Salva pelo inimigo
10 Capítulo nove
Uns dias se passaram e fazíamos a mesma coisa. A noite entrava no quarto de Théo e ficávamos conversando um tempo para os outros acharem que ele estava me “usando”. Frank estava demais da conta! Estressado e arrogante até mesmo com Mark. Talvez ele não esteja conseguindo o dinheiro e está frustrado. Espero que seja isso mesmo, assim fico mais aliviada de que ele não vai conseguir e eu vou finalmente sair daqui.
Estava ao lado de fora pegando um sol. Hoje ele estava delicioso e as flores de Eduardo estavam com um cheiro tão gostoso. Olho para a porta de trás da casa e vejo que Théo está me observando. Eu não entendo como ele consegue ficar tanto tempo exposto assim. Tudo bem que o sol não está diretamente em cima dele, mas reflete no azulejo. Ele sorri ao perceber que estava olhando pra ele. Balanço a cabeça e desvio o olhar ao notar que sorri de volta. O que estou fazendo? Continuo sentada no chão no meio das flores, mas sem olhar para Théo. Brincava com a terra. Escuto um barulho e procuro o que foi, porém não encontro. Dou de ombros e estico as pernas que estavam dobradas, apoio as mãos no chão pra trás e deito um pouco o corpo. Fecho os olhos e relaxo sentindo o sol em minha pele. Se Eduardo me visse agora ia surtar...
Sinto uma dor forte na mão e puxo ela pra mais perto. Tinha dois furinhos perto do dedo mindinho. Que isso? Procuro ao redor e vejo uma cobra. Arregalo os olhos e levanto em um salto. Corro de volta pra casa e quando chego na cozinha tropeço no meu pé. Théo me segura e não deixa que eu caia no chão. Já estava me sentindo bem tonta.
— O que foi? – mostro a mão a ele, pois não conseguia falar. Estava com dificuldade para respirar. — Qual era a cobra? – aperto os braços dele com força. Como vou saber qual era a droga da cobra?
— O que está acontecendo? – Mark aparece na cozinha e me olha. Logo fica sério ao ver que estou nos braços de Théo.
— Uma cobra picou ela.
Mark se aproxima e pega minha mão olhando de perto. É impressão minha ou está tudo girando?
— Temos que tirar o veneno – ouço a voz de Théo. Parece nervoso...
— Você sabe que se começar não vai parar, não é? – esse era Mark. Com certeza Mark ele não vai parar. Frank diz que meu sangue é muito bom.
— Vai deixar ela morrer então? – meus pés! Onde estão meus pés? Sinto o braço gelado de Théo me segurar mais forte.
Escuto passos e tento ver quem é, mas já não enxergo, está tudo embaçado e eu só penso em uma coisa... Liberdade.
†††
Abro os olhos e sinto todo o meu corpo dolorido. O que aconteceu? Olho ao redor e dou de cara com Théo sentado ao meu lado. Tinha o semblante sério. Tento levantar e ele me segura.
— Deita ai – obedeço, até porque não tenho forças mesmo.
— O que aconteceu?
— Achei que você ia morrer.
— Bom... Por que não morri?
— Porque tirei o veneno de você.
— E conseguiu parar?
— Sim.
— Como? — ele suspira.
— Não foi tão fácil... Mas quando percebi que não tinha mais veneno me afastei de você e fiquei longe por um tempo.
— Esse é seu quarto? – olho ao redor.
— É sim.
— Por que estou aqui?
— Não quero que ninguém te faça mal.
— Fariam algo comigo assim?
— Não duvide disso. Frank está sem você a dias e não duvido que se aproveitaria desse momento – gemo em resposta. – Como está se sentindo?
— Dolorida – resmungo.
— Eu não posso ver isso, mas acho que está com febre...
— Ótimo!
— Vou sair e comprar remédio para você.
— Mas ainda tem sol.
— Está mais fraco agora.
— Melhor ir à noite – ele sorri.
— Está preocupada comigo?
— Só estou dizendo isso porque sentir dor é muito ruim. Queimar é pior ainda... – digo sem olhá-lo.
— Como eu disse, estou acostumado e sei o tempo para sair do sol – aceno com a cabeça. Eu estou preocupada com ele? – Vou trancar a porta.
— Que tipo de vampiro você é Théo?
— Como assim?
— Sair no meio do sol para comprar remédios para uma mísera humana...
— Quer ficar sentindo dor?
— Você é vampiro mesmo? – vejo que sorri.
— É claro que sou. Como seria gelado assim se não fosse?
— É... Você é muito esquisito Théo – ele dá uma gargalhada agora.
— Não tente levantar daí.
— E se eu quiser ir ao banheiro?
— Espere eu voltar.
— Até parece que vou fazer algo com você olhando – Théo ri.
— Te ajudaria a ir até lá Sofia.
— Tá bom.
— Quer ir?
— Não.
— Então vou buscar remédio para você.
— Obrigada – ele sorri quando falo isso. Antes de sair do quarto se aproximou e deu um beijo demorado na minha testa. Depois saiu sem me olhar.
Que esquisito.
