Notas iniciais
A Reunião Dourada ocorre, com os Cavaleiros de Ouro presentes diante da Deusa Athena, e Antares se vê em uma situação deveras desconfortável.

O Santuário dava seus primeiros sinais de vida nos Anfiteatros e Arenas. Os campos de treinamento lentamente se enchiam de Cavaleiros e aspirantes ansiosos por mais um dia, ainda que alguns o fizessem a contragosto. Nyctimus era um deles.

Ainda sentindo todas as dores dos dias de tortura nas mãos do sacerdote de Hades e de um Espectro, o Cavaleiro de Lobo se colocou de pé um pouco mais tarde que o de costume. A raiva que sentira da Amazona de Ouro fora tanta que sequer procurara a Fonte de Athena para se tratar, e foi diretamente para o seu alojamento, onde tentou descansar um pouco.

Um banho frio para tirar o sangue de seus cabelos, algumas compressas e os primeiros pássaros já estavam começando a cantar na escuridão. Queria muito voltar à rotina, pois assim poderia se concentrar e esquecer aquele fiasco, porém as forças foram roubadas de seu corpo tão logo sentou na cama para refazer os curativos.

Se fechasse os olhos castanhos para dormir, não era garantia de que despertaria a tempo de se apresentar ao seu superior. E o Cavaleiro de Lobo bem sabia que atrasos e corpo mole não eram algo bem aceito por aquele responsável por ele.

O esgotamento o venceu e terminou por cair no sono. Acordou sobressaltado quando ouviu o som de uma porta bater no aposento do lado. O Cavaleiro de Bronze olhou ao redor, notando ainda estar em seu quarto, usando apenas bandagens no corpo já seco e quente. Tinha que correr. Fora o último daquela parte do alojamento a se apresentar nos treinos.

Nyctimus não era um homem alto, mas possuía um bom porte, com seus músculos bem distribuídos em seu corpo. Tinha cabelos, ondulados e loiros como palha seca, na altura dos ombros, sempre alvoroçados. Os olhos grandes, altivos e ferozes, estavam avermelhados e ardidos pelas noites mal dormidas desde o cativeiro.

Estava alongando da forma como conseguia, tomando cuidado para não abrir algumas feridas, quando o Cavaleiro de Prata de Águia, se aproximou por trás, surpreendendo-o. Kartal era um de seus superiores e respondia diretamente ao Cavaleiro de Ouro responsável por ele. Seu olhar era sempre analítico, tal qual uma águia de verdade, procurando por uma boa presa. Ser fitado por aqueles olhos cor-de-mel não era algo que o Cavaleiro de Bronze gostaria de ver acontecer.

Kartal era um homem jovem de estatura mediana, de pernas compridas e ombros largos. Não era corpulento como muitos ali, no entanto estava bem longe de ser inofensivo. Trajava uma túnica escura por baixo da Armadura de Prata da mesma cor do céu limpo daquela manhã. Os cabelos castanhos estavam trançados de modo a não atrapalhar em suas atividades.

— Ei, você, o que houve? – Questionou o homem de patente mais alta, quando percebeu que se tratava de Nyctimus. – Ah, sim… Claro! Você voltou da missão ontem, eu soube do que aconteceu. – Disse olhando as bandagens com tons rosados, que não tardariam a ficar vermelhos. – Vá à Fonte de Athena e peça que vejam esses ferimentos e tire o dia para descansar. Nada de treino hoje.

Lobo tentou argumentar qualquer coisa, no entanto não havia como convencer seu superior do contrário. Bufou de raiva diante daquilo, nada falou a respeito, contudo deixou escapar apenas um “aquela meretriz vai me pagar caro!”.

— Como disse…? – Estranhou o Cavaleiro de Prata, olhando-o intrigado.

— Aquela maldita Amazona! – O Cavaleiro de Bronze repetiu sem fazer qualquer esforço para não chamar atenção.

Algumas cabeças se voltaram em sua direção, curiosas e talvez dispostas para perder algum tempo de exercício. Para aquelas pessoas, ter alguma novidade para ser cuidadosamente ruminada nas pausas para descanso era o momento mais esperado do dia. Junto com o momento em que seus corpos quentes encontravam suas camas para o merecido repouso.

