Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
6 A Força de Escorpião
Notas iniciais
O grito de surpresa ecoou por todo o anfiteatro e além diante da batalha que se seguia em sua arena. Por muito pouco, Ganimedes não conseguiu colocar-se fora do alcance das pernas de Antares, que tentaram agarrar o seu pescoço. Mal teve tempo de respirar e logo precisou erguer o braço e deslizá-lo para o lado, saindo da trajetória de outro golpe direcionado às suas costelas.
Apesar do sorriso no rosto, estava tendo muito trabalho para conseguir manter-se minimamente intacto naquele treino. Sua oponente era muito rápida, até mesmo para um Cavaleiro de Ouro, o que exigia que o aquariano redobrasse sua atenção. Apenas um ínfimo erro e ele poderia terminar imobilizado por uma torção, ou ser arremessado para longe, com um de seus chutes. Ainda assim, qualquer um dos dois resultados era melhor que o toque flamejante das unhas escarlates da garota.
Graças à experiência dos anos de batalha, o troiano conseguia antecipar os movimentos dela, conseguindo se defender dos ataques por muito pouco. O impacto de seus golpes podia ser escutado das arquibancadas, onde cada vez mais Cavaleiros e aspirantes se juntavam para assistir aquele treino.
Muitos estavam boquiabertos, assustados ou impressionados com o que presenciavam. Sentiram, por um momento, uma fagulha de medo ao verem a escorpiana combater Ganimedes de Aquário, um dos mais velhos e experientes Cavaleiros de Ouro do Santuário, em pé de igualdade. Outros desdenhavam, ou fingiam não se importar.
Mas as aprendizes e as raras Amazonas que estavam ali presentes se sentiram inspiradas...
— Temos uma plateia de tamanho bem incomum hoje. – O aquariano comentou em um sussurro para sua parceira de treino.
— Acho que eles querem ver você me congelar em um esquife de gelo. – Antares respondeu em mesmo tom, olhando fixamente para ele. – Ou quebrar minha máscara, não sei.
— Oh! Lamento decepcioná-los. – Respondeu, fingindo tristeza. – Vai ser mais fácil você arrancar minha cabeça que eu ter tempo de usar um de meus melhores golpes para te deter. Vamos, me ataque.
— Não tem nenhum problema com isso, senhor Ganimedes? – Ela questionou, curiosa, obedecendo-o.
Deu um passo à frente em um salto, com o punho visando o rosto do oponente, mas foi prontamente bloqueada pelos braços fortes dele. Estes fizeram um movimento circular para o lado, com o intuito de tirar a ameaça de perto e segurá-la para poder contra-atacar. Contudo, a jovem aproveitou o impulso para jogar uma das pernas em um novo chute, obrigando o Cavaleiro a se afastar, ainda que sentindo o vento e alguns grãos de areia baterem em sua pele, durante a esquiva.
— Isso é um treino, e não uma batalha real. – Ele explicou, embora aquilo fosse mais que óbvio. – Não há necessidade alguma de lutar como se você fosse minha inimiga. Não haveria metade do cuidado que estamos tendo nesse momento. Além disso, a última coisa que eu quero é ir pro meu Templo e tomar banho com a carne toda cortada. – E riu em seguida, pedindo por uma pausa.
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Não muito distante, sentado sobre a mureta de proteção da arena, Castor assistia ao treino dos dois, com um semblante sério. Por mais que não quisesse fazê-lo, estava sendo obrigado a admitir que a garota não conseguiu aquela vitória por acaso ou por descuido de seu irmão. Era rápida o bastante para simplesmente perde-la de vista. Apenas percebia sua trajetória pelas pequenas nuvens de poeira que se erguiam no chão, quando ela arrancava em corrida.
— Merda. Ela realmente é muito boa. – Resmungou para si.
— Já deveria saber disso. Afinal, se ela te fez o que fez quando uma mera aprendiz... – Disse o irmão se aproximando e enxugando os cabelos castanho-acobreados.
— Precisa ficar me lembrando disso toda vez? – O mais novo resmungou, olhando de lado para seu gêmeo. – Aquilo sim, foi um golpe de sorte. – E cruzou os braços, voltando a observar a luta.
— Lembro tanto quanto as minhas “proezas” passadas que sempre faz questão de dizer por aí. – Sorriu Pollux com cinismo e voltando-se para o anfiteatro. – E isso só mostra que ela conseguiu por mérito.
