Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
7 Consequências
Notas iniciais
Antares se sentia estranha depois daquele duelo. Sabia que não seria facilmente aceita como Amazona de Ouro, porém não esperava que fosse desafiada de modo tão aberto e tão cedo. Ainda mais por outro Cavaleiro de Ouro. Só quando o calor da batalha se foi, quando se retirou do anfiteatro na companhia silenciosa de Ganimedes, que se colocou a pensar naquelas coisas. Será que estava fazendo algo errado?
Discretamente o olhou. Ele a tinha parabenizado pela luta e a conduzido para longe de Íficles, enquanto dava ordens aos aprendizes que o acompanhavam para que o levassem à Fonte de Athena, para receber cuidados. Não era uma preocupação genuína com o leonino, mas mero protocolo. Já havia percebido que os Cavaleiros não eram tão amistosos entre si.
— Não dê atenção para qualquer coisa que ele tenha dito a você para te depreciar. – O aquariano falou, quebrando o silencio entre eles. – Todos viram do que você capaz de fazer e do quão calmamente você controlou a situação.
— Eu não estou preocupada com isso. – Ela devolveu em um murmúrio monótono.
— Então? – Ele quis saber, incomodado com aquela introspecção que a escorpiana havia mergulhado. – No que tanto pensa?
— Apenas não esperava que fosse encontrar esse tipo de resistência agora. – Ela disse, sem olhar em sua direção.
— Se te servir de consolo, ninguém esperava. – Comentou o troiano em resposta. – É certo que, com isso, você terminou de coroar sua iniciação como Amazona, aos olhos dos demais guerreiros. Certamente que Theron ficará transbordando de orgulho quando souber disso.
A jovem assentiu com a cabeça. Sorria por debaixo da máscara, embora seus olhos estivessem hesitantes. Teria realmente sido grandes coisas? A resposta veio logo em seguida, na forma de um pequeno grupo de garotas visivelmente entusiasmadas indo em sua direção.
— Senhora Antares, podemos falar um pouco com a senhora?! – Uma delas perguntou a distância.
Desorientada, a escorpiana olhou para aquela que lhe dirigira a palavra. Uma jovem que aparentava ter sua altura, de longos cabelos platinados, era a que parecia liderar aquele pequeno séquito, estando à frente das demais. Respirou fundo e olhou para aquele que a acompanhava.
— Bem, parece que não fomos os únicos a achar isso. – O troiano falou, piscando um olho para ela. – Estarei te esperando na escadaria de Áries, para voltarmos aos nossos postos. – Completou, se despedindo. – Esse momento é seu. Saboreie-o. Você merece.
Antares o viu se afastar e voltou sua atenção ao pequeno grupo que se aproximava. Três jovens aspirantes e uma Amazona de Bronze. Todas notoriamente exultantes com o que tinham presenciado no anfiteatro.
— Senhora Antares, a senhorita foi incrível! – Uma falou.
— Estávamos assistindo ao seu treino com o senhor Ganimedes e ficamos inspiradas por sua presença! – Outra disse. – Espero conseguir fazer metade das coisas que a senhorita faz!
— A sua presença é inspiradora! – A terceira aspirante comentou, dando pulinhos felizes.
— Sua presença nos deixou mais confiantes para o treino de hoje, senhorita Antares. – Disse a Amazona de Bronze, cuja máscara trazia um contorno verde nos olhos. – Será uma honra para todas nós termos alguém como a senhora para nos espelharmos todos os dias!
A escorpiana ouviu atentamente a cada uma, se surpreendendo com aquelas palavras de apoio e esperança para com ela. Sentiu-se revigorada de uma forma diferente, algo que nunca sentiu, mesmo quando Scorpio, Ágape ou Ganimedes a elogiavam por seus feitos. Aquilo fez seus olhos vermelhos se encherem de lágrimas, e ela não conseguiu compreender o motivo. Estava feliz, e não triste.
Para sua felicidade ainda maior, o pequeno grupo não se demorou nos elogios. Mostraram consciência de que a Amazona de Ouro tinha outras tarefas a cumprir, assim como elas mesmas. Partiram desejando força para resistir às suas funções. Só então, ela pode seguir seu caminho e se encontrar com o aquariano no mesmo local onde disse que a esperaria.
O troiano estava com um sorriso no rosto, olhando para a jovem, porém nada falou. Apenas seguiram seus caminhos, embora ele pudesse sentir seu bem-estar muito tem. E assim cruzaram os Templos vazios, até chegar em Gêmeos.
