Notas iniciais
O cerco vai chegando ao fim. Desesperado, o inimigo lança sua última cartada.

De longe, um homem com grandes asas em sua Surplice olhava o horizonte. Os focos de incêndio começavam a diminuir, junto com o Cosmo profano dos Espectros que deveriam estar naquela área. Ele suspirou com pesar. “Estávamos tão perto…”, pensou, e ergueu os olhos para o céu.

Era alto e de cabelos cor-de-vinho, na altura dos ombros e de ondas suaves. A pele levemente queimada pelo sol grego e os músculos discretamente definidos. Tinha os olhos amendoados e atentos, dourados como os de seus meio-irmãos, com quem dividia a função de julgar as almas.

A lua devia estar alta, mas as nuvens avermelhadas não permitiam que ele tivesse alguma certeza. Raios passavam de uma para a outra, trazendo uma brusca iluminação que quase não durava. O estranho lamentou. Estavam tão perto…

O fio gelado de uma lâmina tocou o seu pescoço, interrompendo seus pensamentos. Devagar, ele virou-se para aquele que o ameaçava, seguindo a forma congelada de um gládio até a mão protegida por uma manopla de ouro, e aquele que a segurava.

— Não imaginei que me encontraria aqui, troiano. – Falou o Juiz do Inferno, com indiferença.

— Deu um pouco de trabalho, mas bastou seguir os seus servos pouco discretos. – Respondeu Ganimedes, com um tom gélido na voz. – Se está esperando o alvorecer, ele fica para o outro lado. – E sorriu com ironia. – Rei Aiacos de Egina [01].

Aiacos sorriu de volta.

— É bom saber que os Cavaleiros de Athena são bem instruídos. – Ele comentou, virando-se devagar, fazendo uma educada mesura. – Príncipe Ganimedes de Tróia.

Ficaram a se encarar por longos segundos. Aquário o observava com atenção, desconfiado de sua postura relaxada e ar indolente. Seu oponente não demonstrava qualquer sinal de que iria atacá-lo, e isso o incomodava.

O Espectro riu diante daquela expressão tensa do aquariano e tocou na lâmina fria do gládio, forçando-a para o lado e a abaixando.

— Perdão, mas não me tome por um imprudente, Príncipe de Tróia. – O Juiz falou, mantendo o respeito na voz, apontando na direção do Santuário com a outra mão. – Olhe. Olhe você mesmo! Até mesmo um cego perceberia que nossa invasão fracassou, então não há qualquer razão para que eu tente fazer qualquer movimento a respeito. – E deixou o sorriso morrer.

— Está mesmo me dizendo que irá retirar suas forças do Santuário depois desse cerco? – O aquariano piscou incrédulo.

— É perda de tempo continuarmos com isso. – O invasor disse sem qualquer cerimônia. – Não vale mais a pena. Vocês conseguiram proteger vidas inocentes e eu não esquecerei disso quando for julgar suas almas no Tribunal dos Mortos. – E jogou duas moedas para o homem à sua frente.

Ganimedes as apanhou ainda no ar, percebendo que se tratava de óbolos funerários [02], o que o fez arregalar os olhos verde-água. Em seguida o encarou confuso. Estava mesmo vendo um inimigo desistir tão facilmente assim da luta? O que aquelas moedas significavam? E o oponente percebeu a questão em seu semblante.

— Vou deixar as coisas mais claras, rapaz. – Aiacos falou, se aproximando dele, encarando-o. Ganimedes mal conseguiu esconder seu desconforto diante daqueles olhos dourados, tão parecidos com os de seu raptor. – Eu, Aiacos de Garuda, Estrela Celeste do Heroísmo e um dos três Juízes do Inferno, não irei perder meu tempo em uma batalha que não posso vencer. Muito menos tenho disposição de enfrentar um imortal [03] na atual situação. – E caminhou na direção de onde o Cavaleiro veio. – Aproveitem a vitória enquanto podem. Talvez vocês não tenham tanta sorte assim da próxima vez.

✶~~✶✶✶~~✶

Os Gêmeos corriam na direção da Vila das Amazonas. Os Cosmos explodindo sinalizavam que, por lá, ainda acontecia uma batalha violenta. Eles temiam por quem ainda estava por lutando e a apreensão apenas piorou quando encontrou os corpos tombados de três Amazonas, uma delas, ferida demais.