— Não tenho culpa se seus adoradores te acham certinho e se chocam quando eu cito seus “feitos”. – Devolveu o caçula, respirando fundo. – Tá, eu reconheço! Ela mereceu mesmo, eu estava errado!
— Bom... eu nunca disse que era um virtuoso e... – O mais velho dizia, enquanto arrumava as faixas em seu braço, e surpreendeu-se com o que ouviu do irmão. – Uau! Sabia que sua implicância não falaria mais alto que sua razão. Obrigado por esse momento!
— Por nada, meu adorável irmãozinho. – Cuspiu Castor, irritado por aquilo.
Íficles, que não estava muito distante dos príncipes, observava o treino com igual desgosto ao do espartano mais novo. Tinha acabado de prender o cabelo dourado e vistoso com uma tira de couro, deixando uma pequena “cauda leonina” solta, tocando os ombros largos. Pequenas mechas pontudas espetavam o rosto quadrado e robusto, mas não escondiam os olhos castanho-claros, quase amarelos, em seus olhos ferinos.
Torcia a boca grande e fina para os lados a cada golpe que presenciava daquela dupla. Estava de braços grossos e musculosos cruzados, ruminando pragas contra aquela jovem, da qual não conseguia ver nada de extraordinário. Ele, o Cavaleiro de Leão, conseguia ver seus movimentos sem dificuldades, e se imaginava torcendo aqueles braços e pernas como gravetos.
Em seu devaneio momentâneo, podia ouvir os ossos dela quebrarem e a jovem gritar de dor, enquanto ele provava, daquele modo, que uma Amazona de Ouro era um elo fraco no Exército de Athena.
— Assim é muito fácil. – Ele rosnou, sendo escutado por todos os que estavam próximos, inclusive pelos gêmeos, que cessaram sua conversa e voltaram sua atenção para o colega injuriado. – Quero ver quanto tempo essa mulher aguenta, treinando com um homem de verdade! E não com aquele troiano pulguento!
O Príncipe-Herdeiro só respirou fundo, trocando olhares com o irmão. Pensou dizer algo sobre isso, mas Ganimedes foi quem mais pareceu ser o mais ideal a responder-lhe naquele momento, voltando-se para ele. Os geminianos foram os únicos a perceber que ele havia se aproximado. Certamente que o aquariano os ouviu.
— Oras, não seja por isso. Faça as honras! – O troiano replicou e lhe concedeu passagem. – Quem sabe não me ensina algo de útil? – E sorriu maldoso, vendo que o Cavaleiro de Leão sequer se abalou.
— Irei mesmo! – Bradou o leonino, saltando para o espaço onde pretendia ensinar àquela escorpiana o seu devido lugar. – Mostrarei a todos que o único lugar que uma mulher merece ter no Santuário é o de uma sacerdotisa ou de uma escrava!
O sorriso no rosto do aquariano se alargou diante de tanta confiança. Os geminianos perceberam aquilo e estranharam. Havia um ar sádico naquela expressão do recém-chegado que fez com que eles se entreolhassem.
— Algo me diz... – O Filho de Zeus falou somente para o irmão. – Que teremos elemento surpresa nesse embate.
— Seja o que for... – Sorriu Castor. – Vou adorar ver o Leão virar tapetinho nesse anfiteatro.
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Antares estava alongando os braços e as pernas, quando sentiu o Cosmo de Ganimedes se elevar sutilmente, chamando sua atenção. Virou-se na direção dele, e engoliu seco ao ver Íficles indo em sua direção, com uma expressão desprezível no rosto.
“O Leão quer lutar.”, a voz do aquariano ressoou em sua cabeça.
“Que?!”, ela questionou, sem compreender o que aquilo significava.
“Ele quer lutar com você. Não poupe esforços, pois ele tentará humilha-la.”, disse o outro com seriedade. “Quebre um osso ou dois, é algo até esperado. Apenas não o mate.”, completou.
A jovem estava para responder qualquer coisa quando a voz do Cavaleiro de Leão soou como um rugido, chamando a atenção de todos os presentes. Havia parado há poucos metros dela, com o peito estufado e a olhava com ar de superioridade.
— Mulher! Eu, Íficles de Leão, te desafio para uma luta! – Ele falou em alto e bom tom.