Um dos Guardiões arrumava suas manoplas douradas quando ouviu passos se aproximando, e voltou-se na direção da passagem, percebendo ser Ganimedes e Antares adentrando ali. Tal visão o fez sorrir, apenas pela lembrança do espetáculo proporcionado há poucos instantes.
— Ouso dizer que fez sua real sagração de Amazona de Escorpião. – Sorriu o espartano voltando-se para ela. – Bela luta!
— Ah... O-obrigada... senhor... – Ela disse, erguendo a cabeça para olha-lo. Os cabelos desprovidos de tranças e o olhar brando indicavam qual dos homens falava com ela. – Senhor Pollux. Não fazia ideia de que estava lá, no anfiteatro.
— Bom, a maioria dos Cavaleiros de Ouro estava assistindo à sua luta... que deveria ser mero treino. – Disse ele continuando a fitá-la com seus olhos áureos. – Diria que que sua atuação permitiu que as mulheres tenham seu espaço e respeito, que não são tão frágeis quanto outros pensam. Parabéns!
— Isso é bom! – A garota respondeu um pouco tímida.
Ganimedes apenas lhes dirigiu um discreto olhar, sem falar qualquer coisa sobre isso. Sabia muito bem que ela não estava acostumada aos elogios com a frequência que estava recebendo. Do mesmo modo, não se surpreendeu ao ver um espartano proferir tais palavras. Esparta tinha soldados, e mesmo suas mulheres estavam longe de serem indefesas, como ocorria com as atenienses.
Pollux apenas abriu passagem para ela, jogando sua capa de lado, permitindo a passagem dos dois, alheio ao largo sorriso que estampava a face coberta da escorpiana. Enquanto isso, Castor apenas observou de longe, a passagem daqueles dois, sem dizer uma única palavra.
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Athena batia os dedos sobre o braço de seu trono dourado, enquanto olhava para a Saintia a sua frente. As notícias sobre o ocorrido no anfiteatro voaram até seus ouvidos e seu semblante não era dos mais satisfeitos. Uma disputa completamente inútil motivada por um orgulho descabido. Aquilo era tudo o que não precisava.
— Certo... Então tudo se resolveu por meio de um combate... E que um de meus Cavaleiros de Ouro, agora se encontra sob cuidados de minhas sacerdotisas. E minha Amazona de Ouro seguiu o seu rumo normalmente. É isso? – A Deusa disse, com um nítido tom de desagrado.
— Sim, minha senhora. Porém, ela foi confrontada diretamente pelo Cavaleiro de Ouro de Leão frente a todos enquanto ela treinava com o Senhor Ganimedes de Aquário. – Confirmou a Saintia, ajoelhada diante da deidade.
— Compreendo... – A matrona divina sussurrou, cingindo os olhos. – Leão não agiu corretamente e terminou recebendo sua punição diante de todo o anfiteatro. Contudo, o que eu deveria fazer com Escorpião? Ela tinha como alternativa negar a peleja, mas escolheu aceita-la. – Ponderou.
— Se permite dizer, Senhora Athena... – Dizia Virgem ao seu lado. – Negar faria dela uma... covarde, digamos assim. Todos iriam passar a duvidar ainda mais de suas capacidades, ainda que recusar a luta fosse a decisão mais correta, dentro de suas leis. Mas, ao confrontá-lo apenas a fez ser mais reconhecida que um teste diante de todos. Ela aceitou um treino, mas o que se seguiu... não a responsabilizaria.
— Está defendendo a jovem, Virgem? – A Deusa questionou, olhando-o e achando aquilo curioso. Embora o Guardião do Oráculo tivesse se mostrado neutro à sagração da aprendiz de Scorpio, aquela era a primeira vez que a deidade o via tomar partido abertamente.
— Defendendo o que é justo. – Confirmou ele sem hesitação e se voltando para sua matrona. O que ela fez foi se defender somente.
— Teria o Leão deixado claro, em algum momento, que pretendia transformar o treinamento em um duelo? – Ela quis saber, abrindo um sorriso diante da resposta de seu Cavaleiro.
— Não posso afirmar isso, Senhora Athena, mas... – Virgem ponderou. – Lembro-me de suas palavras quanto a “mostrar um treino de verdade” e elevar seu Cosmo como se batalhasse contra um inimigo real, algo que Antares e Ganimedes em momento algum fizeram, portanto...
Ele, assim como muitos, presenciou a contenda. Estava afastado dos demais Cavaleiros de Ouro, para ouvir que apostavam entre si a respeito de quem venceria, mas escutou perfeitamente cada ofensa dirigida à Amazona recém-sagrada. Virgem, cujo nome se perdeu no momento em que se tornou o Guardião do Oráculo, sentiu o mais puro asco diante do que viu. E, naquele momento, esperava apenas que a notícia não chegasse aos ouvidos do Caçador.
