Seu salto ecoava no hall da pequena capela. Seu andar continuava impecável e letárgico, mesmo que fosse para chorar ao corpo sem vida do marido. Seus cabelos negros caiam pelas costas, misturando-se ao vestido devidamente preto. As vestes eram um tanto curtas, as mangas compridas demais, o salto fino parecia querer ceder a qualquer instante. Era tudo muito velho e surrado, como se ela tivesse guardado aquela exata roupa para a ocasião durante anos. Os fartos seios comprimiam-se contra a madeira do caixão, onde um homem robustro de fios prateados, mas ainda belo e jovial, parecia dormir tranquilamente. A pele da mulher estava mais pálida e magra do que eu me lembrava. Aquilo realmente a pegara de surpresa. A todos nós, eu digo. Bem, pelo menos não acredito que alguém ousasse pensar que aquele homem, que havia lutado tantas batalhas e matado mais inimigos que qualquer sargento da região, cairia por um motivo tão pacóvio quanto uma gripe.
A igreja ainda e encontrava vazia. Apenas eu, ela e uma funcionária, que parecia incrivelmente disposta a arrumar todos os vasos de planta em seu caminho, preenchiamos o espaço pouco mobiliado. As coxas grossas da viúva esparramavam-se no piso frio. Acendi meu cigarro e dirigi-me ao jardim dos finados atrás do oratório. Um tanto irônico tragar um pouco mais a morte em sua própria casa. Isso só me fez soltar uma gargalhada inesperada e escandalosa demais. Eu realmente não deveria frequentar cemitérios, afinal, nunca aprendi a me comportar diante do luto alheio. Pelo menos estava sozinho. Uma velha cerejeira retorcia-se e seus galhos banhavam uma lápide. Escorei-me, fazendo com que algumas folhas rosadas caíssem ao meu redor. Olhei a igrejinha, uma construção, que um dia fora branca, cheia de minúscias douradinhas e graciosas, mesmo marcada pelo tempo. Bonita. Velha. Mórbita.
Vi o coveiro ao longe, vestindo preto naquela manhã cinzenta. Ele carregava a pá enferrujada como a um fardo. Era quase doloroso ver o seu andar pesado. E se você olhasse bem, poderia jurar ver a morte seguindo-o de perto como se sugasse a vida do velho, saboreando cada pedaço. Ele ajoelhou-se próximo a um túmulo, rezando rápido palavras inaudíveis a um Deus incerto. Foi nesse instante que a pobre viúva saiu da capela. Seus passos faziam seu vestido subir e ela não parecia se importar. Meus pensamentos desviaram um pouco, pois, mesmo em lágrimas que borravam a fina camada de maquiagem, ela tinha um ar libidinoso.
Ela chegava mais perto, encarando-me. A boca carnuda esboçou um sorriso tão doce que cheguei a acreditar por um momento que seu marido ressucitara ao meu lado. Mas eu sabia que era para mim. Agora, mais perto, eu via os olhos inchados e grandes ainda derrubando algumas poucas lágrimas salgadas. Não falamos nada, apenas limpei sua bochecha com meu polegar. Ela me abraçou, soluçando. Tão pequena, tão frágil e delicada... Um súbito desejo de protegê-la percorreu minhas veias. Mas ela não pertencia a mim. Ele trancara seu coração em uma maldita cripta. A mão suave tocou em meus cabelos para espantar uma folha. A mulher fez uma careta de desaprovação e retirou o cigarro dos meus dedos, esmagando-o contra a sola de seu sapato.
“Não a provoque...” A voz rouca elucidava seu desespero momentâneo.
Beijei sua testa e a acompanhei de volta para a igreja, onde os rostos de luto já apareciam. A cerimônia teve início quarenta minutos mais tarde. Ela apertou meu braço ao ouvir os diversos discursos. E em um piscar de olhos, era a minha vez. Minhas mãos suavam e as pernas bambas quase me impediram de chegar ao tablado. Não podia vacilar no funeral do meu melhor amigo. As palavras até que saíram firmes no início, mas não demorou para oscilaram e escorressem pelos meus lábios, tropeçando umas nas outras. Senti-me como uma criança que perde seu brinquedo preferido, o que talvez fosse a mais pura verdade.
“Ele sempre esteve comigo, desde o ginásio... Fui muito feliz ao seu lado... Mesmo quando ele se casou com a mulher...” Tropecei nas palavras.
Não havia momento mais importuno para eu quase me confessar para a viúva. Coloquei a mão na bochecha, as lágrimas vazavam incontrolavelmente, rolando livres pela minha barba rala. Abaixei a cabeça em vão, tentando conter o choro. Desci os degraus desejando sumir daquele maldito enterro. Saí da igreja com olhares confusos e curiosos me seguindo. Consegui ver a mulher me encarando com aquele ar de zelo quase maternal. Acho que nunca demonstrei muita emoção perto dela. Uma música triste e banal começou a tocar ao fundo, desviando a atenção de todos. Acendi mais um cigarro na esperança de espantar toda aquela catarse.
Uma folha rosa caiu por cima de meu ombro direito. Percebi que estava embaixo da cerejeira novamente. Senti-me melhor envolto pelos galhos da velha árvore. Minha cabeça pendeu para o tronco. Não sei quanto tempo fiquei naquela posição, só voltei a mim quando algo tocou minhas costas. Era ela. Sem choro, simplesmente trazendo um abraço reconfortante.
“Ele costumava a cantar para a gente quando éramos menores... Lembra?” Sua voz estava mais aveludada, como uma mãe que esconde as mágoas do filho só para fazê-lo sorrir.
“Black bird, black bird
Tell me where you will go
Is all that beauty for her?
Your darkness is your broken heart

