Notas iniciais
Enquanto Antares cuida de seus ferimentos da noite anterior, uma estranha visitante chega ao Santuário. Será uma Aliada ou uma Inimiga?

O dia raiou com o Santuário apinhado de serviço. Os corpos dos Espectros e Esqueletos encontrados na área protegida pelo poder de Athena foram empilhados em uma vala profunda. Nyctimus observava o trabalho de longe, resmungando em seus pensamentos, quando percebeu uma estrela mergulhando do céu. Atônito, ele não conseguiu fazer nada além de observar aquele ponto luminoso se tornar uma imensa bola de fogo.

Foi um Cavaleiro de Bronze que estava a ajudar com os corpos quem notou em seguida e pôs-se a gritar para que todos saíssem do caminho. Por acaso estariam sob ataque novamente, de uma forma tão destrutiva?

O calor abrasivo incendiou as árvores e as chamas incineraram os corpos no buraco, fundindo carne com o metal do Submundo. Soldados e Cavaleiros que não conseguiram se afastar o bastante, sentiram o ardor das queimaduras em si. Alguns tiveram a impressão de ver a forma de um pássaro.

Somente muitos metros depois, a bola de fogo tocou o chão, diminuindo gradualmente em tamanho. Devagar, tomou a forma de algo que parecia ser uma pessoa vestida em uma armadura sagrada. Esta caminhava em passos firmes, como se marchasse, seguindo o seu caminho no que parecia ser a trilha para o Monte Zodiacal.

Soldados se colocaram à sua frente de modo bloquear sua passagem com suas lanças cruzadas, mas temerosos após o que acabaram de ver. Dois Cavaleiros de Bronze surgiram se colocando diante deles por sua segurança. Eram Urso e Hidra diante daquela figura misteriosa.

O fogo desvanecia daquela figura, revelando uma mulher esguia em uma proteção sagrada que lhe cobria uma boa parte do corpo. O elmo em forma de cabeça de pássaro vermelho fechava em seu rosto alvo, deixando apenas o nariz e a boca de lábios finos de fora. A armadura que usava era rica em detalhes dourados, que mais pareciam chamas. Em suas costas, um grande par de asas de chamas rubras ganhavam tons de amarelo na medida em que se aproximavam das pontas.

— Não posso deixá-la passar sem que se identifique! – Bradou o Cavaleiro de Hidra deixando suas garras venenosas da manopla expostas. Urso nada dizia senão manter os braços erguidos frente ao peito, batendo punho com punho. – O que quer aqui? Quem é você?

Ela olhou para os dois com um ar completamente indiferente.

— É assim que os Cavaleiros de Athena ousam se dirigir a mim? – Ela falou com uma voz profunda e fria. – Não tenho tempo para ensinar-lhes boas maneiras. Saiam da minha frente.

— Interessante alguém falar de boas maneiras quando a mesma não retribui respondendo algo tão simples.

Uma voz ecoou distante, mas também próxima o bastante para que uma fenda temporal surgisse e dela um Cavaleiro com sua indumentária dourada. Pollux surgiu diante da figura cósmica com o porte majestoso de um Filho de Zeus. Jogou sua capa púrpura de lado e faz um movimento para a remoção do seu elmo, desaparecendo para direção de suas costas e deixando seus cabelos mais soltos. Ao levantar a cabeça, exibiu intensos olhos dourados, fortes e penetrantes.

— Se deseja ensinar boas maneiras… – Sorriu ele. – Por que não começa apresentando-se devidamente? Seria um bom começo.

Ela deixou um sorriso debochado surgir nos lábios, fazendo com que seu elmo desaparecesse em pequenas labaredas. Seu rosto mais parecia uma estátua de mármore, devido à sua falta de cor, embora os olhos lembrassem o próprio sol a queimar. Os cabelos eram como ouro puro, fio a fio, em cachos suaves que desciam até seus ombros.

— Um dos maiores malefícios da imortalidade ser concedida aos mortais, é que eles costumam se achar importantes, quando muitas vezes continuam frágeis demais para os joguetes dos Deuses. – A intrusa falou, encarando-o. – Talvez ainda não tenha aprendido isso... Filho de Zeus.

