo ambiente que ele me empolga.

— Por que está tão animada? — Edward pergunta segurando minha mão. — Não sabia que você era tão fã de Fórmula 1.

— Sou uma grande fã dos pilotos — brinco e Edward para imediatamente, me fazendo parar também.

— Que pilotos?

— Os que vão dirigir hoje — falo com um sorriso.

— Eu não acredito que você está toda serelepe por causa dos pilotos. — Ele continua a andar e tenho a impressão que seu aperto na minha mão está mais firme.

— Na verdade, um em especial.

— Que piloto, Maria? — Ele enfatiza meu nome e rio ainda mais pois sei que ele queria falar Isabella naquele tom que eu já estou acostumada.

— O melhor de todos, o único e inigualável, Charles Leclerc!

— Charles Leclerc? — repete.

— O próprio, acho ele lindíssimo!

— Como é que é? — Sua voz sai mais aguda que o normal.

— Digo, talentosíssimo — rio e ele revira os olhos.

— Prefiro o Lewis Hamilton — resmunga.

— Ele é bem gato também — provoco.

Bem gato? Também? Maria, você é uma mulher casada! Além do mais, Leclerc é muito novo para você.

— Não é nada. Só três anos, eu pesquisei. Você não namoraria uma mulher três anos mais nova?

Edward cora.

— Relaxa, Pimentinha. Estou feliz com meu marido.

Ele resmunga alguma coisa sobre mostrar nossas alianças para o Leclerc, mas quando chegamos no paddock e me viro em sua direção, Edward está sorrindo para mim.

Estou me divertindo com a irritação dele. Há duas semanas eu diria que ele está demonstrando ciúmes como parte do disfarce, mas agora prefiro acreditar que sua reação é genuína.

Nos últimos dias, mesmo depois de Jane ir embora, ele achava uma desculpa para tocar minha mão, ou meu cabelo ou qualquer parte que estivesse mais perto. Como antes, ele continuou preparando o jantar, mas agora pede para eu comer junto com ele. Conversamos sobre nossas famílias e ele diz que fez a ligação sobre quem meu pai é imediatamente, que pode ver como eu encaixo na profissão.

Cheguei em Miami tendo certeza que estaríamos em um cabo de guerra a maior parte do tempo, agora sinto que se estamos em um cabo de guerra, Edward está jogando na minha equipe.

Jane conseguiu credenciais para que ficássemos no paddock e disse que nos encontraria aqui. Algumas pessoas que conhecemos no iate e na festa de Aro estão aqui e se isso não fosse uma indicação boa o suficiente de vir aqui foi uma ideia crucial, uma presença em especial confirma nosso plano.

Ciao, bella! — Caius se aproxima com os braços erguidos e me segurando meus braços me cumprimenta com dois beijos. Edward coloca uma mão na minha cintura e usa a outra para apertar a mão do loiro a nossa frente. — Que prazer revê-los!

— O prazer é nosso — respondo.

Não tínhamos certeza se ele estaria aqui hoje. O plano era conseguir informações de Demetri, Félix ou Alec. Mas Caius é uma fonte até melhor.

— Maria, — Caius chama. — Você viria comigo um minuto na área da imprensa?

— Cla…

— Poderia nos dar um momento, Caius? — Edward me interrompe.

Caius faz que sim com a cabeça e se afasta um pouco, nos dando privacidade. Edward se move para minha frente e me puxando pela cintura me aproxima do seu corpo.

— Não vou te deixar sozinha com ele — avisa Edward.

Entendo a preocupação de Edward, mas nosso plano consiste em um de nós se aproximar de alguém da família.

— É a oportunidade perfeita — lembro. — E ele parece inofensivo até agora.

— Ênfase no “parece”. Ele é provavelmente um dos subchefes da organização. — Ele se aproxima ainda mais e sussurra essa parte no meu ouvido. De longe, só parecemos um casal sendo extremamente afetuoso. — Se você acha que vou deixar minha esposa exposta ao perigo, você está enganada.