Passou um tempo que Théo saiu para comprar remédio pra mim. Esperava deitada na cama. Agora estava com vontade de ir ao banheiro e ele estava demorando. Será que não consigo levantar e ir? Sento na cama vejo e tudo rodar. Melhor esperar mesmo...
A maçaneta da porta faz barulho. Devia ser finalmente Théo para me ajudar a ir ao bendito banheiro! Percebo que a maçaneta mexe muito e começo a entrar em pânico. Théo não ficaria tentando abrir assim, pois tem a chave! Em poucos segundos vejo a porta voar e bater na outra parede. Me encolho na cama ao ver Frank. Me encarava de um jeito assustador...
— Você está péssima!
— Obrigada – digo cínica. Ele sorri de lado e isso não é bom sinal...
— Estava com saudade da sua boca nervosa.
— Hum... – resmungo e ele cruza os braços, mas continua sorrindo. – Não podia bater? – pergunto debochada.
— Sei que não pode levantar daí – se aproxima da cama e eu engulo em seco. – E também sei que seu namoradinho não deixaria eu entrar se pedisse. Então vi que saiu e aproveitei para te visitar.
— Acho que isso não vai deixar ele feliz – aponto para a porta que estava em pedaços no chão.
— E você acha que eu ligo pra isso? – senta na cama ao meu lado. Cadê você Théo?
— Tenho certeza que não.
— Exato!
Fico em silencio olhando minhas mãos. O que será que ele quer? Minha tortura nunca acaba?
— Estou sentindo sua falta Sofia – desliza o dedo no meu pescoço lentamente. – Quando será que esse cara vai embora para gente se divertir?
— A gente? – pergunto carrancuda e ele sorri largamente.
— Eu me divertir.
— Ótima correção.
— Não finja que não gosta. Depois de tantos anos convivendo com a gente você já acostumou – aproxima a boca da minha orelha e todos os músculos do meu corpo ficam rígidos. — E gosta de ser nossa – sussurra.
— Isso é o que você pensa – Frank dá uma risada.
— Prefere só esse Théo? – pergunta com acidez.
— Prefiro ficar livre.
— Isso não vai acontecer. Nem se ele realmente te levar como pagamento. Se já está te usando aqui todos os dias, imagina quando te levar? Vai acabar com você em pouco tempo Sofia.
Fico em silencio encarando o teto. Ele não sabe que Théo não faz nada comigo nos dias que venho até o quarto dele, mas pensar sobre o depois daqui sempre me assusta. Isso porque não faço ideia do que vai ser de mim assim que colocar os pés fora dessa mansão.
Não sei se meus pais estão na mesma casa ou se mudaram depois que eu sumi. Eles não me contam o que aconteceu e se aconteceu alguma coisa... Quem sabe ainda estão na mesma casa e esperam que eu volte um dia? Mas como poderia ficar nessa mesma casa sabendo o que tem perto de mim? Eles poderiam me achar e trazer pra cá de novo facilmente. Não posso voltar pra casa dos meus pais...
Aperto as mãos com força ao sentir a boca gelada de Frank em meu pescoço. Essa não! Mesmo sem forças e debilitada ele não vai me dar folga... E Théo não está aqui para evitar isso! Frank dá beijos vorazes em meu pescoço e faz a mesma coisa que Théo fez no primeiro dia que entrei em seu quarto. Só que muito mais forte. Aperto os lábios com força para não gritar. A mão dele desliza pela minha barriga puxando minha blusa e a deixando de fora.
— Frank... Eu não tenho força...
— Não tem problema – fecho os olhos fortemente. Não adianta tentar negociar com ele. Não está nem ai, só quer saber dele, sempre foi assim.
— O que você pensa que está fazendo? – abro os olhos ao ouvir essa pergunta. Frank se afasta de mim e encara a porta do quarto.
Fica um grande silencio em quanto ele não desgruda os olhos de Théo. Os dois tinham um semblante assustador. Tanto Frank como Théo estavam me dando medo agora...
— Qual parte do nosso acordo você não entendeu? – Théo pergunta seco. É a primeira vez que vejo ele falar dessa forma. Sempre falava com calma e manso.
— Você disse que enquanto estivesse na casa, eu não poderia tocar nela e você não estava na casa até agora – fala debochado e vejo Théo fechar os punhos.
— Sai do meu quarto agora!
— Nossa que mandão – vira os olhos em deboche.
— Aliás, não saia! Como quebrou a porta, eu vou para o seu quarto agora.
Os dois ficam em silencio se encarando. Minha nossa! Estou vendo a hora deles começarem uma luta corporal aqui dentro! Isso não vai ser nada bom... Com a fúria estampada no rosto de ambos, acho que vai ser difícil separar a briga.
— Você não pode tomar o meu quarto!
— E você não podia entrar aqui sem minha permissão.
— Quem você acha que é para entrar aqui e mandar em todos? – levanta da cama com fúria.
— Não ficaria tão cheio de si assim Frank. Você ainda não me deu o dinheiro e os dias estão passando.
Frank rosna de raiva, os dentes todos à mostra. Théo está com seu semblante calmo novamente. Ainda bem! Já estava começando a ficar com medo dele também...
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