— Devo concordar com você, mas é algo da nossa natureza humana. – Sorriu ele de volta, não parecendo intimidado com aquilo. – Mas algumas entidades das quais conheci, você não me parece muito diferente. Ao menos sabe ser tão arrogante quanto… Uma pena que não aprenderam onde exatamente é o seu lugar.

— Sua petulância é divertida, Filho de Zeus. Parece um filhote mostrando os dentes que ainda não possui. – Falou a mulher, olhando dele para os outros dois Cavaleiros. – Uma pena eu não ter tempo para vocês agora. Um Eclipse está para começar e Athena sabe muito bem que vocês precisarão de toda a ajuda. – E deu mais um passo à frente.

— Eclipse…? – Ele se manteve diante dela, olhando-a de modo interrogativo. – Entenda. Não posso deixá-la passar sem que me diga quem é você, principalmente após a investida de Espectros no Santuário, os mesmos que incinerou em sua chegada. Diga-me quem é você e o que deseja aqui. Sob nome de quem vem até o Santuário da Deusa Athena?!

— Eu sou a Phoenix, e estou aqui atendendo ao chamado da própria Athena. – Ela sussurrou, olhando em seus olhos.

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Antares sentiu quando aquele Cosmo descomunal chegou ao Santuário, sendo acometida por um violento calafrio que fez seu corpo doer. Era muito diferente daquele que adentrou em seu Templo e ousou enfrenta-la. Cogitou levantar-se da cama, mas as mãos de Kalipto em seu tornozelo a lembraram de que não seria prudente colocar os pés no chão naquele momento. A junta estava inchada e vermelha, com um corte longo, embora superficial. Outro Cavaleiro de Ouro certamente estaria cuidando do novo invasor.

Aquela era a primeira vez que a Amazona permitia que alguém, que não fosse Scorpio ou Ágape, cuidasse de seus ferimentos. A escrava colocava compressas mornas de arnica sobre a perna de sua mestra, fazendo uma pequena pressão na mesma. No braço, a situação parecia um pouco pior.

Os anéis de metal que compunham a veste protetora usada por baixo da Armadura de Ouro foram quebrados e alguns entraram na carne da escorpiana. Removê-los foi um pesadelo a parte, por conta da pele vermelha e inflamada que ardia como se o chicote de vértebras ainda estivesse enroscado nela.

Sua sorte foi ter sido subestimada pelo oponente. Se não estivesse usando uma das vestimentas de mais alta patente, era certo que teria o braço arrancado por aquele Espectro. Ganimedes estava mais que certo na repreensão que fez, minutos depois de ter se livrado do invasor.

Não foi a primeira e nem a última vez que o ouviu falar daquele Espectro, embora confessasse nunca imaginar que ele poderia chegar tão longe sem levantar suspeitas de outros Cavaleiros. Há alguns anos, aquele tinha sido o responsável por ferir Scorpio gravemente, algo do qual parecia ser inimaginável para muitos, principalmente para a jovem.

Explicou também que seus ferimentos em nada se comparavam aos que foram causados ao seu mestre, que se referia ao açoite como “maldita coluna de vertebras”. A recuperação dele foi longa, mas se deu de forma adequada graças a uma “escrava muito leal”, segundo um desgostoso troiano lhe contava. Nem mesmo precisava pensar muito para adivinhar que a tal serva era Ágape.

Precisava reparar isso e estar plena de suas energias o mais rápido possível, uma vez que precisaria comparecer a uma audiência dos Doze Cavaleiros com a Deusa Athena. Não importaria o motivo da reunião que teria mais tarde ou o seu resultado, deveria dar o exemplo. E quando a hora chegou, seus machucados estavam limpos, cobertos por bandagens embebidas em unguento cicatrizante.

O tornozelo estava quase imobilizado, obrigando-a a subir mais devagar. O braço ferido estava apoiado sobre uma tira de pano amarrada atrás de seu pescoço, evitando que balançasse. Os danos ali foram ainda maiores na junta do cotovelo. De algum modo, a arma de seu inimigo conseguiu não apenas evitar a placa de gamânio e oricalco, como se enterrou na malha, mordendo sua carne. Na hora, não tinha se dado conta do sangue que vertia por sua Armadura. Estava mais preocupada em obliterar o Espectro que havia ferido o seu mestre no passado.

