Salvation

28 Capítulo 28


Notas iniciais
Oi gente! Peço mil desculpas pela demora na atualização. Eu pessoalmente, não gosto quando os posts demoram muito de um pro outro pq acho que os leitores perdem um pouco o interesse - bom, eu perco..

Mas a verade é q estou no fim do prazo pra terminar de escrever minha dissertação de mestrado e estou ENLOUQUECENDO!!! Então provavelmente vou demorar um pouco entre um cap e outro, mas espero poder postar de dois em dois ou três em três dias.

Torço pra que ainda fiquem comigo!!

Bjs e boa leitura!

:)

Quando ela me disse que tinha ido tentar buscar algo pra eu comer, não acreditei. Ela estava lá, se arriscando porque... não queria me acordar? Eu olhava pra sua pele avermelhada e sensível, os olhos fechados e lacrimejantes. Foi mais forte do que eu, ela se arriscou por mim e eu não consegui evitar.

Acariciei seu rosto lindo e o cabelo macio e não resisti aos seus lábios. Beijei-a com intensidade, com vontade, com a minha vontade de tê-la, de senti-la. Ela correspondeu, apesar da pele sensível e dos olhos machucados. Senti o aroma de sua excitação me atingir como um soco no estômago e, como sempre, meu corpo estremeceu. Eu a desejava tanto que era quase enlouquecedor.

Quando dei por mim, estava sobre ela, na cama, com as mãos em seus quadris. Senhor, aquilo não estava certo... mas por que eu não conseguia sentir que estava errado? Por que estar com ela parecia tão certo pra mim?

Afastei-me, interrompendo o beijo, mas ela me puxou de volta. Eu gemi. De agonia, de prazer, de loucura por não saber o que fazer. Eu nunca tinha enfrentado uma situação daquela, nunca tinha sido tão incrivelmente doloroso não ouvir os apelos famintos do meu corpo.

Levantei bruscamente, necessitando me afastar dela, caso contrário eu não saberia se seria capaz de parar. Disfarcei, dizendo que ela não precisava ter descido, que era só ter me acordado, mas Michaela era perspicaz, ela sabia tanto quanto eu que era apenas meu jeito de fugir da verdade. Verdade que me consumia a cada segundo em que estava ao seu lado. Uma verdade inevitável: minha paixão louca e absurda por ela.

- E como ficamos? – ela me perguntou depois de umas verdades atiradas.

- Eu já te agradeci pelo o que fez. – respondi ainda tentando não voltar ao assunto.

- Não estou falando disso e você sabe.

- Eu não sei Michaela. Sinceramente, eu não sei o que sentir ou o que fazer quando estou com você.

Essa foi a única coisa franca que pude lhe dizer, era a verdade nua e crua de minha realidade.

Saí do quarto ainda com os lábios ardendo de desejo e com o coração pesado. Respirei fundo algumas vezes e segui meu caminho. Passei direto pelo salão do café, já tinha perdido a vontade de comer.

O dia estava nublado, mas não chovia. Eu não sabia muita coisa sobre Michaela, nem onde morava com sua mãe, nem de sua vida e hábitos passados. Caminhei meio que aleatoriamente pela cidade que estava acordando aos poucos. Via as lojas abrindo e crianças de uniforme. Eu senti um pesar tão grande ao pensar que ela perdeu tudo isso depois que Andrew a transformou...

Duas horas depois eu estava de roupas novas e dentro de um carro alugado percorrendo as ruas da cidade. Foi quando vi dois adolescentes sentados num ponto de ônibus lendo uma notícia no jornal que eu percebi onde seria minha primeira parada. Seguia as placas e rumei para a biblioteca central. Se a mãe dela foi morta e Michaela sumiu, deve ter sido notícia em algum momento.

O lugar era grande e bonito e estava vazio àquela hora do dia. Havia apenas a bibliotecária no balcão. Eu me apresentei e pedi informações sobre como acessar as publicações dos jornais locais de anos atrás. Depois de preencher um formulário e responder algumas perguntas, ela me encaminhou para uma sala pequena com três computadores um pouco ultrapassados.

