Salvation
8 Capítulo 8
Não fiquei surpresa ao chegar em casa e me deparar com o Ser Alado sentado em meu sofá. Eram cinco da manhã e eu já estava no limite do horário. O céu começava a ficar não tão escuro e isso era perigoso pra gente como eu.
Ele se pôs de pé rapidamente, tão logo tranquei a porta principal. Não disse nada, mas ele conseguia ver as marcas em meu corpo: os braços levemente roxos, o cabelo bagunçado e duas pequenas feridas no pescoço indicavam que o plano dele tinha funcionado.
Eu tratei de fechar a casa e as cortinas.
- E então. – ele quis saber.
Meu sangue ferveu. Era como se eu estivesse trabalhando pra aquele desgraçado. Respirei fundo e falei:
- Vou me encontrar com ele amanhã a noite, novamente.
O Anjo sorriu. Babaca, se ele soubesse...
- Ótimo. Vai sozinha?
- Sim, vou ao apartamento que ele mantém alugado enquanto está na cidade.
- A que horas?
- Às quatro. Mais alguma coisa?
Eu o encarei e vi que os olhos azuis deslizaram para as feridas do meu pescoço. Foi bem estranho, mas era como se ele estivesse, sei lá, arrependido de me colocar nessa situação. Bom, até onde eu sabia, Anjos não deveriam usar outra pessoa para conseguirem o que queriam. Esse Anjo ou andava fora das leis do Paraiso ou estava fazendo um jogo diferente.
- Você quer um gole? – perguntei entortando o pescoço para melhor expor as feridas. Eram pequenas e já estavam cicatrizando. Sumiriam em questão de minutos.
- Por que ele não as fechou?
O Anjo se referia a Julius não ter cicatrizado minhas feridas. A saliva dos vampiros possuem umas substâncias antagônicas que trabalham revezando-se. Quando nos alimentamos, entram em ação os anticoagulantes, que permitem que a ferida fique aberta o tempo necessário. Quando terminamos, porém, podemos acelerar o processo de curar simplesmente lambendo o local da ferida.
Julius não havia fechado as minhas. Não, vampiros como ele sempre gostavam de mostrar os seus troféus. Ele nunca faria uma gentileza dessas comigo.
- Pouco importa, elas vão cicatrizar em breve. – respondi.
Eu voltei a encará-lo. Nós estávamos totalmente desconfortáveis com a presença um do outro. Éramos inimigos naturais, isso se eu fosse um ser da Natureza, é claro. Deveria ser, uma vez que existo, mas certamente não da mesma Natureza que o criou.
O Anjo ficou calado e voltou a sentar no sofá. Eu olhei incrédula.
- Você não vai embora? – perguntei pondo as mãos na cintura.
- Não. – ele respondeu facilmente.
- E você acha que eu vou permitir que fique em minha casa?
- É sempre uma honra ter um enviado de Deus dentro de seu lar.
- Honra é o caralho! Eu estou cansada, graças ao seu joguinho, e preciso dormir durante o dia, não vou fazê-lo se estiver aqui.
- Então fica acordada.
Eu soltei um enorme rugido e saltei em sua direção. Esse Anjo filho da puta era muito abusado. Mirei minhas mãos em seu pescoço, mas o safado era rápido também. Girou o corpo e me atingiu por trás.
Caí de pé, perto da janela, e investi mais uma vez. Consegui agarrá-lo de costas, mas ele saiu de meu abraço facilmente. O cara – Anjo – era muito mais forte do que eu esperava. Ele girou e se jogou sobre mim, me imobilizando no chão. Eu rosnava e mostrava-lhe os dentes, mas nada adiantou.
Depois de muito tempo de imobilização, meu corpo já estava pedindo para parar. Eu estava cansada, tinha tido uma noite tensa e longa, além de ter feito sexo com o maior vampiro que já vi. Foi exaustivo demais, apesar de surpreendentemente gratificante. Eu não podia enfrentar um Anjo nessas condições, ele era muito mais forte que eu.
Parei de tentar me soltar de seu aperto, embora meus dentes ainda o ameaçassem e um grunhido permanente tenha se instaurado em meu peito. O que me pareceu uma eternidade depois, o Ser Alado me soltou.
- Vou ficar aqui e não me importo se você concorda ou não com isso.
Muitos rosnados depois, eu desisti e sucumbi ao cansaço. Deixei-o lá na sala, fazendo seja lá o que os Anjos fazem quando não estão matando a minha espécie, e fui pro meu quarto sem janelas. Tive o pior dia de sono de minha vida.
Na noite seguinte, saí do quarto cautelosa e fui ao banheiro. Parei no caminho quando um cheiro maravilhosamente bom me atingiu. Caminhei em direção a sala e vi que o Anjo estava no sofá sentado, assistindo TV. Havia uma prato ao seu lado com um pedaço enorme de bolo dentro. Olhei para a mesa e havia uma caixa que dizia “Confeitaria Tyler”.