A combinação da palavra “esposa” com os lábios de Edward tocando minha pele me faz estremecer.

— Ele não tentaria nada do meio dessa gente toda — argumento.

— Ainda assim.

— Estou com um rastreador na bolsa, você pode verificar minha localização o tempo todo. — Meus braços passam pelo pescoço dele e lhe dou um beijo na bochecha.

Ele baixa a testa no meu ombro e suspira.

— Não gosto disso.

— O que? Não gosta de beijinho na bochecha? — brinco.

— Você é impossível — reclama, mas suas mãos apertam minha cintura e quase automaticamente baixam para tocar meus quadris e ele passa o nariz no meu pescoço.

— Ah, como é bom ser jovem e apaixonado! — Caius declara e dou um passo para trás.

Não sei se fico irritada ou aliviada com a interrupção. Edward estava tão perto que seu cheiro amadeirado estava praticamente me consumindo. Se não fosse Caius eu já teria beijado Edward de novo.

Sigo Caius até a área da imprensa e ele conversa comigo sobre quem acha que vai levar a corrida hoje. Viro a cabeça para trás e vejo que Edward está me observando, noto Jane ao seu lado e com um sorriso encorajador, ela acena para mim.

Caius se vira agitado para os lados e me pergunto o motivo dele querer vir aqui e por que me trazer junto. Achei que ele me contaria algo importante, mas até agora só ouvi trivialidades.

De repente, ele para de se movimentar e um homem se aproxima de nós.

— Caius. — O homem cumprimenta e para minha surpresa, é o homem jovem que estava discutindo no corredor na festa de Aro.

— Sam — replica Caius.

Sam vira o olhar para mim, mas não dá nenhuma indicação de que me reconhece. Não sei se ele realmente não lembra quem sou ou se está apenas fingindo. Ele pode não querer reagir a minha presença com Caius aqui, mas estava escuro naquele dia e Edward estava na minha frente a maior parte do tempo.

— Eu nunca recebi meu presente. — Sam volta a olhar para Caius, que limpa o suor caindo da testa.

— Bem, tenho certeza que só está atrasado.

— Melhor você resolver esse atraso porque eu realmente quero aquele presente. — Sam dá um passo mais perto de Caius e o homem visivelmente se encolhe. — Foi você quem pediu os fogos de artifício na festa de seu irmão, eu acho bom você recompensar quem os soltou.

— Se quer tanto seu presente assim, precisa ir amanhã à noite no lugar onde a cidade é mais livre. Onde você pode comer as melhores asinhas de frango.

Meu coração acelera e olho para as minhas unhas tentando disfarçar minha atenção na conversa. Eles parecem não notar que posso escutar, ou realmente não se importam que eu escute. Por outro lado, eles estão falando em códigos. Mas se tem uma coisa para que eu fui treinada, foi para decifrá-los.

Sam vai embora e Caius sorri um sorriso amarelo para mim.

— Desculpe por isso, Maria. Era só um… parente distante.

— Não por isso. Se me der licença, preciso voltar para meu marido.

Ando o mais rápido possível para chegar até Edward. Dou um abraço rápido em Jane e olhando para ela, aviso:

— Sei o próximo lugar onde devemos ir. E sei quem começou o tiroteio na festa do seu tio.

XXX

Diferente dos outros dias dessa missão, Edward e eu não estamos vestidos com roupas elegantes e de marca. Usando camisas e calças pretas, o figurino de hoje é exatamente o que uma pessoa imaginaria ao pensar em agentes secretos e foi meticulosamente escolhido para passarmos despercebidos.

São sete horas da noite e estamos de volta ao restaurante em Liberty City, o mesmo lugar em que primeiro conhecemos Demetri e Félix. Caius não precisou a hora que Sam deveria aparecer, então estamos esperando em um carro perto do estabelecimento desde às cinco da tarde.

