Limpou o suor da testa com as costas da mão e suspirou de calor. Não era pra menos, o Sol naquele dia se fazia um tremendo inconveniente, era intenso e impiedoso tal qual Valjor de Leão, mas muito menos benevolente. O céu acompanhava o ritmo, nenhuma nuvem ao alcance da vista, o que exibia uma imensidão azul que acabava somente no horizonte; por sorte, Ephos já fizera o mesmo caminho tantas vezes que sabia onde encontrar sombra e frutas frescas. Havia um laranjal há alguns passos dali, longos passos, é verdade, e o cavaleiro de Touro, que não é nem um pouco tolo, tratara de fazer amizade com o fazendeiro proprietário daquelas terras há alguns anos.

Era um senhorzinho muito simplório, mas cheio de riquezas, tinha suas terras espalhadas pela Grécia, tinha gado e sementes, ainda que nenhum filho para quem passar seus tesouros quando fosse a hora. Hector na verdade sempre tivera medo de ter filhos, pois ouvira um dia a história de um grande comerciante assassinado cruelmente pelos dois caçulas.

A urna da armadura estava no solo macio do laranjal enquanto Ephos aproveitava de seus sabores, havia frutas mais azedas e outras mais adocicadas; isso não era importante. Uma brisa leve então beijou as árvores e seu corpo, fazendo dançar suavemente seus longos cabelos negros. Enquanto descascava com as mãos a quinta laranja, Ephos ouviu passos em sua direção, contudo, não havia razão para se preocupar demais.

—Há quanto não o vejo – murmurou Hector – Deve estar ocupado demais com a guerra em razão de outros prazeres – concluiu com um sorriso amarelo. Hector não passava de um senhor baixo, peludo e fedido, ainda assim, em seus olhos podia-se encontrar sinceridade, tal qual sua vontade de fazer o bem. Não era a toa que Ephos o respeitava como um verdadeiro amigo.

—É aí que se engana – Ephos tinha um olhar confiante e abusado – Justamente por conta da guerra que venho.

—Qual delas? – Hector indagou com a voz cheia de seriedade – A Grécia toda anda preocupada. O Santuário parece estar em conflito até com os deuses mais pacíficos. Em toda a história, isso jamais acontecera.

—Não há com o que se preocupar, velho, o Santuário está pronto para quantas guerras vierem e os atuais cavaleiros tem poder suficiente para enfrentar todos os deuses, dos maiores aos menores – O Touro sabia que estava mentindo, afinal, a preocupação com as Guerras estava mais que presente no Santuário, era como se fizessem parte do dia.

—Se está dizendo...

Ephos terminou sua última fruta, mais azeda que doce, para seu azar. Deu então um tapinha nas costas de Hector e voltou a levar a urna da armadura às costas.

—É hora de continuar meu caminho.

Hector certamente gostaria de conversar mais um pouco, contudo, o tom de Ephos era claro o bastante.

—Prometeu-me que contaria o segredo quando viesse na próxima vez – grunhiu o fazendeiro – Bem, esta é a próxima vez.

—O segredo? – Ephos parecia não compreender.

—Pois é. De como descasca essas laranjas com as unhas dessa forma. É como se houvesse um canivete em sua pele.

Ephos não teve escolha senão rir bobamente.

—Eu havia me esquecido dessa promessa. Garanto que da próxima vez que vier, estarei com mais tempo, inclusive para jogar baralho – disse já em tom de despedida.

Já não podia sentir o cheiro úmido do laranjal.