— Ela viu o meu estado, mas não teve piedade alguma de mim, me conduzindo em marcha forçada da Acrópole até aqui! E ainda me fez subir o Monte Zodiacal inteiro para uma audiência com a senhorita Athena, sem que eu estivesse em condições! – Nyctimus prosseguiu e cuspiu no chão logo em seguida (01).

— Espera! Espera um pouco. – Pediu Kartal, piscando aturdido. – A quem está se referindo? Fala da Amazona de Ouro? Não devia dizer isso. – E sorriu de canto, olhando para os lados.

Não era preciso ser inteligente demais para saber que aquelas palavras poderiam colocar os dois em maus lençóis. Falar de tal modo de um Cavaleiro de patente superior era algo perigoso, uma vez que, se isso chegasse em certos ouvidos, seria necessário provar cada palavra dita. E se não houvesse como fazê-lo, uma temporada nas escaldantes prisões do Santuário estaria aguardando.

— Estou falando a verdade! Ela é inteiramente despreparada! – Reclamou o Lobo, levando uma mão ao pescoço dolorido. – Fez um banho de sangue desnecessário, deixando até um sacerdote de Hades em choque! Até um cego poderia nos seguir por culpa dela!

— Até onde soube, ela salvou você e a sacerdotisa. Fez aquilo que deveria ter sido feito, mas... – Comentou o Cavaleiro de Prata intrigado. – Bom, não sei bem o que aconteceu, mas eu tomaria cuidado com essas palavras.

— Com todo o respeito, senhor, mas eu sei muito bem o que eu vi. Aquela sacerdotisa ficou apavorada de tal modo que parecia ter virado pedra nos braços daquela inconsequente!

— Bom, sacerdotisas vivem em templos e não seria estranho ficar assustada com tudo isso. – Ponderou Kartal, levando uma mão ao próprio queixo imberbe. – Olha… descanse e conversamos sobre isso em outro momento. Recomendo cuidado na maneira como se dirige à ela. Quer aceite ou não, ela está abaixo apenas da senhora Athena, e você pode ser punido por isso.

— Ah! Mas esteja certo de que isso não ficará assim. – Rosnou Nyctimus, obedecendo àquela ordem disfarçada de sugestão. – Aquele demônio em corpo de mulher pagará por isso.

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O sol ainda não havia surgido além das montanhas quando Antares se colocou de pé e se encaminhou para o pátio frontal de seu Templo. Olhava para o horizonte onde o púrpura dava lugar gradualmente ao vermelho sanguíneo e, em seguida ao dourado. Aquela última cor sempre fazia com que um leve sorriso brotasse em seus lábios carnudos. Era uma das poucas coisas que realmente a fazia ter pensamentos mais leves, e que pareciam tornar sua mente mais limpa e clara.

A brisa fria abraçava sua pele bronzeada com cuidado, causando um leve arrepio, e fazendo com que fechasse os olhos. Inspirou profundamente, ouvindo os sons ao redor. As pequenas formas de vida que habitavam as encostas rochosas do Monte Zodiacal saiam de seus ninhos para buscar por alimentos ou chegavam de suas caçadas noturnas. As folhas das relvas curtas e dos pequenos arbustos, os pequenos jardins conservados pelos servos dos Templos Zodiacais acima e abaixo do seu. As aves, que batiam suas asas ou que deslizavam suavemente pelo ar, em busca de seus alimentos. Ratos e camundongos que se aventuravam por trás das pedras de variados tamanhos. Sussurros de canções chegavam em seus ouvidos.

O toque morno dos primeiros raios de sol chegou ao seu corpo. Era o momento de esvaziar a mente e se dedicar àquele ato sagrado, do qual seu mestre havia ensinado a apreciar. Recitara, ainda que mentalmente, um Hino de Apollo em seu aspecto caçador (02), e depois outro para Athena. Este último, o mais longo e devoto.

O dia começaria cedo e seria atarefado, com uma reunião com os Cavaleiros de Ouro e com os treinamentos. Por enquanto, ainda estava limitada aos treinamentos individuais com outros guerreiros de mesmo posto hierárquico, embora a verdade seria que seus exercícios se davam apenas com Ganimedes. Era o único com quem se sentia realmente à vontade para treinar, ainda que quisesse experimentar simular combates com alguns outros.