— Elas ainda estão vivas, mas… – Comentou Castor conferindo a pulsação. – … seus corpos estão frios como se estivessem mortas!

— Como se suas almas tivessem sido removidas. – Pollux respondeu, praguejando em seguida. – Já vimos isso antes, resta-nos saber quem é responsável.

— Não podemos deixá-las aqui… – Ponderou o mais novo apreensivo.

—... Também não podemos ficar. – Completou o mais velho, também desgostoso. – Só podemos torcer para que suportem até voltarmos. – E sinalizou para irem em frente.

A trilha de destruição era imensa, contudo, só de não verem cadáveres de mulheres e aspirantes, os irmãos já se sentiram imensamente aliviados. Cabanas e pequenos prédios, tudo tinha sido reduzido a ruínas e fuligem. Os únicos corpos ali, eram os de Espectros e Esqueletos dilacerados e com queimaduras terríveis nas poucas partes expostas do corpo.

— Deuses…!!! – O espartano de olhos castanhos deixou escapar, verificando um dos cadáveres. – Isso… isso parece coisas que aquele cara faria!!!

— Mas ele não está aqui... – Pontuou o de olhos dourados. – … Mas alguém parece carregar seu legado bem o bastante para reconhecer seu estilo. – E engoliu a seco aquelas palavras.

“Eu não fazia ideia de que ela era capaz de fazer uma coisa dessas!”, ele pensou, olhando ao redor, cada vez mais impressionado com o que via. Um corpo estava despedaçado, indicando que fora arrastado e depois sacudido como a um boneco de trapo na boca de um cão. “Escorpião… por favor, que você não se torne igual a ele! Não se torne igual ao seu mestre, por favor!”

— Me lembre de nunca mais provocar aquela ratinha assustada. – Castor falou, se afastando dali.

— Não deveria nunca ter começado! – Disse o outro num tom incisivo e fitando-o, avançando em seguida na direção de onde explodia aquele cosmo. – Apenas espero que ela não sucumba à Besta como ele um dia se deixou… – E assustou-se com o que viu mais adiante.

Metade do corpo de um homem jazia pendurado em um poste, com sua Súrplice em pedaços. Parte da pele de seu rosto e do peito tinha sido arrancada por algo que parecia ser mordidas. As costelas pendiam para baixo, quebradas, exibindo o resto de coluna partida. Suas vísceras, uma massa disforme e desbotada, caíam pelo tronco de madeira encharcado de sangue escuro, até a outra metade, que estava jogado na base.

— O que foi que aconteceu aqui…? – Indagou Castor olhando aquilo perplexo. – É como assistir aos Oficiais Marinas trilhando o caminho até aquele General Marina… – Disse engolindo aquelas palavras. – Ela não faria isso… ou faria?

— Ela foi aprendiz dele, não foi? Assumiu o seu legado. – Lamentou Pollux diante do que via, lívido de horror, mas controlando-se. – Mas onde ela...?

— Estou aqui… – Eles ouviram a voz dela vir de suas costas, causando arrepios por isso.

Viraram-se quase que de imediato, sem esconder o susto que levaram. Antares estava suja de sangue quase seco, da Armadura Sagrada aos cabelos empapados, e tinha um olhar cansado. A face estava coberta por um pano longo, mas não escondia os hematomas adquiridos na luta contra os Espectros.

A Armadura de Escorpião estava cheia de rachaduras e as esporas do ombro esquerdo estavam quebradas. A jovem estava com parte do rosto molhado, como se ela tivesse acabado de lavá-lo, na esperança de diminuir o esgotamento e melhorar sua apresentação.

Os dois irmãos não se entreolharam, tamanho o choque com o que viam. Alternaram dela apenas para o corpo pendurado. Enquanto o mais novo tentava compreender o que aconteceu ali, o mais velho arriscava a se aproximar da escorpiana, ainda que hesitante.

Era visível que não estava mais como mais cedo e isso o deixou um pouco tranquilizado, mas a cautela era necessária. Embora parecesse calma, ele temia que ela estivesse em conflito interno. Já havia enfrentado uma pessoa com a Besta desperta antes e não queria ter que fazê-lo novamente.