Quando seus músculos esfriaram, ela se deu conta da gravidade daquele ferimento, que queimava como se alguém tivesse posto um pedaço de brasa viva sobre seu braço. E a intensidade da dor apenas começou a ceder naquela manhã, quando suas escravas derramaram água gelada em seu braço, antes de trocar os curativos.

Pensava seriamente em procurar por Kheiron depois daquela reunião.

Quando passou pelos corredores de cada Templo, esforçou-se para caminhar normalmente. Fazê-lo era como se suas energias fossem drenadas mais rapidamente ao ponto de que, ao chegar em Peixes, precisou parar. Estava ofegante, como se fosse a primeira vez que realizava aquele trajeto na vida, e o tornozelo latejava discretamente pelo esforço realizado.

Parecia que o corpo queimava por baixo da Armadura, porém não era febre, o que fez Antares estranhar. Olhou em direção ao sol, confirmando que ele ainda não estava no topo, para ajudar a explicar aquele cansaço. Foi então que percebeu que não havia qualquer indício de vento no Monte Zodiacal. A vegetação rasteira estava completamente parada.

— Deuses... o que está havendo...?! – Ela se questionou, desejando poder tirar a máscara para poder se refrescar, sem risco de ser surpreendida. – Não estamos em pleno verão para que esteja tão quente!

A sombra do corredor do Décimo Segundo Templo lhe foi mais que bem-vinda, fazendo com que o calor amenizasse, ainda que lhe incomodasse a falta de brisa. Olhou com cuidado enquanto passava pelo local, procurando por qualquer sinal de seu Guardião, entretanto nada encontrou.

Peixes tinha a justa reputação de ser o Templo mais bonito do Monte Zodiacal. Diferentemente de seu Templo, o corredor daquele local possuía canaletas próximas às paredes e pequenos amontoados de cristais. Algumas colunas serviam de suportes para roseiras viçosas que misturavam suas fragrâncias entre si. Pequenos peixes nadavam pelas águas salpicadas com as pétalas das flores acima, em cardumes coloridos.

A água descia por pequenas fontes na forma de estátuas de jovens envoltos em abraços ou beijos, celebrando os prazeres da carne, o amor e a beleza de um modo discreto. O som era relaxante e encantador, mas a Amazona sabia que não podia ficar ali por muito tempo.

Sabia que tudo ali era feito para enganar os invasores. Que a água era imprópria para consumo e que o perfume sutil que ali pairava era venenoso. Ainda que sua máscara a protegesse, não era por tempo indefinido.

Ao mesmo tempo, queria ficar mais um pouco ali, por causa do calor que fazia lá fora.

— Hoje é um dia de escolhas difíceis... – Ela ouviu a voz de Cadmus soar mais adiante. – Não precisa ter medo, Antares. Aqui tem água fresca para você também.

A escorpiana corou suavemente e caminhou na direção da voz. Em um certo ponto, o corredor se abria em uma sala grande e espaçosa, circundada pela água. Dentro do aqueduto, estátuas de jovens coroados com rosas interagiam entre si e com os grandes cristais que pareciam ampliar a luminosidade fornecida pelos archotes.

O Cavaleiro de Peixes estava sentado no chão, com os pés mergulhados na canaleta, diante da escultura de mármore branco de uma linda mulher nua, cercada de crianças aladas. Era a peça mais coberta de rosas do Templo. Os cabelos azuis, levemente platinados, caiam por suas costas, em ondas suaves por cima do manto alvo. Parecia estar ali há algum tempo, talvez usufruindo um pouco do frescor do lugar, antes de subir ao maior lance de escadas que separava sua morada do lar de Athena.

Ele não se virou para ela, mas ergueu uma ânfora de prata que estava ao seu lado.

— Acredito que Scorpio tenha dito que o ar de meu Templo fosse venenoso e que você teria que passar por aqui rápido. – O Pisciano falou com um tom descontraído. – Bom, não está muito errado com isso, mas ouso dizer que ele exagerou um pouco, por causa de sua alergia ao pólen das flores.

A Amazona aproximou-se em alguns passos lentos, sem entender ao certo, enquanto Cadmus continuava a falar.

