— Como assim seu jeito?

— Quer ser livre ou não?

— Livre como?

— Sair desse lugar e não ter que ficar com eles.

— E ficar com você? – o homem ri levemente.

— Você sempre foi assim ou ficou depois de virar escrava?

— Sempre fui assim e por esse maldito jeito que eles gostam tanto de mim – reclamo carrancuda. Não dá para ver direito, mas acho que ele sorriu quando falei isso.

— Vou voltar pra lá. Não conte a eles que sei de você. Eu não vou dizer.

— Tudo bem. E você vai ficar aqui muito tempo? Porque ficar aqui na tumba não é nada agradável.

— Vou ficar o tempo que for necessário.

— Maravilha! – digo sarcástica e ele ri.

— Tenho que ir – se afasta um pouco e eu respiro aliviada. Acho que ele percebeu isso, mas eu não estou nem ai. – Qual o seu nome?

— Sofia.

— Está nessa casa a quanto tempo Sofia?

— Dois anos.

— Ok. Nos veremos em breve.

— Espero que seja um encontro agradável... – Théo ri e se aproxima de mim de novo. Droga! Por que não seguro minha maldita boca?

— Acredito que será – sinto seu dedo gelado correr pela minha bochecha e depois meu cabelo ser colocado atrás da orelha.

Fiquei paralisada e ele se afastou passando pela porta e fazendo tudo ficar escuro de novo.

Passou algum tempo e então a porta se abriu, era Mark com comida. Já estava passando mal de fome.

— Aleluia!

— Não deu para vir antes.

— Quando vai acabar esse castigo?

— Não é bem um castigo...

— Pra você não, mas pra mim é sim.

— Ele não vai embora tão cedo Sofia, melhor se acostumar com os defuntos – viro os olhos.

— Eu não posso ficar aqui! Não tem banheiro! Quantas vezes tenho que falar isso? – pergunto histérica.

— Sofia eu preciso pensar no que fazer com você.

— Não pode contar a ele que eu existo e dizer que não sou comida dele?

— Não tenho certeza se vai respeitar que não te beba – respiro fundo. Se pudesse falava que ele não vai me beber!

— Pense logo então! Não quero ficar aqui!

— Tudo bem, vou dar um jeito. Talvez no porão – viro os olhos. Não sei o que é pior.

— Lá também não tem banheiro! Que droga!

— Você está muito estressada sabia? – se aproxima de mim. Me encolho no colchão.

— Se estivesse no meu lugar também estaria – resmungo baixo.

— Talvez eu possa resolver o seu estresse... – desliza a mão no meu braço.

— Vai me tirar daqui agora?

— Melhor...

— Hoje não é terça – digo sem esperança de que não me tocasse.

— Mas você está estressada.

— Só que isso não vai me ajudar, ainda mais nesse lugar sujo.

— Tudo bem. Vou arrumar um lugar pra você com banheiro e ai sim resolvo seu estresse – suspiro em alivio e escuto a risada dele. – Volto quando estiver tudo pronto.

— Tudo bem.

Mark sai dali e eu me jogo no colchão. Ainda bem que ele levou em consideração o que eu disse, se fosse Frank faria mesmo assim e nem se importaria com o local, pra ele no esgoto está valendo...

Depois de comer o que ele trouxe deitei no colchão de novo e fiquei encarando a escuridão. Será que aquele vampiro vai mesmo me ajudar? Se não for, o que quer comigo? Só falta ele dizer que vai me ajudar e me levar para outra mansão com outros sanguessugas para dormir com eles! E pior! Mais vampiros ainda.

É certo confiar em um vampiro?

†††

Acordo com algo fazendo cosquinha na minha bochecha. Quando abro os olhos, quase caio de cima do túmulo. A cosquinha foi feita por um cara. Imagino que seja o Théo. Como agora estava de dia eu pude ver como ele era. Alto e forte, olhos azuis, cabelo curto, rosto impecavelmente barbeado. Tinha os lábios perfeitamente desenhados. Por que estou olhando isso? Ele parecia ser mais jovem que os moradores daqui.

— Que susto! – reclamo e sento no colchão. Ele estava me encarando sem piscar e já estava começando a me incomodar... – Como veio até aqui? O sol não te queimou?

— Queimou.

— Você é louco ou o que? – ele sorri e seus dentes são perfeitos.

— Só queria falar com você.

— Pois já está falando... – o sorriso aumenta com minha resposta.