Os escritórios do FBI de Miami e Seattle sabem onde estamos e o que vamos fazer, temos escutas e rastreadores em nós e nas últimas 24 horas Edward e eu pensamos e discutimos todos os resultados possíveis desse encontro.

Edward não para de batucar os dedos no volante do carro e de olhar ao redor a cada 2 minutos.

— Edward, — falo e apoio minha mão sob a dele que está no volante. — Nós repassamos o plano, não precisa ficar nervoso.

Ele vira sua palma para cima e entrelaça nossos dedos. Trazendo nossas mãos juntas para perto de si ele beija o dorso da minha. Eu me arrepio com o gesto.

— Não estou nervoso — discorda, a boca ainda encostada na minha pele. — Mas eu já te disse, não gosto daqui.

Olho ao redor só posso concordar, o bairro é mesmo sinistro. Mas a mão de Edward segurando a minha me traz conforto e sorrio ao pensar que não precisamos de uma desculpa para iniciar qualquer toque físico.

— Estou feliz que foi você nessa missão comigo, Isabella. — Seus pensamentos estão em sintonia com os meus. Seus olhos verdes, sempre intensos, não desgrudam dos meus. — Não poderia ter tido uma parceira melhor para essa aventura.

— Edward, eu… — Procuro as palavras para respondê-lo. — Também estou feliz que foi você.

— Quando tudo isso acabar, vou te levar para jantar, ou para o cinema, ou para tomar um sorvete, o que você quiser… Se você quiser.

Sinto meu rosto esquentar com o convite. Eu tinha um pressentimento que as coisas estavam mudando entre nós e perceber que eu não estava errada e que ele também quer explorar o que quer que esteja acontecendo, me faz querer querer sair saltitando por aí.

— Quer ser meu amigo, Edward? — Não perco a oportunidade de tentar provocá-lo.

— Algo assim, Pimentinha — responde com um sorriso tímido e uma piscadela marota.

Estou rindo quando Edward olha pela minha janela e fica tenso. Me viro para enxergar o que ele viu e Sam está abrindo a porta do restaurante. Em sincronia, Edward e eu respiramos fundo e saímos do carro.

O restaurante em si está exatamente igual a ultima vez que estivemos aqui. Sam não está em nenhum lugar a vista e após sondarmos o local, noto uma porta ao fundo do estabelecimento. Indico o local para Edward e ao ver que nenhum barman está prestando atenção, seguimos para lá.

A porta abre com facilidade e nos deixa à frente de uma escada que nos leva para baixo, a um porão iluminado por uma luz laranja neon. Edward está na minha frente com um braço esticado para trás, quase como se tivesse me abraçando ao contrário.

Paramos ao chegar ao fim da escada e a área que encontramos é menor que o restaurante, mas ainda há um corredor à direita. Sam não está no espaço principal, então seguimos para o corredor. Um passo dentro e ouvimos duas vozes masculinas conversando do outro lado da passagem. Recuamos e escondidos à meia luz, tentamos ouvir o que eles estão discutindo.

— Caius me disse para vir aqui. — Sam diz.

— E ele disse para quê? — pergunta uma outra voz, um tanto familiar, mas tão fria que me faz sentir calafrios.

— Pra recuperar meu pagamento — responde Sam, mas o tremor em sua voz entrega seu nervosismo.

— Tem certeza? Porque ele não me disse nada sobre trazer dinheiro. Ele me disse para trazer outra coisa.

O barulho de um corpo sendo jogado na parede me sobressalta e olho para Edward.

— Mas que porra??? — Sam grita alarmado.

Instintivamente, dou um passo em direção ao corredor. Edward me segura e faz que não com a cabeça.

— Me larga, Eleazar! Eu só vim aqui buscar meu dinheiro!!

Edward trava ao meu lado e escuto o barulho de passos vindo em nossa direção. Puxo a manga da camisa de Edward e ele não se move.