— E porque eu deveria aceitar, senhor? – Ela contestou sem pensar duas vezes. – Não é contra as regras da Senhora Athena que seus Cavaleiros lutem sem uma razão para tal?
— Além de covarde é burra, mulher? – Riu o Cavaleiro, debochado, seguido dos mais próximos que escutavam a tudo. – Chamo-a para uma luta, mas claro que não iremos lutar a sério! É apenas um treino!
Para a Amazona, era óbvio que a contenda havia iniciado mesmo contra sua vontade. Percebeu isso com essa tentativa de desestabilizá-la emocionalmente, da qual sequer mexera com seus nervos ou com sua confiança. Já fora chamada de coisas muito piores.
— Apenas um treino, senhor Íficles? – A escorpiana questionou monótona.
— Sim, apenas um treino. – Ele concordou, dirigindo-lhe um olhar agressivo, achando curioso o fato de não estar conseguindo abala-la. – Ao menos é esperta o bastante para me reconhecer como superior.
Os homens ao redor riram diante daquilo, enquanto as mulheres se entreolhavam. Era visível que o ambiente ali estava ficando pesado e que algo iria acontecer.
Escorpião ergueu uma sobrancelha por debaixo da máscara. Se aquilo era mais uma tentativa de provocação, estava mais para uma piada. Respirou fundo e se deu alguns passos de distância. Se fugisse, daria razão para que falassem de sua competência como guerreira. Se ficasse, teria que vencer um oponente cujas técnicas conhecia muito superficialmente, de tanto que seu mestre falara.
— Tudo bem, senhor Íficles. – Ela respondeu, colocando-se em guarda.
O Cavaleiro de Leão sorriu maldoso ao ver aquilo e também se posicionou. Pensava de quantas maneiras poderia quebrar aqueles ossos que lhe pareciam tão frágeis. Com um pouco de sorte, poderia quebrar sua máscara na frente de todos, ver seu rosto e se deleitar com a confusão que aconteceria a partir daquele ponto.
De repente, ter uma Amazona de Ouro em sua cama não lhe pareceu uma má ideia.
“Não tenha piedade alguma, Antares.”, a voz de Ganimedes se fez ouvir na cabeça da jovem.
O leonino logo partiu para cima, sem perguntar ou sinalizar qualquer coisa. Um soco direto no rosto, o qual ela desviou, abaixando-se e deslizando para o lado. Em seguida, ele lhe direcionou outro golpe com o punho, visando acertá-la com o braço, o qual a escorpiana esquivou descrevendo um arco com as costas.
Aproveitando o impulso, plantou as mãos no chão empoeirado, e ergueu as pernas com rapidez, fazendo com que seu oponente fosse obrigado a não avançar para não ser atingido. Com um salto para trás, caiu novamente em guarda, encarando friamente o homem a sua frente.
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— Que idiota! – Comentou Pollux cruzando os braços, e observando aquilo há distância. – Um ataque de frente, desse jeito, é estupidez!
— Hum... Não o elogie tanto ou ele irá cair de amores por você. – Disse Castor olhando aquilo.
— Íficles acredita que atacar e não dar ao oponente uma chance de revidar é uma excelente alternativa. – Analisou Ganimedes, inabalado. – Com um ataque como o que ele possui, é fácil pensar assim. O problema é que ele não faz a mínima ideia das capacidades de sua oponente. Isso vai terminar por matá-lo algum dia.
Aquele era um ponto sério. Uma regra básica da qual muitos Cavaleiros iniciantes costumavam esquecer ou ignorar, e que o leonino também parecia estar fazendo. Exceto pelo Príncipe-Herdeiro de Esparta, apenas o troiano tinha ideia do real potencial daquela jovem de cabelos azul-escuros.
— Soube que está acontecendo um curioso embate... – Comentou Cadmus se aproximando e logo vendo do que se tratava. – Pensei de Íflicles demorar um pouco mais, mas... vejo que me enganei.
— Já viu guerreiros impacientes durarem muito antes de fazerem alguma estupidez? – O aquariano cuspiu, voltando os olhos para o Cavaleiro de Peixes em seu traje de treino. – Ele nem esperou que ela encerrasse o treino comigo para poder desafia-la. Duvido que tenha prestado atenção em alguma coisa.
— Orgulho dele está urrando mais alto... – O pisciano lamentou, tomando um lugar para si, junto aos irmãos. – Mas nada que uma surra bem dada não resolva. Ele está precisando.