— Pode responder algumas perguntas?

— Depende.

— Se quer mesmo sair daqui, era bom responder...

— E você vai responder as minhas? – pergunto encarando ele de braços cruzados. O sorriso ainda estava lá como se tivesse agarrado na cara dele.

— Depende.

Seguro para não sorrir, mas acho que não tenho tanto sucesso com isso.

— Pergunta logo!

— Muito acelerada... – se aproxima mais de mim. Desvio o olhar quando para na minha frente. – Sabe me dizer onde fica o cofre dos seus chefes?

— Nem sabia que eles têm cofre. Na verdade descobri que mexem com dinheiro ontem.

— É mesmo? Te deixam tão por fora assim?

— Eu só sirvo pra uma coisa...

— Certo. Me diga os dias que se encontram com você – suspiro e aperto as mãos com força. Não gosto de falar sobre isso.

— Mark toda terça feira, Eduardo na quinta e Frank no sábado.

— O que você faz nos dias que não encontra eles?

— Fico no quarto.

— Só?

— O que você esperava?

— Não sei, que fosse um pouco mais livre talvez – dá de ombros.

— Escravos não tem liberdade. Eu vejo como uns dias de descanso e nada mais.

— Entendo. Você veio até aqui ou eles te sequestraram?

— Pra que precisa saber disso?

— Responda as perguntas Sofia – resmungo contrariada e ele sorri.

— Eu vim até aqui.

— Sozinha?

— Com dois amigos, mas eles não podem responder suas perguntas.

— Sei... Quando pensa em liberdade, é só a morte?

— Sim. O que mais seria? Se eu fujo daqui, eles me pegam e me castigam e acredite não queira ser castigado por eles...

— Que tipo de castigo fazem com você?

— Não vou contar todos.

— Por quê?

— Porque é constrangedor... – ele fica em silencio me encarando.

— Conte o que quiser.

— Frank quase me matou uma vez porque não cheguei no horário combinado.

— O que ele fez?

— Bebeu meu sangue quase todo, Mark teve que fazer transfusão – vejo ele mudar a postura agora. Talvez eu tenho dito algo bom, ou não...

— Por que não chegou na hora? – olho minhas mãos que já estavam doloridas de tanto apertar.

— Porque estava com medo de ir e nem vi a hora passar.

Fica um pequeno silencio depois da minha resposta. Continuo apertando as mãos com força, não sei o que ele quer com essas perguntas e isso me assusta, afinal, ele é um vampiro também. Théo segura meus pulsos e faz eu soltar as mãos. Olho o rosto dele e estava com o semblante calmo.

— Pare com isso, vai acabar se machucando.

— Se sentir o cheiro do meu sangue você me mata?

— Talvez – seus olhos tem um brilho forte. Desvio o olhar em pouco tempo, não sei porque, mas não consigo encarar ele como encaro os outros. Talvez por não conhecer como conheço os outros três. Conheço tão bem Frank que sei que se desviar os olhos ele me machuca, tão bem Eduardo que se não olhar pra ele, não vai fazer diferença e tão bem Mark que olhando ou não, ele não me machuca.

— Vou pensar sobre isso então...

— O que? Eu sentir o cheiro do seu sangue?

— É.

— Eu não vou te beber.

— Acabou de falar talvez.

— Mas você é valiosa demais pra eu fazer isso.

— Valiosa?

— Sim – solto uma risada e ele cruza os braços.

— Posso fazer as minhas perguntas ou você tem mais alguma?

— Pode fazer – parece se divertir com a situação.

— Por quê sou valiosa?

— Eles não querem te perder – ele é bom nisso! Só com essas perguntas bobas já entendeu...

— E por que quer me ajudar? Se é que é isso né...

— Não gosto que as pessoas sofram – caio na gargalhada e ele franze a testa. – Está rindo de que?

— Você é um vampiro! Bebe o sangue das pessoas! Como fala uma coisa dessas?

— Bebo o sangue de quem não vale nada.

Fico em silencio com a resposta. Ele me encarava com o rosto sério e nem piscava.

— Como assim?

— Quem não merece viver, pessoas que fazem os outros sofrerem. Por exemplo: esses dias mesmo bebi um cara que estuprou uma criança.

— Realmente ele mereceu... – Théo sorri. — Mas isso é estranho, você nem me conhece.

— Só que eu vejo que você não é má e não merece o que está passando aqui.


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