Ephos não era um sujeito apressado, ainda que a situação lhe pedisse. Pelo caminho lembrava-se do que dissera o Grande Mestre antes da partida. Não havia homem no mundo que pudesse ser mais admirado pelo cavaleiro de Touro, sua força, inteligência e honra garantiram-lhe o posto, mas era outra qualidade que tanto encantava Ephos, sua humildade. Todos os que carregaram o peso de liderar o Santuário são muito ocupados, quanto a isso não resta dúvidas, contudo, o atual tem ainda mais complicações. Nunca antes os deuses se enfureceram tanto, pela razão que for, há carnificina e sangue divino vem sendo derramado; Hefesto esteve muito próximo de morrer pelas mãos de Hermes, assim como Dionísio pela espada de Ares. “Logo não haverá doze”, dizia O Grande Mestre, “Espero que o Santuário proteja Atena, caso contrário, será o fim de tudo”. Em meio a tudo isso, o homem ainda conseguia ter tempo para visitar os vilarejos e conversar com as senhorinhas acerca do tempo e do futuro. “Ele não deve dormir”, é o que achava Jangar de Capricórnio, sempre que podia, já Lilás de Peixes pensava diferente, “Deve haver alguma magia, algum truque. É como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo”. No fim das contas, talvez não fosse magia ou truque algum, e ainda é capaz que dormisse melhor que os demais. “Somente um homem poderoso e fiel à Athena, mas que não se esquece que é só um homem”, argumentava Ephos.

Enquanto divagava, não podia deixar de lembrar-se de seu pupilo, Noath de Unicórnio. Jamais vira alguém tão jovem com tamanho poder, a facilidade como aprendia as técnicas mais complexas assustava, tal qual sua fome de treinar. Na maioria das vezes, especialmente no início, Noath terminava sua lição com algum osso trincado e com ferimentos sobre a pele, o que jamais o fizera se cansar. Apesar de suas infinitas qualidades, Ephos via no rapaz certo despreparo, acreditava que ainda era verde para defender Atena.

Ephos passava por uma faixa estreita da estrada de terra quando voltara sua atenção para o caminhar; algo estranho lhe ocorria, era como se seus pés estivessem percorrido milhas enquanto seu corpo se prendia no mesmo local.

—Já estive aqui hoje – grunhiu.

Estava em alerta, e reconhecia cada pedregulho, cascalho e pastagem dali. O cavaleiro se perguntava que diabos ocorria, seria apenas confusão de sua cabeça, visto que fizera esta jornada tantas vezes durante a vida? Talvez o Sol estivesse a fritar seus miolos. Foi o que concluíra então.

Foi quando aceitara em si uma salada em suas lembranças que os olhos mostraram algo verdadeiramente espantoso. Estava logo ali, a poucos metros, o laranjal do velho Hector do qual já há muito se distanciara. Não podia agora ter se enganado; era o mesmo aroma, as mesmas árvores e até a mesma brisa que então havia lhe beijado o rosto.

—Alguém está jogando comigo – disse com a voz seca e desconfiada. Ephos olhava para os lados, mas não havia vida senão as plantações e os urubus. Fitando o horizonte, decidiu ter pressa e sua passada veloz era pensativa.

O peso da urna dourada em suas costas não era mais incômodo que uma pena, ela balançava com o correr de Ephos e se o cavaleiro quisesse, ouviria os ruídos metálicos que cantavam em seu interior. Havia coisas mais urgentes a se pensar. O que acontecerá para que caminhasse em círculos daquela forma? Ephos estava prestes a entender.

Quando cessou a disparada, o Touro logo se atentou ao ambiente que o rodeava e, por alguma razão, não se surpreendeu ao encontrar novamente o laranjal de Hector, com as mesmas árvores e aroma. Se via assustado, não podia negar, ainda mais que assustado, Ephos estava perturbado. A apreensão do cavaleiro era visível em seus olhos azuis, que, depois de algumas horas, ainda refletiam o azul celeste.

—Hahaha – ouviu o gargalhar de uma voz rasgada e pouco amistosa – Confesso que me diverti muitíssimo. Ver o desespero nos olhos de um cavaleiro de ouro tão famoso já me fez ganhar o dia, embora ainda tenha que terminar o serviço.

