Notas iniciais
Antares e Nikandros enfrentam seus respectivos inimigos e se veem tentados por um poder que pode vencer a luta, mas que poderia custar muito mais do que suas vidas.

Radamanthys mal viu o que o atirou contra o chão e o fez rolar por alguns metros para trás. Tudo o que sabia era que, após conseguir se recuperar da tontura, tinha um pouco de seu sangue nas mãos da jovem. Ele podia sentir os cortes superficiais em seu rosto arderem incomodamente e não deixou de sorrir. Aquilo era uma proeza muito grande para se deixar passar.

Olhou-a com atenção, enquanto se levantava. Antares parecia relaxada em sua postura e sequer arfava com qualquer esforço que pudesse ter feito. Nos dedos, unhas grandes e visivelmente afiadas, em um tom escarlate vívido. Provavelmente cheias de veneno.

Fixou seus olhos dourados nela e arrancou a uma velocidade impressionante, mesmo para um Cavaleiro de Ouro. O punho em riste avançou como um denso aríete em direção ao peito da Amazona, com força o suficiente para atravessar a Armadura e o corpo dela. E assim o fez, porém o Espectro logo percebeu o engodo.

O corpo atravessado não tinha substância. “Uma ilusão!?”, pensou assustado, se jogando de lado, bem a tempo de escapar de um poderoso chute que visava a sua cabeça. Perplexo, ele viu a imagem estática de Antares desaparecer diante de seus olhos, enquanto uma outra, de movimentos rápidos, se preparava para desferir outro ataque violento com a perna.

Com apenas um pensamento, as asas da Súrplice se abriram, criando uma ventania forte. Isso foi o suficiente para obrigar a escorpiana a abortar sua tática, para se equilibrar e não dar qualquer vantagem ao oponente. Ainda assim, o vento a arrastou por quase dez metros para trás, atirando cascalhos e escombros para todas as direções.

O semideus aproveitou e avançou sobre Escorpião, usando suas manoplas em formas de garra. Iria esmagá-la antes que tivesse tempo de revidar novamente. Atingiu o chão onde, há pouquíssimos milésimos de segundos, ela estava, abrindo um buraco profundo. A viu aterrissar de um salto gracioso, ainda mais distante dele, o que fez seu sorriso aumentar.

Radamanthys investiu novamente, dessa vez com rajadas de Cosmo que destruíam tudo o que tocavam. E com surpresa, ele a assistiu desviar de tudo, pegando impulso em tudo o que havia ao redor e indo cada vez mais alto, para então mergulhar sobre ele, com as garras afiadas em sua direção. O Juiz precisou agir rápido para não ser atingido, e mesmo assim, ficou impressionado com o buraco que surgiu onde ele estava há poucos instantes.

Nem bem tocara o pé no chão e já a viu bem diante dele, com um dedo avançando em sua direção. Em um movimento rápido, o semideus tentou apanhar o braço dela para jogá-la para longe, mas percebeu suas mãos atravessarem-na. “Outra vez?!”, ele se questionou perplexo, virando-se e, por muito pouco, conseguindo esquivar.

Foi sua vez de partir para cima dela, que esquivou com agilidade, fazendo-o derrubar uma parede que estava atrás. A velocidade com que a jovem se movia era assombrosa até mesmo para ele. Virou-se a tempo de bloquear um chute e desviar de outro, ainda que com dificuldade. Pode sentir a brisa do movimento tocar seu rosto. Explodiu seu Cosmo, golpeando o chão, obrigando a Amazona a se afastar com um salto, para não ser atingida.

Uma nuvem de poeira se ergueu, encobrindo a jovem, que olhou rapidamente ao redor, tentando encontrar seu oponente. Foi o discreto ruído do lado esquerdo que forneceu a ela o tempo necessário para se defender, saltando para longe e se apoiando no alto de um poste, outrora usado para expor aprendizes que estavam recebendo punição. Ele continuou a avançar, ciente do que precisava fazer, obrigando-a a ir cada vez mais para dentro da vila devastada.

Ela era muito mais perigosa do que imaginava. Ir de frente não adiantaria, pois a Amazona se mostrava muito mais rápida que o Espectro. Tampouco ele podia dar espaço, do contrário, ela terminaria por vencê-lo. E, principalmente, precisava ter todo o cuidado com aquelas unhas e aquelas pernas.

