Notas iniciais
O cerco ao Santuário segue, com várias batalhas acontecendo simultaneamente. Melinoe retorna, decidida a fazer um grande estrago nas forças de Athena, mas não esperava encontrar um adversário como aquele.

Uma chuva de meteoros criados por Cosmo caiu sobre aquela dúzia de Espectros, despedaçando-os e destruindo tudo o que tocavam. Assim era a técnica da Explosão Galáctica quando usada pelos Dióscuros [01], uma das mais destrutivas dentre os Cavaleiros de Ouro.

Quando o último meteoro atingia seu alvo, os Cavaleiros subordinados aos geminianos abandonavam suas proteções e atacaram aqueles que ainda estavam de pé. Estavam indo bem, mas os Dourados mantinham o semblante preocupado. Instruíram seus guerreiros a fazerem o maior estrago possível no inimigo, e isso demandava muita energia. Um problema sem tamanho uma vez que aqueles oponentes iriam retornar depois de algum tempo.

Rezavam em silêncio pelo retorno de Athena, que poderia fazer alguma coisa mais definitiva a respeito. Até então, suas preces não tinham sido atendidas, o que os obrigava a se manterem lutando. Contavam com a ajuda das Amazonas, as quais Castor orientou a cuidar da evacuação daquela área, recebendo jovens aspirantes e moradores das redondezas que estavam sob ataque.

— Será que a senhora Athena ainda vai demorar? Isso aqui está ficando insustentável! – O gêmeo mais novo falou, respirando fundo, ao notar que, por hora, teriam uma trégua.

— O tempo no Mundo Celestial corre diferente daqui, irmão. Até parece que não se lembra disso. – Pollux respondeu, se adiantando para falar com os Cavaleiros mais à frente. – Até que ela retorne, precisamos segurá-los o máximo possível.

— Eu sei disso, meu irmão, mas não dispomos desse tempo todo! – O outro replicou, respirando fundo. – Eles podem voltar a vida descansados, enquanto nós ficamos aqui e nos fod…

— Eu sei disso, irmãozinho! – O mais velho o interrompeu com um tom mais ríspido, de quem não aceitaria continuar aquele assunto por mais tempo. – Mas nós dois somos daqueles que não podem se desesperançar. Se perdermos a fé no retorno dela, o que acha que nossos subordinados farão?

O caçula abriu a boca para protestar, mas logo desistiu. O Filho de Zeus estava certo quanto a isso e não tinha como contestar de fato. Os dois tinham treinado juntos aos pés do Olimpo, onde o tempo já corria diferente. Lá ficaram por vinte anos, cresceram e amadureceram de acordo, porém, ao retornarem para seu lar, descobriram que apenas cinco anos tinham se passado. Para seus pais e súditos, eles ainda tinham doze anos, mas suas cabeças e corpos já tinham a maturidade de homens de vinte e sete anos.

Aos dezessete, estavam navegando por aí, com outros homens de valor e semideuses. Com vinte lutavam sua primeira Guerra Santa, contra Poseidon, onde tiveram o desgosto de enfrentar um antigo companheiro no lado inimigo e vê-lo ser arrastado para uma morte dolorosa. Agora, aos trinta e seis, estavam metidos no que parecia ser uma nova Guerra Santa.

— Bom, chega de conversa fiada, meu irmão. – Disse Castor, erguendo os ombros e estufando o peito. – Essa invasão não se deterá sozinha!

— Que bom que sabe disso. – Pollux respondeu, reprimindo um sorriso aliviado por vê-lo focado em impedir aquela invasão.

Temia que os acontecimentos da última batalha o fizessem temer o confronto aberto com as hostes de Hades.

Foram longos dias de recuperação e ainda sentiam que não estava completamente bem. Tentavam não transparecer a tensão que sentiam a cada ataque que presenciavam seus subordinados sofrerem, nem o momento em que soltavam o ar de seus pulmões ao verem que estava tudo bem.

Às vezes, em seus sonhos, tinham a reprise daquela terrível visão que os incapacitou. Terminavam por acordar no meio da noite, trêmulos e lívidos de pavor, indo checar se o outro estava bem em seus aposentos. Não raros os momentos em que terminavam se encontrando no corredor do Templo de Gêmeos e se interrogavam a respeito do porquê estarem ali. E tal como faziam quando crianças, só conseguiam voltar a dormir quando estavam juntos.