A parte visível de seu rosto estava arranhado, como se alguém tivesse tentado atingir seus olhos vermelhos. A proteção metálica de anéis lemurianos que vestia por baixo da Armadura estava danificada na altura dos braços. O espartano não conseguia parar de imaginar o quão desesperado estava o Espectro que a enfrentava, ao ponto de tentar rasgar aquela armadura secundária.

O geminiano não suportou olhar para a escorpiana naquele estado por muito tempo.

— Vamos sair daqui… – Dizia o mais velho, conseguindo chamar a atenção do irmão que reagiu preocupado à aproximação dele junto à Amazona. – Tudo bem, Castor. Precisamos sair daqui e cuidar dos ferimentos dela.

— Eu só preciso descansar um pouco… – A jovem falou, acompanhando-os para sair daquele lugar, cujo cheiro começava a fazê-la salivar desconfortavelmente.

Ainda estava tonta do combate anterior, embora tivesse conseguido fazer o zumbido irritante cessar. Seu equilíbrio também não estava mais tão comprometido, embora estivesse bem ciente de que não deveria tentar movimentos bruscos ainda.

Seguiram pelos corredores de cabanas destruídas, quando perceberam que ela havia parado de caminhar com eles. Estava afastada há poucos passos de Pollux, olhando ao redor, com as sobrancelhas franzidas, e farejando o ar como que procurando por algo.

— Vocês ouviram algo? – Ela questionou intrigada, virando a cabeça, como que para tentar escutar melhor.

Os irmãos a olharam de maneira interrogativa, uma vez que nada ouviam senão seus passos metálicos sobre os cascalhos que tomavam às ruas por conta das batalhas deflagradas. Deixaram seus olhos correr pelas ruínas, procurando qualquer sombra ou fantasma que insinuasse a presença de mais algum inimigo ali presente. Em vão. Nada se mexia por ali além deles e da fumaça que subia dos locais que foram queimados.

— Vamos logo. – Disse o mais novo ganhando a frente, muito receoso com o estado da Amazona. A julgar pelo que conhecia do mestre dela, temia que Escorpião não resistisse e os atacasse, forçando-os a mais uma luta cansativa e bem desnecessária. – Muitos já foram levados em segurança e não deve demorar para que esses malditos Espectros renasçam…

— Borboletas…? – Eles a ouviram falar com estranhamento.

Ambos os gêmeos olharam aquilo com estranhamento. Castor estava prestes a protestar por terem parado mais uma vez e exigir que agilizassem quando uma sombra pareceu cobri-los. De fato, uma nuvem se aproximava e não parecia da fumaça dos escombros incendiados ou mesmo de alguma chuva, mas algo em um púrpura cintilante, que fez o Cavaleiro piscar aturdido, e que se aproximava rapidamente. A única reação do caçula foi gritar para o irmão e apontar na direção daquilo que vinha em sua direção.

Pollux apenas teve tempo de empurrar Antares para uma rua e cobriu o rosto com seu manto, auxiliado pelo seu Cosmo que tomou seu corpo para servir de escudo. O seu gêmeo mais novo, por sua vez, fez o mesmo, mas optou por desferir um ataque contra aquele enxame e abrir uma fenda entre elas, ajudando-a a se dissipar.

Diversas borboletas foram ao chão e se desfizeram em miasma. Nada veio depois disso, fazendo com que Castor olhasse ao redor. Não queria ser surpreendido por algo como aquilo outra vez.

— Mas o que diabos é isso? – O Cavaleiro de Gêmeos mais novo quis saber.

— Não faço ideia. Elas não são daqui. – Respondeu a Amazona, sentindo um arrepio na nuca. – Os senhores estão bem?

— Consegui destruí-las antes de chegarem em mim, mas Pollux deve ter cauterizado as outras com calor do seu Cosmo. – Comentou o mais novo quando viu inúmeras delas que estavam aos seus pés desaparecendo. – Tudo bem, meu irm…

Castor nem acabou de dizer aquelas palavras quando arregalou os olhos com o brilho no olhar do irmão. Uma rajada de Cosmo foi lançada em sua direção, arremessando-o longe e fazendo-o chocar-se contra uma parede, que veio a desmoronar. Os olhos de Pollux brilhavam em um intenso rubro e não apenas isso. Linhas púrpuras se desenhavam em uma metade de seu rosto, interligando-se em um desenho elaborado da asa de uma borboleta.