Isso o impossibilitava de usar sua maior técnica, pois terminaria abrindo um espaço livre muito grande que a escorpiana não pensaria duas vezes em usar em seu favor.

— Devo reconhecer que é uma mulher habilidosa, Antares! Está de parabéns, de verdade! – O Juiz do Submundo falou, enquanto recolhia as asas que o ajudaram a fugir dos ataques da escorpiana, e ficava em guarda novamente. – Mas não me parece muito confiante, do contrário não estaria fugindo tanto de mim. Se bem que, a julgar por sua respiração ofegante, eu diria que você está ficando exaurida.

E logo a viu bem diante de sua face, tendo um dedo erguido como um ferrão. Por muito pouco não ia conseguir escapar de sua oponente, segurando seu braço e aproveitando sua impulsão para arremessá-la contra uma casa tomada pelo fogo que não estava distante deles. Podia ser resistente demais para não morrer, mas certamente sofreria danos pelas chamas, o que facilitaria muito o seu trabalho de extermínio.

O corpo da jovem se chocou contra as pedras e desapareceu no fogo. Porém um estrondo levantou os escombros para os ares e extinguiu as labaredas. Como esperava que fosse acontecer, um borrão dourado veio em sua direção, contudo não foi rápido o suficiente para enganar seus olhos daquela vez. Foi com um passo para trás que o Juiz desviou da garra venenosa da Amazona, e um soco em seu queixo, que ele a mandou para o alto.

Antares pode sentir os dentes trincarem dentro da boca e o gosto ferroso inundá-la, quando fora atingida. Por um momento, tudo explodiu em luz, enquanto seu corpo arqueava no ar, dado ao impacto. Pela primeira vez naquele dia, caiu pesadamente de costas no chão, sentindo o ar fugir de seu peito.

Tossiu tentando respirar e cuspiu o sangue que havia se acumulado.

— Ainda não cansou de brincar, criança? – Radamanthys questionou um pouco mais sério, embora um sorriso perdurasse em seu rosto.

A Amazona tentou responder, mas só conseguiu puxar o ar com chiado sôfrego. A sua cabeça estava um imenso vazio, dedicado apenas a ordenar que respirasse para não morrer sufocada.

— As suas subordinadas precisam de você. Pretende mesmo continuar aqui, brincando de gato e rato? – Ele quis saber, encarando-a. – Será que no final de tudo, você ainda se importa somente com a sua vontade, sem se preocupar com as consequências, pequena Aster?

Ouvir aquilo fez com que a escorpiana, ainda arfando, o encarasse enquanto tentava se colocar de pé. As pernas tremiam pelo esforço, o corpo ainda abalado pelo golpe. Mal conseguia pensar, embora as últimas palavras dele ecoassem em seus ouvidos.

— D-do que… você me chamou? – Ela sussurrou, cuspindo em seguida.

— Aster… Filha de Phanessa de Athenas. Criança nascida do adultério de sua mãe com o Caçador. – Ele falou devagar, para que ela compreendesse. – Quer que eu continue? Embora não seja de minha alçada, conheço a sua vida desde o dia de seu nascimento. Tudo o que aconteceu no começo de sua vida, do marido que abandonou a família ao perceber que você não era filha dele, da fome e do frio, os maus-tratos que sua mãe dedicava a você... Do homem que você arrancou um pedaço do rosto com uma mordida... – E sorriu. – Você tem muito o que pagar, Aster… A começar pelo crime de sua existência…

Escorpião arregalou os olhos, sentindo todo o sangue desaparecer da face. Há muito não escutava aquilo, embora Melinoe a tivesse feito reviver um pouco da sensação daqueles dias.

— E-eu não sei do que está falando. – Ela murmurou incrédula, enquanto limpava a boca.

— Você não luta por justiça, você luta por algo mais forte, que te consome dia após dia. Algo que só a deixa em paz quando sente o sangue quente descendo por essas suas garras venenosas. Luta apenas por vingança, pura e simples. – O Espectro pontuou, fitando-a com um olhar severo. – Mentiu em seus juramentos de lealdade, pois assim seria muito mais fácil conseguir liberdade para cumprir seus desejos. Você não quer acabar com a dor das pessoas, você tem gana pela crueldade. É isso o que realmente te motiva. Faz do passado a sua desculpa perfeita. Quer apenas saciar a sua sede de sangue e se banquetear com a carne dos mortos. É o que Bestas como você fazem.