Por aqueles dias, precisaram de chás para dormir, e acidentalmente terminaram sabendo de algo pelas fofocas dos escravos que os serviam. Ouviram-nos comentar que o antigo Escorpião fazia muito uso delas de alguns anos, e isso os fez estranhar. Scorpio nunca foi de precisar de ajuda para dormir, muito menos dava sinais de ter feito uso delas quando no Santuário.

Outras duas hipóteses se passaram por suas cabeças, quando estavam a discutir a respeito, mas decidiram que era melhor não pensar a respeito. O Caçador era cruel, contudo, aquilo que pensaram era terrível demais até mesmo para ele.

✶~~✶✶✶~~✶

Na entrada do mundo dos espíritos, Anupo de Câncer e Oráculo de Virgem estavam alertas, principalmente depois de interceptarem uma legião de Esqueletos e criaturas do Submundo que espreitava por ali. Pareciam querer invadir o Santuário por aquele local, achando que não havia Cavaleiros capazes de caminhar entre as dimensões. Um erro fatal para os invasores.

O virginiano se permitiu respirar aliviado por um momento quando o último oponente caiu e nenhum outro estava à vista. Aqueles dias estavam cada vez mais insustentáveis com a constante vigilância e pouco descanso. Mesmo ele estava dando sinais de fadiga.

— É como se soubessem da ausência de Athena e investissem na invasão. – Comentou o canceriano preocupado. – Não teria sido um plano, remover Athena de modo a nos enfraquecer sem sua presença?

— Eu não duvidaria de seu palpite, Anupo. – Replicou o Guardião do Sexto Templo, dobrando os joelhos por um instante, cansado de ficar de pé. – Hades não é estúpido e tem um grande domínio. Mas por que ele está nos atacando? Ele nunca demonstrou interesse no Mundo dos Homens antes! Exceto, claro, no incidente com a senhora Persephone.

— Provavelmente nós teremos que fazer prisioneiros para isso. – Ponderou o outro, torcendo o rosto. – E eu odeio admitir isso, mas interrogatórios não são o meu forte.

— Também não gosto de admitir, mas Scorpio era quem melhor conseguia obter informações no Santuário. Por mais que não concordemos com seus métodos, essa é a verdade. – Comentou o Oráculo, rolando os olhos dourados. – Não sei se a Escorpião atual seria tão eficiente quanto, mas acho que vamos ter que confiar nela para isso.

— Quando ela apareceu naquela reunião de emergência que o Íficles nos convocou, tive a impressão de que a mulher estava escolhendo alguém pra matar a sangue frio. – Falou o Guardião do Quarto Templo, reprimindo um calafrio ao lembrar aquilo. – Achava que nunca mais ia sentir aquela sensação desagradável. Parecia que o Scorpio tinha tomado a forma dela e resolvido dar as caras só pra nos atormentar.

— Concordo que Escorpião estava estranha naquele dia, mas eu tive uma outra impressão. Parecia mais que ela estava… como dizer...? Irritada com algo. – O outro tentou explicar. – Era como se ela tivesse ido a contragosto, para provar algo, creio.

Os dois respiraram fundo. Não era um questionamento difícil responder, principalmente porque a resposta estava tão escancarada que, se fosse um animal, poderiam sentir e ouvir sua respiração quente no pescoço. Mas eles não a culpavam por aquilo e se reservavam a uma curiosidade singular, dispostos a ver até onde a jovem escorpiana conseguiria ir. Quantos sacrifícios ela faria até chegar onde almejava.

— Nós sabemos bem o que ela queria provar ali. – Anupo riu, embora não de deboche. – Mas receio que esteja tentando dar um passo maior que a perna. Mesmo em minha terra natal, onde as mulheres têm muito mais liberdades e são muito mais levadas a sério, lhes é delegada às curas e os cuidados da casa e da família. A guerra sempre foi papel dos homens. Fiquei surpreso em ver como os atenienses as reduzem a simples procriadoras e que elas parecem aceitar isso bem. Uma egípcia jamais permitiria isso. – E olhou para o colega ao lado. – Ela está tentando mostrar que pode se igualar a nós.