— Creio que todos os Cavaleiros e seus aprendizes saibam que é terminantemente proibido ascender o Cosmo de tal modo em treinamento. – Athena pontuou, voltando sua atenção à Saintia a sua frente. – Para mim, isso soou como se ele estivesse muito consciente de suas atitudes. – Avaliou, vendo a confirmação de sua serva. – Mas, diga-me, Virgem, daquilo que presenciou no anfiteatro, quais os seus palpites sobre as habilidades de Escorpião?
— Senhora Athena, em muito me pareceu com o antigo Escorpião Dourado. – Ele respondeu. – Ela evitou usar seu Cosmo até o último momento, e ainda assim, o fez apenas para potencializar sua esquiva, para desviar dos feixes de seu Relâmpago de Plasma. Mas não sei precisar mais do que isso. – Lamentou, balançando a cabeça devagar. – Não ousaria dizer que ela é desprovida da sede de sangue de seu antecessor. Somente que é mais comedida que ele, só não sei dizer até quando ou até que ponto.
— Se bem direcionada, sua selvageria poderá ser bem aproveitada, assim como a do Caçador foi. – A Deusa falou, relaxando em seu assento. – Ele não passaria o posto para ela se não a julgasse capaz e, convenhamos, ele nunca escondeu seu asco pelos mortais. Muito me admirou quando ele veio a mim, pedir permissão para treinar a atual Escorpião, há seis anos.
— O que indicia que, qualquer que seja o indivíduo, pode se transformar conforme o meio que vive, não é mesmo, Senhora Athena? – Ponderou o Guardião do Sexto Templo, se voltando para ela.
— Desde que isso o favoreça de algum modo. Mas vamos ver como será seu desempenho fora daqui, longe dos olhos que podem julgá-la. – Ela concordou e voltou-se para a Saintia. – Chame a Amazona de Escorpião.
— Sim, minha senhora. – Disse a guerreira sem pestanejar, deixando o local.
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— Ganimedes se importa muito com ela. – Comentou Castor, se dirigindo às dependências privadas de seu Templo, tão logo a presença de Escorpião e Aquário deixasse de ser sentida nas proximidades. – Não duvido nada que esteja cortejando-a. Isso se já não tiver deitado com ela.
— Irmão, até tento entender sua raiva com relação a ela, por mais que o errado tenha sido você, mas... – Pollux falou enquanto se voltava para o outro, acompanhando-o. – Não começa a inventar... Nós dois sabemos muito bem sobre Ganimedes e... – E respirou fundo.
Discutir com seu gêmeo não era a coisa mais fácil, muito menos desejada pelo mais velho. Filhos da mesma mãe, mas de pais diferentes, eram unidos como se fossem apenas um. Eram irmãos, amigos e confidentes, ainda que apenas um deles tivesse sangue divino e o outro tivesse sangue mortal. Que um fora escolhido para suceder o Rei de Esparta, enquanto o outro o assessoraria.
E era por conta disso que certos assuntos eram tão desgastantes. Não queriam brigar por qualquer que fosse o assunto, principalmente daqueles que não fossem de sua conta.
— Enfim! Por que isso agora? – O mais velho questionou intrigado, fazendo o Cosmo pulsar e a Armadura de Gêmeos se recolher por inteiro.
— Porque é estranho. – Replicou o mais novo, com um ar desconfiado, acompanhando-o. – Ele tá sempre arrastando a asa para aquela garota. Não consigo ver alguém como ele fazendo isso senão por certos... interesses. – E abriu uma porta, revelando um quarto grande e espaçoso.
O Príncipe-Herdeiro suspirou profundamente outra vez, levando uma mão ao rosto. Quando seu amado irmão começava a pensar em algo, era complicado de fazê-lo desistir. Mesmo que tivesse alguma lógica no que dizia.
O Cavaleiro de Aquário estava muito longe de ser alguém casto. Tinha conhecimento de algumas histórias do troiano, envolvendo alguns aprendizes, Amazonas, Cavaleiros ou mesmo pessoas comuns de fora do Santuário. E com o afastamento do Caçador, provavelmente mais rumores surgiriam.
— As pessoas nos surpreendem. – Dizia o geminiano mais velho, se deixando cair na cama, e olhando para o teto. – Nunca pensei em ver Scorpio aqui, com uma criança... e a maneira como ele a defendeu naquele dia me surpreendeu.