— Senhor Pollux?! – A Amazona gritou, atraindo para si a atenção dele, fazendo com que uma onda de arrepio percorresse seu corpo.

O Filho de Zeus jogou o manto para o lado e voltou-se para a jovem com seu punho em riste, impregnado de Cosmo. Estava prestes a desferir um soco nela, quando foi jogado para o lado com o mesmo ataque que havia lançado contra seu irmão. Castor havia se levantado meio às ruínas, ferido, a mão que gerou a rajada de Cosmo estava trêmula, notoriamente hesitante.

— O que... acha... que está fazendo... irmão...? Por que... me atacou…?! – Indagava enquanto se. levantava, saindo dos escombros até se dar conta daquilo no rosto do mais velho. – Mas... o que é isso?

Pollux, que havia conseguido se defender a tempo da investida do irmão, não deu qualquer resposta que fosse diferente de avançar contra ele, com o punho erguido. Porém, dessa vez, um borrão dourado e azul se colocou na sua frente, desviando a ameaça de Castor.

O Príncipe-Herdeiro tentou mudar seu alvo num último momento, contudo sentiu algo atingi-lo no meio do peito. Parecia que uma luz vermelha o tocara, deixando quadro longas linhas arranhadas no metal dourado que o protegia, seguida de uma queimação leve.

— Pare, senhor Pollux! – Pediu a escorpiana, aflita com aquilo. Estava com o indicador apontado para ele, tendo longas unhas escarlates reluzindo como o fogo.

Assim como o irmão caçula do Cavaleiro, ela não estava entendendo o que havia acontecido para que ele mudasse tanto. O Pollux que sempre ouviu falar e cresceu admirando era um homem bom e justo, que jamais atacaria os seus companheiros de batalha.

No entanto, este sem hesitar, direcionou seu golpe contra a Escorpião, provocando uma explosão violenta. Se não fosse pela intervenção de Castor, puxando-a para junto dele e usando sua energia para se protegerem, a jovem teria sido destroçada sem qualquer piedade.

— TÁ LOUCA?! Você seria esmagada com aquele punho dele! – O geminiano mais novo ralhou, segurando-a pelo braço.

— POR NADA! – Ela devolveu, soltando-se dele e pulando para trás, desviando de um novo golpe.

O Cavaleiro de Gêmeos mais velho tentava atacar a ambos, encontrando o bloqueio de Castor e a esquiva de Antares, que ainda não sabiam o que fazer quanto aquilo. No entanto, o Filho de Zeus logo percebeu que aquilo seria inútil e então mudou sua estratégia, deixando um sorriso se desenhar no canto de seus lábios.

Com um salto longo para trás, cruzou os braços diante do corpo, enquanto aumentava o seu Cosmo vertiginosamente, para níveis alarmantes. Seu sorriso virou uma risada, a princípio baixa, mas que logo foi ganhando volume, causando arrepios em quem ouvia. Planejava acabar com aquilo rapidamente, mesmo que obliterasse toda a área.

— Ah, não… – Estremeceu Castor olhando aquilo. – Isso não…!!! POLLUX, PARA COM ISSO!!!

A Amazona não pensou duas vezes, mesmo sabendo de seu estado. Com um impulso forte o bastante, irrompeu em uma corrida veloz o bastante para se lançar contra o geminiano que os atacava sem que ele tivesse tempo de reagir. Castor tentou impedi-la ao perceber sua movimentação, porém sua mão atravessou o corpo que estava a sua frente, surpreendendo-o.

“Mas que feitiçaria é essa?!”, ele pensou, assustado em ver o vulto dela desaparecer bem diante de seus olhos.

A escorpiana projetou o ombro cujas esporas estavam quebradas, encaixando-as no abdômen do semideus, como um aríete. O impacto roubou o ar de seus pulmões, interrompendo sua concentração e quebrando sua postura, e o empurrou para trás, por bons metros.

Por sua vez, Pollux conseguiu minimizar os danos, impedindo-a de golpeá-lo com as unhas carregadas de veneno na altura do peito. Segurou-a pelos pulsos, quando percebeu que ela parecia desnorteada, fazendo-o sorrir maliciosamente. Puxou-a com força, abrindo seus braços e a golpeou no ventre, com o joelho. A pancada fez com que a escorpiana se curvasse, permitindo que ele lhe desse uma cotovelada nas costas, mandando-a violentamente para o chão. Erguia um pé para pisar em sua cabeça, quando foi atingido por um golpe no peito, vindo de Castor, que logo avançou para afastá-lo de Escorpião.