— N-não… eu não sou assim… – A jovem falou, levando uma mão aos cabelos, tirando-os de frente de seus olhos arregalados e incrédulos. – Eu não sou como vocês…!

— Realmente, você não é como um Espectro. Você é pior, pois mente para si mesma e acredita nessa mentira. Mas não é nada diferente daqueles desprezíveis seres que se aproveitavam da sua condição miserável para explorá-la. – O oponente rebateu com a cabeça erguida, encarando-a sem esconder o desprezo. – Responda, Aster, quantas vezes você se saciou dilacerando uma presa viva e imaginava que ela era um dos homens que pagavam para tê-la, quando o seu corpo sequer estava pronto para conhecer os prazeres da carne?

— Eu não…!

— Não ouse mentir para mim, mulher. Sua vida é um pergaminho repleto de detalhes, do qual eu posso ler tranquilamente. – Ele cortou, apontando um dedo acusador para ela. – Todos os seus feitos e pensamentos preenchem os cilindros dedicados à sua vida.

Antares avançou sobre ele, não com a mesma velocidade e cuidado de antes. Nem mesmo avaliou se o corpo estava recuperado da queda. Radamanthys abriu suas asas mais uma vez, criando outra rajada de vento potente, que a golpeou e a jogou contra um amontoado de pedras e cinzas.

As costas dela atingiram o alvo com violência, fazendo-a cair no chão e ali ficar por alguns segundos, se recompondo.

— Um erro tão primário… como pode ter alcançado um posto de tanto prestígio desse jeito? – Ele perguntou em provocação. – Usou de seus dotes ou… Ah, entendo… – E riu baixo. – Parece que eu toquei em uma ferida, não é mesmo, pequena Besta? Vocês são tão… previsíveis…

— Cala a boca, maldito! – Ela rosnou, suja de fuligem, se levantando trêmula.

— Venha, como a boa garota que você é, Aster. Venha de joelhos e sem dignidade alguma, como sempre foi e como sempre será. – O Juiz falou com um tom baixo que causou um arrepio na Amazona. – Venha até mim e eu te mostrarei a verdadeira liberdade, arrancando a cabeça de seu corpo. Prometo que não deixarei que sinta dor, meu único ato de benevolência para contigo, em respeito ao seu passado. Permitirei que seja enterrada com honras por enfrentar um Juiz do Inferno e manter a integridade que nunca teve. Poderá seguir a morte em paz, no local que lhe couber, ou juntar-se a minha fileira de subordinados… – Prosseguiu, erguendo as mãos para ela, como se estivesse disposto a acolhê-la. – Ou… pode libertar a Besta de seu interior e deixar que ela decida o seu destino.

— Cala a porra da boca, maldito! – A escorpiana cuspiu, fazendo com que o oponente contemplasse os dentes tingidos de vermelho em sua boca. Em sua mente, as palavras de Scorpio ecoavam em meio a um suave chiado.

“É isso mesmo o que você quer? É um caminho sem volta...”

Ela balançou a cabeça, tentando clarear os pensamentos. Precisava se manter racional, ou terminaria morrendo. Olhou ao redor, vendo o pouco espaço que tinha para se movimentar, a menos que o atacasse constantemente pelo alto. Ainda assim, não era algo animador. Desviar em pleno salto era muito difícil de se fazer, impossível, se o alvo estiver próximo demais. Tinha que levá-lo para um espaço aberto.

— Vamos lá! Seu orgulho tolo está falando mais alto que seu dever em resgatar suas companheiras? – O Espectro apressou, olhando-a. – Se pensar demais, todos morrerão. Sua vida pela deles, é um preço bom demais para alguém sem valor, Aster...

“Preciso derrotá-lo para salvá-las, mas…”, pensava ela enquanto se levantava com extrema dificuldade, sentindo cada músculo de seu corpo se contrair de dor. “... e se ele estiver mentindo? E se tudo for um jogo dele para… Ah, maldito!”, praguejou mentalmente enquanto cerrava os dentes pela raiva crescente que sentia.

