Notas iniciais
O confronto entre Antares e Radamanthys chega ao auge! Quem irá vencer?

— Você é mais teimosa que eu imaginei. – Radamanthys rosnou ofegante.

Mantinha os olhos adiante, na jovem que se levantava, limpando o sangue da boca. As unhas rubras estavam em evidência, cheias de veneno incandescente. Ela estava tão cansada quanto ele, mas não demonstrava qualquer sinal de que desistiria antes de um dos dois deixar de existir. A luta havia se prolongado muito além do que ambos esperavam e agora beirava a proporções perigosas.

Uma dor aguda em sua virilha indicou que a Amazona o tinha atingido mais uma vez. Aquela era a sétima, se não tinha perdido as contas ainda, e a piora era sensível. As três primeiras apenas doíam na carne, contudo as seguintes fizeram com que seu corpo ficasse cada vez mais quente e pesado, respirar estava se tornando cada vez mais difícil. O Juiz transpirava mais do que seria o esperado e já sentia a boca seca.

Olhou para sua mão, vendo o pedaço de máscara que havia conseguido pegar. Estava em péssimo estado, e ainda assim não evitou de rir baixo. Agora sim, aquela luta iria terminar com alguém em pedaços.

— Confesso que, mesmo sendo ele quem a treinou, eu não estava colocando qualquer expectativa em você, mulher. – O Espectro falou, tirando os olhos da máscara e voltando sua atenção para a escorpiana, que o encarava com os cabelos azuis cobrindo o rosto. – Estou realmente surpreso. Eu a subestimei, admito, e estou pagando o preço por isso. – E riu, atirando aquele pedaço metálico aos pés dela.

Escorpião sequer recuou ou fez qualquer menção de pegar a peça no ar, deixando-a cair ruidosamente sobre o cascalho. Encararam-se por longos segundos, onde ele não conseguiu esconder a surpresa e a admiração diante daquele rosto que se mostrava. Mentalmente praguejou de diversas formas a má-sorte de ambos. Dela, por ter escolhido a trilha de uma Deusa que exigia cobrir sua face; e sua, por não ter qualquer certeza de que conseguiria tê-la em suas fileiras.

O semideus não gostou nada daquilo. E se tinha algo que não via nela em nenhum momento era medo, e isso o fazia pensar que ela se via como alguém capaz de derrotá-lo. Se tivesse percebido isso mais cedo, teria rido e dado uma lição nela, arrancando sua cabeça antes mesmo dela perceber seu avanço. Porém...

“A quem eu quero enganar? Sendo filha dele, é possível que essa mulher me percebesse antes mesmo de chegar perto. E rápida como tem demonstrado, seria capaz de esquivar e revidar sem que EU me desse conta disso.”, ele ponderou. “Ela é como ele… Uma Besta por nascimento. Ela só não despertou... não totalmente...”.

— Vai ficar aí, me olhando como um idiota, esperando que eu termine de furá-lo, ou vai continuar a luta? – Ela rosnou em desafio, cuspindo sangue em uma pedra. – Não vou me incomodar se quiser me poupar trabalho. Já perdi muito tempo aqui com você. – Falou, erguendo as garras afiadas.

Radamanthys arregalou os olhos e se colocou em posição de defesa. Algo na voz dela o fez sentir um forte arrepio na espinha, tal qual aconteceu na única vez em que presenciou O Caçador torturar alguém no Templo aos pés do Olimpo, há muito tempo atrás, e já naquela época Theron era conhecido por se portar como uma fera selvagem.

— Estou esperando que decida o que quer. Parece que você mesma ainda não sabe qual rumo tomar. Sua estrada chegou a uma bifurcação. Escolha o caminho e vamos terminar logo isso, pois eu também já perdi muito tempo aqui! – Ele rebateu, percebendo o que estava acontecendo ali. – Mas aviso uma coisa: — Continuou erguendo um dedo para o alto, chamando sua atenção. – É um caminho sem volta… A senhora Athena não gosta de Bestas, sabia? Terminará sendo acorrentada e mantida presa...

Antares balançou a cabeça, como que para clarear os pensamentos, entretanto isso apenas a deixou tonta. Era como se tudo estivesse ficando coberto por uma névoa avermelhada, junto com um rosnado cada vez mais próximo.