— Não há como culpá-lo. Ouvi dizer que o antigo Escorpião Dourado tinha um olfato tão sensível quanto o de um excelente cão de caça.

— Sim… ele tem um bom olfato. – Ela respondeu intrigada.

— E você? Também tem um bom olfato? – O Cavaleiro quis saber, parecendo mexer os pés na água. – Bom, mesmo que tenha, não fará muita diferença. As rosas não são de fato venenosas, mas eu que as torno assim.

— Entendo... – A jovem respondeu com um murmúrio. – Não atenderá ao chamado para a reunião? – Quis saber um pouco curiosa por vê-lo parecer tão tranquilo.

— Ainda tem algum tempo. É uma das poucas vantagens de se viver no último Templo. – O pisciano ponderou, voltando a face para ela.

Era um homem muito bonito, que não aparentava sequer a idade que tinha. Sua tez era alva, com olhos levemente caídos, da cor do cobalto em uma face arredondada e de queixo fino. Bochechas rosadas e cheias, e os lábios corados, pequenos e finos. Mechas delicadas de seus cabelos emolduravam o rosto, conferindo-lhe uma feição dúbia e muito atraente tanto para homens quanto para mulheres. Uma versão adulta das descrições dos pequenos acompanhantes alados de Afrodite.

O corpo esguio foi moldado pelos anos de treinamento, embora ficasse coberto pela Armadura de Ouro na maior parte do tempo. Ainda que tivesse pertencido ao culto da Deusa do Amor e da Beleza, era desprovido de vaidades, trazendo consigo apenas um halo dourado e simples na testa. Não se tinha conhecimento de cicatrizes, manchas ou sinais que maculassem sua perfeição. Poderia se passar facilmente por um jovem ou por uma donzela, talvez até por uma ninfa, embora esse último fosse uma simples especulação que eventualmente a escorpiana ouvia quando ele estava perto.

Antares o achava bonito, muito bonito. Não negaria que, por vezes, se pegava a olha-lo, admirando-o e o invejando. Nunca seria como ele, nunca seria vista como ele era: Admirável e virtuoso.

— Por que não lava seu rosto? A água está fresca… aliviaria bastante esse calor extraordinário que se abateu repentinamente ao Santuário. – O Pisciano se volta para ela. – A não ser que queira ficar em carne viva usando essa máscara.

— Eu... não sei se posso... – Ela respondeu, olhando para outro lado. Não esperava aquelas palavras vindas dele.

— Não irei olhar para seu rosto, pode ficar calma, nem a água é venenosa como dizem. – Ele sorriu, voltando sua atenção a um cardume de peixes azuis e verdes que nadavam velozes por ali. – Não quero criar complicações para ninguém, apenas acredito que não esteja muito confortável com isso. E não tenho como sugerir que tire a Armadura, porque estamos em serviço. Seria deveras inadequado de nossa parte. Mas, ao menos se refresque um pouco. Irá ajudar a suportar esse dia, principalmente por conta desse machucado. – E suspirou.

A escorpiana ficou estática. De fato, estava muito quente e seria uma questão de tempo até sentir o metal de sua máscara começar a queima-la. Com a ausência de vento circulando, a falta de ar seria uma questão de tempo. Somando isso aos ferimentos que a incomodavam desde que acordara, antes do nascer do sol, não demoraria para que a própria precisasse se recolher em seu Templo para descansar bem.

— Está certo. – A jovem concordou, se aproximando da canaleta, se esforçando para não mancar.

Abaixou-se com cuidado, deixando que as mechas mais longas escondessem seu rosto ao máximo, enquanto deixava a máscara de lado. Mergulhou uma mão em concha na água, sentindo-a agradavelmente fresca, apesar do calor, e a jogou na própria face. A sensação de refrescância foi imediata.

O Cavaleiro apenas mantinha-se onde estava, brincando com os peixes que ali atravessavam, enquanto mexia na água. Em uma ação involuntária, com os olhos fixos nas águas cristalinas, vislumbrou o rosto da Amazona no espelho d’água, ainda que suas formas estivessem trêmulas. Seus olhos azuis se arregalaram e a boca se abriu um pouco diante do que viu refletido. Ele a admirou por um curto instante antes de conseguir desviar sem que sua ação chamasse atenção. Sorriu contidamente, olhando de soslaio.