— Confesso que, assim como todos, eu tinha minhas dúvidas sobre isso. – Oráculo falou, se levantando. – Mas depois de tudo o que já a vi fazer… quando me ajudou a localizar os Espectros que se esgueiravam pela Sombra do Mundo, tenho certeza de que muitos Cavaleiros se veem ameaçados pelo que ela representa, e, por isso, tentam desencorajá-la de todas as formas possíveis.

— Acha que ela, uma exceção, pode vir a se tornar uma regra? – Câncer perguntou, curioso.

— Bastou uma mulher para formar as Amazonas de Themyscira e fazê-las uma poderosa força do Deus da Guerra. – Virgem respondeu um pouco cético. – Por enquanto, me reservarei a observá-la. Se precisar, pedirei sua ajuda, como fiz antes. Ou a ajudarei, já que fizemos juramentos pela mesma causa. Mas se Escorpião irá atingir o que tanto almeja... acho que é um tanto cedo para prever.

Os Cavaleiros sorriram com aquela constatação, mas logo assumiram um semblante mais sério.

Por um instante, os dois sentiram um Cosmo pulsar com força, no entanto, percebiam que o emissor ainda estava longe. A cada novo pulso, o poder parecia crescer mais. Anupo reconhecia aquele poder, e sabia que não era o de Esqueletos, como aqueles que jaziam aos seus pés e os do Cavaleiro de Virgem. Era algo esmagador.

— Também sentiu isso, não é mesmo? Sinto que marcham em direção ao Santuário. – Comentou o canceriano preocupado.

— Sim, e sinto que já conheço esse Cosmo. – Respondeu o virginiano se voltando para ele. – Acha que pode lidar aqui com o Exército sem que atravessem o portal? Poderei enviar reforços.

— Sim, mas não sei se suportarei por muito tempo sozinho. Apenas seja rápido, porque eles estão vindo em quantidades grandes demais! – Pediu o outro já se distanciando.

— Não demorar está nos meus planos. Quero muito acabar logo com isso para descansar um pouco e tomar uma taça de vinho, enquanto me banho. – Riu Virgem enquanto sua imagem esmaecia até desaparecer.

✶~~✶✶✶~~✶

Uma densa névoa fétida surgiu da escuridão adiante e se espalhou rapidamente pelo campo de batalha, fazendo com que os Gêmeos puxassem a capa branca e púrpura para a face, protegendo nariz e boca daquele miasma. Mas os guerreiros sob sua liderança não tiveram o mesmo reflexo rápido.

Alguns caíram em seguida, desmaiados, assustando os outros. Embora fosse algo óbvio, os irmãos precisavam tomar uma medida urgente quanto aquilo, e foi Pollux quem o fez.

— NÃO RESPIREM ESSA NÉVOA! CUBRAM SEUS ROSTOS E RECUEM AGORA! – Ele bradou, enquanto Castor abria uma fenda dimensional próxima a eles.

— ENTREM, RÁPIDO! – O mais novo mandou, embora seus olhos castanhos estivessem focados em um lugar específico.

Uma gargalhada insana ecoou em seguida, fazendo com que os Cavaleiros de Ouro cingissem os olhos. Os pelos da nuca se arrepiaram e eles precisaram de algum esforço para não estremecerem.

A linda mulher de pele pálida e cabelos verdes surgiu, com um sorriso distorcido em seus lábios rubros. Trajava sua Súrplice púrpura, cujo elmo era uma coroa de espinhos com flores murchas. Os danos da batalha anterior ainda estavam visíveis com a ombreira e parte do gorjal destruídos.

— Ai, que maravilha! Não imaginava que iria encontrar DOIS belos Cavaleiros em duas Armaduras Douradas e reluzentes a me esperarem! Sou uma mulher de sorte, não sou? – Ela falou com uma voz animada e aguda. – Mas já adianto, meninos, eu sou uma moça de família e só poderei ter um de vocês...

O semideus arregalou os olhos dourados, e em seguida os fechou, ficando imóvel por alguns fragmentos de segundo.

Castor logo a reconheceu, ainda que pouco lembrasse da última vez. Ao longo daqueles dias acamado e assombrado pela ilusão que ela havia provocado também em seu irmão, apenas nutria ódio e desejo de ceifar a vida daquela desgraçada com suas próprias mãos. “Não permitirei que brinque conosco novamente, sua…”, pensou ele, sem perceber que ganhara voz e já avançando em sua direção quando viu o braço do irmão surgir bloqueando seu caminho.

