Salva por um tritão
1 Capítulo único
Notas iniciais
bjs
Era março, inverno e as águas de março já mostravam sua força. Eu viajava com minha mãe e meus irmãos, para passar o fim de semana numa praia quase deserta. A viagem era de curta duração, mas a travessia do rio para a baía era um inferno de Dante! E para iniciantes como eu, as histórias davam arrepios...
Não consegui convencer minha mãe a mudar o lugar do passeio, embora contrariada e com medo tive que ir e não sei se por azar ou sorte, sentei ao lado de uma senhora de idade avançada, ela dizia seguir para a praia da princesa, que ficava ao lado oposto da praia para onde iríamos. Percebendo meu nervosismo diante da situação vivida a senhora começou a puxar conversa
- É a primeira vez que você vai a Ilha encantada?
- Sim.
- Hum... Olhe, o povo inventa muitas conversas sobre o lugar, mas eu vou lhe contar uma história de verdade, que eu vi com meus próprios olhos!
Desacreditei um pouco na pobre senhora, já devia estar caduca ou talvez dissesse aquilo para me distrair do pavor que sentia no balanço agitado do barco, mas como que percebendo minha incredulidade a senhora olhou bem nos meus olhos e disse nos meus ouvidos:
- Duvida de mim, não minha jovem? Pois bem, vou lhe contar mesmo assim, preste atenção!
Quando eu era mais jovem morava com meus pais em frente à praia que você vai, sempre mamãe me alertava de não ir para a beira em noites claras, eu perguntava o porquê, mas mamãe era dura e apenas dizia para não ir se tinha amor à vida. Mas você sabe como criança é curiosa e não resistindo a curiosidade um dia decidi que iria ver o que havia lá em noites claras.
Esperei todos em casa dormir e saí de fininho para a beira da praia, passava da meia noite, confesso que senti um pouco de medo, mas estava tão ansiosa com a ideia de descobrir o que havia lá na praia e me colocava em risco. Cheguei à beira e me sentei na areia, fiquei encantada com a beleza do lugar, a praia estava toda iluminada pela luz da lua, a água salgada parecia feita de prata, tudo parecia calmo, o barulho das ondas indo e vindo...
Ficou assim na mais perfeita harmonia por cerca de uma hora, até que eu me levantei convencida de que nada havia ali e caminhava em direção de casa. Foi quando eu olhei pra água e lá no horizonte, perto dos bancos de areia e das pedras algo me olhava, parecia tão distante e eu não conseguia identificar, não senti medo, apenas curiosidade de saber o que era aquele brilho verde que me olhava de longe.
Virei as costas e quis correr, mas um encanto poderoso me prendia no chão e ao mesmo tempo me arrastava para o mar, eu queria ir lá, queria ver o que era. Segui até a beira da água, molhando meus pés e olhando fixamente para o horizonte e percebi que o brilho verde havia sumido, mas comecei a escutar uma voz, não falada, eu a escutava no pensamento...
A voz era tão suave, mas forte com um trovão e falava bem devagar, perguntava se poderia aproximar mais, se eu não teria medo. Nesse instante meu coração disparou e eu tive medo, mas disse sim.
A criatura se aproximou rapidamente e eu aterrorizada pude ver, era metade homem, metade peixe, não sei como o chamam, mas eu o vi e era a criatura mais linda que já havia visto depois que ele chegou perto e sorriu como se me cobrisse de pétalas de flores, eu desmaiei.
Lembro-me de acordar na minha pequena cama achando ter sido um sonho, mas não foi! Lembrei-me de tudo o que aconteceu e de cada detalhe do corpo da criatura, tinha os olhos mais verdes que eu já vi, era de um moreno bronzeado, cabelos compridos e negros, as escamas da cauda eram azuis e verdes e brilhavam muito. Eu queria ter conversado com ele, eu sei que era “ele”! Mas depois eu nunca mais o vi e achei melhor guardar a lembrança só pra mim, pois poderiam me achar louca não é?
Respondi qualquer coisa a senhora, era inacreditável a história, seria possível encontrar um tritão, se eles não existem? A senhora chegou ao seu destino e logo após eu e minha família. A travessia tinha sido difícil, porém a conversa até que tinha sido boa! Eu não teria medo se visse um tritão, acho até que conversaria com ele, a menos que ele quisesse me fazer mal...
Realmente o lugar era mágico, havia um ou outro habitante na beira da praia, a barraca em que ficaríamos estava bem de frente para o mar, a vista era uma das belas que já vi. Os dias se seguiram de forma tranquila, nenhum tritão havia aparecido já me considerava louca ao imaginar que existiam tritões e que ali eu poderia vê-los...
No último dia em que ficaríamos na praia, era por coincidência o último dia de lua cheia, decidi que ficaria andando pelas dunas e aproveitando a luz da lua para passear. O mar estava calmo, mas se enganava quem entrava em suas águas, tão salgadas quanto perigosas, as ondas eram muito fortes como o vento e poderiam levar longe.