— Irá se arrepender amargamente se o fizer! – O Espectro continuou, tentando ganhar algum tempo para se recuperar. – É um poder maldito do qual nenhum exército divino vê com bons olhos. – E baixou a guarda lentamente. – Terá que escondê-lo de seus companheiros por toda a vida, mas eles irão perceber um dia. E tentarão matá-la por isso.

— Cala a merda dessa boca! – Ela urrou, mal notando a saliva descendo pelo queixo.

E avançou contra ele, em uma velocidade ainda maior que quando estava descansada. O Juiz tentou acompanhar e se defender, contudo foi logo atingido por mais sete ferroadas no corpo. A força do impacto o fez se desequilibrar e cair para trás, entretanto sentiu o joelho dela golpeá-lo nas costas, impedindo-o de atingir o chão, para, em seguida, enterrar as garras em seu peito.

Se não fosse por sua Súrplice, o semideus teria sido partido ao meio. Atingiu o chão com violência, fazendo-o vomitar sangue. A escorpiana já estava novamente sobre ele, pronta para feri-lo com mais truculência.

— B-Besta! – Ele conseguiu falar, rindo, fazendo com que ela detesse seu movimento, dando ao Juiz a chance que precisava. – Isso! Deixe a Besta vencer!

Radamanthys a olhava nos olhos vermelhos e fendidos, que reluziam na visão do sangue fresco dos ferimentos de seu inimigo. Dava para ver a fome pela destruição neles.

— Não existe lugar para uma Besta em nenhum dos mundos. Apenas o Tártaro, onde são torturadas pela eternidade por seus crimes. – Ele falou exibindo um largo sorriso e os dentes sujos de rubro. – E caso não saiba, aqueles presos no Tártaro não retornam ao mundo nunca mais.

Ele percebeu que ela hesitou por um momento, parecendo engolir a seco, então ele aproveitou. Com uma breve explosão de seu Cosmo, ele a golpeou, lançando-a para longe. Isso ganhou algum tempo para o Espectro se recompor. Contudo, estranhou a ausência de ruído de sua queda, e a viu abaixada no alto de um poste.

Os dedos da Amazona estavam fincados na madeira, tal qual animais faziam quando iam descer de um local mais elevado. Isso mostrava a ele que seu golpe não havia sido tão forte quanto gostaria.

O Espectro cuspiu de lado e aproveitou para enxugar o suor da testa, ofegante. Seus músculos estavam cada vez mais rijos e os olhos começavam a arder. Certamente não tinha mais tempo para perder ali. Estava certo de que ela iria massacrá-lo sem qualquer piedade no instante em que saltasse daquele poste.

Escorpião avançou contra Wyvern com um salto que a fez cortar a distância de modo surpreendente. Ele tentou golpeá-la no ar, e conseguiu vê-la aterrissar bem a sua frente, empurrando seu braço para o lado. Só teria uma chance.

O Cosmo do Juiz explodiu, junto com um rugido gutural dado por ele. Ondas sonoras se espalharam a partir daquele ponto, derrubando restos de construção e pedaços de árvores que ainda resistiam à destruição provocada pela invasão. O ruído fez com que Antares recolhesse o braço, mesmo faltando muito pouco para ferroá-lo, com a finalidade de proteger os próprios ouvidos.

A viu tentar ir para o mais distante possível dele, e sorriu ao ver que ela parecia atordoada. Seu ouvido devia estar incomodando muito com aquilo, ainda mais com a sensibilidade confirmada por ele. “Te peguei, maldita!!!”.

Antares cambaleou, antes de esbarrar em um pilar, completamente desorientada. Parecia que alguém havia enfiado um espeto em seu ouvido, que coçava e doía ao mesmo tempo. Tentou dar um passo na direção do oponente, mas o corpo não obedeceu, pisando mais para o lado, quase fazendo com que caísse.

— Você não vai me vencer, mulher. É boa, mas não o bastante. Só lamento que uma força tão grande como a sua esteja em favor de uma Deusa tão egoísta quanto Athena. – Ele falou, enxugando o suor que teimava em brotar da testa. – Tem muito o que amadurecer ainda, seria uma guerreira formidável se tivesse mais alguns anos de treinamento com alguém que compreenda todo o seu potencial. Imagine o que poderia fazer se tivesse todo esse poder sob controle desde o começo de sua vida...

