Saint Seiya - Um conto de passagem
7 7. EPHOS - Belezas da Vida
—Chegará ainda esta noite – foi a primeira coisa que ouviu quando acordou. A voz era feminina e repleta de frescor, Ephos podia identificá-la facilmente – Nyria retornará com boas notícias e farei questão recebê-las pessoalmente.
Certamente não estava mais jogado como um cadáver no mato, era confortável ali. A cama macia era como uma nuvem ao se deitar, o travesseiro de penas tinha o tamanho ideal e não afundava demais seu crânio; seu corpo estava nu e enfaixado do pescoço para baixo feito uma múmia, as feridas ainda doíam demais e podia sentir sua carne queimar, por fim, um lençol de seda o cobria para protegê-lo do frio. Moveu o pescoço, pois queria ver através da janela, além das cortinas a noite era profunda e o vento fraco soprava, fazendo dançar os galhos do salgueiro e suas folhas.
O quarto era iluminado por velas e lamparinas presas às paredes de tijolos. Era um lugar espaçoso, o lustre no teto era recheado de ornamentos e decorações; ao lado da cama, próximo a cabeceira, estava uma caixa de metal forrada com um cobertor de lã grosso, não era uma caixa bonita e sequer embelezava o quarto, mas essa era a menor das preocupações.
Lembrara-se de Zeus, Ephos mentalmente passara a se referir a ele como “O Grande Desgraçado”. O Touro nunca havia sofrido uma derrota tão humilhante, é bem verdade que nunca havia sofrido uma derrota, qualquer uma. A dor de perder era em si humilhante, nada comparado, contudo, a perder daquela forma, como se não passasse de um antílope sendo devorado pelo Leão. Definitivamente, Ephos preferia ser o caçador ao invés da caça.
—Espero que tenha descansado bem – prosseguiu a voz, agora se referindo a Ephos – Ainda preciso de você vivo.
Ephos se ajeitou no colchão, mas seu corpo ardia a cada movimento, então encostou a nuca na cabeceira e fechou os olhos.
—Receio que não possa te ajudar esta noite; infelizmente terá que se divertir com as criadas, sem mim. Minhas condições são, digamos, precárias.
—Não sei, hoje não me parece uma boa noite pra se divertir.
Durante um momento de silêncio, uma donzela de cabelos negros, de baixa estatura e pele cor de mel, adentrou no quarto com uma bandeja, nela uma garrafa de vidro e um copo. Era fácil identificar uma criada daquele lugar, deve-se ter muita beleza e se vestir com decotes ou transparência, neste caso era um vestido vermelho, decotado até o meio do tórax.
—Com licença, senhorita Afrodite, aqui está o chá – a donzela deixou a bandeja numa pequena mesa de mármore perto da deusa e se foi pela porta.
Afrodite, que se cobria somente por um vestido cor de creme, transparente de maneira que não era difícil reparar em sua nudez, despejou a bebida no copo até a metade e o levou a boca de Ephos.
—Beba isto, vai melhorar a dor.
—De que é feito? – indagou o Touro, receoso.
—Não vai querer saber a resposta, apenas beba como um adulto.
Ephos assim acatou e bebericou do copo. Sentia gosto de grãos e óleo, definitivamente nada saboroso.
—Assim que Zeus se foi, minhas criadas o encontraram no chão. Disseram-me que não tinha pulso e que morreria em breve – disse Afrodite.
Ephos então olhou nos olhos da mulher, eram os únicos daquela cor, lilás e intenso, como um convite para amar; então seu olhar descia para a boca, vermelha como uma rosa como se fosse a única em meio a um mar de porcelana que era sua pele. Então, não pode evitar, quando os olhos do cavaleiro caíram para o pescoço, não demorou pra que chegassem aos seios, às curvas bem desenhadas de sua cintura e todo o restante de sua feminilidade.
—Por acaso ouviu o que disse? – questionou ela delicadamente, interrompendo a doce viagem de Ephos
—Ah, claro que sim – murmurou gaguejando – Tem toda razão.
Afrodite sorriu bobamente. Então, quando Ephos terminou seu chá, a deusa levantou-se e se dirigiu a janela, onde o véu das cortinas se encontrava com o de seu corpo.
—Quem diria que eu, uma deusa, um dia se apaixonaria por um humano? – disse a si mesma e aos ventos – O destino muitas vezes nos prega peças que jamais esperaríamos em milhões de anos.