Dizia isso para si todas as noites, sabia que não poderia ficar presa a apenas um parceiro de treino por toda a vida. Teria de variar, conhecer novas técnicas e pensar em como se sobrepor a elas. Eliminar gradualmente os vícios de combate que havia adquirido e assim se tornar a defensora que pretendia se tornar.

Pensava em um para começar, porém sentia medo de como ele reagiria, afinal... ela era uma jovem mulher e era ateniense. Ele poderia não achar uma boa ideia ajuda-la, mas a escorpiana não conseguia parar de pensar naquilo. Ambos já haviam trocado algumas palavras por algumas vezes, embora sempre em momentos impróprios, quando ainda era uma aspirante.

Mas teria que deixar para pensar nisso em outro momento. Teria de se apressar para poder fazer todas as suas obrigações em tempo. Sentia que alguma coisa grande iria acontecer, mas não tinha como dizer se isso era bom ou ruim àquela altura.

Retornaria para Atenas e interrogaria a sacerdotisa Dóris, após dois dias de seu resgate. Decidira dar-lhe esse tempo para melhor se recompor do que passou nas mãos de seus torturadores. Apenas sua parte não tinha sido ouvida por conta do estado em que se encontrava. Talvez tivesse exagerado um pouco no seu desempenho. Era apenas uma leve impressão.

Seu mestre já havia lhe alertado algumas vezes da fragilidade mental dos humanos diante de determinadas situações. Porém, não imaginava o que poderia fazer naquela situação. Sabia bem que Espectros não morriam (03), então seu veneno seria quase inútil. Sua entrada letal naquela câmara visava apenas neutralizar os inimigos de forma que lhe garantisse algum tempo para realizar o resgate. E a julgar pelos estragos que fizera aos Esqueletos e ao Morcego, era provável de que ainda não tivessem retornado à vida.

Ao menos tinha certeza de que Scorpio estaria satisfeito de sua atuação.

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A voz de Athena preenchia facilmente àquela sala onde ela se encontrava com seus Cavaleiros de Ouro. Seus assentos de carvalho estavam marcados com os símbolos de suas Casas Zodiacais no encosto das cadeiras, em dourado. Exceto por Kheiron de Sagitário, o único centauro ali presente, que se encontrava sentado sob as patas traseiras, e ainda assim sendo muito mais alto que alguns de seus colegas se estivessem de pé. Mesmo Íficles estava presente, ainda que os ferimentos exigissem que permanecesse em repouso.

A Deusa falava a respeito de tudo o que havia sido coletado pelo Cavaleiro de Bronze e pela Amazona de Ouro de Escorpião. As coisas não eram boas, e parecia que ficariam ainda piores. Espectros envolvidos diretamente em mortes de acólitos e em profanações aos Templos de Athena nada mais eram que uma afronta direta a ela. Não havia o que ser ponderado ali, senão os passos que tomariam naquela batalha que estava por vir.

— Escorpião. – A deidade chamou, olhando para a Amazona. – Conte-nos mais sobre o que aconteceu e o que viu.

Antares empalideceu por ter sido chamada. Levou alguns instantes para perceber que teria de falar ali, em sua primeira reunião em meio aos homens mais poderosos de todo o mundo. Sentiu-se desconfortável em, subitamente, se tornar o centro das atenções. Devagar, se colocou de pé, ante ao sinal da divindade para fazê-lo, e ensaiou um pigarro, tentando ganhar um pouco mais de tempo.

Os pensamentos estavam bagunçados pela surpresa. Não imaginava que teria de falar naquele momento, ainda que seu mestre tivesse lhe avisado algumas vezes que coisas assim eram algo comum. E Scorpio enfatizava muito aquilo nos treinamentos, simulando audiências na hora da refeição, mesmo diante do olhar de desagrado de Ágape. Agradeceu mais uma vez pela máscara disfarçar sua confusão e as bochechas vermelhas.

Todos os olhos estavam nela, atentos a qualquer movimento que fizesse. Tinha a impressão de que alguns ali pareciam esperar por um deslize seu. Lançou um olhar discreto para Ganimedes, há três assentos de distância, a sua esquerda. Mesmo ele estava olhando-a fixamente. Talvez o único que não estivesse julgando-a naquele momento, uma vez que nem mesmo teve coragem de olhar para os demais.

Respirou fundo, passando a língua pelos lábios. O que diria? Fechou e abriu as mãos algumas vezes, tentando resistir ao impulso de uni-las e mexe-las do modo nervoso como fazia eventualmente.