— Pollux!!! – Reagiu ele visivelmente contrariado. – Você não vai permitir que…?!

— Não seremos nós quem vamos cuidar dela desta vez. – Disse Príncipe-Herdeiro de Esparta num tom incisivo enquanto mantinha os olhos sobre a ninfa.

Naquele mesmo instante, uma luz surgiu diante deles, conseguindo dissipar todo aquele miasma e alcançando os aprendizes caídos e aterrorizados. “Tirem todos daqui!”, uma voz ecoou do brilho, e o espartano mais novo a reconheceu imediatamente. Até onde a luminosidade se espalhava, evitava o miasma de se espalhar, dando tempo dos irmãos terminarem de remover a todos e, então, o Oráculo se revelar diante da figura nefasta.

— Oh! Mais outro?! – Melinoe gritou de emoção, com a face ruborizando. – Não sabia que eu era tão digna da afeição de três lindos homens... – E mostrou um sorriso ainda mais enlouquecido. – EU ADORO ISSO!!!

— Vão! – Disse o virginiano sem desviar os olhos de Melinoe, mantendo a serenidade em sua voz. – Cuidem dos feridos, e a deixem comigo.

— Cuidado, Oráculo. – Pollux falou, recolhendo-se com os companheiros feridos para dentro da fenda dimensional aberta pelo irmão.

— Tchauzinho, meus lindos príncipes…! Não esqueçam de mim, tá?! – A ninfa respondeu, acenando para eles, com um ar desolado, antes de voltar-se para o Cavaleiro que ficou. – Ai, essas crianças… Elas crescem tão rápido, né? O depenado os criou muito bem!

Virgem cingiu o olhar. Não tinha ideia do que ela estava falando, embora uma teoria que lhe parecia maluca começava a se formar em sua mente.

— Caso não se importe, gostaria de agilizar isso o quanto antes. – Anunciou o Oráculo um tanto entediado. – Então, a menos que queira se retirar e voltar ao Submundo que é seu lugar, vamos começar logo?

— Ohohohohoho! Vejo que está com pressa, senhor! – Ela comentou, fingindo pudor. – Vamos nos divertir um pouco primeiro, nos conhecer! Ou você é tão chato quanto aquele depenado? Ele tinha um péssimo humor e sempre tentava me morder... não seu como os deuses não o deixavam amarrado em uma coluna...

Ele levantou sutilmente a mão, virando a palma pra cima, chamando-a com os dedos, em total silêncio.

Melinoe inspirou deixou um lamento sair dos seus lábios rubros e com ele, criaturas pálidas como ossos surgiam da terra, se erguendo em formas cadavéricas. Suas vozes se uniram ao pranto da mulher, e se colocaram a andar na direção do Dourado.

O virginiano apenas cerrou os olhos enquanto observava a aproximação daqueles esqueletos que, gradualmente, assumia sua forma humana de outrora. Um suspiro de lamento escapou de sua boca. A luz que ajudava a dissipar o miasma se desfazia numa névoa dourada, retardando o avanço daquela horda de criaturas

— O que espera conseguir com isso... além de profanar os caídos? – Indagou ele retoricamente, mantendo seus olhos fechados e juntando as mãos. – OHM!!!

Uma rajada de energia se expandiu de suas palmas e varreu a área, obrigando a Espectro a se proteger como podia, sentindo sua Súrplice ser golpeada. As criaturas por ela erguidas se desfizeram como fumaça ao serem tocadas pelo Cosmo agressivo do Cavaleiro, transformando-se em pétalas de flores que se espalhavam no ar.

Melinoe riu, percebendo que aquele desafio seria muito diferente do anterior, com os Gêmeos e Escorpião. Isso a animava de uma forma absurdamente perigosa, pois permitia que brincasse ainda mais com os diversos tipos de medos que conhecia.

— Olha só! Você não se deixou abater pelo meu Lamento dos Condenados! – Ela falou, divertindo-se com o semblante fechado daquele homem. A ninfa cruzou os braços para baixo. – Vamos ver então como se sai com meu Sublime Pesadelo…

— Está perdendo seu tempo. – Virgem bufou, se colocando na defensiva. – Vamos acabar logo com isso.