Utilizei o login que ela me forneceu e tive acesso ao banco de dados que disponibilizava a digitalização de alguns jornais da cidade até vinte anos atrás. Com calma, vasculhei as notícias da época aproximada de quando Michaela foi transformada. Em um dos jornais, encontrei a nota que informava seu desaparecimento. Datava de fevereiro de 2001.

“Na noite de ontem Michaela Anderson, 19 anos, saiu para comprar remédios para sua mãe e desapareceu. A jovem foi vista pela última vez saindo da farmácia por volta das sete da noite e sua bicicleta foi encontrada na esquina da Siqual Street, rua onde mora.

Anna Anderson, a mãe da jovem que completará vinte anos no próximo mês, está abalada e oferece uma recompensa por qualquer tipo de informação que possa levar à sua filha. Anna afirma que Michaela é uma jovem muito tranquila e feliz e refuta totalmente uma das hipóteses da polícia que seria uma fuga de casa premeditada, uma vez que não foram encontrados vestígios de luta, assalto ou ataque no local.

A polícia não descarta nenhuma possibilidade e afirma que trata o caso de Michaela como desaparecimento ainda, não como sequestro ou homicídio. Mais investigações estão sendo feitas e os amigos e vizinhos de Michaela estão fazendo um mutirão para procura-la pelas cidades vizinhas. Qualquer informação sobre o paradeiro da jovem pode ser reportado às autoridades.”

Abaixo da pequena nota, havia uma foto onde Michaela estava sorrindo feliz com os olhos verdes brilhantes. Contemplei-a por um longo tempo. Cada traço era igual ao da Michaela atual, ela não havia mudado absolutamente nada, exceto, talvez, a alegria de outrora que não existia mais.

No jornal do dia seguinte havia uma notícia na capa, que era justamente a da morte de Anna, mãe dela. Pelo o que me lembro, Michaela disse que naquela noite foi pra casa do vampiro Andrew, onde foi transformada e foi no dia seguinte que ele a levou até sua casa e ela assassinou a mãe.

A manchete trazia as fotos de Anna e Michaela encobertas por um grande ponto de interrogação. A matéria trazia todos os detalhes do desaparecimento de Michaela e levantava a grande questão se teria ligação com a morte da mãe no dia seguinte. Pelo texto, a polícia atribuía, pelo menos naquele primeiro momento, a morte de Anna a algum ataque animal raro, uma vez que não era tão incomum aparecerem lobos ou coiotes na região e a época de reprodução em que se encontravam aumentaria tais possibilidades. Não foram divulgadas fotos da casa ou do local do crime, mas parece que havia muito sangue espalhado e que o corpo de Anna ficou quase irreconhecível.

A polícia não relacionou a morte à Michaela ou mesmo a um ataque humano e estava trabalhando com a hipótese de uma fatalidade dupla na família. Os vizinho e amigos estavam chocados e a matéria ainda trazia uma entrevista com Annelisse, a irmã de Anna e tia de Michaela. Annelisse não acreditava que a sobrinha fosse responsável de algum jeito pela morte da irmã e ainda estava em estado do choque por tudo o que aconteceu.

Eu reli mais uma vez a manchete e anotei o que julguei mais importante. Agora eu tinha um ponto de partida. Eu precisava encontrar Annelisse, a tia de Michaela, ela era a pessoa que podia me ajudar a conhecer melhor o seu passado e suas origens.

Peguei um mapa da cidade e dirigi até a rua Siquel. Era agradável e bonita. As casas eram grandes e com jardim na frente, a maioria delimitada por uma cerca branca de madeira. Michaela vivia no número 30, mas a casa estava ocupada. Havia duas crianças tentando dar banho num cachorro enorme no jardim enquanto um homem lavava o carro na garagem.

Estacionei perto e desci. Nessa hora o cachorro começou a latir e correu em minha direção. Ele pulou em mim e deixou a marca de suas enormes patas em minha blusa, enquanto me lambia e fazia festa. Era uma reação normal, os animais gostavam de estar perto dos Seres da Luz. Eu ri e fiquei brincando com ele, enquanto as crianças e o homem vieram correndo em minha direção.

- Rex! – a menina exclamou.

- Minha nossa, me desculpe, por favor. Ele não costuma fazer isso. – o homem falou tentando afastar o cachorro de mim.

- Tudo bem, sem problemas. – respondi sorrindo, fazendo um último afago no labrador.

