Imagino uma pessoa acordando um dia percebendo que aquele velório não tinha sido parte de um sonho e olhando pro lado notando um vazio na cama. Imagino essa pessoa ainda entorpecida pelo sono pesado advento de algumas noites em claro. Ela se levanta tonta e caminha até a janela. Abre-a e deixa a claridade cegar seus olhos e tornar ainda mais evidente aquela ausência. Caminha novamente, dessa vez até a pia do banheiro para enxergar o rosto. Vai até a porta e sai do quarto: seu dia começou.

Imagino minha avó nesse momento.

Faz 7 dias que todo o sofrimento da família ao ver uma pessoa amada debilitada no hospital cessou de vez. Sem mais falsas esperanças ou falsas melhoras que levava tal pessoa de volta para casa para pouco tempo depois retornar à cama do hospital ainda pior. Faz 7 dias que essa pessoa se livrou dessa merda de mundo. Faz 7 dias que meu avô morreu.

Quase uma semana depois minha avó começou a se sentir mal. Meu tio a levou ao médico e descobrimos que sua pressão estava muito alta devido ao aumento exponencial de sal em seu sangue. Ele receitou um remédio e aconselhou meu tio a controlar melhor a dieta de sua mãe. Depois disso, os filhos de minha vó começaram a se reunir com frequência.

Toda minha compreensão se baseia nos fatos que posso ver. Quando uma pessoa morre, é tratada e preparada para seu funeral. Nele as pessoas choram, se reencontram, surtam (dependendo do psicológico de cada um). Os surtos podem ser pessoas abaladas e estressadas que se dirigem ao banheiro do local para fazer a milagrosa sangria ou as pessoas que gritam delicadamente sua dor. Além dessas formas de agir perante à situação, tem também aquele cheiro: a mistura das flores mórbidas e o corpo em decomposição.

Foi quando, após retornar de uma das reuniões, senti em minha mãe o cheiro que senti naquele dia de funeral que percebi que as pessoas escondem coisas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.