Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
26 A Sombra do Mestre
Notas iniciais
Antares repetiu a estratégia anterior, com pouquíssimas mudanças, por mais três vezes naquela noite. Sempre corria diante de seus alvos, atraindo-os com pequenas doses de Cosmo para que não a perdessem de vista e os conduzia até o local onde o Oráculo os aprisionaria com a ajuda de Crisômalo. Pelo menos dois os obrigaram a entrar em combate real, enquanto outro quase conseguiu escapar da prisão cristalina do Carneiro Dourado. Somente quando os primeiros raios do sol começavam a mudar as cores do firmamento, Virgem decidiu que aquilo era o bastante.
Havia contabilizado dezesseis almas capturadas e banidas daquele mundo, uma excelente quantia, se levasse em consideração que ele mal esperava conseguir apanhar quatro. Além disso, Escorpião já demonstrava sinais de exaustão, algo esperado pelos dois Cavaleiros de Ouro que estavam ali. Não seria prudente expô-la ao risco de ser dominada por um daqueles espíritos.
— Foi um bom trabalho, Antares e Crisômalo. – O virginiano falou, bebendo um farto gole de água em seu odre, enquanto escolhia suas palavras. – Eu mesmo irei reportar à senhora Athena sobre nosso feito. Vocês podem ir para seus templos, descansar pelas próximas duas ou três horas.
— Acha que ainda tem mais deles por aí, Oráculo? – O ariano questionou, recolocando a capa de volta aos ombros. – Não podemos descansar se ainda estivermos sob ameaça.
O outro lançou um olhar discreto para a jovem, que bebia sua água um pouco mais afastada deles. Algo o incomodava a seu respeito, mas não sabia dizer ao certo o que era. Pelo que observou de sua atuação, pareceu-lhe haver muito mais do antigo Cavaleiro de Escorpião nela do que um aprendiz absorveria.
Chegou a conhecer alguns antigos pupilos do escorpiano, os que sobreviveram ao treinamento, pelo menos. Todos possuíam um certo refinamento de batalha, onde eram capazes de realizar golpes de grande precisão em movimento incessante. Contudo não conseguia recordar de uma criatura sequer que conseguisse rastrear do mesmo modo que a jovem... exceto o próprio Scorpio...
— Não adianta permanecermos na frente de batalha se não estivermos bem o bastante para isso. Devemos inspirar e ajudar, e não sermos fardos para nossos companheiros. – Murmurou ele, de modo que apenas o Carneiro Dourado pudesse ouvi-lo. – Mesmo que eu não goste de admitir isso, foi ela quem fez grande parte do esforço em atraí-los até nós, deixando que eles absorvessem o Cosmo que deixava como isca, e evitando que percebessem estarem indo rumo à uma armadilha.
Crisômalo torceu o rosto anguloso em desagrado e voltou seus olhos para a Amazona. Ainda não conseguia acreditar que ela tinha sido capaz de fazer aquele trabalho tão bem por toda a noite. Imaginava que logo teria aborrecimentos com Antares gritando por socorro e ele ou o Virgem tendo que se desdobrarem em seus papéis para ajudá-la.
“Tão útil que sequer parece uma mulher”.
— Se ela está tão cansada assim, três horas será muito pouco tempo para que ela se recupere. – Falou, voltando a face para o virginiano.
— A menos que queira ocupar a função dela, nós não temos outra escolha. – Pontuou o Oráculo de Virgem, erguendo uma sobrancelha. – Antares precisa descansar. Já fez mais que o esperado para uma mulher e teve um bom resultado para alguém que se sagrou há pouco tempo.
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O Santuário estava em estado de sítio. A notícia sobre a caçada realizada pelo Cavaleiro de Virgem ficou restrita ao círculo dos Cavaleiros de Ouro. Os Gêmeos não esconderam a surpresa em ouvir sobre o resultado na reunião de emergência evocada por conta da situação. As novas instruções lhes foram passadas e só então foram liberados para cumprirem as ordens. Antares, Crisômalo e o Oráculo receberam permissão para descansarem, para que então pudessem retomar seus lugares mais tarde.
Os Gêmeos mal conseguiam acreditar no que tinham escutado a respeito do desempenho da escorpiana. Mesmo Pollux, que havia lutado com ela em seu teste, não imaginava que a jovem fosse capaz de um feito como aquele. Comentava com Castor ao seu lado, que também não escondia sua surpresa, ainda que o orgulho o impedisse de reconhece-la. Ainda assim, nenhum dos dois foi ter-lhe a palavra. O mais velho planejava faze-lo mais tarde, quando não estivessem todos tão atarefados.