— C… Cala... a... a… boca...! – Antares rosnou nauseada pela dor e pela tontura. – Cala... a porra... des… dessa boca... maldito...! Você... só fala... assim... assim como... como todos... aqueles... animais...! – E não mais resistiu, caindo de joelhos e vomitando o pouco que havia no estômago.

— Mal consegue se aguentar e está querendo me dar ordens? – Ele tentou rir, mas não conseguiu, diante da dor que aumentava. – Eu vou acabar logo com isso, Antar… não... Aster. E farei questão de julgar sua alma no Submundo. Darei um... ótimo destino a você, quando lá chegar!

Ela ouviu aquilo e o encarou. Não conseguiu pensar em nada, só se dando conta quando se viu em pleno salto, prestes a retalhar a face do Juiz, antes de ser repelida por uma rajada púrpura que a atingiu em cheio. O ombro direito de sua Armadura se despedaçou e criou várias rachaduras ao longo do peitoral e do protetor segmentado do abdômen.

Caiu duramente contra o chão e de lá não se levantou.

Se fosse outrora, Radamanthys teria pisado em seu corpo até ter certeza de sua morte, mas naquele momento, tudo o que conseguiu foi cair de joelhos e vomitar mais sangue. O corpo ardia intensamente, roubando suas forças. Permanecer diante da Amazona sem sequer tremer enquanto tinha a impressão de que seu sangue fervia não era algo fácil de se fazer, mas pareceu servir para minar a confiança daquela jovem.

— Senhor Radamanthys!!! – Alguém gritou ao longe.

Um Esqueleto corria em sua direção, parecendo exasperado. O Juiz limpou a boca e sinalizou para que o subordinado falasse.

— Senhor Radamanthys, precisamos nos apressar, somos os que estão mais próximos do Santuário! Mesmo o senhor Minos ainda está preso naquele vilarejo, enfrentando problemas com Cavaleiros de Athena. – Falava, quando percebeu o Espectro sinalizar para que calasse a boca, e apontou silenciosamente para algo à sua frente.

Antares havia se levantado mais uma vez. O cabelo caia sobre a face, cujos olhos encarnados ardiam. Estava curvada e seus ombros subiam e desciam lentamente.

Em um gesto rápido, o Juiz tomou seu subordinado pela cabeça e o jogou na direção da Amazona, que reagiu, rasgando o oponente atirado ao meio ainda no ar. E o rosnado que saiu de sua garganta fez um arrepio percorrer todo o corpo do semideus. Até naquilo, ela se parecia com Scorpio. Seria uma questão de tempo.

Isso fez com que ele ganhasse preciosos segundos, o bastante para colocar o elmo de Wyvern na cabeça e explodir seu Cosmo, criando a imagem da besta alada. Avançou contra ela, sabendo que não poderia desperdiçar a oportunidade.

Sua mão encaixou na testa dela e a forçou a dobrar-se para trás, fazendo com que a cabeça da Amazona se chocasse contra o chão de terra batida. Sem soltá-la, golpeou mais duas vezes, antes das pernas e braços dela enroscarem no seu, imobilizando-o e torcendo sua articulação violentamente.

Um estalo, seguido de uma forte queimação, fez com que o Espectro gritasse de dor, o que lhe deu força o suficiente para apanhar sua oponente pelos cabelos e puxá-la até conseguir desgarrá-la de seu corpo. Sem soltá-la, a lançou contra um muro de pedras e depois para o mais longe que conseguiu, antes de correr para onde havia muita fumaça e fuligem, sujando-se com a última. Sequer se importou com a possibilidade de queimar-se. O braço pendia com o cotovelo em um ângulo incomum, indicando o deslocamento. Tinha que colocar o osso de volta no lugar rápido, mas primeiro precisava de um local seguro daquela escorpiana.

Abrigou-se no que um dia foi o armazém de suprimentos da vila, onde logo encontrou lugares para se esconder enquanto seu corpo se recuperava. Atrás de alguns cestos de cereais, ele se sentou, apanhando um pedaço de madeira, do qual colocou na boca. A sensibilidade de seu corpo estava muito alta, dado ao envenenamento que avançava. Se sobrevivesse àquilo, passaria a tomar mais cuidado com os próximos embates contra inimigos que manipulavam veneno.