— Surpreendeu por que? – Questionou o caçula, erguendo uma sobrancelha. – Não foi muito diferente daquele dia em que fomos atacados por aquelas bestas.
— Que você provocou gratuitamente...? – Fitou Pollux, ainda deitado, vendo-o rolar os olhos – Castor, porque fez aquilo com ela? Juro, ainda tento entender o que foi aquilo que eu presenciei naquele dia! Teve tanta raiva dele assim a ponto de querer descontar em cima de uma criança?!
— Você sabe que não foi isso! Eu nem sabia que ela era aprendiz dele! – O geminiano mais novo se defendeu, injuriado com a retomada daquele assunto, o qual tanto torcia para que o irmão esquecesse de uma vez, embora soubesse que isso jamais aconteceria. – E ela não tinha nada que fazer aquilo comigo.
— Irmão... – O Príncipe-Herdeiro se sentou na cama, olhando pra ele. – Você foi provocar uma criança, independente que fosse aprendiz ou serva dele, você não tinha esse direito!
O caçula cruzou os braços contrariado e não falou mais nada. Sabia muito bem o que tinha feito, mas jamais reconheceria aquele erro. Era um Cavaleiro de Ouro e aquela garota tinha a obrigação de respeitá-lo de acordo com o seu posto. Tudo o que o príncipe espartano queria naquele momento era ver quem era aquela pequena que estava na fonte, no Templo de Escorpião. Claro que ficou irritado por ela ter se assustado e reagido da forma como reagiu, e resolveu lhe ensinar uma lição...
— Que seja. Duvido muito que ela aguente o fardo, principalmente se continuar a rata assustada daquele dia. – Ele falou, ranzinza. – A menos que tenha puxado mais do mestre que tenha mostrado.
— Ela não me pareceu assustada diante do Íficles, por mais intimidador que fosse seu Cosmo. – Pontuou Pollux, abrindo um sorriso maldoso e olhando para Castor. – Não conhecia esse seu lado tão orgulhoso...
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Antares não fazia ideia daquilo que a aguardava com aquela convocação. Sentiu o estômago gelar. Teria sua Deusa tomado conhecimento do que houve no anfiteatro? Estaria indo tomar uma punição para servir de exemplo? Milhares de pensamentos e possibilidades se passavam por sua cabeça, e faziam seu estômago revirar de tanta ansiedade. Ainda assim, respirou fundo e passou pelos portões da antessala, quando ouviu o guarda anuncia-la.
Athena estava sentada em seu trono dourado, com Niké bem ao lado. O Guardião do Oráculo a acompanhava naquele dia, como havia de ser, junto com quatro Saintias. Tinha o rosto tranquilo, não deixado transparecer qualquer desagrado com o evento da tarde.
A jovem atravessou a distância que a separava da divindade e curvou-se há poucos metros dela, com a cabeça baixa.
— A que devo o vosso chamado, Senhora Athena? – Questionou ela, tentando soar o mais tranquila possível.
— Antares, Amazona de Ouro de Escorpião, o chamado do dever se fez mais cedo que o esperado. – Disse a deidade com um ar sério. – A Sumo Sacerdotisa Berenike requisitou uma guerreira para ir até a Acrópole, para ajudá-la com um problema. Uma de suas sacerdotisas desapareceu enquanto retornava de uma viagem. – Contou a deusa. – Receamos que alguém a tenha matado ou raptado.
— Isso seria uma heresia sem tamanho. – Respondeu a garota de olhos vermelhos.
— Além disso, o Templo Sagrado de Athena não aceita homens em seu reduto. Portanto, você é a mais recomendada a fazer uma investigação diante da própria Sacerdotisa. – Finalizou a matrona divina, olhando-a com cautela.
— Sinto-me honrada por isso, Senhora Athena. – A escorpiana falou.
— Agora vá. – Ordenou a Deusa.
Antares curvou-se um pouco mais, em reverência, e levantou-se. Partiria imediatamente para aquele trabalho.
Quando colocou os pés fora do Templo de Athena, ela respirou aliviada. Achava quem por alguma razão, receberia uma punição pelo acontecido no anfiteatro, ainda que Ganimedes tivesse enfatizado que aquilo nada mais foi que legítima defesa. Se não fosse, outros não a teriam parabenizado pelo feito. Muito menos Pollux de Gêmeos.
Um sorriso discreto se insinuou em seu rosto coberto ao lembrar das palavras dele, quando passou por Gêmeos. Respirou fundo, e se colocou a descer pelas escadarias. Pararia em um lugar antes de ir diretamente para Athenas.
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