Eu nadava bem, queria me despedir de forma inesquecível daquele mar de beleza, me aproximei da beira da água e tirei a roupa, a água estava quentinha e as ondas envolventes, nadei por um tempo que nem sequer prestei atenção, ia de uma ponta a outra das pedras que ficavam próximas à margem. Sem perceber acabei me afastando um pouco da beira e quando dei por mim a barraca havia sumido de vista e eu perdido o meu rumo, pra onde ir?
Só havia água e bancos de areia e pedra ao meu redor, procurei desesperadamente por onde voltar, mas nada encontrava e a margem parecia distante. De repente, descuidada machuquei o pé numa pedra e o sangue gotejava onde o corte havia sido feito.
Não tinha percebido que corria um sério risco de vida até ver uma nadadeira pontiaguda vir em minha direção, era enorme e quando o tubarão botou a cabeça pra fora eu nunca senti tanto medo em toda minha vida! Subi na primeira pedra que vi e percebi o rastro que o meu sangue havia deixado e entendi a violência do animal.
Como estava sangrando e sem roupa alguma o frio bateu forte e comecei a tremer, a pedra era estreita e temi por minha vida ali naquele instante, eu iria cair a qualquer momento e seria devorada pelo tubarão, que faminto me espreitava embaixo da pedra, não havia como fugir...
O frio e o medo me tiravam as forças, eu não conseguia mais resistir...
Caí na água e desmaiei de tanto medo que senti, o que se passou entre cair da pedra e ir parar na beira da água e perto da barraca é um mistério, talvez não consiga desvendar, mas o que eu vi tocando meu pé e fechando o corte sangrento me deixou confusa e ao mesmo tempo incrédula! Sim! Era a mesma criatura descrita pela velha senhora, então eles existiam e este salvou a minha vida!
Quando ele terminou de fazer o “curativo” no meu pé não me deu tempo de fazer pergunta alguma, só disse em meus pensamentos:
- Tome mais cuidado ao nadar próximo das pedras, os tubarões sempre estão por perto, eu não.
- Obrigada por me salvar a vida! Eu nem sei o que di...
Foi então que eu me lembrei de estar sem uma peça de roupa...
- Ai meu Deus! Que vergonha!
Cobri meu corpo instintivamente e ele sorriu meio sem graça e disse:
- Você é mais linda que qualquer sereia do mundo! Mas eu não olhei com outros olhos pra você, acredite em mim! Eu só pensei em salvá-la do predador que queria lhe devorar...
- Além de lindo, misterioso e ser místico, é gentil? Você é mais perfeito do que qualquer homem do mundo...
- Eu a vi esses dias e fiquei preso a esse lugar, não consegui me afastar, mas não conseguia chegar perto...
- Você já apareceu pra outras pessoas?
-Não. Você é a primeira, meu pai sim... Eu sou fruto do amor de um tritão e uma humana...
- O quê???
- Sim, eu sou literalmente meio humano meio tritão. Meus pais se conheceram aqui e aqui viveram um amor tão bonito...
- Mas como é possível? Não consigo compreender...
- um tritão jamais deve se aproximar dos humanos e nem por sua vida deve se apaixonar por um. Meu pai descobriu um jeito de ser humano durante o dia para ter uma vida quase normal com minha mãe e por muito tempo foram felizes.
- Foram? Morreram?
- Sim, quando meu pai decidiu ser meio humano perdeu sua imortalidade e passou a viver como mortal, apenas sendo tritão durante a noite. Quando eu nasci era totalmente humano, mas no primeiro ano vieram as transformações e no terceiro ano de vida eu me tornei um tritão inteiro, mas meu coração, minha alma é humana, como minha mãe. Eles me amaram muito, mas morreram juntos tentando me ensinar a vida como eu teria que levar...
- Eu sinto muito...
- Tudo bem... Seu nome é Dulce não é?
- Como você sabe?
- Eu ouço bem...
- E o seu?
- Marino.
A essa altura ele já havia ido buscar minhas roupas e me vesti, mas o dia amanhecia e teria que ir embora, sem saber o que dizer eu só queria abraçá-lo, sim! Apaixonei-me por um tritão, mas aquele amor era impossível. Chorando ao descobrir a verdade abracei Marino com toda minha força e o beijei com todo amor que tinha em meu peito, ele salvara minha vida, tinha sido um cavalheiro diante da minha nudez e era meio humano...
Mas o amor era impossível, então meio que me despedi e perguntei a Marino o que fazia um tritão se tornar humano para sempre, ele respondeu:
- As lágrimas de uma dor verdadeira e o beijo de um amor puro vindo de uma alma inocente e bondosa...
Não demorei muito a entender o que Marino queria me dizer, quando voltei das férias da faculdade todas as garotas comentavam sobre um rapaz que chegou há pouco e era o mais lindo de toda a face da terra, eu não entendia o porquê de tanto burburinho e caminhei até minha sala, de repente senti um cheiro de mar, de brisa salgada e ouvi um sussurro no ouvido que dizia o mesmo verso que Marino me dissera antes de nos despedir-mos:
- “O mar sempre traz de volta aqueles que amamos, seja em lembranças, seja em carne”.
Virei e dei de cara com Marino, mais lindo do que nunca! Seus olhos verdes transbordavam amor e carinho, não pensei duas vezes, puxei-o junto a mim e o beijei até perder o fôlego...
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