— Ei, precisamos ir. Eles estão vindo!

Ele finalmente olha para mim e em seguida olha para o corredor.

— Temos que ir agora, eles…

Sam e o homem chamado Eleazar chegam na peça principal e dão de cara conosco. Sam está curvado, sendo puxado pela gola da camisa pelo homem de cabelos castanhos. Ele levanta a cabeça e arfo ao reconhecê-lo.

— Você! — afirmo. — Você estava na festa de Aro!

Eleazar é o mesmo cara estranho que veio falar comigo quando eu estava sozinha esperando Edward voltar.

— Antonio, ele…

— Antonio? — Eleazar joga a cabeça para trás numa gargalhada horripilante. — Mudou de nome irmãozinho?

— Irmãozinho? — repito.

— Ele não te contou? — Eleazar volta o olhar para mim. — Edward aqui nasceu e cresceu nesse belo bairro.

— Não olhe para ela — Edward ordena. Ele ainda está parado e suas mãos fechadas em punho ao lado do corpo.

— Ah, entendi. Não quer que ela saiba que você também é parte disso tudo? — Eleazar se aproxima de mim e eu recuo imediatamente.

— Mais um passo em direção a ela e você é um homem morto. — A voz de Edward é baixa e mais grave do que eu já tinha ouvido antes.

Olho de um homem para o outro. Edward e Eleazar tem o mesmo formato de rosto e nariz e embora os olhos e cabelos de Eleazar sejam de cores diferentes e ele seja uns dez anos mais velho, a semelhança é inegável. E ele sabe o nome verdadeiro de Edward. Eu estranhei ele saber o meu nome de mentira, mas com nossa saída ao iate imaginei que nosso nome estava circulando entre a alta sociedade. Mas ele saber o nome verdadeiro de Edward é outra história.

— Do que ele está falando? — pergunto a Edward. Ele ainda não havia trocado uma palavra comigo desde que os homens apareceram na nossa frente.

— Conte a ela Edward, conte como você cresceu nesse bairro. Como nossos pais nos prometeram para a família Volturi. Conte a ela como você tecnicamente é parte da organização.

— Ele está falando a verdade?

Edward suspira e confirma com a cabeça. Sinto faltar o ar com sua resposta. Edward faz parte da máfia. Esse tempo todo ele estava… sendo um agente duplo? Informando Eleazar dos nossos planos?

— Isabella, me deixe explicar. Eu cresci mesmo nesse bairro, mas eu nunca fiz parte da organização. Meus pais, meus pais biológicos, tentaram nos entregar aos Volturi em troca de dinheiro, mas o serviço social os deteve. Eu fui colocado para adoção, nós dois fomos, e Carlisle e Esme me adotaram.

Eleazar revira os olhos. — Não acredite nessa historinha.

— Isabella, por favor — suplica Edward.

Hesito por um momento. Alguém abre a porta acima de nós e o som das sirenes da polícia invade o porão. Então lembro que Edward é um policial federal, e que mesmo que ele tivesse alguma ligação com a máfia quando criança ele teve que ser investigado antes de assumir um posto no FBI e se eles não acharam nada, é porque não tinha nada a ser achado.

E mais importante, lembro do homem que conheci no meu primeiro dia de trabalho, o que segurou minha mão e me protegeu durante a missão. O homem que me segurou em seus braços quando eu não tive coragem de pedir um abraço. O mesmo que acreditou no meu potencial e me encorajou durante cada nova etapa.

Eu sabia que podia ser uma agente tão boa quanto meu pai, só precisava que mais alguém acreditasse em mim. E Edward acreditou.

Com uma nova convicção, percebo que ele me transformara mais do que eu achava que fosse possível mudar sem deixar de ser eu mesma.

Olhando em seus olhos verdes e ouvindo a polícia se aproximar, sei que posso confiar em Edward e sei que vamos, juntos, finalizar essa missão.