Ambos a viram se deter no pátio do Templo de Aquário, quando Ganimedes sinalizou querer conversar com ela por alguns instantes. O irmão mais novo não evitou um sorriso de escárnio e lançou um olhar para o mais velho, que já o repreendia em silêncio. Ambos deram de ombros e passaram. Teriam que vistoriar os limites do Santuário.
“O que aqueles dois irão fazer ali não nos diz respeito.”, o semideus pensou, colocando uma mão no ombro do caçula e o conduzindo gentilmente pela passagem. Só para ter certeza de que o mesmo não iria decidir voltar e provocar alguém, como já aconteceu antes.
Contudo, era difícil para Castor resistir à tentação, e logo já estava a falar sobre a caçada promovida pelo Oráculo. E Pollux estava contando mentalmente quanto tempo o caçula levaria para começar a falar a respeito de seu desafeto.
Surpreendeu-se ao chegar a cinquenta sem que qualquer impropério fosse dito contra a escorpiana. Pensava em parar quando chegou a noventa, imaginando que o irmão tivesse finalmente superado o rancor que sentia, até ouvi-lo dizer que, se estivesse no lugar do virginiano, garantiria que ela não se sentisse tão orgulhosa assim de seu feito. Aquilo fez o Príncipe-Herdeiro suspirar pesadamente. Quase se iludiu.
— Ela merecia estar orgulhosa de seu feito, meu irmão. – Ele o censurou, fitando-o com seus olhos dourados. – Fez um trabalho bom, que nem mesmo o Oráculo tinha ideia de como cumprir.
— Ela estava com o nariz muito empinado para o meu gosto! – Reclamou o mais novo, ignorando o olhar. – Dava para ver que nem estava prestando atenção nas palavras da senhora Athena!
— Talvez porque estivesse cansada e tensa. – Comentou o mais velho, em mais uma censura discreta. – Vai dizer que não notou que ela não parava de alongar o pescoço e os ombros? Passou a noite inteira caçando, sendo a isca. Não deve ter descansado mais que duas horas, antes de comparecer à reunião. E ela estava lá antes mesmo de nós dois!
— E aí está você, defendendo aquela baratinha-rabuda… – Resmungou Castor, passando a mão no rosto. – Está sempre defendendo aquela…. aquela...
— Cuidado com o que vai falar, meu irmãozinho. Ela tem o mesmo posto que nós dois. – Pollux o alertou, olhando para os lados. – Não é adequado para alguém de nossa patente falar mal de nossos iguais.
— Ela não é nossa igual, irmão! – O mais novo rebateu com um sorriso escarnecedor. – Somos cidadãos espartanos e membros da realeza! E ela, uma mulher ateniense! Isso por si só já nos torna diferentes! Ouso dizer que, se por ventura, alguém escavar mais o passado dela, poderá encontrar coisas que comprovem a minha opinião sobre ela!
— Você me entendeu. – O outro repreendeu em um rosnado, já impaciente. – Não importa onde ela nasceu ou sua idade. É uma Amazona de Ouro e nós dois somos Cavaleiros. De Ouro. Assim como ela. Pode não gostar dela, direito seu, mas respeite-a! – E ergueu um dedo, apontando-o para o rosto do irmão. – E lembre-se de que não estamos em Esparta. Nós é quem somos os estrangeiros aqui. Fim de assunto.
— Oh! Desculpe! – Falou o caçula sem muito esforço em parecer verdadeiro. – “Esqueci” desse detalhe! Por um momento você pareceu o nosso “velho mestre” falando...
— Cale a boca e vamos logo...! – Resmungou o semideus, marchando a as frente.
Se Castor tinha um dom, era o de tirar as pessoas do sério em pouquíssimo tempo. E poucas coisas irritavam Pollux tanto quanto ser comparado com aquele que os tinha treinado quando crianças, no Olimpo. Não negaria o quanto todo o conhecimento passado lhe foi útil e que aquilo ajudou a moldar seu caráter, contudo o seu antigo mestre havia feito coisas que não condiziam com o que tinha sido ensinado.
Foi uma decepção completa para os dois, que tanto o admiravam e até mesmo o amaram como a um pai.
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— Então, Antares, como está se sentindo após tanto reconhecimento vindo do velho Oráculo? – Ganimedes quis saber, voltando-se para a jovem. – Sabe que faze-lo dizer aquelas coisas não é fácil?
— Não sei ao certo... – Ela respondeu insegura. – Não teria ele feito aquilo por formalidade?