Queria esganá-lo. Fechar seus dedos em torno daquele pescoço e fazê-lo implorar para soltá-lo, enquanto enterraria as unhas cheias de veneno corrosivo em sua carne. Só de pensar naquilo, precisou conter um sorriso que ameaçou distorcer a parte descoberta de sua face. A ideia a apetecia.

Por um momento, ela fechou os olhos e respirou profundamente. “É isso mesmo o que você quer?”, a pergunta continuava a ecoar em sua cabeça, trazendo a dúvida naquele momento. Quando pediu, era exatamente o que queria, mas ali, na aplicação prática, já não parecia mais estar sendo uma boa decisão.

“É isso mesmo o que você quer?”

— Ouso dizer que essa vida de Amazona não é para você. Não vê? Deixou que pusessem uma coleira em seu pescoço, como a um cão que precisa obedecer ao seu dono, fazendo suas vontades. Você é um cão? – O semideus questionou, caminhando em sua direção. – Quem é você? Aster, a pequena escrava que era usada para servir homens pela própria mulher que a gerou, ou Antares, uma Besta que está se debatendo para despertar?

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“Seja água, meu amigo.”, eram as palavras que ecoavam na mente de Nikandros de Libra naquele momento. Ele podia sentir tudo ao seu redor, dos guerreiros que ainda estavam nas proximidades, ao fogo que ardia nas casas ao redor. Era uma experiência única e assustadora, ainda que não fosse a primeira vez que fizesse aquilo.

Já fazia dez anos desde a última vez em que peregrinou pelas terras além da Grécia. Talvez rever um velho amigo nas terras do leste distante, depois que aquele conflito no Santuário fosse resolvido definitivamente. Aquele velho muito lhe ensinou nos poucos dias em que permaneceram juntos.

“Esvazie sua mente de modelos, formas, seja amorfo como a água.” Lembrava dele dizer, enquanto derramava um pouco do líquido em um cálice. “Você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. Você coloca a água em uma ânfora, ela se torna a ânfora. Você coloca ela em uma panela, ela se torna a panela. A água pode fluir e pode destruir. Seja água, meu amigo.”[01]

Seus olhos se abriram, exibindo um dourado quase tão luminoso quanto os de seu oponente. O corpo era o de uma longa serpente de escamas feitas de água, que ondulava há poucos metros acima do chão, derrubando os restos das paredes que ainda estavam de pé. Tão grande quanto o Templo da Acrópole.

Podia sentir que tudo havia mudado, ouvindo sons e sentindo cheiros que outrora eram impossíveis para um ser humano ou para a maioria dos semideuses. O fluxo de energia que percorria seu corpo parecia ter triplicado. Sentia-se capaz de rasgar a terra e destruir Polei inteiras apenas com sua vontade, ou de atravessar os rios do Submundo sem qualquer preocupação. talvez fosse capaz de segurar os raios de Zeus e os direcioná-los contra alvos que julgaria muito mais interessantes.

“Então… essa é a sensação?!”, pensou o Cavaleiro percebendo a mudança em seu corpo. Serpenteou em volta de si mesmo, sentindo cada parte de seu corpo líquido trabalhar tal como se fosse um corpo feito de carne. “É… incrível!!! Eu me sinto tão livre!!!”

Minos exibiu um sorriso satisfeito com aquilo. Embora não demonstrasse, estava quase tão surpreso quanto o seu oponente. "Curioso ver que esse garoto conseguiu fazer isso." Refletiu o ele, observando com cautela. "Mas a que preço? O que ele sacrificou para isso?"

— Um… dragão [02]…! Vejo que aprendeu um truque ou dois enquanto esteve longe de minha tutela. – Ele falou, com uma voz aveludada, fazendo uma discreta reverência, enquanto pensava no que faria. Não tinha certeza se estava preparado para enfrentar uma Besta, ou alguém próximo de fazê-lo. – A arte da feitiçaria não é tão simples. Devo dizer que estou sentindo algum orgulho de você.

A fera urrou em desafio, erguendo a cabeça e mostrando os dentes pontudos, antes de atacar. O Espectro queimou seu Cosmo e abriu os braços, fazendo com que incontáveis fios partissem da ponta de seus dedos e avançassem contra a criatura de água, mas percebeu-se em problemas ao ver que não houve sequer efeito. Nikandros não conseguiu deixar de se sentir plenamente satisfeito.