XXX

A equipe do FBI de Miami invade o porão antes que Eleazar e Sam possam ir longe. Liderados por Jasper, que finalmente tive o prazer de conhecer pessoalmente, eles levam os dois homens para a delegacia para investigação.

Do lado de fora do restaurante, Edward me abraça e beija minha testa. O calor do seu corpo me dá uma segurança que eu nem sabia estar procurando.

— Obrigado por ter acreditado em mim.

Afasto o rosto para poder vê-lo melhor e sorrio. Nós conseguimos. Há algumas semanas eu tinha esperança de que tudo daria certo. Esperança e determinação. Mas não imaginava que no meio do caminho construiria uma relação de verdadeiro companheirismo com quem deveria ser só meu parceiro de missão.

— Eu concluí que seu passado não importa.

— Obrigado, mas eu quero te contar mais sobre ele mesmo assim.

— E eu vou adorar ouvir.

Jasper se aproxima, os cabelos loiros bagunçados, e aperta nossas mãos.

— Foi interessante acompanhar a dinâmica de vocês. Apenas ouvindo o que vocês falavam eu percebi o quanto vocês estavam bons no disfarce. E agora vendo tudo ao vivo, entendo o porquê.

O rosto de Edward fica vermelho e não me canso de vê-lo acanhado. Mas ele não parece se importar, pois mesmo corado, sorri para mim e segura minha mão.

— Estão liberados por hoje. Amanhã eu atualizo vocês. — Jasper nos dispensa.

Chegamos em casa e estou tão cansada que me jogo na cama e durmo sem dificuldades. O escritório nos liga pela tarde e conta o que conseguiram descobrir.

Eleazar confessou fazer parte da organização, e que Caius ordenou o atentado no dia da festa numa tentativa de eliminar Aro e ascender ao poder. Também disse que se aproximou primeiro de Jane, que ela nunca desconfiou que ele fazia parte da máfia e que realmente estava no escuro sobre sua família. Também confessou ter sido agressivo com ela e finalmente entendo a reação dela a Edward.

Somos informados que nossos serviços não são mais necessários aqui e teremos dois dias para nos organizar e voltar a Seattle.

Contente com o resultado da missão, abro uma das garrafas de champanhe na cozinha e levo uma taça para brindar com Edward.

— A nossa primeira missão bem-sucedida. — Ergo a taça e encosto na de Edward.

— A primeira de muitas, eu espero. — Ele sorri e toma um gole. — Bem, eu disse que ia te levar para sair quando tudo isso acabasse.

— Disse mesmo.

— Então vem comigo.

O pôr do sol em Miami Beach é uma mistura de laranja e rosa que não estou acostumada a ver em Seattle.

Penso sobre como vai ser voltar para casa e para a rotina do escritório. Me pergunto se meus sentimentos foram ampliados pela proximidade necessária do que estávamos fazendo e uma vez que estivermos de volta ao trabalho, Edward ficará distante.

Ele me puxa para uma sorveteria e olha me cheio de expectativa.

— Qual seu favorito? — pergunta em frente à vitrine que expõe pelo menos 30 sabores.

— Amarena!

— Nunca comi.

— Você tem que provar, é incrível!

Edward escolhe o mesmo sabor que eu e se surpreende com o quanto gosta. Ele entrelaça nossos dedos e voltamos a andar pela orla tomando nosso sorvete.

Perto de uma das casas salva-vidas da praia, ele para de frente para mim. Coloca uma mecha atrás da minha orelha, beija minha testa, passa seu nariz no meu num beijo de esquimó brincalhão. Finalmente, ele beija minha boca, e o gosto de amarena é ainda mais doce vindo dos seus lábios.

Ele se afasta e me presenteia com um sorriso largo estampado no rosto. Qualquer preocupação que eu tinha sobre nosso futuro vai embora da minha mente.

FIM.








Você chegou ao fim do livro. Parabéns!