— A água está bem fresca, não? – Comentou, tentando qualquer coisa que lhe desse margem para olhar qualquer outro ponto.

— Sim, bastante! – Ela respondeu com a voz mais animada. – Se incomodaria se eu enchesse meu odre com ela? – Perguntou.

— Não, fique à vontade. – Cadmus falou, tentando focar os olhos nos pequenos que nadavam próximos aos seus pés. – Só tome cuidado para que um desses pequenos travessos não vá junto.

Antares sorriu discretamente e mergulhou a bolsa de couro, colhendo a água. Os peixes logo nadaram em sua direção, curiosos, obrigando-a a colocar uma mão na frente do bocal, para impedir que algum deles fosse puxado para dentro. Quando a quantidade a satisfez, puxou o odre e o tampou de volta, prendendo-o no cinto da Armadura. Aproveitou para molhar a máscara, esfriando o metal e a agitou antes de tornar a coloca-la no rosto. Sentiu-se revigorada com aquilo.

— Muito obrigada por isso, senhor Cadmus. – Ela o agradeceu com sinceridade e se colocou de pé. – Mas agora é melhor irmos, ou terminaremos por nos atrasar.

— Sim, é verdade. – Comentou ele se levantando, desprendendo sua capa nas costas. – Apenas aguardava por você para finalmente subir sem que seja preciso receber qualquer outro Cavaleiro. Sente-se melhor?

— Bem melhor! – A jovem afirmou.

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Pollux finalmente estava diante das escadarias, tendo Phoenix ao seu lado. Poderiam já ter subido, porém a visitante pediu para que a levasse até os pontos onde os Espectros e Esqueletos foram vistos. Com isso terminaram por encontrar mais alguns deles, cujos corpos terminavam de se recuperar, anunciando que em breve a onda de ataques retomaria.

Uma vistoria minuciosa foi feita pela parte dos dois, até poderem retomar o caminho original. E ele não estava nada satisfeito, com nenhuma das situações. Sentia-se ofegante, transpirando em abundância, enquanto olhava em direção às escadarias, já sem qualquer disposição para fazer qualquer movimento.

— Seria... pedir muito... para reduzir essa onda de calor... que emana? – O geminiano perguntou, visivelmente desconfortável. – Não poderei... guiá-la até o Templo de Athena... nessas condições… Mesmo eu… com meu sangue divino… não estou suportando! – Reclamou, fechando os olhos.

Ela nada falou, contudo ele pode perceber as cores vivas de sua veste tornarem-se menos reluzentes. Não demorou muito para que a temperatura ao seu redor se tornasse menos insuportável.

Ainda que não estivesse em condições, precisava faze-lo. Com dificuldade, se concentrou, contatando com o Cosmo da deusa: “Senhora Athena… permita-me abrir um caminho até o Templo!”.

Enquanto aguardava, o Cavaleiro não deixou de notar o semblante da visitante. Embora sua postura denotasse poder, seu rosto não escondia a curiosidade pela situação. Tudo o que ele sabia a seu respeito era que Phoenix viajava pelo mundo, evitando pessoas e cidades. Sua presença era notória dado a um súbito aumento de temperatura nos lugares que, felizmente para muitos, durava pouco tempo. Ela raramente se demorava um dia inteiro em um lugar só. Houveram algumas histórias de que tentaram capturá-la, ou mesmo matá-la. Todas em vão. Ela era quase tão poderosa quanto uma força da natureza. Talvez apenas um Deus ou um Titã fosse capaz de detê-la.

E esse era o perigo: Phoenix era poderosa e tinha perfeito conhecimento disso.

Ninguém sabia dizer de que lado ela realmente estava, exceto que se colocava em favor de quem lhe oferecesse algo de seu interesse. Nesse ponto, não era muito diferente de um mercenário.

Seus pensamentos foram interrompidos com o gentil calor do Cosmo de sua Deidade. A permissão estava dada.

Ofegante, cansado, desidratado. Pollux de mantinha de pé a muito custo, mas “rasgou” o ar à sua frente e criou um portal, indicando para a entidade entrar, sem conseguir dizer muito por sentir a garganta seca. Ele a acompanhou em seguida. A saída se deu exatamente no Templo de Athena onde ele caiu ajoelhado no chão, buscando ar.