— Ah... O que eu vi por onde passei foi que havia algo estranho... em parte do caminho. – Falou a jovem, buscando palavras, embora soubesse que aquilo seria praticamente impossível. Como iria descrever o que só ela conseguia enxergar? – Havia... uma confusão de Cosmos em um certo ponto da estrada. Um cheiro de morte e... coisas que não deveriam estar como estavam. Uma trilha de morte seguia até uma caverna que estava cheia de braseiros acesos e Esqueletos.

— Solos profanados por um sacerdote de um templo negro. – Comentou o Oráculo de Virgem, acompanhando a narrativa da jovem Amazona. Seu rosto estava sereno e inabalado. – Como estava a sacerdotisa?

— Quando cheguei, o sacerdote estava prestes a colocá-la sobre o altar, para sacrifica-la. – Respondeu ela, voltando sua atenção a quem fizera a pergunta, embora não entendesse o porquê de tê-la feito. – Estava assustada... provavelmente torturaram seu corpo e sua mente ao longo dos dias.

— No que está pensando, Oráculo? – Interrogou Crisômalo de Áries fitando-o com ar curioso, assim como os outros Cavaleiros presentes.

— Não posso dizer com certeza, mas acredito que a sacerdotisa deva ser interrogada para saber o quanto sua mente foi torturada ou mesmo se implementaram algo. Os Espectros são criaturas mortas revividas por Hades. – O Cavaleiro de Virgem explicou, mantendo seu olhar parado, sob a Amazona recém-sagrada. – Talvez ela não estivesse sendo sacrificada como esperamos…

— Está dizendo que ela já poderia estar morta quando Escorpião...? – Questionou Castor querendo entender aquilo, acompanhado pelo irmão, que também se mostrava intrigado.

— Qual era a reação da sacerdotisa quando foi resgatada? – Virgem quis saber, levando em conta a pergunta dos espartanos.

A escorpiana piscou por alguns instantes acompanhando aquele raciocínio singular. Não havia cogitado uma hipótese como aquela. Vira como a mulher estava, podia sentir o cheiro de medo impregnado em seu corpo.

— Ela estava assustada. – Respondeu Escorpião, tentando manter a voz firme ante a ansiedade. Nunca fora o centro das atenções por tanto tempo assim, exceto quando criança. – Esteve com um punhal em seu pescoço pouco antes de ser salva. Acredita que ela...?

— Que sua alma já tivesse sido corrompida pelas torturas sofrida. O que o sacerdote estava a fazer era matar seu corpo, não sua alma. – Respondeu o Oráculo se voltando para a jovem.

— Sendo assim, não resta outra alternativa senão terminar o que começou. – Athena completou o raciocínio dele, sem hesitação, conseguindo a atenção de todos para si. – Então o corpo da jovem deve ser selado para que não seja uma ferramenta de Hades.

Um leve burburinho se espalhou pela sala. Alguns Cavaleiros se inclinaram para os colegas ao lado, para tecer comentários a respeito, enquanto Antares mal sabia o que fazer. Teria que matar alguém que havia acabado de salvar? Tinha sentido naquilo, porém não conseguia deixar de se sentir um pouco confusa. Quantas vezes o seu mestre passara por algo daquele tipo? Ou aquilo seria resultado de uma falha sua?

— Talvez haja alguma outra forma de... – Pollux dizia, tão incrédulo quanto os demais, tomando a palavra.

— Não há. E muito menos temos tempo a perder. – A Deusa o interrompeu, voltando seus cristalinos olhos azuis para a Amazona de Ouro que ainda estava de pé. – Antares, Amazona de Ouro de Escorpião, você compreendeu bem a sua missão?

Todos se voltam para a Amazona de Ouro, inclusive Ganimedes que mantinha-se calado desde início daquela reunião, com a mão fechada na altura dos lábios. Não era incomum que ficasse assim na maioria dos encontros, uma vez que não gostava de repetir o que os outros falavam. E, naquele caso em especial, ele estava deixando que sua protegida falasse. Era preciso que a jovem aprendesse a lidar com aquelas situações, se pretendia seguir como uma Guardiã do Reino de Athena. Por um momento, não conseguiu evitar de se perguntar qual seria a sua resposta.

O silêncio era aterrador. Tudo dependia apenas da decisão da jovem.

