Salvation

11 Capítulo 11


Voamos por horas e eu tentei nos levar o mais longe possível do centro da guerra. Eu sabia que lá devia estar uma loucura com todos os vampiros procurando por nós. Em minha cabeça ainda rodavam imagens da emboscada e de como Michaela de repente pareceu se arrepender e me ajudar.

OK, antes de tudo isso acontecer eu até podia achar que ela tinha se arrependido, mas conhecendo-a melhor agora, acho que deve ter um plano por trás de tudo. Eu não sei o porquê, mas por algum motivo ela me poupou a vida. Duas vezes. E era esse motivo misterioso que me fazia não mata-la e fazer a maior loucura de todas trazendo-a comigo.

Eu não tinha dúvida sobre a lealdade dela. Tinha certeza de que ela me trairia novamente, se pudesse se safar. Mas ela é uma vampira, o que mais eu podia esperar? Foi muito ingenuidade minha acreditar que ela não o faria da primeira vez. Eu sinceramente achava que ela estava encurralada e que por medo, me ajudaria. Ou, pelo menos, que não teria a audácia de me trair em um nível tão baixo, mas ela o fez.

Pelos meus cálculos, faltava apenas uma hora para o nascer do dia e já estávamos centenas de quilômetros distantes do nosso ponto de origem. Eu comecei a procurar um lugar deserto para descermos e logo teríamos que achar um lugar pra passar o dia.

- Onde estamos? – ela me perguntou assim que percebeu que eu reduzi a velocidade e que estávamos descendo.

- Longe o suficiente. – respondi secamente.

Ela não pesava em meus braços. Na verdade, poderia carrega-la por horas, mas sua proximidade me incomodava bastante. Eu estava tenso tanto porque achava que ela voaria em minha artéria a qualquer segundo, quanto por perceber que o corpo dela estava apertado junto ao meu. Era inconveniente, mas eu também tive que me concentrar pra não demonstrar o quanto estava afetado por ela.

Aterrissamos na calçada, perto de um beco. A rua estava totalmente deserta e fazia frio. Andamos em silêncio por algum tempo, a procura de um pequeno hotel ou pensão. Encontramos uma logo depois.

O recepcionista acordou quando entramos na estalagem.

- Bom dia. – eu disse sorrindo – Gostaríamos de um quarto, por favor.

O rapaz não respondeu. Ele estava com os olhos vidrados olhando para Michaela, que sorria maliciosa. Droga, ela iria me dar trabalho.

- Com licença... – tentei mais uma vez.

O cara sacudiu a cabeça, tentando desviar o olhar da vampira, mas era difícil pro humano.

- Será que podia nos reservar um quarto, meu docinho? – ela falou se aproximando lentamente do rapaz, que eu jurava não ter piscado nem uma vez sequer.

- S-sim, claro. – ele finalmente falou.

Enquanto o cara procurava, trêmulo, as chaves de um dos quartos e nos empurrava duas fichas para preenchermos, eu observei que ela olhava atentamente o pescoço do rapaz.

Preenchemos as fichas e pegamos a chave do quarto número três. Tive a impressão de que o pobre rapaz ia ter um infarto quando ela lhe agradeceu com uma piscada de um olho só.

- Nem pense em se aproximar dele. – eu falei enquanto abria a porta do quarto.

- Mas eu não preciso ir até ele...

Dizendo isso ela passou por mim e entrou no aposento. Era pequeno e modesto, mas serviria. Tinha apenas o quarto, com uma cama e móveis simples e um pequeno banheiro.

- Eu achei que você me levaria pra um lugar melhor na nossa primeira noite, Anjo.

Ela falou sentando-se na cama.

Não respondi, tranquei a porta e verifiquei que não havia janela no banheiro. Fechei as cortinas do quarto.

- Não vão servir. – ela disse – são muito finas, não bloqueiam totalmente a luz.

Eu olhei em volta e peguei o grosso cobertor que havia sobre a cama. Estendi-o na janela, cobrindo-a totalmente.

- Melhor? – perguntei com um sorriso irônico.

- Muito. – ela disse sorrindo felinamente.

Ficamos um tempo em silêncio, nos encarando. Seria uma noite difícil. Ela passeou os olhos verdes pelo meu corpo e se deteve nas tatuagens do meu braço, que a camiseta deixava transparecer.

- O que significam? – ela quis saber.

- São símbolos sagrados, orações na língua antiga, sinais... várias coisas.

Meu olho se prendeu a ela firmemente. Ela me avaliava e eu percebi que havia luxúria em seu olhar. Falei rapidamente:

- É melhor dormir. Viajaremos mais amanhã à noite.

- Por que confiou em mim?

Ela fez a pergunta me encarando, ignorando totalmente o que eu tinha dito.

- Todos merecem um voto de confiança. Confiei em você.

- E agora não confia mais?

- Não.

Ela riu.

- Esperto, Gabriel.

Uma parte de mim – a insana e destrutiva – gostou de ouvir meu nome pronunciado por ela. Tratei de mudar de assunto.

- Por que me salvou... de novo?

- Eu não sei. – ela disse levantando-se.

- Não sabe?

- Não. Se fosse por mim você estaria morto e minha vida estaria tranquila novamente.

- Você fala de um jeito como se suas atitudes não dependessem de você.

- E não dependem. Quer dizer... naquele momento com Julius e também no beco, não dependeram de mim. Eu já disse, não sei por que poupei você.

Nos escaramos novamente em silêncio até que eu disse:

- O cheiro do chocolate te faz lembrar do passado?

Ela pareceu surpresa com a pergunta, mas eu tinha reparado bem na expressão dela ao sentir o cheiro do bolo e do chocolate quente na casa de Bentley.

- Meu passado não interessa, está morto.

- Mas isso não significa que não se lembre dele, não é?

Eu senti que minha pergunta a incomodou, mas ela fingiu que não. Michaela sempre escondia muito bem o que sentia, mas não conseguia esconder tudo. Ela se levantou devagar, ainda me olhando diretamente.

- Vou tomar um banho, me acompanha?

Dizendo isso ela tirou a blusa que Bentley cedeu e retirou depois a calça jeans, ficando apenas de langerie. Passou as mãos pelo belo cabelo vermelho e as deixou deslizar pelo corpo curvilíneo. Meus olhos se prenderam a ela e eu achei que nunca tinha visto mulher tão bela, bom, fêmea...

Sorrindo, ela virou e foi até o banheiro, dizendo antes de encostar a porta:

- Se mudar de idéia...

Soltei o ar apenas quando ela saiu de vista. Droga, essa seria uma prova de resistência ao meu fraco corpo humano. Sentei na cama e respirei fundo algumas vezes antes de orar ao meu Pai. Precisaria de força e perseverança para cumprir esta missão.

Saímos da pensão na noite seguinte. Pra variar Michaela não aderiu a minha sugestão de pintar os cabelos, mesmo sabendo que era facilmente reconhecida na rua. Vestimos as roupas novas e ainda compramos mais algumas mudas na cidade.

Meu plano era tentar encontrar Anariel, outro anjo que estava em missão. Precisava de ajuda com Julius, a melhor chance que eu tinha era de voltar com outros ao meu lado. Havia apenas duas coisas desconfortáveis no meu plano: a primeira era que Anariel, até onde eu sabia, estava trabalhando em uma das regiões de maior concentração de vampiros, e eu sabia agora que o delegado da área era justamente o vampiro Julius; a segunda era em relação a reação de Anariel com Michaela. Seria difícil, muito difícil mantê-la viva perto dele.

Notas finais
Reviews???