Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
13 Em Família
Notas iniciais
Aquela foi a primeira vez naqueles dias em que Antares realmente comeu com gosto. Embora não tivesse passado fome desde que as novas servas do Templo assumiram as tarefas domésticas, ainda não tinham conseguido despertar o seu apetite. No máximo, amenizaram o vazio que se formara no peito da jovem Amazona, com a partida de seu mestre e de sua ex-serva favorita.
A mesa parecia servida para um banquete e ainda assim quase nada sobrou, para os olhos assustados dos escravos daquela casa. Pelo visto, o seu senhor não era o único com um apetite descomunal, ainda que ela se portasse como uma bem-nascida.
Ao terminar, a escorpiana foi conduzida até o aposento preparado para recebe-la. Não era espaçoso como seu quarto, no Templo de Escorpião, mas lhe parecia ser muito mais convidativo que ele. Uma cama aconchegante a esperava, forrada com uma boa quantidade de palha nova e seca, coberta por lençóis limpos. Próxima a ela, uma mesinha ao lado, onde uma bacia e um jarro com água fresca, e algumas uvas verdes. Uma janela garantia a ventilação do aposento, encontrando-se entreaberta.
Aos pés do leito, um baú contendo duas peças de tecido longo. Junto à parede oposta havia um buraco no chão, revestido cuidadosamente com pedra. Havia água em seu interior, com um perfume suave de rosas (01). Em uma distância segura, um bloco de madeira trazia uma lamparina de pedra, acesa.
Quando sozinha, banhou-se e acomodou-se na cama, sentindo o frescor dos lençóis de cor vermelha e levemente perfumados. Uma boneca de pano (02) se encontrava ali, com cabelos de lã azul-escura desfiada e olhos de um vermelho brilhante, como os dela. A Amazona não deixou de sorrir, tomando aquele pequeno brinquedo e o abraçando forte ao corpo. Lembranças de um passado não muito distante povoaram sua mente, ajudando-a a relaxar.
Antares adormeceu rápido naquela cama que lhe era estranha. Nem mesmo percebeu quando Ágape surgira na porta. Trazia uma manta vermelha e algumas folhas e flores secas dentro de um recipiente com um pedaço de madeira em brasa viva.
O odor suave de lavanda e canela se espalhava pelo recinto, enquanto a mulher depositava o recipiente sobre a mesa junto ao leito com cuidado. Com ternura, cobriu o corpo da jovem com o cobertor trazido e afagou-lhe os cabelos escuros, antes de beijar sua fronte amorosamente. Devagar, a gestante se retirou do quarto, deixando a porta aberta.
Sem cerimônias, retornou para seu quarto, onde Scorpio a aguardava já despido e deitado na cama que dividiam.
— Ela já dormiu? – Ele quis saber, embora a resposta fosse óbvia.
— Sim, está dormindo como aquela criança adorável que cresceu no Templo de Escorpião. – Ela respondeu, soltando as vestes. – Aproveitei para deixar o incenso aceso para ajudá-la a não acordar no meio da noite. Afinal de contas, ela não conhece esse lugar, nem os escravos daqui... Temi que...
— ... Que ela tivesse pesadelos sobre aqueles dias... – O escorpiano completou, notando a esposa assentir, enquanto tomava o lugar ao seu lado. – Vamos esperar para ver. Recebi uma mensagem avisando da missão para a qual ela foi enviada. Talvez fique confusa sobre o que sentir ou pensar a respeito... Mas essa é a função que eu ocupava no Santuário.
— O Caçador e Assassino do Santuário. – Disse a mulher, como se estivesse murmurando uma palavra vulgar. Nunca escondeu o seu descontentamento com aquela atividade, embora nada o fizesse para impedir. Vivera coisas demais para saber que, às vezes, medidas como aquelas podiam ser necessárias em um ambiente como aquele. – Não faz ideia do quanto eu roguei, dia e noite, para que a nossa menina desistisse de se tornar uma Amazona... Que fosse uma daquelas damas de companhia da senhora Athena ou aceitasse ser uma jovem comum... Mas não uma Amazona!