Mas não havia o que ser decidido, e a garota sabia disso tão bem quanto eles.

A escorpiana respirou fundo diante daquelas conclusões e curvou-se respeitosamente diante da deidade. Sua voz soou fria e sem emoções, diferente do que havia mostrado há pouco.

— Apenas me dê a ordem, e eu partirei de imediato. – Foram as suas palavras.

O Cavaleiro de Aquário mal se moveu em sua cadeira, contudo não evitou o olhar de soslaio na direção de sua protegida. Por um momento foi como se tivesse escutado o antigo Cavaleiro de Escorpião pronunciar aquelas mesmas palavras. Mas Scorpio nunca lhe causaria preocupações ao dizer tais coisas. Ele era perfeitamente capaz de cumprir uma ordem desse porte sem se deixar afetar.

E o aquariano não tinha certeza de que Antares pudesse ter essa mesma frieza que estava apresentando. Achava-a muito humana para desempenhar o papel que lhe era exigido naquele instante.

Seus olhos verde-água se ergueram na direção de sua matrona divina com a mesma discrição. Estaria mesmo a Deusa tão disposta assim a sacrificar uma sacerdotisa da Acrópole por conta de uma corrupção não-confirmada?

A resposta para seus questionamentos veio na forma de pequenos pedaços de pergaminho (04) postos sobre o tampo da mesa. Em sua superfície, podia ler o nome de Athena, escrito com letras elegantes e em um tom vermelho escuro.

— Investigue a sacerdotisa Dóris e, se nossas suspeitas se confirmarem, faça o que tiver de fazer. Apenas garanta que seu corpo e alma sejam purificados. – Falou a deidade, sinalizando para que passassem aquelas peças até a Amazona de Escorpião.

A jovem engoliu a seco, vendo os selos se aproximando, de mão-em-mão. Quando Kheiron os passou em sua direção e ela os tocou, ficou levemente confusa. Tinham uma aparência delicada e de textura aveludada, agradável, porém conseguia sentir bem o cheiro do sangue que fora usado para fazer as inscrições, mesmo que já estivesse bem seco.

– Seja rápida. – A Deusa voltou-se para os demais Cavaleiros, surpresos em sua maioria, tanto pela nova ordem, como pela entrega daqueles objetos sagrados.– Se ninguém tiver nada a dizer...

— Ainda existe mais um, Athena. – Continuou Oráculo, e voltou-se para Íficles, que bufou de raiva ao perceber isso. – Mas este caberá ao Leão observar os passos do Cavaleiro de Bronze que está sob sua ordem.

— Adoraria fazer isso, senhora Athena, mas alguém exagerou no treino. – Comentou o leonino, olhando de modo acusador para a escorpiana.

Novamente o silêncio se fez entre os presentes. Uma provocação como aquela era esperada pelo combativo e mau-perdedor Íficles. Contudo, nenhum dos Cavaleiros naquele lugar imaginavam que ele resolveria fazer aquele tipo de cena diante de sua matrona. O Oráculo de Virgem e Cadmus de Peixes o encararam com reprovação. Aquele não era o momento para lançar farpas em alguém.

— Acredito que um Cavaleiro tão experiente quanto você soubesse dos riscos de realizar um treinamento contra um outro Cavaleiro de Ouro, não é mesmo? – Falou Athena, voltando sua atenção ao Cavaleiro de Leão, que estava debruçado sobre a mesa. – Ainda mais quando há técnicas perigosas envolvidas. Por sinal, creio que terei de tomar uma decisão quanto a isso, antes que meus guerreiros de elite terminem se matando em simulações de combate.

A pouca cor sumiu do rosto de Íficles, que terminou erguendo as costas rápido demais, fazendo com que os ferimentos queimassem em sua pele. Felizmente, seu embaraço fora maior, permitindo que essa dor fosse amortizada. Porém, receber tamanha chamada de atenção na frente de todos os seus companheiros de batalha, fizera com que, logo em seguida, as faces avermelhassem ao ponto de ficarem quase da mesma cor de seus cabelos vermelhos.