As crianças o levaram de volta e continuaram a banhar o cachorro serelepe.

- Olá, sou Gabriel.

- Mike. – o homem se apresentou apertando minha mão.

- Desculpe, mas você não é daqui, é? – ele perguntou.

- Não... na verdade, estava atrás de informações sobre as antigas moradoras dessa casa.

- Ah... bom, eu não conheci os ocupantes anteriores. Na verdade, tive sorte, se é que posso dizer isso. Soube que a mulher que morava aqui foi atacada por animais e sua filha estava desaparecida. Consegui a casa em um leilão na internet. Parece que a tal desaparecida assumiu as finanças da família, mas não retornou ao lar.

- Sei... – falei – e você sabe se algum vizinho da mulher atacada e sua filha ainda mora aqui?

- Sim. A senhora Marshall parece que mora nessa região desde que nasceu. É daquela casa ali. Acho que pode te dar as informações que precisa.

- Obrigado. – agradeci.

- Hum... me desculpe pela roupa. – o homem sorriu sem graça. As patas do cachorro ainda estavam estampando minha blusa.

Eu fui em direção a casa da vizinha, Sra. Marshall. Toquei a campainha e esperei. Uma mulher jovem atendeu.

- Pois não?

- Olá. Eu me chamo Gabriel e estou à procura de informações sobre Michaela Anderson. Seu vizinho Mike disse que talvez pudesse ajudar... mas não é a Sra. Marshal, eu presumo.

A moça sorriu. Ela estava encantada por mim ainda e demorou a responder.

- Eu sou a Sra. Marshall. – uma voz saiu por trás da moça. Uma mulher mais velha apareceu, tinha o cabelo levemente grisalho e usava óculos dourados.

- Esta é minha filha, Jane.

- Olá Sra., eu me chamo Gabriel e estou a procura de informações sobre uma antiga moradora da rua que foi sua vizinha há uns dez anos atrás. Michaela Anderson.

A mulher se postou ao lado da filha, que ainda estava me olhando com cara de boba. Ela ficou visivelmente abalada quando mencionei o nome de Michaela. Ela me avaliou por um tempo.

- Conhece Michaela, Gabriel? – a mulher perguntou.

- Na verdade sim.

- Bom... eu sabia que estava viva, afinal se a casa foi vendida, só podia ser ela, já que era herdeira de Anna. – a mulher me encarou – Como ela está?

- Bom... Michaela não se lembra direito do que aconteceu naquela época, na verdade. Acho que foi o trauma de ser levada e ter perdido a mãe. Acho que foi por isso também que não retornou depois. Eu estou aqui pra tentar... conhecê-la melhor, encontrar sua família, saber de seu passado... penso que a senhora poderia me ajudar.

Ela continuou me avaliando, perspicaz, até que perguntou:

- E a troco de que você está querendo ajuda-la?

- Michaela sofre por não se lembrar de seu passado, sofre ainda com a perda de sua mãe. Eu só quero ajuda-la. Eu... posso contar com sua ajuda, Sra Marshall?

Ela ainda me encarava seriamente.

- Entre.

Sentei no sofá da confortável casa. Sra. Marshall sentou de frente pra mim enquanto Jane, sua filha, foi buscar um suco. Sobre a lareira da sala, havia diversos porta-retratos. Em um deles, identifiquei Michaela entre as crianças, ao lado de Jane.

- É Michaela? – perguntei apontando-lhe a foto.

Ela caminhou até a lareira e pegou a foto nas mãos.

- Sim. – Sra Marshall respondeu, me passando a fotografia. – Michaela era uma criança muito bonita e se tornou uma moça linda. Era muito inteligente e gentil. Ela ajudava Jane com os trabalhos da escola, as vezes.

- É... eu era mais nova, mas lembro que Michaela sempre me ajudava quando eu pedia. Da última vez, ela me ajudou a fazer uma maquete da rua.

Jane havia acabado de entrar na sala e colocou os copos com suco sobre a mesa de centro enquanto falava. Sentou-se de frente pra mim.

- Então... ela era muito querida por aqui?

- Sim, muito. – a Sra Marshall respondeu – Anna tinha muito orgulho da filha. Lembro que Michaela passou no vestibular e começou a cursar Economia no centro. Acho realmente uma pena o que aconteceu.