Don’t lie, don’t lie
Your eyes says everything
Is she the pretty or just another one?
Let me have unless a few of your love

Black bird, black bird
Stop being so shy, you cry all night
But she has another one to call love…”

A voz era mélica, mas as palavras amargas. A música só me fez lembrar que ela jamais seria minha. A cerejeira pareceu mais seca, como se a canção a tivessem afetado.
“Acho que às vezes não passamos de pequenos pássaros desajustados...” A minha resposta foi enxuta. Queria que aquilo acabasse logo.
Ela olhou para baixo, pegando uma flor da bela cerejeira.
“Um tanto irônico, não? Ter uma árvore tão bela em um lugar como esse? Aposto que o senhor que plantou-a amou muito essa mulher.” Encarou a lápide com certo pesar.
Vendo-a naquela posição de uma mulher crescida me fez ver o quanto ela mudou. Não era mais a garotinha que brincava de pique-pega conosco. Eu estava cego desde que ela aceitou casar-se... Senti uma fisgada na cabeça. De repente, tudo mudou. As cores estavam mais vibrantes, o vento mais suave brincava com os fios da minha nuca. Era como se eu tivesse sido resgatado daquele passado. Não vivo mais aquela dor, mas outra se alastrava. Porém, fiquei tantos anos acorrentado àquela que a nova soou como uma alegria. É como um pássaro que cai em seu primeiro voo. Dói o que fazemos com nossa liberdade. Quer sejamos um corvo amedrontado em um poleiro ou uma majestosa águia mergulhando na imensidão azul.
A mulher a minha frente chegou mais perto. Ela estava vulnerável, e eu sabia. Mas eu queria viver minha nova dor com mais intensidade. Queria sentir aquela dor como nunca. Precisava que ela fosse a mais pura verdade, que deixasse uma cicatriz profunda em meu peito. Roubei-lhe um beijo molhado que ela parecia já esperar, ou até mesmo ansiar. O sino da igreja soou, interrompendo aquele momento. Fazendo-a voltar-se a capela e a seu marido. Sem despedidas, ela caminhou de volta para acompanhar o caixão a sua cova. Assisti ao resto do funeral de longe. Fui o último a jogar um punhado de terra, mas fui o primeiro a sair de perto daquele exibicionismo militar o qual sempre odiei. Parei mais uma vez para olhar a cerejeira. O vento balançava seus galhos graciosamente. Acendi o último cigarro e andei apreciando todas as cores que perdi durante todos aqueles anos. É realmente impressionante a variedade de tons que o céu pode nos mostrar de uma só vez.

Notas finais
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