—Soube que deusas gostam de homens mais novos, eu, por outro lado, prefiro as mais velhas – Ephos nunca perderia a oportunidade de ser, bem... Ephos.
Mais uma vez, Afrodite sorriu.
—Mudando de assunto – prosseguiu ela – Imagino que Atena o tenha enviado para pedir trégua à nossa guerra.
—Atena, bem, é uma mulher inteligente e sabe o que deve ser feito para se ganhar qualquer batalha, desde um jogo de Xadrez até uma Guerra Santa. A ideia de me enviar, contudo, veio da boca do Grande Mestre. Estou certo de que sabe de nós.
Afrodite então deu as costas para a noite, apoiou as mãos no peitoril e flexionou uma das pernas.
—Não seja idiota. Desde os dezesseis anos não houve um momento da sua vida em que não aproveitou qualquer oportunidade de me visitar. Se um homem com o titulo de Grande Mestre não reparasse nisso, Atena estaria em maus lençóis.
—Diz isso como se não me fizesse surpresas diabólicas também. A casa de Touro, com a ausência de Qeonor na casa de Áries se torna muito acessível.
—Atena devia rever seus conceitos. Aquele homem nunca esta por perto para proteger Áries; se eu fosse de fato uma inimiga, seria muito fácil chegar até seu templo, afinal, com a ausência de Áries e Touro em minhas mãos, seria muito fácil.
—Qeonor tem afazeres fora do Santu... – Ephos tossiu, gotas de sangue salpicaram sobre o lençol e em seus curativos. Sentiu a garganta flamejar e parte de sua energia vital se esvair – Droga – prosseguiu – O Grande Desgraçado me deixou assim.
Já ao lado do cavaleiro, Afrodite encheu mais uma vez o copo com chá e o fez beber. Em algum lugar profundo de seu coração, a deusa sabia que a chance de ver seu amado sair daquela situação era um grão de areia no universo; ainda que fosse verdade, qualquer tentativa era válida. Ephos, por sua vez, ainda alimentava intensamente a esperança se reerguer e proteger Atena vestido em sua armadura; o que acontecera com ela afinal? Desde que sua batalha com Zeus, Ephos só se lembrava de ter sido chutado como um cão abandonado; a armadura de ouro o vestia naquele momento, até onde sabia.
—Onde está? – indagou com a voz seca – Minha armadura. Onde ela está agora?
Afrodite desviou o olhar, mas bem, devia mostrar a verdade a Ephos. Assim, dirigiu-se ao outro lado da cama, onde se encontrava a caixa de metal forrada com lã e, sem dizer nada, a descobriu. Dentro dela, o cavaleiro de Touro viu sua armadura despedaçada, fosca como uma rocha e cada vez mais perto de um cinza mórbido e triste. “Está morta”, disse a si mesmo. Era verdade, agora podia se recordar da imagem dela se destruindo junto ao corpo ao ser tocada pelo raio de Zeus. Respirou fundo e levou os olhos para a janela, onde podia encarar a noite. A noite é dos poetas e dos mortos, ouviu uma vez do Grande Mestre, então podia ter certeza de que o destino logo o levaria para de baixo da terra, frio e sem cor como sua armadura.
—Posso levá-la até Hefesto – sugeriu Afrodite.
—Não é necessário. Leve-a até Qeonor, ele a consertará. Estou certo disso.
O Touro se lembrara se um sonho que tivera poucos dias antes de sair do Santuário. Ele lutava ao lado do pupilo contra todo um exército de mortos-vivos encapuzados, não sabia dizer onde, era um lugar escuro, iluminado apenas por chamas azuis que eventualmente nasciam de um poço profundo como um abismo no centro de tudo. Era curioso como as pessoas dali formavam filas longas até onde os olhos não pudessem acompanhar, elas ansiavam por chegar ao centro, então, quando estavam na beira do abismo, se jogavam como se fossem apenas cascas vazias controladas por fios invisíveis. O exército dos mortos era numeroso e cansativo, tinham espadas que não cortavam e armaduras que não protegiam, ainda sim, era como se jamais fossem se livrar de todos eles. Até que, sem que percebessem, Ephos e Noath já não enfrentavam ninguém, vestiam somente as roupas comuns e sequer haviam suado. Fitando a fila que só crescia em sua frente, Noath indagou o que poderiam estar fazendo aquelas pessoas, jogando-se naquele buraco, aparentemente sem motivo algum.