— Infelizmente, não era uma escolha que lhe cabia. E nem a mim. Nascemos destinados a algo e não adianta lutar contra isso e o fato dela ter sido escolhida pela Armadura de Escorpião nada mais é do que uma prova de seu Destino. Não morreremos antes de cumprir a vontade das Moiras (03). – O ex-Cavaleiro respondeu, ficando sobre ela, embora tomasse cuidado com o seu ventre. Devagar, encostou sua testa na dela e manteve-se apenas olhando em seus olhos, naquela penumbra. – Até então, o único arrependimento que trago na alma, foi o de não ter percebido a sua presença antes. Ela me foi posta aos olhos sabe-se lá quantas vezes e eu...
— Mas você a resgatou, e é isso o que importa, Theron. – Ágape o interrompeu, tocando a face do homem que amava, vendo aqueles olhos reluzirem suavemente. – Você a trouxe e nós dois cuidamos dela juntos. Foi a vontade do Destino, como você mesmo falou. E eu sei que ela é forte, Antares tem o seu sangue. Irá superar isso, e nós dois a ajudaremos. Não foi sua culpa! Você não sabia que uma noite de comemoração irresponsável havia gerado uma criança! Muito menos que... que aquela mulher fosse...
— Chega! – Ele pediu, colocando um dedo nos lábios da esposa. – Não quero que suje sua boca se referindo àquele demônio. Mesmo eu abominei o que vi aquela mulher fazer e digo: Nem mesmo o Deus mais repulsivo ousaria fazer tal coisa com uma criança.
— Tem razão... – Ela concordou, soltando um longo suspiro. Uma mão deslizou pelo corpo sedoso, indo até a barriga inchada que já tomava formas. – Nosso papel agora é o que garantir que a nossa estrelinha não ache que nós iremos deixa-la de lado por conta de seu irmãozinho... ou irmãzinha. – E sorriu com doçura.
Scorpio sorriu como poucas vezes fazia. Um sorriso calmo, quase infantil, na face daquele ex-Cavaleiro, que outrora era tão temido no Santuário.
— Acredito que ela receberá bem esse filhote, quando ele vier ao mundo.
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Athena olhava para o horizonte escuro e estrelado bem a sua frente, pensativa. Era visível que seus Cavaleiros ainda se mostrassem contrários à nomeação de uma jovem mulher. Analisava por diversos ângulos como podia fazer para que aquela tensão estúpida não crescesse e terminasse por se tornar um motim. O que menos precisava naquele momento, era de uma revolta de mortais atrevidos com o ego ferido pela nomeação de uma Amazona.
Sagitário, Virgem e Gêmeos pareciam aceitar a situação com certa reserva. Não se colocavam contra, e pareciam dispostos a dar-lhe uma chance de provar seu valor. Aquário, não precisava se pronunciar a respeito, embora suspeitasse que ele não estivesse aceitando bem o afastamento do Caçador. Eles eram muito próximos desde muito antes de se tornarem Cavaleiros de Ouro, quando ainda estavam no Olimpo.
— Ainda pensativa sobre a nomeação da Amazona? – Indagou Pegasus se aproximando. – Creio que isso vem preocupando-a há alguns dias.
— Eu sabia que haveria resistência à nomeação de uma mulher ao posto mais alto dentre os Cavaleiros, mas confesso não ter previsto que as coisas chegariam a tal ponto. – Ela respondeu, virando a face para vê-lo. – Antares se mostrou eficiente em sua primeira missão, resgatando minha sacerdotisa e o Cavaleiro de Bronze, mas parece que temos um caso onde o orgulho fala mais alto que a gratidão.
— Os humanos são criaturas bem estranhas… – Ele replicou, olhando para trás como se pudesse ver a tudo, caminhando alguns passos à frente da deusa. – Esquecem que servem a uma Deusa… uma mulher… por que não haver mulheres lutando pela mesma causa que a deles?
— É isso o que eu não consigo compreender. Aceitam sacerdotisas, mas não guerreiras. – Ponderou a deidade curiosa. – Ambas abrem mão da bênção de gerar vida, mas apenas a última é malquista. Eu mesma fiz a minha escolha de manter minha castidade para poder lutar sempre que necessário.