- O que é isso? – perguntei a ele, me aproximando da fonte do cheiro maravilhoso.
- Bolo de chocolate. – ele respondeu me olhando e mordendo um pedaço enorme da massa marrom.
Senti a boca salivar. Minha nossa, eu nunca mais tinha chegado perto de uma coisa dessas. Minha mente viajou no tempo e de repente eu me vi pequenininha, de pé, na cozinha de minha antiga casa. Minha mãe retirando um bolo cheiroso do forno. Era de chocolate.
Confesso que quase chorei. De fato, eu não sabia se vampiros podiam chorar porque eu nunca o fiz e tão pouco tinha visto outro fazer. Mas eu sabia, pelo menos, que podia ter vontade.
- Você quer?
A voz do Anjo me assustou, pois ele estava de pé ao meu lado e eu não tinha reparado em sua aproximação. Repreendi-me mentalmente.
Ele estava com o prato esticado em minha direção e havia metade de um grosso pedaço do bolo. Eu pude ver a massa fofinha, o recheio que me pareceu ser doce de leite e umas lascas de chocolate caídas no prato. O cheiro me atingiu mais uma vez.
- Não. – respondi secamente. Eu sabia que podia comer, mas que não seria o mesmo. Nada era igual ao que era antes, As bebidas, as comidas, nada era prazeroso assim. Somente bebíamos por diversão, o gosto de nada era muito diferente. Somente o sangue tinha sabor.
Ele voltou para seu lugar e eu senti inveja da bocada que deu no bolo. Eu, só podia ter recordações de como era o sabor real.
Eram 3:30h da manhã e eu estava andando para o endereço onde, supostamente, ficava o apartamento alugado de Julius. O Anjo andava me seguindo de longe. Durante o tempo que eu estava me arrumando, eu o vi compenetrado, rezando para seu Deus. Em outra época eu poderia me sentir totalmente um monstro por estar traindo um enviando do Senhor, mas a verdade era que eu já não me importava mais. Não acreditava Nele e tão pouco achava que poderia perder minha alma ou padecer no Inferno para todo o sempre.
Cheguei ao apartamento e toquei a campainha. A voz grossa de Julius atendeu ao primeiro toque e a tranca da porta se abriu. Eu olhei para trás na esperança de avistar o Ser Alado, mas ele já não mais podia ser visto. Eu já havia dito o número do apartamento em que Julius estaria, ele daria um jeito de entrar.
Continuando com o plano e com meu papel, subi as escadas para o encontro. A porta estava aberta e eu entrei. Ele estava sentado no sofá da bela e confortável sala de estar. O lugar era grande, mas aconchegante, estava a altura do delegado dos vampiros da região. Julius estava tranquilo, como sempre, e nós tínhamos que fingir, o Anjo estava por perto.
Conversamos sobre coisas sem importância e ele abriu uma garrafa de um bom vinho tinto. Bebemos e logo estávamos nos beijando, se bem que, na minha opinião, beijar não era um verbo apropriado para o que vampiros faziam quando queriam sexo, e isso era sempre. Somente vampiros enlaçados – apaixonados – beijavam como humanos, com ternura, suavidade, ainda que uma suavidade animal.
Não, esse tipo de coisa era raro nos da minha espécie. Conosco tudo era carnal e primitivo, intenso, doloroso. Ele começou a me despir – ou seja, rasgar minha roupa quase que totalmente. Ele arrancou os botões da minha camisa e eu fiquei apenas com a bela langerie negra. Quando ele se direcionou para a calça jeans, Julius tremeu levemente e me olhou.
- Ele está aqui. – ele disse.
De alguma maneira que eu não sabia explicar, ele podia sentir a presença do Ser Alado. Depois, tudo aconteceu numa velocidade rápida demais, até mesmo para meus olhos e reflexos apurados.
O Anjo apareceu quase que do nada na sala e empunhava sua espada em nossa direção. Ouvi um rosnado profundo e grave saindo do peito de Julius, que estava de frente para o outro, em posição de defesa. Pela primeira vez, eu vi o Ser com as asas abertas. Eram imensas e magníficas.
Ele avançou meio que pulando, meio que voando, na direção de Julius, que se defendeu. Nesse meio tempo, eu já estava colada na parede oposta à luta, o tal do instinto de preservação mais uma vez. Eu estava vendo uma batalha de gigantes e eu era menos que nada ali. Tudo em meu corpo dizia SAIR AGORA! E foi exatamente o que tentei fazer – tentei.
Quando eu rumei em direção à porta, vi que ela se abriu bruscamente. Três vampiros musculosos e sedentos entraram no apartamento e foram em direção à tensa luta que estava sendo travada. Eram quatro vampiros raivosos e poderosos contra o Anjo, que se viu perdido.
Notas finais
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