— Que lição será que ele aprenderia de perder para uma mulher, diante de um anfiteatro cheio? – Indagou o Filho de Zeus para o grupo junto a ele, ainda que duvidasse que aquilo ajudasse em algo, mas sim piorasse sua questão sobre tudo aquilo.
Um grito se fez ouvir, chamando a atenção daquele quarteto, que logo voltou-se para a arena. Leão havia acabado de enterrar um braço até a metade no solo de pedra, erguendo uma nuvem de poeira e cascalho.
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As Amazonas e aspirantes que assistiam aquilo prendiam a respiração quando o leonino atacava e gritavam de susto ao verem a escorpiana ressurgir intacta em seus campos de visão. Torcidas tímidas se formavam a cada movimento. Naquele momento, elas estavam aflitas. Íficles havia se lançado contra Antares com uma velocidade incomum e não pareceu ter tempo de esquivar.
O Cavaleiro de Leão sorria com a possibilidade de ter vencido a luta com um único golpe. Seria o bastante para provar seu ponto, se não fosse algo a aterrissar sobre sua cabeça e o empurrá-lo violentamente contra o chão, derrubando-o.
O corpo da jovem Amazona de Escorpião rodopiou graciosamente no ar, depois de usar a cabeça de seu oponente como plataforma de salto, e pousou suavemente há bons metros dele. A voz das mulheres preencheu o local, ovacionando-a.
Tinha um sorriso nos lábios rubros, satisfeita com o combate. Até o momento, nenhuma dificuldade real, exceto ajustar sua velocidade ao oponente. Nunca imaginou que alguém com o porte do Cavaleiro de Leão, um homem alto como uma montanha, e musculoso como um touro, fosse capaz de tamanha agilidade.
Ainda assim, ela tinha superioridade nessa questão. Escorpião conseguia se mover rápido o bastante para enganar os olhos do Leão, criando uma falsa imagem de si. E seu adversário parecia estar tendo dificuldades em compreender exatamente esse ponto. Ele não irá conseguir atingi-la daquele modo, e ela tinha plena ciência disso.
Contudo, a jovem Amazona também não se arriscava a um ataque real, fazendo uso apenas da força descomunal de seu adversário para livrar-se e ganhar espaço. Sabia que, em um confronto muito próximo, não teria chance alguma contra o Cavaleiro. Mas ele também não deu sinais de que havia percebido aquela deficiência.
Íficles estava cego pela arrogância e pelo único desejo de humilhar a petulante Antares, que insistia em fugir de seus ataques.
— Não virá para cima nenhuma vez? – Ele questionou, meio ofegante, arriscando uma finta. – Que espécie de Amazona é você? Uma covarde que não ataca não serve para batalhas! – Provocou.
— Estou bem aqui, senhor Íficles. – Ela respondeu, sem qualquer sinal de cansaço na voz. – Lamento se minha forma de lutar não é a mesma dos grandes guerreiros, mas é a que me serve bem, já que... “é só um treino”. – Rebateu.
— É... é só um treino... – Leão repetiu, pouco antes de avançar sobre Escorpião, que, mais uma vez, desviou para o lado.
Ele, porém, cessou sua corrida, fingindo tentar agarrá-la pela cintura e tentou, mais uma vez, soca-la, de cima para baixo. Sem esperar muito por aquilo, ela teve tempo apenas de erguer uma perna, desviando o braço do Cavaleiro com o que parecia ser um chute.
No entanto, ela usou o movimento para pender-se ao adversário e se içar sobre ele. Num movimento muito rápido, a jovem laçou o pescoço do homem com a outra perna, deixando que o corpo de aparência delicada girasse como um pêndulo. A velocidade do movimento, somado ao seu peso fizeram os instintos do leonino agirem no lugar de sua racionalidade. Ele mergulhou no chão, acompanhando o movimento dela e rolando para fora de seu alcance, impedindo que as pernas musculosas dela o prendessem pelo pescoço.
Se Antares teria força para mantê-lo preso em uma chave de perna não era algo do qual Íficles estivesse disposto a tentar descobrir naquele instante.
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— Oras, veja isso. Nunca vi um anfiteatro tão cheio...! – Disse Câncer, surgindo num nível mais alto, acompanhado do Cavaleiro de Touro, ambos vestindo suas Armaduras Sagradas. – Estou apostando duas jarras de azeite na jovem Amazona.