A expressão de seriedade deu lugar à surpresa e outras reações contidas, onde apenas Áries, Virgem e Capricórnio mantiveram a discrição e o controle. Sagitário e Peixes rolaram os olhos, uma vez que já previam uma resposta como aquela. Os Gêmeos arregalaram os olhos e baixaram a cabeça, com Pollux levando a mão frente aos lábios enquanto Castor mordiscava-os. Ganimedes não escondeu o sorriso de canto, contudo teve a prudência de ficar calado. Câncer e Touro olhava, para os lados, observando a reação dos demais.

— Se ainda não está em condições de fazê-lo pessoalmente, nomeie um Cavaleiro de Prata para isso. Mantenham Nyctimus de Lobo sob constante vigilância. – A divindade prosseguiu, voltando-se para a jovem Amazona, mortificada por aquela resposta que não lhe fora dirigida. – Reunião encerrada. Parta tão logo seja possível, Escorpião.

Mais uma vez, Antares reverenciou Athena, pedindo sua permissão e se retirou, diante dos olhos preocupados de Aquário, e do olhar raivoso de Leão.

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Dóris estava diante do espelho de bronze polido, fitando-o desde que havia chegado ali. Os olhos vazios e úmidos observavam os contornos da face pálida, como um transe do qual tentava despertar sem conseguir, porém algo a fez estremecer. Aquilo a fez abandonar aquela superfície refletora e começar a chorar, mais uma vez. As imagens, o som, os cânticos... tudo ainda ecoavam em sua mente mesmo quando pedia que parasse. Ao ouvir os sons na porta, gritou assustada.

— Não conseguiu dormir? – Perguntou uma companheira do Templo, trazendo um mingau morno.

Estava preocupada com ela, percebendo sua agitação desde que havia chegado com os Cavaleiros enviados pelo Santuário. Berenike fora rápida nas ordens de cuidado para com a jovem mulher, clamando que preparassem um banho morno com ervas para a acólita resgatada, roupas limpas e uma sopa leve, mas nutritiva.

— Ainda… assustada… sim… – Dóris respondeu e olhou a comida enojada. Como esquecer de tudo o que tinha visto enquanto cativa? – Não sinto fome. Sinto apenas… medo!

— Não deve ter sido nada fácil, sabemos. – Comentou a outra sacerdotisa, parando ao seu lado e afagando seus cabelos. – O que eles fizeram? Eles... Eles não te tocaram... certo?

Ela apenas meneou negativamente, se abraçando, pedindo que a outra a deixasse sozinha para que pudesse orar. Queria paz daquele tormento, mais do que qualquer coisa. De modo hesitante o seu pedido foi atendido.

Mas Dóris não sabia se aquilo foi a melhor coisa a se fazer, pois as vozes haviam retornado à sua cabeça.

Notas finais
01 –Embora já não seja mais algo tão comum nos dias de hoje, o ato de cuspir, pouco depois de falar o nome de alguém ou ao se referir a alguém é um ato de desprezo profundo. Na Idade Média, era uma das formas mais comuns de se “jogar uma maldição” em alguém, e provavelmente também o era na Antiguidade. 02 – Na Mitologia Grega de fato, o deus do sol era um Titã chamado Hélios, porém não era incomum uma divindade ter mais de um aspecto de domínio, inclusive partilhando-o com outros. A Apollo era atribuído diversos papéis tais como os de deus das artes, da beleza, da juventude e da caça. Também lhe era atribuído o sol, a morte súbita, pragas e doenças, a cura e a proteção contra o mal, bem como a profecia. Em algumas versões, Apollo simplesmente usurpou o título de deus do Sol. 03 – Acredito que nessa época o Rosário de Buda, criado para conter as almas dos Espectros e impedi-los de reviver, ainda não tinha sido criado. Oficialmente não é dado um ponto certo na História para isso, então estou assumindo que a peça não será criada tão cedo. 04 – Não havia papel no Ocidente, e folhas de papiro eram usadas na região do Egito. Na Grécia, o que era mais usado para registros escritos eram rolos de pergaminhos feitos com pele de animais (geralmente carneiros, ovelhas, cabras ou cordeiros), preparados para essa finalidade. . . . AVISO: Por motivos de força maior (também conhecido como trabalho) a fic entrará em um hiato de 30 dias. Não temam, eu não desisti, nem nada. Tenho capítulos adiantados, mas dificilmente terei como gerenciar comentários, em fazer revisão de modo decente nesse período. Entre os dias 30 de Agosto e 01 de Setembro (mesmo com o Sketchember moendo nas minhas costas), a gente tá de volta.