O dragão abriu sua bocarra cheia de dentes, sem se deter em qualquer momento. Em um último instante, Minos deixou que as asas negras de sua Súrplice o envolvessem, como um grande escudo. O impacto foi violento o bastante para que Libra sentisse os músculos da mandíbula tensos contra o metal profano, fazendo força para vencer sua resistência e esmagar de vez o seu tão odiado inimigo.

“Finalmente… Finalmente eu colocarei esse maldito de joelhos, pedindo perdão por seus crimes!”, pensou, queimando seu Cosmo.

O Rei abriu as asas subitamente, fazendo com que as penas metálicas rasgassem a boca da criatura. O libriano sentiu a pele do rosto ser arranhada, como se tivesse sido atingido ele mesmo. Os olhos púrpuras arregalados não conseguiam acreditar no que viam: Minos estava ileso, mesmo com toda a força que empregou naquela mordida. Aquela forma não iria ser o suficiente.

“Eu vou vencê-lo, nem que seja a última coisa que eu faça, Minos!”, ele pensou determinado, fazendo o corpo de serpente se agitar. Abriu a imensa boca, cuspindo um jato de água quente, obrigando ao Espectro a usar novamente as asas para se defender.

Minos sentiu os respingos quentes tocarem sua pele, queimando-a quase tão rapidamente quanto sua Súrplice permitia curá-la. Aproveitou uma breve pausa de Nikandros para inspirar e soprar novamente, e queimou seu Cosmo mais uma vez, fazendo com que seus fios ficassem mais fortes e avançassem contra o Cavaleiro transformado. Contudo, não houve qualquer resultado com essa nova tentativa.

Aquilo não ia levá-los a lugar algum e o libriano também percebeu isso. "De nada serve o poder se não souber direcioná-la.", lembrou.

O dragão pareceu serenar e afastou-se do Rei, se enrolando mais afastado. A cabeça mergulhou no espaço formado pelo corpo de água, que se desfez em um turbilhão quente, fazendo subir uma densa neblina.

Um sorriso vitorioso e doentio se formou no rosto pálido do Espectro, porém foi logo substituído por um frio na espinha. A névoa criada pelo vapor se abriu, e ali, bem à sua frente, Nikandros se encontrava sem sua Armadura Sagrada, com os joelhos semi-flexionados. As mãos pareciam imitar as garras de algum animal do qual o Rei Cretense não se recordava de ter visto em qualquer lugar. Daquele modo não tinha como negar qualquer argumento.

O libriano tinha o corpo definido como uma estátua de mármore, o que fez o adversário ter dificuldade em conter um ar de satisfação. Olhar esse que Nikandros retribuiu com o maior desprezo. Ele sabia o motivo do olhar, era lembrado disso sempre que via o próprio reflexo.

A mesma pele alva, os mesmos traços faciais...

Nas costas nuas do Dourado, a imagem da serpente de poucos instantes brilhava, como se estivesse sendo marcada em sua carne com ferro em brasa. E aquilo não passou despercebido pelo seu inimigo.

— Parece que você tem mais surpresas a mostrar que eu imaginava. – Minos falou, olhando-o cuidadosamente de alto a baixo.

— Isso vai acabar hoje, "majestade"! – respondeu Libra, cujos olhos ainda reluziam.

— Imagino que sim, já que demonstra estar tão disposto a abrir mão da sua humanidade para isso. – O Espectro rebateu, respirando fundo. – Mas você sabe que não importa o resultado, nos veremos no Tribunal dos Mortos.

— Sim, eu sei que ainda irei ver a sua cara desprezível mais uma vez. – Cuspiu o Cavaleiro. – Vamos logo com isso.

Notas finais
01 – “Esvazie sua mente de modelos, formas, seja amorfo como a água. Você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. Você coloca a água em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Você coloca ela em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir, a água pode destruir. Seja água, meu amigo.”. Frase dita por Bruce Lee em algum momento de sua carreira, e aqui adaptada para o contexto em questão. 02 – Apenas para lembrar: Na Grécia Antiga, acreditava-se que serpentes e crocodilos muito grandes eram dragões.