“Maldita Besta!”, ele praguejou, olhando para os buracos das Agulhas Escarlates que sangravam com abundância. Respirar estava cada vez mais difícil. “Eu não acredito que essa mulher vai me matar desse jeito! Ela é quase tão boa quanto O Caçador. Aquele desgraçado a treinou melhor que eu imaginava!”.

Radamanthys estava em uma situação muito ruim. Havia se esforçado demais para não transparecer o quanto aquele veneno o estava debilitando, fazendo com que se espalhasse muito rapidamente e o consumisse ainda mais. Não sobreviveria naquelas circunstâncias, por mais resistente que fosse.

“Ao menos, sei que aquela mulher irá lamentar muito por não ter me derrotado antes”, riu silencioso. Mas quando sentiu um arrepio correr por sua espinha, o Juiz empalideceu. Lentamente olhou na direção da parede, há poucos metros de onde ele estava e lá pôde ver, por uma fresta, os olhos vermelhos daquela que o caçava. Ela o encontrou, e o Espectro já não tinha mais força alguma para se levantar, nem conseguiu evitar de sentir medo ao vê-la destruir a parede e caminhar curvada como um animal, indo em sua direção.

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O corpo de Minos jazia sob uma poça de água, com diversos afundamentos, principalmente no peito e na cabeça. O rosto desfigurado mal lembrava a beleza prepotente de um Filho de Zeus cruel. E isso era de uma grande satisfação para um Cavaleiro cansado, encharcado e ferido.

Segurava as próprias costelas, atingidas pelos fios cortantes do Juiz. O sangue corria abundante, mas ele tinha certeza de que era bem menos grave do que parecia. Naquele momento, só o que queria era ir para seu Templo, tomar um banho, cuidar das feridas, descansar ouvindo um de seus escravos tocando uma cítara, e depois dormir como um urso no inverno das terras mais ao norte. Não parecia nada mal...

— Nikandros! – Ele ouviu alguém chamá-lo, fazendo com que erguesse o olhar.

Os Gêmeos corriam em sua direção, ajoelhando-se ao seu lado. Atordoado como estava, mal percebeu quando o ajudaram a se levantar, enchendo-o de perguntas sobre seu estado. O libriano não se conteve e começou a rir, parando apenas para levar as mãos ao abdômen dolorido.

— Eu estou bem. Eu estou bem. – Ele dizia, tentando se acalmar. – Estou melhor que esse bastardo maldito aí na frente. – Completou, apontando para o cadáver sobre a água. – E estou bem vivo. Só preciso descansar um pouco e já me junto aos demais, nas defesas da área.

— Ótimo! – Castor suspirou aliviado. – Crisômalo conseguiu terminar de evacuar todos os cidadãos dessa vila. Estamos nos reunindo todos nos limites do Santuário, com aqueles que sobreviveram. – Falou, passando o braço de Libra sobre seu ombro, enquanto Pollux abria um rasgo temporal bem a sua frente. – Meu irmão e eu vamos te deixar com os sacerdotes que estão cuidando dos feridos, para que você possa ter algum repouso.

— Tudo bem, Gêmeos. Me unirei a vocês quando for possível. – Nikandros concordou, porém lançou um olhar na direção do corpo estirado no chão. – Mas antes, alguém faz o favor de jogar esse desgraçado para longe daqui? A última coisa que vamos querer é que esse filho da puta ressuscite perto do Santuário.

Não foi preciso dizer uma segunda vez. O mais velho dos irmãos se encarregou de apanhar o Espectro e jogá-lo no espaço dimensional aberto, deixando que os ventos internos se encarregassem de seu destino. Com alguma sorte, ficaria perdido no espaço entre os mundos por toda a eternidade, mas nenhum dos dois Príncipes de Esparta estava disposto a apostar nisso.

O mais novo cruzou o rasgo dimensional logo em seguida, mas ainda assim conseguiu sentir um Cosmo familiar explodir de forma violenta. Isso o fez olhar assustado na direção de seu irmão. Pollux estava parado ainda na entrada olhando assustado para algum lugar. Aquilo não tinha sido perto deles, e ainda assim era forte o suficiente para impactá-los.