Ephos via não muito distante a silhueta de um sujeito armadurado, de costas para o Sol com a postura relaxada, como se não temesse a presença de um cavaleiro de ouro. Quando o homem se aproximou, via-se mais claramente seu rosto acinzentado e recheado de arrogância, seu olhar impiedoso era negro e brilhante tal qual uma jóia, e seus cabelos eram longos e encaracolados até a cintura, louros como creme. A armadura esbranquiçada feito leite era imponente e rica em detalhes ondulados, cintilava à luz do Sol e refletia as pastagens a sua volta.

—Zeus está assim tão desesperado? – indagou Ephos, cínico – Talvez ele simplesmente não importe com a vida de seus homens. Darei a oportunidade de voltar para casa, no fundo, você sabe que a chance de me vencer não é de uma em um milhão.

—Ora, como são arrogantes os cavaleiros de Atena. Suas palavras não me estremecem. Eu, Bacraf, o Raio Celeste acabarei com você antes que o Sol se ponha.

Ephos desvencilhou-se da urna dourada em suas costas, sequer olhou, ainda que de passagem para ela. O Grande Mestre sempre dizia que Ephos era confiante demais, e que eventualmente isso lhe traria a derrota, palavra esta que o cavaleira jamais conhecera.

—Infelizmente não tenho tempo o bastante para esperar o Sol se deitar, então, arrastarei seu rosto na grama verde e lamentarei verdadeiramente que não poderá me ver triunfando. Depois disso, enviarei seu corpo para Zeus, como uma mensagem de paz.

—Não seja tolo, cavaleiro, está claro que não sabe o que está enfrentando. Tenha em mente que os minutos são meus aliados...

Impaciente, Ephos se concentrava em elevar seu cosmo, a energia dourada que fluía pelo corpo do cavaleiro fazia reluzir o traje esmaltado de Bacraf, este, contudo, mantinha a postura serena, como se não temesse o golpe que o oponente preparava. Se o sujeito não se importava em reagir, para o Touro pouco importava; então, posicionou os braços rígidos, pronto para o gatilho.

—Grande Chifre! – exclamou.

Bacraf nada pode ver senão uma massa de luz maciça e violenta, que o atingira tão brutalmente que esmagara seu corpo por inteiro, rasgando feito papel seu traje e o deixando no chão como as laranjas podres que caem dos galhos. Vendo que o enviado de Zeus havia sido tão facilmente derrotado, Ephos desfez a postura de batalha e levou às costas a urna da armadura. Seus passos foram lentos e imodestos até o corpo agora deformado do oponente. Vendo de cima, como um homem vê a formiga, suspirou:

—Não me fez perder tempo o bastante, soldado – então, virou-se para o horizonte e prosseguiu sua a jornada.

A bem da verdade, a vitória de Ephos durou menos tempo que o bater de asas de um beija-flor. Diante de seus olhos estava novamente Bacraf, sem arranhões e com a armadura tão nova que parecia ter acabado de nascer. O enviado de Zeus ria, esbanjado seus dentes amarelos e a graça que jamais se fora.

—Pense melhor em suas palavras, cavaleiro, duvido muito que entenda o que está enfrentando.

Ephos se via vacilante, e não podia ser diferente, o corpo destroçado do inimigo estava há pouco sob seus pés. Em algo Bacraf tinha razão, Ephos não entendia o inimigo. “Teria este homem a capacidade de se reconstituir?”, pensava. “De qualquer forma, agora que sei que não morrerá tão facilmente, dispararei meu golpe com potência máxima, transformando seu corpo em poeira”.

—Está preparado para mais um round? – disse o Touro, tentando aparentar uma confiança que, no fim das contas, já não tinha – Dessa vez prometo que ficará no chão até que a grama ou os abutres o engulam.

Como anteriormente, Bacraf mantinha-se relaxado, sem qualquer temor ao poderoso cosmo de Ephos, como se soubesse o fim da história.