O aquariano arregalou os olhos na direção dela e deixou uma breve risada escapar. Era de se esperar que ele iria querer conversar a respeito de seu desempenho, uma vez que os detalhes dificilmente importavam para a reunião.
— Minha querida, de todos os presentes, aquele homem era um dos únicos que não elogiaria alguém por formalidade! – Respondeu ele, caminhando em sua direção. – Acho que não elogiaria nem a própria mãe, se ela ainda estivesse viva!
—É-é sério?! – Indagou ela muito surpresa. – Fala como se o conhecesse há muito tempo para tamanha certeza.
— De fato. Eu o conheço... há muito tempo! – Aquário rebateu, ainda com o sorriso no rosto. – Não tanto quanto seu mestre, mas o conheço há longos anos. O suficiente, pelo menos, para saber que aquilo foi um elogio sincero.
A Amazona o olhou por alguns segundos, analisando cada palavra. Por mais que tivesse escutado o próprio virginiano dar um relatório positivo sobre suas habilidades, ainda pesava o tom da conversa com a qual ele teve com Crisômalo. Uma conversa da qual pareceram achar que ela não estava escutando. Eles não tinham qualquer noção do quão sensível era a sua audição.
— Ainda assim… – Ela suspirou, denotando cansaço. – Mesmo que tenha sido meu dever, e fiz de bom grado, parecem que sempre esperam pelo meu fracasso.
— E eles realmente esperam, Antares. – O troiano falou com pesar, olhando-a. – Muitos deles ainda se recusam em aceitar que uma mulher tenha ido tão longe quanto você foi. Terá que fazer o dobro do que eles normalmente fazem para que se convençam de metade de sua capacidade. – E sorriu de canto. – … assim como fez hoje.
Ela percebeu o que ele quis dizer e sorriu de volta, levando uma mão à cintura.
Ainda que ele não pudesse ver seu rosto devido à máscara, o aquariano aprendeu bem a ler seus gestos, por mais simples que fossem. Sabia o quão árduo estava sendo para Antares ali, mas aquela sua proeza fora mais que suficiente para calar e surpreender aos Cavaleiros de Ouro que ainda duvidavam de sua capacidade. A todos que se mantiveram omissos ao longo de tudo que foi dito e baixar um pouco de seus orgulhos para admitir o quanto ela “foi sábia para uma mulher”.
— Não desista por causa de palavras de tolos arrogantes. Eles seriam os primeiros a morrer para as Satélites de Ártemis, para as Mênades de Dionísio ou para as ninfas que vivem espalhadas pelos bosques. – O Cavaleiro pontuou, colocando as mãos sobre os ombros da jovem. – Se algum dia você desistir passar a Armadura de Escorpião adiante, que seja por sua própria decisão, sem influência deles. Sempre terá a mim e ao seu mestre para apoia-la...
A Amazona endireitou as costas e mexeu o pescoço dolorido, alongando-o e notando-o estalar, trazendo um breve alívio à tensão em seu corpo. Anuiu com a cabeça, sentindo-se um pouco mais animada com aquelas palavras de incentivo.
— Eu não irei desistir, senhor Ganimedes. – Ela respondeu com afinco. – É como o senhor e meu mestre me disseram antes: O caminho será longo e haverá muitas pedras nele. Eu vou superar. Eu... vou provar para todos que eu sou tão competente quanto eles!
— Perfeito! – O sorriso no rosto do aquariano se alargou ainda mais e ele beijou-lhe a fronte, por cima da máscara metálica. – Esse é o espírito, minha querida! Vá lá e dê sempre o seu melhor! Mas agora, vá descansar. Aproveite que a senhora Athena lhe concedeu mais algumas horas e reponha as forças. Tudo indica que vamos precisar de todos os recursos em breve.
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A ronda dos irmãos estava seguindo bem, apesar do silêncio entre eles. As vistorias eram sempre muito mais chatas e insuportavelmente mais demoradas quando os espartanos estavam daquele jeito. Não por realizarem o trabalho com mais atenção, mas simplesmente por remoerem as palavras que os magoaram.
Castor sabia que tinha ido longe demais com sua brincadeira de irritar o irmão ao compará-lo com o homem que os treinou no Olimpo. De certo modo, ele mesmo ficava muito triste com aquilo. Apesar do início desconcertante, onde os dois príncipes constantemente desafiavam a autoridade daquele que foi designado a ensinar-lhes a lutar e eram castigados por isso, os espartanos tinham aprendido a ama-lo como a um pai.