- E... como foi exatamente o desaparecimento dela?

- Bom... foi muito de repente. Lembro de Anna desesperada vindo até minha casa no meio da noite, dizendo que Mika tinha desaparecido.

- Mika? – perguntei sorrindo, gostei do som do apelido.

- Sim, era assim que a chamávamos. Anna disse que pediu pra Mika comprar um remédio e que não voltou pra casa. Encontramos sua bicicleta na esquina. Foi uma noite agitada. Reunimos alguns vizinhos e amigos e procuramos por todos os lugares, mas nenhum sinal de Mika pode ser encontrado. E aí, no dia seguinte, Anna foi a polícia.

- E na noite seguinte foi morta. – Jane completou.

Eu assenti e peguei o copo de suco.

- Como ela está? – Jane me perguntou.

- Bom... como eu disse, Michaela não... não se lembra de muita coisa.

- Mas ela foi sequestrada, não?

- Sim. Mas ela conseguiu sobreviver a tudo aquilo, mas acho que voltar pra casa sem a mãe, tenha sido demais. – respondi, omitindo alguns fatos.

Ficamos em silêncio por um tempo.

- Mika sempre foi tão linda e gentil... sempre me espelhei nela. – Jane falou cabisbaixa.

- Ela continua linda e... é uma pessoa muito especial. – eu falei encarando Jane.

- E você está apaixonado por ela.

Olhei espantado para a Sra. Marshall pelo o que disse.

- Ora, não se encabule, eu farejo essas coisa, meu filho. E quer saber, fico feliz que Mika tenha encontrado um homem tão disposto a ajuda-la. Foi um duro golpe que teve na vida, deve ter sofrido muito durante todos esses anos.

Eu assenti e sabia que minha afeição por Michaela era evidente demais.

- Sra. Marshall por acaso, conheceu o pai dela?

- Mark Anderson. Um homem realmente especial. – ela respondeu – Ele tinha um jeito de atrair as pessoas que era inexplicável, era magnético, sabe?

- E ele também morreu, não foi?

- Sim. Infelizmente. Foi atropelado saindo do trabalho. Era médico e vivia ajudando todo mundo. Era um homem realmente bom e encantador e eu via muito dele em Michaela.

Tomei o suco e voltei a encarar a Sra. a minha frente.

- E quanto à família dela? A Sra. tem notícias?

- Bom, a irmã de Anna, Annelisse, era a única parente. O pai, Mark, não tinha irmãos e a família se resumia a Mika, Anna e Anelisse. Sei que era casada e que teve filhos e depois do desaparecimento de Mika e da morte de Anna, ela não voltou mais aqui.

- Sabe, por acaso, onde poderia encontra-la? Tem alguma idéia?

- Bom, eu tenho um endereço antigo, mas pode não servir mais.

Então a senhora Marshall se levantou e foi até uma mesinha onde ficava o telefone. Tirou um caderninho. Enquanto ela folheava, Jane me perguntou:

- Então... é o namorado de Mika?

- Não – respondi sorrindo.

- Mas gosta dela.

- Michaela é muito importante pra mim.

Jane assentiu e percebi que ficou um pouco mais feliz. Nessa hora, a Sra Marshall voltou com um pedaço de papel e um endereço.

- Toma, é o endereço que tenho anotado, mas não sei se Annelisse ainda mora lá. É uma cidade próxima, fica há duas horas de distância de carro, aproximadamente.

- Muito obrigado, Sra. Marshall, a senhora foi de grande ajuda. Por favor, me desculpe o incômodo.

Levantei e caminhei até a porta. Jane e a mãe me acompanharam.

- Bom, espero ter ajudado Mika, de algum jeito. Eu sinto tanto que tenha ocorrido toda essa tragédia...

- Bom, vou fazer o melhor que puder para ajuda-la.

- Não quer ficar para o almoço? – Jane perguntou depois que passei pela porta.

- Agradeço, mas preciso ir agora.

A moça se decepcionou um pouco e a Sra Marshall a repreendeu discretamente. Agradeci mais uma vez e voltei pro carro. Iria almoçar e voltar para a pousada. Esta noite eu levaria Michaela para encontrar sua família.

Notas finais
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