“Estamos no Yomotsu Hirasaka”, concluiu Ephos, “É o lugar onde aqueles que estão à beira da morte caminham para seu descanso eterno. Quando caem no abismo e a chama azul se ergue, não há mais volta”. “Então o que fazemos aqui? Estamos vivos, devemos voltar pra casa”, argumentou Noath. Ele tinha razão, contudo, Ephos não sabia como vieram parar num lugar como aquele, não sabia quem os enviara, tampouco como fariam pra voltar. Pensava que devia estar lutando no Santuário, onde Atena precisa de sua ajuda. “Até mesmo os cavaleiros acabam como eles?”, o Unicórnio indagou. “Até mesmo os cavaleiros, principalmente eles. Lutamos contra a morte a todo o momento, mas ela é tão inevitável quanto o amanhecer, e logo o anoitecer. Faz parte do ciclo. E por isso não podemos morrer até que cumpramos nosso papel entre os vivos; o nosso ciclo, assim como tudo que existe, deve se completar antes que...” Então, quando finalizaria seu discurso, Ephos viu, na fila, entre uma senhora de cem anos e um homem doente, um rapaz de armadura. Ele o reconhecia.
“Noath!”, exclamou. Quando olhou a sua volta, o rapaz já não estava ali; caminhando para o fim, Noath tinha os olhos vazios e seu caminhar era lento e sem vigor. Assim que Ephos piscou, seu pupilo já estava tão próximo da beira do abismo quanto estivera próximo dele há poucos segundos. O desespero só aumentava, Ephos não podia se mover, suas pernas queriam correr até Noath para salvá-lo, mas estavam presas ao solo, rígidas como gesso e o clamor de sua voz não alcançava os ouvidos do garoto. Por fim, surgira novamente o exército dos mortos, estes eram infinitos como as estrelas no céu, taparam então sua visão até que Noath desapareceu. Quando uma luz de chama negra ascendeu, Ephos despertou.
—Acho que foi o pior sonho que já tive – murmurou.
—O que quer dizer? – Afrodite, sem entender.
—Nada demais. Estava apenas pensando alto. Preciso me encontrar com Noath, ainda há algo a ensiná-lo, uma última lição.
—Estou certa de que o fará, contudo, está cansado e precisa dormir.
Afrodite estava certa, Ephos acordara há algumas horas e seus olhos desejavam repousar.
—Antes, é necessário enviar uma mensagem ao santuário. Preciso de papel, pena e tinta, além de uma mão para escrever.
A deusa logo providenciou o pedido de Ephos. O papel era amarelado e grosso, um presente de Hermes para Afrodite em um de seus aniversários anos atrás, encantada, possuía a habilidade de voar para seu destino sem a necessidade de uma coruja ou um corvo; a pena era da Fênix original, uma relíquia de valor imensurável, que ardia iluminando-se sempre que a ave renascia mais uma vez; e a tinta era, bem, uma tinta preta comum.
—Escreva por mim – disse o cavaleiro – Sua letra é bem mais legível.
Assim sendo, Afrodite discorreu sobre toda a frente do papel, seguindo à risca cada sílaba e vírgula do que ouvia. Não negava em pensamento que não compreendia parte do significado; a mensagem, contudo, se destinaria ao Santuário e sabia ela que o Grande Mestre seria capaz de destrinchar qualquer frase, por mais nebulosa que fosse, que Ephos dissesse. Apesar disso, algumas expressões eram muito facilmente decifráveis, estas não a agradavam, ainda pelo contrário, a entristeciam.
Quando finalizou a carta, a deusa a dobrou e com um beijo selou suas pontas. Deixou-a, por fim, que voasse com um sopro a caminho do Santuário.
Ephos, severamente exausto, fechou os olhos a fim de descansá-los, e com eles seus pensamentos e dores. Afrodite, que se sentava perto da cabeceira, levantou-se e dirigiu seu rosto ao rosto do Touro, tascando-lhe nos lábios um beijo suave, quando ouviu dois toques na porta.
—Quem é? – indagou com a voz embargada.
—Xzara, senhorita Afrodite. Trago notícias.
Com as costas da mão, Afrodite limpou as lágrimas que molhavam seus olhos. Respirou fundo e retomou a postura elegante e inabalável que costumava apresentar.
—Entre – disse.
—Senhorita, tem visita.
—Muito bem. Ofereça uma taça de vinho, eu logo descerei.
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