Notas iniciais
Um novo Espectro invade o Santuário e derruba a primeira linha de defesa que encontrou. Será que Antares irá conseguir se sobrepor?

Ela surgiu nas sombras com sua longa túnica branca por baixo da proteção púrpura-escuro cobrindo o corpo. Caminhava em passos lentos e graciosos, com seus cabelos verdes esvoaçando a uma brisa inexistente. Seu elmo parecia uma coroa de espinhos com rosas murchas, tendo um véu delicado a cobrir a face.

Os Gêmeos a observavam ainda em postura defensiva, se perguntando quem seria aquela. Tinham a desagradável impressão de já terem-na visto, provavelmente nos dias em que estavam treinando no Monte Olimpo. Não era incomum, naqueles dias, que comitivas dos Deuses se encontrassem ali e deixassem seus subordinados a espera-los do lado de fora do grande Templo que servia como morada divina.

O Exército de Hades era dos mais numerosos, mas ainda assim, pouquíssimas eram as mulheres que estavam ao seu serviço. Em sua maioria, eram criaturas nativas do próprio Submundo e nem todos se mostravam desagradáveis quando ao seu lado.

A mulher parou a uma distância considerável daqueles dois, ainda rindo.

— Ora! Ora! Não esperava encontra-los aqui, jovens Príncipes. – Ela falou, fazendo uma respeitosa mesura. – Me parece que cresceram bem... de meninos chorões a homens... Pelo menos assim espero...

Um brilho dourado surgiu não muito distante de onde foram engolidos pela sombra, com uma fenda dimensional sendo aberta e os gêmeos saltando dela com uma expressão nada amigável. Castor ouviu aquilo e sorriu, atentando bem seu olhar à figura ali presente.

— Vejam só… – O caçula chamou atenção do irmão. – Eu que pensei que Espectros fossem apenas criaturas horrendas e mal-cheirosas, mas parece que me enganei… – E cerrou os olhos. – Ou o véu esconde alguma coisa abominável para precisar se esconder?

— Me esconder? – Ela riu ainda mais alto, de uma forma que os incomodou ligeiramente. – Isso são palavras para dois Príncipes usarem. – E removeu o véu, exibindo o rosto de uma linda donzela. – Satisfeitos agora, meninos rudes?

Sua face não se comparava com a de nenhuma outra mortal no Reino de Athena. Tinha a pele alva de tal modo que parecia refletir à mínima luz, com olhos grandes e verdes. Seu rosto era arredondado, com um nariz pequeno e fino. Possuía lábios finos e desejosos, de um vermelho vivo, em um largo sorriso adorável. Mechas verde-escuras caiam encaracoladas por seu rosto, dando-lhe um ar travesso.

O mais velho foi quem arregalou os olhos, seguido do irmão que mais fez uma expressão de estranhamento e reconhecimento.

— Nós já a vimos antes. – Disse o semideus, piscando aturdido. – Nos campos olimpianos. Você é…

— Melinoe, Estrela Terrestre da Loucura. – A mulher confirmou, fazendo uma nova mesura. – Fico feliz que ao menos um dos jovens Príncipes se lembre de mim. Prova que aquele depenado os ensinou bem... – E riu com escárnio. – Aliás, ele já se recuperou? Ouvi dizer que ele mergulhou de cabeça... ou foi chutado de lá de cima...

Os dois irmãos se entreolharam surpresos com aquilo, intrigados. Pollux, no entanto, sentia algo realmente perturbador vir dela enquanto dizia aquilo. Não duvidava sobre sua origem, pois sua aura era peculiar quando comparado de outros servos de Hades. Tinha uma presença comparada apenas…

— Ninfas do Submundo…? – Murmurou ele enquanto mantinha seus olhos sobre a estranha, mas não de admiração ou a paixão que aquelas criaturas provocavam nele, mas algo incômodo, sobretudo naqueles olhos esverdeados. – O que está fazendo aqu…?

E viu apenas um brilho dourado ao seu lado, vendo seu irmão mais novo com o braço esticado disparando uma rajada de Cosmo em direção daquela mulher.

— NINGUÉM… FALA… ASSIM… DELE… CRIATURA PROFANA! O QUE DIABOS QUER AQUI?! – exclamou Castor possesso sob o olhar surpreso do seu gêmeo.