Os Gêmeos trocaram golpes que lançavam faíscas no ar a cada impacto. Ambos eram bem resistentes, porém Pollux não estava fazendo qualquer esforço em tentar poupar o irmão. Seus golpes eram impiedosos, mas por treinarem constantemente juntos, o caçula conhecia perfeitamente suas técnicas e isso o permitiu desviar da maioria dos golpes trocados. Entretanto, naquele momento, o objetivo do mais novo era apenas o de afastar o mais velho da companheira que se recuperava.

Antares tentou se levantar, mas a tontura da arrancada não permitiu que fosse rápida o bastante. Mal percebeu quando Castor se colocou na sua frente, impedindo que Pollux a golpeasse novamente. Respirou fundo, ouvindo o choque entre os metais das Armaduras de Gêmeos incomodá-la, e içou o corpo, se colocando de pé, embora precisasse de alguns segundos para reaver o equilíbrio. Foi quando ouviu Castor ser atingido por um soco no queixo, vindo cair quase aos pés da Amazona.

Ela ergueu os olhos, para Pollux, que se aproximava lentamente, sorrindo como um predador. Tal visão fez com que a escorpiana empalidecesse e sentisse as pernas fraquejarem mais uma vez.

— N-não… por favor… não o senhor… – Murmurou sem se dar conta.

Por quantas vezes já tinha visto aquele tipo de sorriso? Nas ruas ou quando estava presa em um cubículo abafado que lhe servia de quarto e prisão. Quando criança, aquela era a expressão que mais temia ver, e a mais comum, principalmente no rosto da mulher que deveria protegê-la, mas que foi sua carrasca por anos a fio. Só de lembrar, a vista começava a ficar levemente avermelhada como ficara mais cedo.

Seus punhos fecharam com força e sua respiração acelerou. Ela não queria aceitar que estava vendo aquele tipo de sorriso na face do semideus. Seus olhos vermelhos reluziram perigosamente, ao mesmo tempo em que os pensamentos começavam a ficar nublados outra vez.

— PARA COM ISSO, POLLUX!!! ISSO NÃO É VOCÊ, MEU IRMÃO! – Castor bradou, se levantando depois de cuspir sangue, sem saber que isso a ajudou a recuperar o foco. – VOCÊ NÃO É DESSE JEITO!!! VOCÊ NUNCA MACHUCARIA SEUS COMPANHEIROS! NUNCA MACHUCARIA AO SEU PRÓPRIO SANGUE!!!

O semideus piscou naquele momento, interrompendo seus passos momentaneamente enquanto uma mão trêmula ganhava sua face, cobrindo exatamente a parte limpa do rosto e deixando evidente a borboleta que reluzia. No entanto, nem se demorou naquela ação e lançando um golpe em arco em direção do irmão juntamente com um brado enfurecido.

Castor saltou para um lado, evitando o golpe, enquanto Antares se ajoelhou e inclinou o corpo todo para trás. A lâmina de energia passou rente ao seu corpo, permitindo que ela sentisse o calor emanado pelo golpe. Quem quer que fosse atingido por aquilo, poderia ser partido no meio.

— Aquela coisa no rosto dele… – O geminiano mais novo falou, quando aterrissou ao lado da Amazona, que permanecia de joelho no chão. – Ele ficou assim por causa daquela coisa!

— Acho que sim. – Ela respondeu ofegante. – Tem alguma ideia do que fazer?

— Ele não vai deixar ninguém se aproximar… – Comentou Castor arfando. – Além do mais, precisamos evitar a todo custo que ele execute a Explosão Galática ou seremos incinerados!

Por mais que não quisesse admitir, a escorpiana sabia que ele estava certo. De todo o Santuário, eram os Cavaleiros de Gêmeos quem possuía o maior potencial destrutivo em grande área. Podiam atingir facilmente uma Polis inteira e reduzi-la a cinzas. Só de cogitar isso, ela sentiu um calafrio percorrer a espinha.