A densa névoa avançou a partir dela, indo na direção do oponente, que sequer se moveu. A face pálida da Espectro mantinha o sorriso perturbador, enquanto o Cavaleiro era envolvido por aquele miasma nefasto. Imaginava-se quais os medos um homem como aquele possuía, e qual poderia usar contra ele.

Longos segundos se passaram e Oráculo permaneceu ali, parado, olhando-a fixamente. Sua única reação foi a de respirar pesadamente. Foi a gota d'água.

— OHM! – Novamente o virginiano entoou, fazendo com que seu Cosmo varresse a área, afastando aquele miasma terrível.

Melinoe riu escandalosamente de sua investida.

— Acha mesmo que esse seu golpe vai funcionar comigo, querido? Você não é tão esperto quanto pens...

— TESOURO DO CÉU!!! – Ele emendou em seguida.

Como uma onda na superfície de um lago, o Cosmo de Virgem se expandiu, mudando todo o ambiente ao seu redor. Um vasto campo florido, com verdejantes bosques ao longe. A ninfa do Submundo sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao reconhecer aquele lugar.

— O-os Campos Elíseos?! – Ela mal podia acreditar em seus olhos.

— Confesso que fico curioso e ao mesmo tempo desgostoso em saber que uma criatura tão desprezível como você conheça essa terra tão bonita. – Oráculo disse com pesar. – O Imperador do Submundo deveria escolher melhor quem tem acesso ao seu reino mais gratificante. Uma ninfa como você, que se atreve a mexer com a mente dos outros, profanando as lembranças mais queridas e usando o maior medo das pessoas contra elas mesmas sequer deveria poder pisar naquela terra! – Finalizou, não conseguindo mais esconder a raiva em sua voz e em seu olhar. – Pelo visto, terei de ser eu a aplicar uma punição pelo seu ato degradante!

Uma forte rajada de Cosmo-energia foi lançada contra sua oponente, que ostentava um sorriso distorcido. A Espectro o encarou com um ar divertido e insano. “Quem esse idiota pensa que é para achar que pode me vencer em meu próprio território?”, ela pensou pouco antes de sentir um formigamento em suas pernas se expandir para todo seu corpo. “Mas o que?! O que é isso?!”

Ela tentou se mexer e fracassou, indo ao chão como um boneco de trapos. O fato de não sentir a relva verde em sua pele lívida, fez o sorriso desaparecer de seu rosto, dando-lhe um novo semblante doentio.

— MALDITO! O QUE VOCÊ FEZ?! – Melinoe gritou, sem entender o que estava acontecendo com seu corpo.

— Tive a bondade de começar removendo o seu sentido do tato, escória do Submundo. – Virgem falou, fitando-a com desprezo. – Agradeça, pois assim não sentirá dor quando eu a enviar de volta para o seu devido lugar.

Ainda assim, ela tentou se mover, se debatendo, mas sequer conseguiu erguer a cabeça. O formigamento de poucos instantes se intensificou de forma dolorosa, aumentando sua agonia.

— Eu vou te matar! EU VOU TE MATAR!!! – Ela gritou raivosa, quando uma nova onda de Cosmo partiu dele e a atravessou. – EU VOU TE MAT...!!!

— Cale-se! – O virginiano falou com tom de desprezo. – E aproveite o silêncio para refletir sobre seus atos. – Concluiu, removendo sua audição logo em seguida.

Pela primeira vez, Melinoe sentiu o desespero tomar conta dela. “Como um humano qualquer pode fazer isso comigo? Eu, uma deusa como eu, sendo subjugada por um lixo humano qualquer?!”, pensava ela enquanto seus olhos cingiam sobre o Dourado, até perceber uma sombra dourada que era incomum àquelas criaturas.

Sabia bem que humanos não possuíam aquela aura.

“Essa aura dourada…? Ele é um…”

— Ora… parece que finalmente se deu conta do que eu sou. – Virgem falou, franzindo o cenho, embora soubesse que ela não o ouvia mais.

E duas novas ondas de seu Cosmo a atingiu, levando seu olfato e sua visão. Ele continuou a olhá-la. Se não a matasse, ela não teria como retornar, porém, se alguém conseguisse cancelar os efeitos de seu Tesouro do Céu, o Santuário teria ainda mais problemas para lidar.

