Havia um farol… e um homem que se lembrava de todas as coisas.

Ainda que se unissem as nuvens do céu turvo, não eram capazes de aquietar as ferozes ondas que incessantemente açoitavam a costa na qual repousava o velho sinaleiro. Ao redor da parte que tocava o chão, encontrava-se uma rampa salina que, se fosse dotada do dom da fala, poderia descrever milhares de personalidades que por ali já passaram. As aves locais há muito não vislumbravam algum aproximar de velas ou mastros, talvez fugissem se acontecesse novamente. O cais ancião se sustentava com dificuldade, agindo com a peculiaridade de portar duas bengalas bem fincadas no fundo do mar. Sobre a estrutura cilíndrica, repousava um pequeno e delicado pássaro já conhecido pelo morador do farol. Suas penas marrom-escuras tiritavam com o vento imigrante que trazia boas novas do norte. O homem lembrava de ter ouvido de um navegador comerciante — que em outras épocas pisara naquelas terras — uma história muito interessante sobre aqueles pássaros. O negociante dizia que a dança desempenhada pelos delicados animais durante seus voos era herança da bravura de um de seus antepassados. Segundo sua história, os mares eram vis, reinados por um deus que não podia ter sua face vista pelos homens. Eis que caminhou até uma praia a mulher mais bela de todas e, dotada de uma beleza capaz de fazer qualquer espada ser brandida em prol de sua mão, seduziu o deus dos mares. Este, mergulhado em paixão e amor, prometeu-lhe fidelidade desde que nunca mais saísse da caverna, sua moradia. Tendo sua oferta recusada, o ser enfureceu-se, incitando contra a entrada da gruta o mais impetuoso dos oceanos. Vinte anos se passaram de cativeiro até que, com um pequeno pedaço de carvão trazido ironicamente pelas águas, desenhou a dama, em um fragmento de mármore, um esboço da face de seu sequestrador. Rastejou até uma pequena Ave da Tempestade — que repousava em uma das rochas — e atou, com alguns fios de seus cabelos, a pedra ao pescoço do pássaro. Assim que foi libertado, o animal disparou em direção ao mar, desesperado. No momento que saiu dos abrigos da caverna, foi notado pelo rei dos mares. O deus tentou interceptá-lo usando de todo o seu poder, fomentando contra seu frágil corpo as mais colossais e sanguinárias ondas já vistas, mas o pássaro batia suas asas tão rápido quanto o vento escapava das garras do cruel imperador. O preciso senso de direção guiou o bravo guerreiro até as praias onde o deus havia, no passado, fraquejado. E então, na Praia da Ruína, uma garota encontrou a ave caída nas areias, com um pequeno pedaço de mármore rabiscado no pescoço. A face do deus dos mares foi divulgada, seus poderes foram aos poucos se findando e desde então os homens dominaram as águas. O pássaro teve filhotes, e, assim que tiveram a idade necessária, ensinou-os o que aprendeu em sua longa dança em meio à tempestade para que um dia, se fosse necessário, desempenhassem-na novamente com a maestria o que o pai fizera.

Eis que se ouviu passos vindos da enorme escada. O intervalo entre um e outro parecia ser cronometrado, exibindo nitidamente uma boa educação. Então, quando não se ouviram mais sons e o último se tornara o mais alto de todos:

— Perdão, não sei se lhe foi avisado, mas estas terras não recebem mais embarcações — explicou, com serena voz, o homem do farol.

— Sei bem que este farol não está mais em funcionamento — soou o sussurro por entre as paredes cilíndricas. — Lembro-me tão bem quanto você do último mastro visto no horizonte, sinaleiro.

— O que trazes então um nobre como você ao alto deste farol?

— Sei da tua sina. Sei por que repousas teus dias neste local infestado de melancolia. Sei por certo de muita coisa.

Sentiu então, o sinaleiro, que naquele homem poderia confiar. Percebeu que aquele nobre compartilhava do mesmo sofrimento. Poderia finalmente perguntar e resolver o que o perturbou durante toda sua vida.

— Dize-me então, caro nobre, por que cultivo eu tanta tristeza?

— Tua memória sinaleiro. Quando foi à você dada a luz, fora agraciado com a melhor delas. Nunca perdeu os detalhes, nunca deixou de notar, nunca esqueceu de nada. Mas, em contrapartida, foi amaldiçoado com a repulsa à loucura.

— Não posso entender bem tuas palavras, nobre. Evitar a loucura não é algo que todo homem deseja?

— A loucura nunca foi bem compreendida. Nunca será, afinal. Ela permite que os homens nasçam, cresçam e morram sem que lhes caia o peso que a tuas costas carrega hoje sobre si. Apenas você é capaz de organizar as memórias. Não sendo afetado pelo o tempo, se lembrará de cada decepção vivida, para sempre — terminou a breve explicação, se movendo lentamente para o lado do homem, que admirava, sobre uma cadeira velha de madeira, duas ondas se abatendo com a depressão causada pelo entardecer. — E graças a tua admirável mente, posso, sem culpa, conversar.