— A velocidade dele é um pouco menor que a sua, não é mesmo? – Escorpião questionou, respirando fundo.

— Digamos que sim… – Respondeu o geminiano mais novo limpando o sangue da boca, e olhando para ela, sem entender o que estava pensando. – O que está pensando?

— Eu posso tentar imobilizá-lo por um tempo, e o senhor se encarrega de pará-lo. – Ela propôs. – Ou coisa assim.

— E como pretende fazer isso no estado que se encontra? – Indagou ele perplexo. – Mal consegue se manter de pé e acha que pode segurá-lo do jeito que está?

— Tem alguma ideia melhor? Se ficarmos fugindo, não teremos como impedi-lo de usar seus melhores golpes. Se ele conseguir usar uma Explosão Galáctica aqui, nós dois vamos terminar mortos! – Ela apontou. – Eu sou rápida o suficiente para chegar até o senhor Pollux, só preciso que o senhor não demore a agir.

— Espero que saiba o que está fazendo… – Disse Castor relutante. – Se ele se voltar para você, vai te partir em dois assim como aquele Espectro que deixou espetado pra trás. – E se levantou, preparando o punho. – Seja rápida!

— Serei. – Ela respondeu. – Eu... confio minha vida ao senhor. – Completou hesitante.

“Eu detesto quando alguém me diz isso...”, pensou Castor, assumindo um semblante sombrio.

— Ei, Escorpião, tente não morrer. – Ele falou, assumindo uma posição de guarda. – Eu detesto ter que ir ao funeral dos meus companheiros de batalha.

— Eu não vou dar esse prazer a ninguém hoje. – Antares rebateu com confiança, ainda que não se sentisse tão segura assim.

E avançou contra Pollux, deixando apenas um reflexo para trás, que logo desapareceu. Diminuiu um pouco a velocidade diante do gêmeo mais velho, apenas para se fazer notar diante de seus olhos surpresos, e novamente sumiu das vistas dos presentes.

Ao seu redor, o Semideus percebeu o cascalho se mover, como se a Amazona freasse bruscamente para mudar de direção, em diversos pontos, quase simultâneos. Castor sabia que não poderia ficar apenas olhando e esperar que ela sozinha fizesse aquele trabalho. Precisaria ajudá-la de alguma forma, e logo soube como. Ascendeu o seu Cosmo lançando múltiplas rajadas para ajudar a encobrir o rastro de Escorpião.

Por um momento, o mais velho sentiu uma presença se aproximar pela frente. Sem qualquer piedade, concentrou o cosmo em seu punho e golpeou.

Uma densa nuvem de poeira subiu, envolvendo ao Cavaleiro, que sorria vitorioso. Até o momento em que a mão da jovem surgiu em meio à poeira e agarrou o seu punho, enquanto a outra agarrou seu gorjal [04], fazendo com que arregalasse os olhos em surpresa mais uma vez.

— Eu vou arrancar esse sorriso da sua cara! – Ela rosnou, fazendo um movimento brusco com os braços, obrigando Pollux a se curvar diante dela.

Em seguida chutou, atingindo ao Cavaleiro no queixo com força o suficiente para desnorteá-lo. Isso lhe deu uma boa oportunidade. Com um giro preciso, usou a outra perna para atingir o Cavaleiro no peito, fazendo-o quicar contra o chão. Saltou para trás, ao perceber o braço dele tentar puxá-la, permitindo que ele se colocasse de pé. Quase se desequilibrou ao fazê-lo, mas viu que atingiu o seu intento.

O golpe fora forte o suficiente para quebrar parte do peitoral e fazer o gorjal dourado cair, deixando seu pescoço desprotegido. Era sua única chance.

Ficou diante dele, encarando-o, desafiando-o com o olhar. E tal como esperava que ele fizesse, o Príncipe-Herdeiro de Esparta avançou sobre ela, sem grandes cuidados, dada a proximidade em que estavam. A Amazona não perdeu tempo em segurar seu punho, usando a impulsão dele em seu favor. E então, com um movimento rápido, laçou o pescoço do geminiano mais velho com as pernas e o apertou com firmeza.