A sua frente, os Cavaleiros de Ouro o olharam surpresos e se aproximaram, enquanto a visitante surgia a passos lentos, vindo da fenda. O espartano sentiu a vista escurecer e o corpo perder o resto da firmeza que tinha. Antares fizera menção de ir até ele, porém foi detida por Ganimedes que segurou o seu pulso de maneira discreta.

—Não! – Ele falou de modo firme, atraindo os olhos rubros dela. – Eu cuido disso.

E caminhou na direção do Príncipe-Herdeiro, diante do olhar de todos. Mesmo para o aquariano, era preocupante ver alguém como o Príncipe-Herdeiro de Esparta naquelas condições apenas por estar ao lado daquela mulher. Por um momento desejou em silêncio que Scorpio estivesse ali, com eles.

Ajoelhou-se ao lado do geminiano, colocando uma mão em suas costas e outra em seu peito. Ascendeu seu Cosmo frio de modo lento e gradual, permitindo que a temperatura do corpo do outro diminuísse a um ponto seguro.

— Pollux, me ouve? – O troiano o chamou, verificando como estava sua consciência. – Pollux?

Ele apenas meneou que sim, mas sinalizou sentir sede. Conseguiu apenas murmurar “água”, algo providenciado por Cadmus que se aproximou com um odre. O geminiano serviu-se, bebendo tudo num único gole e respirou fundo logo em seguida. Os olhos dourados lacrimejavam e o seu rosto estava bem vermelho, como se tivesse passado o dia inteiro debaixo do sol escaldante. A sua respiração parecia regularizar gradativamente.

— Pollux, descanse um pouco aqui. – Kheiron falou, se aproximando com mais um odre.

O centauro olhou Ganimedes, pedindo para que esfriasse aquela água, sendo prontamente atendido. Em seguida, voltou-se para Antares, sinalizando para a faixa em sua cintura. Seria bem indicada para o momento.

Ela compreendeu de imediato e desatou o nó, enquanto se aproximava para entregar a peça de pano. Protegida pela discrição da máscara, se permitiu lançar um olhar apiedado para o espartano que era socorrido pelos companheiros. Foi como sentir uma pancada no peito.

Sagitário molhou o tecido com o líquido frio e começou a passar lentamente na pele exposta de Pollux, ajudando a refrescá-lo. Molharam-lhe a cabeça e derramaram um pouco da água em seu pescoço, para enfim, deixarem-no beber mais alguns goles, antes de apoia-lo em uma coluna à sombra.

— Phoenix, fico feliz em vê-la aqui. – Comentou o Oráculo se adiantando e prestando uma discreta reverência à entidade, enquanto seus companheiros ajudavam ao príncipe. – Parece mais... jovem... desde a última vez que nos encontramos. Que tal adiantarmos sua parte com a senhora Athena? É tempo o bastante para que o Cavaleiro se recupere e possamos conversar todos.

Ela virou-se para o Cavaleiro de Virgem, mas nada falou. Colocou-se a caminho do interior do Templo. Outros Cavaleiros apenas ficaram a observar aquela criatura passar por eles sem qualquer olhar em suas direções, como se todos fossem invisíveis a ela. Alguns a olharam com a mesma indiferença, outros impressionados sobre o mito realmente diante deles, outros alternando dela para o semideus que ainda se recuperava. Se aquele dito dentre os mais resistentes dobrara seus joelhos apenas por conta de sua presença, o que aconteceria se ela decidisse mostrar toda a extensão de seu poder?

O quão devastador seria o poder daquela cujo Cosmo assumia a forma de uma imensa ave de fogo?

Contudo ela parou ao ver Antares. Phoenix não fez qualquer esforço em esconder sua estranheza ao ver a jovem ali, e isso fez com que Ganimedes ficasse alerta.

O Oráculo percebeu quando a entidade pareceu fitar incisivamente para um dos companheiros dourados, chegando a imaginar quem seria, mas nada disse.

— Vejo que essa reunião será muito interessante... – Foi tudo o que Phoenix falou, tornando a acompanhar Virgem e Sagitário.