Melinoe arregalou os olhos me surpresa, mal tendo tempo para reagir. O golpe a arrastou alguns metros para trás, antes de joga-la de costas contra o chão. Aquilo a fez rir mais uma vez, causando um arrepio nos espartanos.

— Ah! Acho que lembro do seu nome... Príncipe Castor, não é? – Disse enquanto se levantava, sacudindo a poeira que se lançou sobre ela na queda. – Você cresceu bem... mas continua esquentadinho... Ainda tem aquele medo do escuro? Quer que eu procure pelo passarinho para te fazer companhia e segurar sua mãozinha?

— ORA, SUA…!!! – Reagiu o mais novo diante daquilo, mas foi impedido pelo irmão que segurou seu punho. – O quê? Vai deixar essa louca livre assim?

Pollux manteve o olhar sobre aquela figura bela e ao mesmo tempo bizarra que parecia se divertir com tudo aquilo. Já não conseguia mais esconder o incômodo por sua presença ali.

— O que uma ninfa do Submundo faz aqui? Buscando por seus asseclas caçados e selados…– O semideus fez uma careta em discordância de suas próprias palavras. – Não, não veio aqui para isso. O que você quer?

— Ohohohoho! Isso também, isso também...! – Ela replicou, sorrindo e batendo palminhas animadas. – Mas eu vim aqui para cumprir as ordens do senhor meu pai! Obviamente que isso implicará em alguns mortos... que terminarão se juntando ao exército dele... – E levou um dedo ao rosto, em uma expressão pensativa, e logo abriu um largo sorriso. – Olha como isso é divertido!!!

“PAI?”, reagiram os dois irmãos simultaneamente, ambos piscando aturdidos. Aquela mulher estava realmente dizendo que…

— Hades é seu pai?! – Indagou o geminiano mais novo retoricamente. – Há! Não pode estar falando sério...!

— Filha de Hades recrutando almas para seu exército, aqui no Santuário? Não é tão louca como quer parecer. – Retrucou o geminiano mais velho, ainda muito perturbado com aquela presença.

Diferente dos outros Espectros, aquela mais lembrava uma criança travessa, mas havia algo mais escondido por trás daquilo e não sabia explicar exatamente o quê. Uma fragrância peculiar, talvez. Ou sua forma de falar, que parece variar do tom médio para o agudo quando se exalta.

— Ah... mas é claro que estou, meninos! – Ela respondeu a eles, assumindo um semblante sério de forma lenta e que causou arrepios a eles. – E que presente melhor eu poderia oferecer a ele, senão suas almas... ainda mais agora, que aquele depenado desapareceu. – Finalizou.

De súbito o Cosmo dela explodiu em ventos tempestuosos, arrastando-os para trás. Uma densa escuridão a abraçou e a tudo ao seu redor, expandindo de maneira rápida, até engolir aos irmãos. A risada insana de uma mulher ecoou pelo Santuário.

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Antares estava deitada, cochilando abraçada a uma velha boneca. Tinha os cabelos de lã tingida em azul escuro, e olhos vermelhos bordados com uma linha de brilho acetinado. Ambas, a Amazona e o brinquedo, usavam uma túnica branca e leve que Ágape confeccionara para elas.

Na época em que chegou, a jovem tinha pesadelos frequentes envolvendo sua vida anterior, o que a fazia acordar aos gritos por diversas noites seguidas. A escrava favorita do Cavaleiro de Escorpião lhe fez aquela boneca, recheando-a com ervas aromáticas para ajudar a recém-chegada a ter um bom sono.

A Amazona nunca deixou de recorrer àquele amuleto, ainda que não fosse tão eficiente quanto as infusões noturnas, pois ele não evitavam que tivesse sonhos. Sentia as mãos daqueles estranhos em seu corpo e ouvia suas palavras maldosas. Tamanho era o seu terror que não eram raras as vezes em que entrava em pânico pelo simples ato de ver um adulto na sua frente.

Seu mestre teve muito trabalho para fazer com que a pequena resgatada estivesse apta a, pelo menos, servi-lo sem ficar amedrontada ao ponto de desmaiar. Para ela, o primeiro passo disso foi dar-lhe um novo nome, o qual ela usa até hoje.

Um ato simples, mas que teve uma grande relevância para a menina, que terminou se mostrando muito mais do que aparentava ser. Ágape, Kheiron e Ganimedes suspeitavam de algo por sua grande semelhança com Scorpio. Desconfiança que aumentava a cada dia em que seus sentidos se mostravam aguçados e que sua resistência ficava mais notória.