— Talvez medo. Insegurança, certamente. Temem que percam seu espaço, não sei. – Arriscou o semideus (04). – Por que, dentro de suas sacerdotisas, ou de sua guarda pessoal, não nomear mulheres-guerreiras? Nem mesmo as Amazonas de Themyscira (05) são tratadas desse modo!
Athena o olhou com alguma atenção diante daquele nome. Embora ostentassem o título de Amazonas, elas não faziam parte das forças da Deusa da Sabedoria e da Estratégia. Não mais.
As Amazonas de Themyscira, embora fosse um grupo recente, já ganhava a sua notoriedade pela inteligência com a qual conduziam as batalhas, e pela paixão pela sanguinolência. Eram compostas por grupos de Amazonas que desertaram do Santuário poucos anos depois da Guerra Santa contra Poseidon, seduzidas pelo poder ou amarguradas por suas perdas pessoais.
Até onde soube, elas ainda ostentam suas máscaras, ou o que restou delas. Vivem tranquilamente pela região de Ponto Euxino, desde que nenhum homem se aproxime de seus domínios. Sua maior estratégia era causar o terror absoluto em seus inimigos.
— Themyscira é domínio de Ares, e mesmo ele e seus Beserkers aceitam-nas de braços abertos. É preciso remediar isso o mais rápido possível. – Ela pontuou semicerrando os olhos azuis. – Uma fissura como essa não pode se tornar maior do que já está, ou os demais Deuses, inspirados pela atitude impensada de Poseidon, poderão tentar tirar proveito dessa fraqueza.
— Uma guerra interna, a senhora diz? – O Cavaleiro arqueou o semblante. – E o que pretende fazer?
— Do jeito como as coisas estão indo, sim. Não creio que tenhamos muito a fazer, Pegasus, Antares é uma Amazona boa demais para ser perdida para outro Deus. – A mulher respondeu, voltando-se para ele com o semblante sério. Sabia muito bem que havia uma outra divindade que estaria muito interessada na jovem de olhos vermelhos e fendidos. – Ela será enviada para o máximo de missões possíveis, para poder adquirir experiência o mais rápido possível. Sabemos que a Amazona de Escorpião tem poder, assim como sabemos que ela ainda está verde demais.
— Talvez seja interessante destacar as Amazonas de Prata e de Bronze, ainda que poucas, para missões com ela, e melhorar as áreas de atuação, quem sabe? – Ele sugeriu com cautela, fitando-a. – Embora tenham uma patente menor, algumas delas são mais experientes.
— Sim, isso também. – Concordou Athena, voltando-se para o horizonte, calando-se por um momento. – Diga-me, Pegasus, você se arrepende de estar me seguindo?
— Algum dia deixei algo assim subentendido? – O guerreiro indagou, estranhando aquela pergunta.
— Não, contudo gosto de saber quando algo o deixa insatisfeito. Se há algo que incomoda ao meu mais leal seguidor, então é óbvio que eu irei querer saber. – Ela explicou, forçando um sorriso amistoso. – Pois vejo que a tendência será a de desagradar muitos ainda. Tanto aqui na terra como nos Impérios Divinos.
— Bom, desagradar o Alto já o fez. A derrota de Poseidon não é algo que Eles viram com bons olhos, creio eu. E agora Hades se mostra uma ameaça e ele não está sozinho como bem sabemos. – Alertou o Cavaleiro, se aproximando dela. – Porém, haja o que houver… – E se ajoelhou diante de sua Deusa. – Estarei com a senhora. Sempre.
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O sol ainda se erguia no horizonte quando Antares despertou assustada e jogou o lençol de lado, se levantando com urgência. A luz que adentrava no quarto apenas servia para deixa-la ainda mais apressada. Estava atrasada para seu rito matinal.
O incenso deixado ali, por Ágape já havia se apagado e trazia cinzas frias. Na água do vaso, sequer tocou. Faria a higiene matinal depois que terminasse. De tão apressada, sequer percebeu a brisa fresca passar por seu corpo, até ver a porta da frente aberta. Travou seus passos e olhou desconfiada.