— Acho que Íficles descobriu que não o único com grande agilidade aqui. – Apontou Cadmus levemente sério, diante daquela tentativa de estrangulamento.
— E descobriu da pior forma. – Completou Pollux.
— Sabe, meus caros companheiros... quando eu estava treinando com ela há pouco, antes de nosso impaciente leonino interromper... – Dizia Ganimedes com um sorriso maldoso no rosto. – Eu estava tendo dificuldade para acompanhar seus movimentos. Eu, que cuidava do treinamento dela, quando seu mestre estava ausente, em missão. Eu, que conheço todos os seus movimentos... – E tornou a olhar para a arena. – Percebam... ela estava treinando comigo desde o amanhecer. Parece cansada para vocês?
— Nem um pouco. – Replicou o geminiano mais velho, sorrindo. – Já o Leão tá gastando todo seu esforço num ataque enfurecedor!
— Ela luta com leveza, como se dançasse. – Apontou o canceriano, analisando a situação. – Está conduzindo o ritmo em favor dela... Por isso que não está se cansando como seria o esperado.
— Ela está se mostrando bem mais perigosa do que a aparência dela sugere. E Íficles está fazendo exatamente o que ela quer. – Apontou Asterion de Touro, sentando na arquibancada de pedra. – É um imbecil mesmo...
Castor observou a todos, olhando de um para outro. Era inegável que Antares estivesse fazendo aquelas coisas. Ele mesmo havia identificado sua estratégia ainda nos primeiros movimentos. Conhecia muito bem alguém que tinha um modo de lutar similar, e sabia o quanto aquilo podia ser mortal. Apenas não imaginou ver que seus demais companheiros não pareciam estar dispostos a torcer pelo leonino.
— Impressão minha ou todos querem vê-la limpar o chão com a cara dele? – O geminiano mais novo questionou, percebendo o sorriso contido de todos. – Uau! Quão amado ele é...!
— Você também gostaria dele se ele roubasse tua mulher, quando você está bêbado. – Resmungou Câncer, com um sorriso debochado.
— Então, cuidado com esse aqui, se acha o Leão bruto perigoso. – Comentou o Cavaleiro de Gêmeos mais jovem com tamanha naturalidade, enquanto apontava para irmão o mais velho, que o fulminou com os olhos dourados. – O que? Todos pensam que você, meu irmão, é a própria virtude encarnada, mas se soubessem...
— Não que você fique muito atrás de mim nesse quesito, irmãozinho. – Pollux devolveu, reprovando Castor por aquilo. – Mas eu não sou burro de tentar roubar a mulher de outro Cavaleiro.
— Calados. – Mandou Aquário, sinalizando para o centro da arena.
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Íficles havia tentado uma nova investida e dessa vez havia sido rechaçado com mais brutalidade da parte de Antares. Um chute violento no queixo fez com que o leonino erguesse o corpo, e permitiu que a escorpiana aproveitasse o movimento da perna para empurrar a cabeça do adversário contra o chão, diretamente com a face. Mal fizera isso e a Guardiã do Oitavo Templo logo se afastou com um salto para trás.
O Guardião do Quinto Templo se reergueu, visivelmente furioso, aos brados. O nariz e a boca sangravam em jorros, indicando uma possível fratura e alguns dentes a menos. Seu Cosmo se elevou com violência, arremessando pedras ao redor, obrigando a escorpiana a afastar-se ainda mais.
— EU VOU DESPEDAÇAR VOCÊ, CADELA INSIGNIFICANTE! – Rugiu o Leão, com o punho em riste e envolto em uma luminosidade dourada.
Incontáveis raios de luz partiram de seu golpe no ar, avançando na direção da jovem e destruindo tudo aquilo que toca. Escorpião olhou para aquilo, incrédula. Um golpe violento de seu Cosmo, algo proibido durante os treinos. Precisava fazer algo depressa.
Fez menção de se jogar para um lado. Ao menos seis deles perfuraram a imagem de seu corpo curvilíneo, trazendo choque a todos os que conseguiram ver aquilo.
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— ÍFICLES! NÃO...! – Cadmus tentou falar, no entanto foi tarde demais. O Cavaleiro já havia lançado o seu golpe, restando ao pisciano rogar pragas contra ele.