Até o dia em que a verdade lhe foi revelada, e uma estranha sensação a tomou por dias. Uma mistura de felicidade, por saber que tinha um pai, e de ódio, por ter sido abandonada por anos a própria sorte.

Contudo, nada daquilo seria possível se ele não a tivesse tirado daquela casa, daquela Mulher. Pensar nessas coisas ainda a deixava confusa, mesmo depois daqueles anos.

A escorpiana não conseguia parar de pensar na sombra que mais parecia ser de uma mãe com sua criança, sentadas ao chão, próximas de uma barraca. Tremia só de pensar na possibilidade daquelas duas terem passado pelo mesmo que ela.

Estava mergulhando cada vez mais profundamente naquele sonho-lembrança, quando sentiu um Cosmo familiar se manifestar de maneira muito hostil. Abriu os olhos repentinamente com o susto, precisando de alguns segundos para se orientar. Estavam sob ataque do inimigo? Por que não estava sentindo outras emanações?

Por precaução, trocou a túnica que usava para dormir e vestiu o traje reforçado de treinamento, antes de vestir a Armadura de Escorpião.

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Seu rosto estava molhado e contorcido pela angústia. Ainda conseguia sentir o calor se dissipando do corpo do irmão em seus braços, cujo peito tinha sido perfurado pelo seu punho. Não conseguia entender como aquilo foi possível. Gritava de dor, suplicando para que o outro reagisse, resistisse. Aquele olhar opaco e desprovido de vida era algo do qual não conseguia suportar.

Um feito hediondo do qual jamais se perdoaria. Era como se sua vida tivesse acabado de perder o sentido. Caiu de joelhos, em prantos convulsivos. Pouco importava se a garganta doía a cada soluço. Seu irmão estava morto e a culpa era inteiramente sua, que o atacara sem perceber.

Melinoe se aproximou com um sorriso maligno no rosto pálido, apreciando o momento por algum tempo. Lambeu os lábios, satisfeita com o resultado que presenciava. Um verdadeiro deleite para sua alma obscura. Decerto seria premiada com louvores pelos Imperadores do Submundo e atrairia a atenção dos Deuses Gêmeos para si. Com sorte, talvez, subisse na hierarquia infernal.

De repente ela sentiu um Cosmo violento se aproximar rapidamente, obrigando a ninfa do Submundo a desviar bem a tempo de evitar a explosão que se deu bem onde estava. O sorriso em seu rosto deu lugar ao espanto. Uma densa nuvem de poeira e cascalho se ergueu, tirando a visibilidade da Espectro, que mal sabia o que estava acontecendo. Um novo pulsar de energia a alertou de um novo ataque. Reto, frontal.

Ela curvou o corpo para trás, vendo um braço em chamas atravessar a cortina de detritos, como que tentando apanhar sua cabeça. De tão perto, sentiu o calor arder a pele descorada, e viu as unhas longas e incandescentes queimarem alguns fios de seu cabelo.

Ergueu uma perna em um chute, mas percebeu nada atingir, e então aproveitou o movimento para ganhar espaço. Com um gesto, fez com que a poeira se dissipasse, exibindo quem havia chegado ali. Seus olhos reluziram em surpresa ao ver aquela pessoa bem a sua frente.

Melinoe a olhou com espanto. Uma jovem mulher vestida em uma Armadura de Ouro foi algo que a deixou confusa por um momento. Pelas formas, deduzia ser a de Escorpião, da qual Dulahan relatou ter visto duas vezes em ocasiões diferentes.

A primeira, trajada por aquele a quem foi banido do Olimpo por ter cometido um crime contra uma Deusa. Outra por uma mulher...

— Quem é você e o que faz aqui? – A voz da Amazona soou abafada pela máscara metálica que cobria sua face.

A ninfa do Submundo riu entusiasmada. Dava pulinhos animados enquanto batia palmas sem qualquer vergonha do que estava acontecendo.

— ADOOOORO quando essas coisas acontecem!!! – Falou, gargalhando em seguida. – Não concordam, meninos? Alguém veio aqui para resgatá-los de mim! Como se sente, Príncipe Pollux, por se ver assassinar o próprio irmão? Confesso que imaginei que vossa alteza tivesse um medo muito mais elaborado para um Filho de Zeus! – E o olhou com escárnio, voltando sua atenção lentamente para o outro. – Muito embora esse seja um pesadelo fácil de se realizar...