Seu mestre lhes ensinou muito sobre coisas mundanas, junto com outro garoto, um jovem ruivo chamado Ankeus, que chegada ali no mesmo período. Os ensinou a guerrear, a perseguir e caçar, a domar e montar cavalos com maestria, a barganhar e intimidar seus inimigos. Era rígido, no entanto passou importantes lições sobre a importância de observar bem ao seu redor e pensar antes de agir. Também foi com ele que aprenderam a cuidar dos próprios ferimentos.
Sempre dizia que deviam aprender aquelas coisas, mesmo que decidissem não abraçar a causa de alguma divindade. Que aquelas coisas lhes seriam úteis, resolvessem viver como reis ou como camponeses. E eles acataram.
Seu tutor tinha um vasto conhecimento, e não se poupava em repassá-lo, principalmente enquanto sentado diante da fogueira, tocando sua lira. Ouviram sobre as guerras travadas pelos Deuses do Olimpo, dos desafios impostos aos mortais, ou mesmo de pequenos ocorridos entre os servos divinos. Não raras as vezes os jovens espartanos e o garoto que os acompanhavam eram desafiados pelo mais velho a contarem algum desses feitos.
Quando castigados, o que não era muito incomum, só podiam progredir no treinamento, quando cumprissem a penitência. O mais novo já nem sabia mais quantas vezes fora amarrado de cabeça para baixo e usado como alvo nos treinamentos de arco e flecha do irmão. Para seu desespero, Pollux não tinha uma pontaria tão boa na ocasião, o que o obrigava a passar duas a três vezes mais tempo fazendo a mira, enquanto o mestre o pressionava para ser mais rápido.
Em uma dessas ocasiões, o mais velho tencionou o arco de tal forma que a corda arrebentou, cortando os dedos e machucando um dos olhos. Precisou passar alguns dias usando uma faixa com pastas cicatrizantes feitas pelo próprio mestre, que aproveitou a oportunidade para ensinar aos jovens a fazer aquela medicação. Também os incumbiu de ensinar ao ferido tão logo ele se recuperasse.
Em outras vezes, eles eram obrigados a recitar todos os títulos de cada um dos Doze Olimpianos. Se errassem, teriam que falar tudo do começo. Mas poucas coisas eram pior que serem designados a cuidarem da refeição: Caçar para três garotos em crescimento e para um adulto com um apetite monstruoso.
O Príncipe de Esparta não conseguiu evitar um sorriso saudoso ao relembrar daquilo.
— Irmão... eu sei que já perguntei isso antes, mas... por que o mestre mudou daquele jeito? – O caçula questionou, olhando entristecido para o mais velho.
— Eu me faço a mesma pergunta sempre. – O Príncipe-Herdeiro suspirou, olhando para o céu. – Cheguei a cogitar a ideia de que fomos nós os cegos em não perceber que ele sempre foi assim, movidos pela saudade de nossa família... e por isso teríamos projetado nele a imagem que queríamos ter de... de nosso pai... Sei lá! Já lhe perguntei isso, uma vez, mas ele nunca respondia.
Castor calou-se, mordendo os lábios. Nunca iria aceitar aquilo. Ele era rígido, mas era bom como ninguém foi na corte de Esparta. Ele não tinha receio de ninar os garotos ou de elogiar suas virtudes sem fazer com que se sentissem troféus.
Continuaram a ronda em silêncio, na medida em que o sol atingia o topo e as nuvens ocultavam o céu azul. Uma densa chuva se anunciava.
— Desculpe tê-lo comparado com aquele homem, meu irmão. – O caçula falou, sorrindo com tristeza. – Eu... não queria te ofender.
— Deixemos isso pra lá. – O semideus falou e tocou no ombro do irmão, sorrindo de modo contido. – Mesmo eu às vezes me comparo com ele por conta da austeridade com a qual tomo algumas decisões. Depois resolvemos isso com bom vinho e mulheres, mas agora… – E voltou ao semblante austero de outrora. – Tem algo que está me perturbando aqui…
— Pensei que só eu tinha notado isso. – O mais jovem disse, fazendo o elmo surgir em sua cabeça. – QUEM ESTÁ AÍ?
Mas não houve qualquer resposta. Fazia alguns minutos que ambos tinham percebido, quase que simultaneamente, uma sensação diferente. Um leve arrepio no pescoço e a sensação de que tinha algo, ou alguém, que não deveria estar por ali.
— Eu odeio isso... – Os dois disseram uníssonos.
Uma massa escura os envolveu rapidamente, fazendo com que eles se protegessem como podiam, enquanto ouviam a risada de uma jovem ecoar ao seu redor.
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