Então, como previra, Ephos explodiu-se em cosmo, liberando a energia necessária para dizimar, enfim, Bacraf. Bem, a história se repete. Uma massa de luz agressiva engoliu o corpo do sujeito, arremessando seu corpo para longe e deixando a armadura aos farelos. Dessa vez, contudo, Ephos sequer se moveu, já aguardando pelo retorno do inimigo, foi quando notou algo de errado na paisagem. O Sol estava no mesmo lugar há muito tempo, a essa altura, devia estar próximo de se por, ao invés disso, se encontrava tão distante de beijar o horizonte quanto estava há muitas horas. O cavaleiro não teve muito tempo para pensar no assunto, pois ali estava novamente Bacraf, pronto para morrer de novo.

—Disse que não tinha tempo pra mim? – grunhiu – Lamento desapontá-lo, mas não há forma de escapar.

Neste momento, uma luz acendeu-se diante de Ephos, que agora podia entender toda a situação. O tempo de fato não estava ao seu lado, porém, sabia exatamente como deixá-lo mais amigável.

—Sou eu quem lamenta – murmurou Ephos – Lamento por você, que me deu a chave para a vitória – um sorriso maroto se desenhou em seu rosto e seu olhar se preenchera de confiança mais uma vez.

—Não seja tolo, não há nada que possa fazer – disse Bacraf, hesitante.

—E como há... Entendi perfeitamente seu plano, assim como sua técnica. Parabenizo-te por isso, realmente foi um oponente formidável.

Bacraf se dispunha verdadeiramente a ouvir o que o Touro tinha a dizer.

—Sua capacidade de modificar o tempo não me impressionará outra vez. No fim das contas, eu jamais estive perto de matá-lo por que o tempo que você controla está programado. Eu te acerto, os minutos voltam e lá está você de novo, como se nada tivesse acontecido. De fato, nada aconteceu.

O enviado de Zeus não estivera tão desarmado desde que se colocara no caminho de Ephos pela primeira vez. Secretamente, Bacraf serrou os punhos e rangia os dentes recheados de tensão. Com isso, não deixou de gargalhar.

—Hahaha! Realmente você me pegou, cavaleiro. Ou quase isso. Apesar de descobrir meu plano, não há nada que possa fazer para modificá-lo. Está preso no tempo, e logo estará cansado demais para golpear, e será quando eu te enterrarei.

—Sei de um lugar onde o tempo certamente não o ajudará, porém, será esmagado antes mesmo que perceba.

—Serei esmagado? – relinchou Bracaf – Não sei se o calor está fritando seus miolos, mas seu golpe já tentou e não foi feliz nenhuma vez.

—E quem disse que será meu o Grande Chifre a esmagá-lo? Tenho outros planos.

Bacraf então cruzou os braços como se dissesse “duvido”.

—Dizem por aí que sou, dos cavaleiros de Ouro, o mais poderoso dessa geração, e você presenciará a razão disso – finalizou Ephos.

Podia-se ouvir algumas aves cantarolando não muito longe dali. Uma breve e delicada brisa refrescou o rosto molhado de suor do cavaleiro de Touro, que fez questão de deixar que o suspense tomasse conta da luta. Então, podia sentir que o Sol descia, pronto para seguir seu ciclo. Preparou o corpo com trejeitos diferentes do habitual e lançou:

—Outra Dimensão!

Os olhos de Bacraf saltaram e por pouco não escaparam da cabeça; sua postura se foi e tentou fugir da imensa esfera negra que se abria, rompendo-se diante dele e o engolindo tão imediatamente que não pudera ter ao menos o tempo de refletir em sua derrota. Longe da Terra, a armadura de Bacraf se desfez junto ao corpo, esmigalhando qualquer rastro do enviado de Zeus.

Ao não rever o inimigo, Ephos sentiu o refrescar da noite. Como se tivesse escurecido em um picar de olhos, a Lua havia tomado seu lugar no céu, repleto de estrelas. Quanto tempo de fato o Touro perdeu em batalha? Nem mesmo ele poderia responder. Assim, não havia solução, visto que ainda precisava chegar ao destino.