O Filho de Zeus logo percebeu o seu erro, tentando usar as mãos para se soltar, porém, a escorpiana já havia conseguido travar as pernas. Se não fosse rápido em se libertar, terminaria estrangulado e derrotado por uma ateniense. E o quão vergonhoso seria para o Príncipe-Herdeiro de Esparta ser derrotado por um ateniense? Ainda mais uma mulher ateniense?

Pollux segurou as pernas dela sem qualquer cuidado. Enterrava os dedos em sua carne, esperando atingir os tendões ou os nervos e fazê-la soltá-lo, mas não conseguiu sequer diminuir o aperto. Respirar estava impossível e não demorou para que a vista começasse a escurecer.

Castor percebia que o irmão estava sendo sufocado, buscando desvencilhar daquilo sem muito sucesso. Foi quando então percebeu todo o corpo do irmão emanar o Cosmo, fazendo a Armadura Dourada reluzir intensamente. “Essa não…”, compreendeu o gêmeo sobre o que ele estava prestes a fazer.

— ESCORPIÃO! SOLTE ELE AGORA! SOLTE!!! – Gritou ele para a Amazona enquanto ele também concentrava seu Cosmo em seu punho. “Lamento por isso, irmão…”, pensou o Príncipe com os olhos lacrimejando.

“Droga! Quase!!!”, ela pensou, jogando o corpo para o lado, como um pêndulo, obrigando seu oponente a acompanhá-la para não ter o pescoço quebrado. Tentou rolar pelo chão, e assim se afastar com segurança, mas sentiu algo agarrar seu tornozelo. Tentou se segurar ao chão, mas não foi o suficiente.

O Semideus, ajoelhado, a pegou pelo pé e traçou um arco acima de sua cabeça, com a jovem, fazendo com que ela atingisse o chão com as costas, e a golpeou abdômen, fazendo com que parte da Armadura de Escorpião afundasse. Antares sentiu a pele ser rasgada pelo metal partido de sua proteção e quebrar algumas costelas, tornando sua respiração difícil. Sangue jorrou em abundância por seus lábios, manchando o pano que cobria o rosto.

A escorpiana tentava se mexer, para se libertar do Cavaleiro de Gêmeos, mas estava quase sem forças. Sabia que tinha que fazer alguma coisa ou terminaria morrendo nas mãos dele. Foi quando notou uma sombra se aproximar por trás do Príncipe-Herdeiro. Sua última chance de vitória.

Antares reuniu o máximo de Cosmo que conseguiu para aquele curtíssimo espaço de tempo e disparou cinco Agulhas Escarlates com um grito sangrento. Pollux, surpreso com aquilo, não conseguiu sequer pensar em reagir, sendo atingido pelos ferrões vermelhos, que fizeram o seu corpo arquear para trás. E naquele milionésimo de segundo ao virar-se, era tarde demais para aparar ou mesmo bloquear o golpe que receberia, vendo apenas uma forte luz cegá-lo.

— Lamento muito por isso, meu irmão… – Disse Castor golpeando-o violentamente no lado direito do rosto do mais velho, exatamente sobre a borboleta púrpura em sua face, que se desfez em névoa enquanto assistia o corpo do irmão ir ao chão, desacordado.

Notas finais
01 – Segundo a Mitologia Grega, Aiacos era um filho de Zeus, com uma ninfa de nome Egina. Zeus a raptou (ou, segundo outra versão, a convenceu a acompanhá-lo), deixando seu pai, o deus-rio Asopo (cuidado aqui, pois há mais de um personagem com esse nome). Sisyphos, a única testemunha do que aconteceu, logo informou Asopo sobre a jovem. Aiacos nasceu na ilha de Delos e mais tarde, segundo Pausânias e Pseudo-Apolodoro, o deus a levou para uma ilha desabitada, chamada de Oenone. Mais tarde, passou se chamar Egina. 02 – Óbolo era uma unidade de massa na Grécia Antiga correspondente a cerca de 0,5 grama. Mas também era o nome dado às moedas colocadas junto ao morto, para que pudesse pagar ao Barqueiro Caronte pela travessia do Rio dos Mortos. As moedas que Aiacos entregou para Ganimedes são essas últimas. 03 – Em uma das lendas sobre Ganimedes, Zeus o imortaliza para que sirva eternamente no Olimpo, em outras, ele é elevado ao posto de divindade das chuvas. 04 – Gorjal é uma parte da armadura utilizada para proteger o pescoço de possíveis ataques.