Salvation

15 Capítulo 15


Meus braços estavam cruzados na frente do rosto, bloqueando o ataque, mas se a espada de Gabriel não tivesse se chocado com a de Anariel, eu estaria morta agora.

Dei um salto para trás e aterrissei no chão em posição de ataque: o corpo dobrado, braços estendidos. Um rugido alto saiu do meu peito. Anariel era alto e forte. Tinha os cabelos castanhos bem claros, da cor dos olhos. Eles estavam parados, Gabriel entre nós e Anariel me encarando firmemente.

Ouvi Gabriel dizer algumas palavras em um idioma estranho e o outro Anjo intervinha a todo instante. Estavam praticamente discutindo. Anariel ainda apontava a espada pra mim e não desviava os olhos, mesmo falando com Gabriel. Algum tempo depois, visivelmente a contra-gosto, ele baixou a espada. Gabriel me chamou para ir até eles.

- Nem pensar. Não com ele apontando esse troço pra mim. – falei decidida.

- Não preciso disto pra te matar, Filha do Pecado. – Anariel me respondeu.

- Chega. Gostem ou não estamos juntos nessa. Anariel, Michaela precisa destruir Julius, é o único jeito dela sobreviver depois do que fez e isso nos faz ter o mesmo objetivo. Pode ser importante termos a ajuda dela.

- Gabriel, você ficou louco? Ajuda dela? É uma vampira! Não vai nos ajudar, pelo contrário, se puder nos mata!

- Não, ela não vai fazer isso porque nós somos a única chance que ela tem.

- Isso é insano! Você perdeu o juízo, irmão! Até a chama pelo nome!

- Anariel, pare! Precisamos da ajuda dela, Julius é forte demais.

Os Anjos se encararam calados por um longo tempo e eu permaneci exatamente onde estava. Anariel estava completamente pasmo com a atitude de Gabriel e não era pra menos. Eu até agora não consigo entender como fomos capazes de conviver lado a lado tanto tempo, Gabriel e eu, sem nos matarmos.

Anariel pareceu se acalmar um pouco e fez sua espada desaparecer no vazio. Eu ajeitei minha posição. Essa seria realmente uma convivência muito difícil e eu estaria morta no momento em que Gabriel virasse as costas... ou mudasse de idéia.

- Precisamos ir. – Gabriel falou – Vocês causaram muito estardalhaço e daqui a pouco pode aparecer alguém. Além disso, vai amanhecer em breve.

Ele olhou para Anariel que ainda me olhava de cara feia.

- Precisamos juntar as informações que temos, bolar um estratégia... Julius não é um inimigo fácil de ser vencido, ainda mais agora que conhece minha identidade.

- Eu ouvi histórias... mas nunca pensei que fossem reais... – Anariel parecia juntar as peças – Você está mesmo com essa vampira.

- Michaela, idiota, você já não escutou? – eu falei sem paciência.

Antes que Anariel pudesse responder, Gabriel se antecipou.

- Vamos.

Com estrema cautela, voltamos para a espelunca da pensão que Gabriel nos arrumou. Quando entramos no quarto, Anariel já estava lá, tinha entrado pela janela.

Trancamos tudo e eu pus um cobertor na janela, como Gabriel tinha feito outro dia. Anariel e eu mantivemos a máxima distância possível e eu estava totalmente em alerta.

- Como vieram parar aqui? – o outro anjo perguntou.

- Tivemos que fugir de Julius depois... depois que uma emboscada minha não deu certo. Ele quase me matou, Anariel, e só estou aqui porque Michaela me salvou.

O Anjo pareceu não acreditar no que ouvia.

- E a troco de que você o salvou, vampira?

- Na verdade, essa é uma boa pergunta. – respondi sentando-me na beirada da cama.

- Eu não acredito nisso. – ele disse balançando a cabeça.

- Acredite no que quiser, querido, mas saiba que foi assim. E quer saber? Não acho que precisemos de você, podemos lidar com Julius nós mesmos. – eu disse cruzando as pernas.

- Você sabe que não, Michaela, não podemos fazer sozinhos, não com Julius esperando por isso.- Gabriel falou, exaltado.

- E você pensa em que? Elemento surpresa?

- Talvez.

Houve silêncio, que foi quebrado por Gabriel.

- Preciso que me diga como é a região, quais os perigos.

Anariel levantou e foi até Gabriel, que estava sentado em uma cadeira velha perto da janela.

- Tem certeza do que está fazendo? Ela pode nos trair e contar tudo a eles, já pensou nisso?

Gabriel e eu nos entreolhamos. Anariel não fazia idéia que eu já tinha feito exatamente isso. Mas ele também não fazia idéia do que tinha acontecido depois. Ele respirou fundo e encarou o outro Anjo, que estava de pé ao seu lado.