— Desgraçado! – Disse Pollux concentrando o Cosmo em seu punho, mas logo foi contido pelo aquariano.
— Não! A luta dos Cavaleiros é um por um. Não se intrometa. – Impediu ele, voltando-se para arena. – Apenas, acredite nela!
Todos ali estranharam a calma do troiano diante do que acontecia na arena. Deveria ser ele o primeiro a querer interromper aquela luta, da qual já havia deixado de ser um treinamento. O que haviam deixado passar? O que ele sabia e os demais não?
— Espera, Ganimedes! Não pode estar falando sério, não é?! – Questionou Câncer, olhando da arena para o aquariano. – Não tá vendo que...
— Eu sei o que eu estou vendo. – Cortou o Guardião do Décimo Primeiro Templo, confiante.
O grito de dor vindo do leonino ecoou pelo anfiteatro, atraindo novamente os olhos daquele grupo para a luta que se desenrolava.
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Seu corpo vergara para trás, como que atingido por algo, e em seguida, um imenso jorro de sangue se ergueu, junto com a figura da Amazona intocada, com o braço direito erguido.
Íficles caiu de joelhos trêmulos diante de Antares. Naquele momento, era ela quem o olhava de cima, enquanto suas mãos estavam lavadas com o sangue do Cavaleiro. Se ele tentou fazer ou dizer qualquer coisa, ninguém soube precisar. O corpo caiu pesado contra o chão, declarando o final daquele treino.
Seus olhos vermelhos faiscavam em júbilo e sua boca rubra exibia um sorriso por debaixo da máscara metálica. “O Êxtase dos Caçadores”, como seu mestre e pai chamava aquela sensação que a inundava naquele momento. Uma sensação que a arrebatava sempre que o calor da batalha a tomava, algo do qual agradecera aos deuses, e ao chá que tomara no início da manhã, por não ter se manifestado durante seu teste.
A área onde as mulheres estavam explodiu em gritos predominantemente de comemoração, assim como pequenos pontos isolados. Para muitos, os treinos do dia haviam terminado ali mesmo.
Antares respirou fundo e ergueu os olhos para aqueles lugares, sem saber ao certo como deveria agir. Sentia-se eufórica, de um modo muito diferente do estado de “Êxtase”. O Cavaleiro de Leão podia tê-la tratado mal, contudo não merecia ser alvo de sua sede.
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— Ok! – Castor se levantou. – Ela tem a minha bênção como Amazona. Conseguiu me convencer, mas esperava algumas agulhadas.
— Sou obrigado a dizer o mesmo. – Comentou Câncer, enquanto Touro assentia com a cabeça.
— Fim do espetáculo. Acho que isso apenas confirmou aquilo que conversamos no outro dia. – Peixes respondeu sem pestanejar. – Agora vamos, precisamos levar Leão para a Fonte de Athena.
— Mande alguns aprendizes dele fazerem isso. – Sorriu o troiano, orgulhoso. – Afinal de contas, é papel deles cuidarem de seu mestre quando ele termina gravemente ferido, não?
— E orgulhoso como ele é, após ser derrotado por uma... – Pollux fez um ar pensativo, se voltando para Cadmus. – Como foi mesmo que ele disse...? “Cadela insignificante”, não é mesmo? Acho que ele não aguentou a pressão...
— Irmãozinho, você é muito maldoso... – O irmão caçula provocou, dando as costas para a arena. – Bom, a diversão acabou. Vamos todos comemorar no bordel, com mulheres sentadas sobre nossas pernas e vinho em nossas mãos... ou coisas melhores. – E riu malicioso.
— É uma boa pedida... – Concordou o Filho de Zeus, mas parou seus passos.
Sinalizou para que o mais novo fosse na frente e chamou por Ganimedes para um assunto em particular. O irmão já fazia o favor de aliciar mais alguns para a “festa”. O mais velho não deixou de sorrir, embora estivesse um pouco preocupado com aquilo. Leão poderia se tornar um grande problema para a garota.
— Já que tem mais aproximação com Escorpião, recomendo que olhe por ela porque acredito que Íficles não deixará essa humilhação passar. – O Príncipe-Herdeiro de Esparta comentou em voz baixa.
— Certamente que ele não deixará. – Replicou o aquariano, olhando para o geminiano. – E, para o bem dele, é melhor que desista logo. – E se retirou, indo de encontro com a jovem mulher.
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