As palavras atingiam os ouvidos do sinaleiro com a dor do corte de uma faca. Saber que era o único naquela situação deplorável soava-lhe tremendamente solitário. Porém, havia ali um homem que sabia lhe responder as dúvidas. Pôs-se então a debater sobre todas as questões.

— Minha alma se enturva com o passar dos anos. Lembro-me exatamente do que senti no dia em que minha família se foi. Posso ouvir com extrema nitidez as últimas palavras do meu amigo que, nem mesmo em seu leito de morte, deixou de se preocupar com o que me afligia. Disse-me: “não te preocupas, irmão, logo aquilo que te entristece não mais te afetará. Confias tu em minhas palavras? Pois peço-te que confie uma última vez neste que hoje te jura. Obrigado pela amizade que me deste. Despeço-me, irmão. ”

— Prezo pela ordem, sabe? Me causa inveja humana saber de tamanha organização em tão pouco espaço como este farol do qual chamas de lar. Todavia, sua memória há de durar por ainda muitos anos.

— Mas nobre, podes tu me socorrer?

— Temo que ajudar-lhe neste teu fardo signifique calar-me para sempre. Não posso repartir com você o peso que carrega, infelizmente. Entretanto, se conforta-te, serás de grande auxílio para que o universo se mantenha em paz.

— És de fato um homem muito cruel, se me permite dizer. Já conheci muitos, mas nenhum deles seria capaz de negar ajuda na tua situação. Sei bem do que falo.

— Imagino que saiba.

O sol se pusera antes mesmo de que fossem cessadas as palavras pelo último interlocutor daquela educada conversa. Talvez houvessem lugares mais escuros na Terra, mas não mereciam destaque em meio ao tamanho breu que se debruçara sobre o farol. E, infelizmente, o pequeno e delicado pássaro não estava mais lá.

— Já perdeste tu algum amigo ou ente querido?

— Nunca tive.

— Então ainda não foste atingido pela dor da perda.

— Ter sofrido não te torna infalível. Tenho motivos muito mais preocupantes para me entristecer. Ainda te resta alguma dúvida?

— Por que não morro?

— Não comentaste tu sobre a minha crueldade?

— Houve um dia frio, há muitos anos. Repousava sobre o sofá de minha casa, junto de meu já mencionado irmão. Nossas esposas haviam saído para buscar o pão que comeríamos naquela noite, uma tarefa simples e comum. Estávamos nós, solitários diante da vastidão. Não conseguíamos compreender o motivo de nossa tristeza, nem sabíamos se de fato estávamos tristes, mas com certeza a felicidade não era presente — comentava, enquanto acendia um cachimbo. — Encarei-o nos olhos, tentando, de alguma forma, ler o que se passava pela sua mente. Caso tivesse sucesso na tarefa, obviamente teria o entendimento do que eu sentia. Eram raras as vezes em que pensávamos diferente. Um cheiro forte de madeira tomou forma, lutando para quebrar a tristeza que quase podia ser fisicamente sentida. Acredito, porém, que o odor já estava lá, mas despercebido. Muitas coisas são assim, infelizmente. Pois indaguei meu amigo sobre o aroma, que negou ter sentido — interrompeu, levantou e andou até o parapeito da estrutura. Precisava sentir o ar úmido se chocar contra sua face. Não é necessário dizer que foi prontamente acompanhado pelo interessado visitante. — Muitas coisas haviam mudado naquela época. Conquistamos a maioria de nossos objetivos, assassinando os sonhos e trazendo-os para a cruel realidade. Estava na dúvida sobre minhas atitudes. “Você sabia que isso aconteceria?” Iniciei um diálogo que lá já estava, dentro de nossas solitárias mentes. “Não... Não há mais nada, não é? ” Me respondeu. Calei-me por motivos que, para nós, eram óbvios. Me diga você, caro nobre, há mais alguma coisa? — Encerrou, liberando o acumulo de nicotina.

— Mas é evidente que não — sussurrou num tom tão claro quanto o dos assovios dos ventos.

— A vida é realmente vazia?

— Esperava mais de você, devo dizer. Não se considerando mais importante do que animais, como o pássaro que no topo deste farol descansava, se torna inequívoca a solução na qual já deveria ter chegado.

— Suas convicções estão muito bem firmadas. De onde vens?

— Sabes muito bem que esta questão não te interessa realmente. O que mais queres saber, sinaleiro?

— Quem é você?

— Esta sim é a pergunta correta. Sou aquele que te trará combustível, a partir de hoje. Sugiro que reacenda o farol, inclusive. Não vais querer que os navios se choquem contra a costa — disse, virando as costas para o homem de idade. — Até breve.

E então, sob os raios avermelhados daquela lua sangrenta, gloriou-se a luz amarelada intensa do farol. E houve emoção nos corações dos marinheiros que tripulavam os navios cujas imaculadas velas, tão brancas, venciam a memória melancólica, vazia e eterna do homem que, para todo o sempre, anunciará — com o orgulho de um sinaleiro — que a terra firme se aproxima.