Antares piscou incrédula com o que escutara e lançou um olhar breve por cima dos ombros, sentindo o sangue desaparecer da face. O geminiano mais novo já estava no chão, se recolhendo em posição fetal, enquanto o mais velho estava de joelhos. Ambos estavam com os rostos contorcidos em sofrimento.

— Mas o que em nome de Athena aconteceu aqui?! – A escorpiana inquiriu, voltando a atenção para a oponente. – O que você fez a eles?! Responda agora!!!

O sorriso da Espectro se abriu quase de uma orelha a outra.

— Eu? – Ela disse, apontando para si mesma, piscando numa falsa surpresa por aquilo. – Eu não fiz nada, nadinha! Eu apenas estava aqui quando eles chegaram e começaram a ser muito grosseiros comigo. – E fez um bico com os lábios finos e vermelhos, como de alguém sentida por algo. – Mas depois decidimos brincar um pouquinho. Não percebe o quanto estão se divertindo? Um deles até está rolando no chão!

E então ela apontou para o Castor, cuja boca começava a apresentar sinais de espuma.

— Eu vou fazer você pagar por isso!!! – A Amazona rosnou, erguendo a mão direita, exibindo o indicador e sua longa unha.

Os olhos de Melinoe reluziram. Não iria deixar que ela a atacasse mais uma vez, e para isso explodiu o seu Cosmo negro, criando uma forte ventania.

— Vai querer se divertir comigo? Mas que maravilha, então venha! – E riu insanamente, notando que a outra não se mexia. – Se demorar demais, eu vou até aí...! Farei com que experimente um pouco do meu Sublime Pesadelo!

A ninfa do Submundo abriu os braços na altura da cintura, com as mãos espalmadas. Veios negros pareceram partir de suas costas e expandir por todas as direções, fechando-se como uma redoma entre as duas. Contudo, a Espectro logo percebeu algo errado, quando a energia as envolveu e a escorpiana continuou inerte.

De repente, uma imensa dor irradiou de seus dois joelhos, quase fazendo com que fosse ao chão. Um forte ardor se espalhava rapidamente daquele ponto, fazendo com que ela se virasse lentamente na direção de onde o ataque veio. Lá, encontrou a jovem intacta.

“Maldita Amazona…!”, pensou ela sentindo uma aguda dor tomar seu corpo, como que se fizesse seus músculos enrijecerem a ponto de não sentir as pernas obedecerem. Chegou a curvar o corpo pela agonia que sentia, mas não seria o bastante.

O que começou com gemidos de dor foi se transformando em risos contidos que, a cada momento, ganhava mais força até ouvir uma sonora gargalhada. O corpo curvado ficou ereto, com a oponente abrindo os braços, abrindo e fechando as mãos, trêmulos. Chegava a salivar, fazendo-a brincar com a língua sobre o lábio superior enquanto buscava se levantar com as pernas bambas.

Antares sentiu um frio percorrer a espinha. Não se recordava de ver alguém rir diante dos efeitos de seu golpe e aquilo a preocupou. Tentou não se abalar diante disso. “O que é isso? Ela deveria estar enfraquecida pela agulha que lancei contra ela, mas está…”, e engoliu a seco enquanto observava aquela Espectro fazia. De algum modo, aquilo conseguiu perturbá-la, fazendo-a recuar alguns passos inconscientemente.

Não o bastante, os gêmeos pareciam reagir também aquilo. Ela viu Pollux levar a mão à cabeça como se torturado por aquela gargalhada, ajoelhado e desesperado por algo que não compreendia o que poderia ser, assim como Castor, que reagia igual.

— MALDITA! O QUE FOI QUE…?! – E se calou, tendo a vista nublada enquanto apenas assistia as mãos daquela mulher em sua direção lançando o mesmo miasma que envolveu anteriormente os Cavaleiros de Gêmeos.

— Sshh! Relaxe, pequena… – Sorria a Espectro, com os olhos arregalados, respirando ofegante, os fios de cabelo colado em sua pele. – Se queria brincar, porque não pediu de uma vez? – E riu novamente, aquele risinho fininho como de uma criança, enquanto via a jovem ser envolvida. – Melinoe adora brincar e sempre abre espaço para mais um. Desfrute do meu Sublime Pesadelo!!!