Devagar, checou o quarto em frente ao seu com cuidado. Cheiros familiares eram fortes ali, bem como era visível a forma da mulher que ainda dormia, abraçada por um cobertor aconchegante. Sem fazer barulho, a escorpiana fechou a porta e seguiu sua investigação. Os quartos daquele mesmo corredor estavam vazios.
Espiou a cozinha, vendo o forno aceso e duas grandes peças de pão assado, esfriando sobre o balcão, mas nenhum sinal de qualquer ser vivente. A Amazona engoliu a seco.
Caminhou até a entrada, olhando ao redor. Buscava qualquer indício de que havia algo errado por ali. Tudo estava muito quieto.
Lançou um olhar furtivo para fora da morada, antes de colocar um pé no terraço e o outro depois. Estranhou não haver sequer sinal de seu pai e mestre. Parecia que até os pássaros estavam com medo de algo.
Um ruído quase imperceptível veio de cima.
Nem bem teve tempo de virar-se, quando algo a atingiu, fazendo com que caísse no chão, rolando. Tentou se desvencilhar, porém quem quer que tivesse saltado sobre ela, era pesado e buscava imobiliza-la. Contorceu-se o bastante para livrar uma perna e chutar seu inimigo no estômago, fazendo com que ele se afastasse um pouco. Isso deu a ela espaço o bastante para se colocar de pé, com as unhas vermelhas a mostra e o olhar ferino. Só então se deu conta de quem era.
Scorpio se colocava de pé, com uma mão na barriga musculosa e um sorriso no rosto. Os olhos rubros a desafiavam.
— Nada mal, Scorpio. – Ele disse, exibindo as garras escarlates ao se colocar em guarda. – Mas vai precisar de um pouco mais que isso. – E avançou novamente sobre ela.
Embora o tamanho grande e os músculos, o ex-Cavaleiro era ágil, até mesmo para o posto que ocupou. Facilmente cobriu a distância que o separava de sua ex-aprendiz, agarrando-a pela cintura e rolando com ela pelos degraus, até o pátio de pedra. Antares aproveitou a impulsão para encaixar os pés no ventre do homem e o alavancou, jogando-o a alguns metros de distância.
Como um felino, o escorpiano conseguiu girar o corpo e cair de pé, já em uma nova investida, contra a escorpiana que se preparava para golpeá-lo. Antares apenas esperou pelo momento certo, quando o braço dele seguiu reto em sua direção, com as garras visando atingi-la, e ergueu a perna em um movimento circular de dentro para fora.
O ex-Cavaleiro sorriu. Estava indo muito bem naquilo tudo, e novamente investiu.
Ao notar seu mestre se aproximar, girou o corpo, esticando perna em um novo movimento circular. Visava atingir suas costas, porém, a mão dele a segurou pelo tornozelo. E então ela se viu bem encrencada.
Tal como ela fizera antes, Scorpio aproveitou a impulsão da Amazona contra si mesma, rodando no próprio eixo. Contudo, em vez de arremessa-la longe, ele a desequilibrou, amparando sua queda antes de tocar o chão naquilo que iria resultar em escoriações leves, mas muito dolorosas.
A escorpiana ainda tentou se debater, entretanto, o escorpiano a imobilizou, segurando seus braços e a beijou na bochecha ruborizada pelo esforço. Aquele era o fim daquele breve embate.
— Continua previsível fazendo o uso errado da técnica, minha criança. – Disse ele soltando-a aos poucos. – Está abrindo demais a sua guarda e isso é perigoso.
— D-desculpa, mestre... – Ela falou, se colocando de pé. – Estou procurando me corrigir quanto a isso.
— Aproveitamos para ver melhor isso mais tarde? – Scorpio questionou e a ajudou, seguindo com ela para o pátio onde fariam seus ritos. – Acho que não preciso pedir para que não conte isso à Ágape, certo? – Completou com um olhar de cumplicidade.
Antares não conseguiu não rir ao ouvir aquilo.
— Certo, não contarei nada, mestre.
— Gosto mais quando me chama do outro jeito. – Ele apontou.
— Ah! Desculpe... meu pai! – Ela se corrigiu.
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