- Ela não vai fazer, eu garanto.

Anariel sacudiu a cabeça lentamente, em negativa, antes de prosseguir. Ele contou como andava a região e disse que muita coisa tinha mudado há mais ou menos seis dias atrás, quando os boatos começaram. Ele disse que haviam ordens expressas para encontrar a vampira ruiva e o Anjo, que possivelmente estariam juntos, mas que a maioria não acreditava nisso, na verdade, nem ele mesmo acreditava, até me ver com Gabriel.

Anariel já era antigo na região e estava tendo dificuldade em acabar com os vampiros da área. Ele explicou que a soberania de Julius era absoluta e bem estruturada. Ele mantinha vampiros muito bem treinados rondando a cidade para a proteção da espécie. Todos os esforços de se aproximar do vampiro, tinham sido frustradas.

Gabriel contou como se livrou de Soxx, numa história que eu fiquei interessada em ouvir, e disse que conseguiu chegar perto de Julius, através de mim. Ele omitiu a parte em que eu o traí e sabia que se contasse, Anariel partira pra cima de mim.

Eles, então começaram a bolar planos para tentar alcançar Julius. Teria que ser bem planejado e a idéia era não chamar a atenção para eles. Assim, as atividades de caça aos vampiros civis estavam suspensas, para que Julius não percebesse nada. Eles iriam monitorar os vampiros próximos a Julius, mas que não possuíam a segurança do chefe. A idéia era armar uma emboscada e pegá-lo desprevenido.

Passaríamos os próximos dias apenas monitorando, até achar a oportunidade certa para atacar. Com Julius morto, haverá um caos certo entre a comunidade vampírica e essa seria a oportunidade perfeita para eu fugir e os anjos exterminarem o máximo de inimigos possíveis.

O sol devia estar bem alto no céu quando a conversa diminuiu. Eles haviam traçado um plano bom e só o que precisávamos era descobrir informações sobre o nosso alvo: Julius. Anariel disse que o vampiro possuía seguranças humanos que vigiavam tudo durante o dia. É claro que eles não sabiam que trabalhavam para um vampiro e também é claro que os anjos não matariam os humanos pra chegarem a Julius. Assim teríamos mesmo que conseguir informações durante o dia e agir sob a luz da Lua.

Não consegui dormir. Anariel e Gabriel saíram por volta de uma da tarde para recolher informações e eu fiquei, mas não descansei. Minha mente rodopiava e meu corpo estava agitado. Esse novo Anjo não estava gostando mais de trabalhar comigo do que eu com ele e eu não conseguia parar de pensar em como seria depois que conseguíssemos acabar com Julius – se é que conseguiríamos. Eu sabia que Anariel me mataria na primeira oportunidade, mas e Gabriel, faria o mesmo?

Assim que o sol se pôs eu tomei um banho e assim que terminei de me vestir, eles chegaram. Gabriel trazia várias bolsas e sacolas e me entregou duas delas.

- O que é isso? – perguntei a ele pegando as sacolas.

Gabriel não respondeu, mas se aproximou de mim e disse:

- Michaela, Anariel me deu a palavra dele de que não vai te fazer mal enquanto estivermos nessa missão. Eu preciso que faça o mesmo.

- O que?

- Preciso que me prometa que não vai tentar nada contra ele.

Franzi a testa. Mais que idéia idiota a dele de me faze prometer uma coisa dessas.

- Michaela, prometa.

A voz dele era exigente e eu apenas fiquei olhando para aquele azul profundo que eram seus olhos. Por que ele estava fazendo isso? Por que estava confiando em mim novamente, confiando que minha palavra seria cumprida? Eu lembrei do que senti quando vi que Julius iria mata-lo, lembrei da oportunidade que tive no beco, quando nos conhecemos. Lembrei de como ele me salvou e do gosto incrível de seu sangue divino.

- Prometo. – respondi ainda encarando-o de perto.

Ele sorriu rapidamente, satisfeito, e acenou uma vez. Ainda ficamos nos olhando e eu tenho certeza que ele estava se perguntando se estava fazendo a coisa certa. No lugar dele, era exatamente o que eu estaria pensando.

- Vamos logo. – a voz de Anariel nos fez voltar a realidade, realidade que ficava distante e sem importância sempre que eu me perdia no perigoso azul profundo.

- E então, o que é isso? – perguntei no mesmo tom atrevido de antes, levantando as sacolas que Gabriel havia me dado.

- Vamos sair. – ele respondeu enquanto me mandava um último olhar antes de virar.

Notas finais
E ai, vamos sair????