O virginiano ergueu as mãos uma sobre as outras, fazendo com que uma esfera de energia áurea se formasse no espaço entre elas.

— E agora, eu irei me livrar desse problema de modo permanente… Adeus, Deusa profana da Loucura. – Ele falou, fazendo com que seu golpe a atingisse.

O corpo de Melinoe começou a se desfazer lentamente, enquanto seu Sexto e Sétimo Sentidos eram removidos. Apenas a projeção de sua alma negra ficou por tempo o suficiente para que ele a visse se partir, em pleno desespero e tentando se agarrar em qualquer coisa, no momento em que o Oitavo Sentido fora removido.

Acabou.

Virgem respirou profundamente, levando uma mão ao rosto suado, enxugando-o como podia, antes de sentir os joelhos cederem pelo esforço físico e mental que fizera. Ofegava, sentindo os olhos inundados, enquanto sua mente lembrava dos rostos dos falecidos entes queridos que a maldita ninfa o fez ver.

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“Corram para o Santuário! Protejam essas meninas com suas próprias vidas! Elas são agora como suas irmãs e filhas, e vocês serão como suas mães e protetoras! Agora VÃO!!!”

As últimas palavras da Amazona de Ophiucus ainda ecoavam na mente das jovens recém-sagradas. Ela havia ficado para trás, com Grou e Serpens, para deter os invasores o máximo possível. Para as demais, restaram as ordens de remover as aspirantes de lá.

A Vila das Amazonas queimava ao longe, embora nenhuma delas estivesse se importando com aquilo. Estavam todas acostumadas a deixar tudo para trás e recomeçar.

Foi por um breve momento que pararam para descansar e isso logo se mostrou um erro. Dois Espectros as alcançaram, abatendo três das mulheres que faziam a escolta antes mesmo que elas percebessem o que estava acontecendo.

— AGRUPAR!!! NÃO DEIXEM AS CRIANÇAS DESPROTEGIDAS!!! – Vulpecula gritou enquanto tentava se orientar na confusão formada. – LINCE, CUIDADO!!!

O aviso foi o suficiente para que a guerreira pudesse reagir a tempo, golpeando com sua Garra de Lince, um Esqueleto que tentava pegá-la pelas costas. O estalo violento das vértebras do Esqueleto fez com que algumas garotas gritassem de pavor. Para muitas, estar tão próximas assim de um combate era algo inimaginável.

— Merda! Isso não tem fim?! – Ela verbalizou seu pensamento.

— Mas claro que há um fim, minhas jovens. – Um Espectro falou com uma voz agradável e melodiosa, tirando o braço de dentro do cadáver de uma das Amazonas tombadas. – Na morte, a sua dor pode finalmente chegar ao fim, e aqueles que se unirem ao senhor Hades podem desfrutar de grandes poderes… só precisam jurar lealdade a ele e…

Um feixe de luz rubra atravessou o campo de batalha, atingindo aquele que falava e o arremessou contra as árvores mais atrás. Todos arregalaram seus olhos incrédulos. As mais novas não evitaram gritar de pavor, enquanto as mais velhas se colocavam em guarda para defendê-las do que quer que fosse.

Um urro feroz se fez ouvir, afugentando os Esqueletos e arrepiando todos os pelos dos demais. Então algo se atirou contra o segundo Espectro, agarrando-o e lançando seus pedaços a esmo.

Vulpecula e Lince, tensas, olharam para aquilo, rezando para que não fosse mais outro inimigo se aproveitando daquele caos todo.

— Mas que…?! – O Espectro arremessado contra as árvores se levantava, tentando entender o que estava acontecendo ali. Foi então que seus olhos se encheram de terror.

— Eu poderia dizer um ótimo lugar pra enfiar essa lealdade… – Disse alguém abandonando o corpo despedaçado no chão, se mostrando portar uma Armadura de Ouro banhada em sangue.

Notas finais
01 – Castor e Pollux são referidos na Mitologia Greco-Romana de duas formas. Dióscuros (filhos de Zeus), Tindáridas (Filhos de Tíndaro), ou Gêmeos. —-- Finalmente eu terminei de escrever a Fic!!! [solta fogos] Agora, a mesma voltará a ser quinzenal